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quarta-feira, 3 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 1/8


“E quando ele tiver idade de ir para a guerra?”
Quando estamos longe, a nossa memória mais juvenil torna-se num potente motor de busca que recorda acontecimentos improváveis, meticulosamente extraídos de um pedaço descontextualizado de tempo, bem para além das profundezas da nossa consciência.
E sem entender qual tinha sido o gatilho das memórias que tinha disparado, L. deparou-se com um reflexo no vidro lateral do táxi noturno, um miúdo de calções curtos e joelhos esfolados que olhava atónito os pais, sem entender coisa nenhuma do que era a guerra e aquela palavra redonda, mas clandestina e envergonhada: emigração.
A noite já cobrira a cidade, uma qualquer metrópole sul-americana que bem poderia ser Bogotá, Lima, Santiago ou São Paulo, tantas tinham sido as partidas e as chegadas nestas novas geografias dos negócios, das oportunidades e do destino, que as referências esbatiam-se entre as diferentes pronúncias de uma língua comum e mestiçagens singulares.
Mas o táxi investia pelas anárquicas ruas da metrópole em hora de ponta procurando, na perpendicularidade das ruas secundárias, um impossível atalho para mais um aeroporto, e a criança que se chamava L., cinquenta anos atrás, esborratava-se nas gotas de uma chuva persistente que deformava a paisagem de fundo, os seres sem expressão que olhavam para os resquícios de vazio em autocarros lotados, os vendedores de cana-de-açúcar que exorcizavam a cana com rudes golpes de catana, carrinhos de mão carregados de tudo e de nada, e um trânsito interminável que tornava intermitentes as fileiras de prédios de cores escuras e encardidas, ou apenas tijolos empilhados, sem ordem nem prioridade, apenas iluminados por velas e santos que, esporadicamente preenchiam as janelas e cornijas.
Mas a imagem do menino, agora mais crescido, renascia das gotas de chuva e projetava-se no reflexo do vidro ou das poças imundas de água que enlameavam a face refletida, de calções mais compridos e joelhos menos esfolados e, na mesma inconsciência ideológica de adolescente incompleto, via os soldados regressar da guerra, e depois milhões não soldados de grandes malas e um olhar aterrorizado, ainda mais confuso porque os pais lhe haviam explicado que os emigrantes são aqueles que partem.
E estes partiam para onde?
 

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