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quinta-feira, 25 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 5/5


A onda das memórias, instáveis mas profundas, arrastaram Pedro para as penumbras daquela sala mágica, para aquele concerto, Fausto de seu nome, as luzes que focavam o artista, vermelhas e quentes, o coro de vozes que pairavam por este rio acima, uma comunhão de corpos sentados no chão, junto ao palco, com um odor a paixão e a erva, olhares bem acima, mentes transportadas para a epopeia dos Descobrimentos, em tom de folclore, redenção e exaltação daquilo que julgavam ser o espírito revolucionário em fase de apagamento, mas que não passava de um tolo orgulho nacional, numa época de formidáveis aventuras e acima de tudo a música era linda, inspiradora...
- És tu?
A campainha da porta tocou.
- Sim, conheço as Asas do Desejo de Wim Wenders – A inacessível Cristina, aparecia do outro lado da ombreira de telefone na mão direita, dois bilhetes de um qualquer comboio sem destino impresso, igual ao deslumbramento inicial, sedutora de tão distante, igual aos sonhos destruídos de um poeta inseguro.
- Um anjo não argumenta!
Três anos depois! Acaso ou destino? Pedro não sabia e Cristina não lho explicou.
- Hoje os céus de Berlim estão cheios de asas.
-?
- Sabes que dia é hoje?
- 9! É pressuposto lembrar-me de algo?
- A partir de hoje sim! O muro está a cair!
E sem que Pedro pudesse ou soubesse argumentar que não devemos provocar o destino, que a verdadeira liberdade é partir, que a conversa do Wenders era apenas retórica existencialista, e que sem muro deixava de haver inacessível, e tudo era …., Cristina, pousou os bilhetes sob os seus olhos e sussurrou-lhe ao ouvido:
 - Carruagem 21! Amanhã de manhã. Partirmos é sinónimo de chegar, como dois sinais menos que se anulam…
- Berlim não é uma cidade de amor e encontros
- A revolução é o laboratório de amores épicos…
-…e impossíveis!
- Não, se o mundo hoje mudar para sempre, estaremos definitivamente ligados como siameses à centralidade…passada e futura!
Incapaz de fugir, de evocar a timidez genética, a solidão criativa, a indecisão perante os maus momentos que inevitavelmente se seguem aos bons, Pedro limitou-se a suspirar:
- As asas do desejo!
(continua) se nós quisermos.