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domingo, 10 de maio de 2026

Unidade na Diversidade




Às oito da noite na De Kerk, o cartaz anunciava um concerto intimista, uma noite de música, encontros e "togetherness" (parece-me uma expressão muito holandesa, uma mente que se exprime sempre em duas línguas)
Eline, Lara e a Stela, elas e a frugalidade de um piano e de guitarra elétrica, elas e uma viola acústica, um folk em bruto e sem filtros do chão até ao teto (alto) da igreja, há muito tempo transformada em estúdio de artistas da cidade.
E na fria noite de Roterdão, os tetos altos e a musica cristalina não foram suficientes para subir a temperatura interior e o frio intenso tornava-nos cúmplices das canções de um sofrimento contido, isto baseado apenas nas introduções dos artistas, sempre atentos aqueles que não entendiam a língua dos holandeses.
A Stela não costumava escrever canções de amor, mas agora escrevo, porque tenho saudades de um amor que está distante, e ela canta o sentimento de uma solidão que ela não sabe se é um sentimento real ou apenas uma letra de música.
Sim, quando o cartaz anunciava que eram autoras de uma música "raw” referia-se certamente à sinceridade sem filtros de quem se sente encantada por ter uma audiência de talvez cinquenta pessoas em vez de cinco, por escrever uma canção para avó que amava apenas para garantir que não se esquece nem dela nem do que viveu com ela.
A Eline fala de viver num barco, da liberdade (e do medo) de se sentir nua (uma música pouca própria - palavras dela - para um local como a de kerk) ou então canta a despedida de alguém ou, mais do que isso, um olá a coisas novas.
A Lara canta um daqueles momentos em que temos medo de avançar para o que é inevitável, mas precisamos daquele empurrão de quem nos quer bem.
Sim, eles também lhe chamam música do dia a dia.
Mas estas duas horas de final de dia, foram o fim de uma viagem, um dia de ventos gélidos e chuvas dispersas, uma viagem às profundezas da criatividade e, muitas vezes, do bom gosto e o esporádico mau gosto é, sempre, uma cascata de disrupção.
E o destino levou-nos a Katendrecht, a península a sul da cidade, à galeria de honra dos fotógrafos holandeses, apenas noventa e nove fotografias, sempre à espera da centésima perola para acrescentar ao primeiro andar da gloria do edifício Santos.
Sim, Santos, não há engano.
E o destino leva-nos ao Fénix, o museu das migrações, uma assunção explicita aos desafios de uma Europa que apenas nos últimos oitenta anos deixou de ser um continente de emigrantes.
Com a paz e com a prosperidade.
O muito recente museu das migrações integra a rede dos diálogos com a história e em prol do presente, a outra face do mesmo mundo do MAS de Antuérpia, um elogio às epopeias dos mares como o Fénix representa um elogio à diversidade das nossas raízes.
Não há um futuro óbvio, mas a arte em Roterdão já integrou a nova palete de formas num conteúdo predominantemente inclusivo.
Faltam eventualmente os outros, os uns e os outros, para lá dos portões dos armazéns e das fábricas do passado industrial.
E a diversidade não parece ter, para já, condicionado a criatividade e o livre pensamento, mesmo para aqueles que nunca tiveram acesso aos circuitos da arte.
Na antiga fabrica de Codrico, entre caldeiras e ferro ferrugento, nos contentores do Rotterdam Photo em Deliplein, ou nas salas do Fenix, de um espaço que se abre em janelas para o rio, deixou de haver uma explicação obvia para a palavra raízes.
Como o novo significado da palavra displacement, ou o retorno às origens das gerações de emigrados, como a incredulidade do regresso a uma Tunísia que nunca tinha conhecido ou as memórias da autora japonesa, a autora que não se lembra das fotografias que lhe tiraram quando criança, o pai com quarenta e um anos, ela com onze anos e a boia  com um patinho na ponta, com uma idade estimada  de dois anos ou as cartas de amor do meu avô para a minha avó durante a segunda  guerra mundial, ou a rotina dos seres de Beirute à beira da próxima guerra,  ou o desconforto da transexualidade nas ruas do Peru ou as paisagens que sobreviveram à extinção da Yugoslavia, histórias das guerras ou da mesma familia dinamarquesa que foi familia de adoção de crianças holandesas após a segunda guerra mundial e de crianças  na Ucrânia, quase um século depois.
E, qual acaso de quem procura uma igreja transformada em estúdio de artistas no norte da cidade, para os lados de Nordplein, as abstrações artísticas tornam-se a vida das pessoas, enquanto os feirantes desmontavam as tendas da feira de sábado e os passeios eram tomados pelos cheiros e pelas vestes e pelas cabeças cobertas do medio oriente.
No fim de tarde chuvoso nas fronteiras da cidade, sob o pretexto de procurarmos uma igreja em hora de concerto, percebemos que a diversidade não é apenas uma forma de expressão artística, são rotinas de um imaginário distante, de repente aqui tão perto, de portas abertas para a mercearia do bairro, sempre com um otimismo esperançoso de futuras gerações de finais felizes.
Porque eu tenho um fraquinho pelos finais felizes ou, como cantava a Eline, um “ Hello to new things”



segunda-feira, 16 de maio de 2011

Acordar em Istambul sobre o Bósforo


Acordámos em Istambul, as coordenadas exactas do encontro entre o Oriente e o Ocidente.
Tocamos na cidade silenciosa pela manhã fria que acende a urbe sem pressas, e não se ouvia o ressonar de quinze milhões de almas que sabíamos povoar este labirinto humano, que nos espreitavam por detrás das colinas, manhã cedo, penumbra vagamente fantasmagórica…
15 milhões de almas é um numero que não se usa na Europa…
Com o desembarque, a impressão tornou-se tangível: nas fronteiras do bairro europeu, os pescadores já entupiam a ponte de Gálata de anzóis e peixe frito, os cacilheiros do Oriente despejavam milhares de seres apressados que atravessavam de continente sem pestanejar, não havia guardas fronteiriços, apenas bandeiras vermelhas, decalcadas de uma lua branca, quarto minguante para ser preciso.
Uma cidade que não tem, não teve tempo, (nunca) para se definir, senão pelas dezenas de minaretes que povoam todos os horizontes imaginários, uma mancha urbana que alastra sem fim, e se lança no Bósforo à procura de tranquilidade…que jamais encontra
A imagem de uma cidade com marca é a sofreguidão de uma permanente respiração ofegante, no bazar das especiarias, nos locais de culto, na cidade medieval, em torno dos hotéis de charme, nas largas avenidas da cidade nova onde subitamente todas as mulheres usam lenço na cabeça, mudámos de cidade (não) nem mesmo de continente.
Estamos na Europa, quatro quarteirões acima do centro da cidade, do Bósforo, do europeu bairro de Beyoglu onde as mulheres se descobrem e uma noite se adivinha trepidante e cosmopolita.
Mas hoje em Istambul não ouvimos a chamada para a oração do meio-dia.
Sentimos saudades! Será uma inevitabilidade da globalização, ou uma fatalidade atribuída aos esforços de aproximação entre as culturas?


domingo, 3 de janeiro de 2010

CA - Pura Vida no Caribe



Instalou-se o espírito reggae na Costa…
Stolen from Africa,
Fight to survive!
Cheira a erva, uma réplica de Bob Marley cheia de alucinogéneo, um indígena de peixe fresco pendurado no guiador de uma bicicleta, as tranças saltitantes servem de moldura a um riso tão branco como a esperança, afinal a bicicleta caminha sozinha pelas vielas esburacadas do Caribe…mudámos de clima, de cores, de país e afundámo-nos no último refúgio beat!
A gorda agita os suculentos seios, a bicicleta não pára de rodar, o puto circula na praia preta e o swing mudou de ritmo.
Descobrimos um cão voador (ou seria dançarino?) o reggae não deixa certezas.
Apenas o telemóvel nos desperta para a globalização, nas mãos das meninas da praia e do bar.
O areal da playa Negra, vagamente surf, liberta uma energia simbiótica, crioulo, escravo e o esquecido lado dos Ticos, relaxe total que contagia todos os maltrapilhos inquietos do mundo moderno, pés coçados de sujidade, areia escura e falta de duche. E talvez este bizarro “slow motion” nada tenha a ver com o intenso cheiro a erva que perfuma o ar e sobrevoa as tranças alucinogénicas dos verdadeiros descendentes do Índio americano!





Sim, porque também os cães saltam que nem perdizes loucas e felizes, existem inúmeras crianças no filme, as ondas esforçam-se como tudo para parecer sérias e mesmo os visitantes normalizados atacam a manhã tardia com Imperial, a verdadeira cerveja da Costa Rica.
Só encharcados de almoço e Margarita, as bicicletas se transformam em transporte colectivo, tipo bike rentals no jardim das palmeiras, low cost, bed & breakfast, roupas penduradas no estendal, putos largados no quintal, o mesmo gingle de sempre, seis dólares o dia, pagas quando pagas, agora ou depois, tu é que sabes amigo, que os pedais travam para trás, uma verdadeira carretera esburacada, back to Woodstock, Canoa Quebrada, altar a todos os sítios que insistem em existir, apesar de já terem passado de moda, pelo menos há trinta anos.
Longa Vida para vós irmãos – diz ele
Os mesmos rostos, reggae all the time!
Pulseiras a um dólar que invadem as entradas do Parque Nacional, a recepcionista só aceita donativos para conhecermos muitos animais, macacos, aves e serpentes…Muitas?! Não, apenas pouquinhas e bem alimentadas.




E a noite caiu, tão rápida como as cinco e meia, prolongado por um banho ao crepúsculo, as bicicletas que voam com destino a Magalhães, ibérico de certeza, e com a noite veio o dilúvio impiedoso, que molha que se farta, mas não arrefece o ânimo, a, sem ponta de alcatrão vontade e o cheiro a erva-doce, sem pecado nem remorso!
E aquela que julgávamos velha, mas não era de tão grávida que parecia, a cozinheira da Edith, que afinal era Louis, gritava para o staff… e os sabores mediterrânicos voltaram!
E nem o peixe do dia assustou, porque tubarão não há para cá do Coral…

A praia é de areia preta, não há hotéis sequer, suspeita-se que a barracuda atravessa para cá do Coral, mas a lagosta era soberba e o lado levemente (?!) decrépito das vielas esburacadas e as noites psicadélicas dos sósias das estrelas do rock angustiado…são irresistíveis


CAHUITA, Costa Rica 2007

sábado, 21 de novembro de 2009

Um Outono em Nova Iorque - Glamour na cidade






Atravessar Queens ao anoitecer num táxi amarelo de preço fixo, não sendo uma experiência aterradora, lembra-nos, com um cerrado sotaque porto-riquenho do taxista pendurado ao telemóvel (sabe-se lá com quem), que abraçámos o último e derradeiro grito da Babilónia terrestre, um trânsito que invade os bairros residenciais de casas pré-fabricadas, todas plantadas em minúsculos jardins, sem sombras de vivalma sob os candeeiros, triunfalmente perfilados às portas altivas, reflexos de imponência que não sobrevive às ombreiras, e este mar de faróis de camiões que trovejam ruídos angustiados, indiferentes ao deserto das bermas e dos passeios (quantas horas mais já passaram nesta invisível fronteira?), das ruas que se atrevem a desembocar nas auto-estradas que só tem um rumo, um destino desejado: Manhattan!
E, tão repentinamente como o cinema nos liberta sem dor de um subúrbio triste e submerso na melancolia de um manto de escuridão, que se advinha (será pressentimento?), emerge na colina rolante de asfalto, uma enorme planície de escuro e, ao longe e tão perto, os picos de luz da ilha mágica (porque será que na ilha se caminha para o centro?), as pontes e o túnel e finalmente sem surpresas (porque lhe conhecemos os sons, os neons e os cheiros....e os fumos que nascem do chão, mesmo sem garantias de termos vivido o sonho americano) penetramos no âmago de língua que já suspeitávamos ser a versão laica (pagã e prosaica) da Arca de Noé, sem vergonha da apregoada falta de pedrigree e tradição, laivos de alguma juventude inquieta, o elogio permanente ao absoluto exagero, uma miscelânea apoteótica de enclaves étnicos, que serão a garantia da futura existência de História na Metrópole.
Também quem cá chega não procura a História, naquele sentido tão estrito, como as pedras com centenas de anos de idade, não se defrauda perante o aço, o vidro, o ferro fundido (e a madeira dos subúrbios, é preciso não esquecer!) e jamais perde a tentação de espreitar pelas janelas do táxi, pescoço torcido à procura do topo dos edifícios, experiências repetidas no meio da rua, pescoço que se estica como se as torres fossem esbeltas mulheres de.....75 metros para cima! E sem pudor juvenil, as olhamos de admiração no primeiro dia, no último dia, muitos anos depois, sempre!
Ela pasma-nos, deixa-nos pavonear nas suas ruas, onde tudo parece pequeno e fácil (estamos sempre nas mesmas ruas, nos mesmos números) mas é imenso e universal, não nos deixando dar nas vistas, porque devora qualquer pretensa celebridade, engole todas as peneiras na selva de gente, luz e no puro gozo dos sentidos!




Os cânticos de uma raça

No Domingo de manhã, na Abyssinian Baptist Church, uma comunidade procura reencontrar-se aos braços de um coro em Godspell, protegidos por um ritual bem treinado que lhes reforça as crenças, um reverendo que aprendeu a comunicar para dentro e para os ilustres visitantes, com uma mística regeneração de fervorosos combates pelos direitos cívicos e uma piedosa crença num Deus que proclama a imaterialidade incolor.
Um Harlém de Domingo de manhã revela-nos uma tolerância, uma organização que não vislumbramos nos neóns das películas revisitadas por décadas de guetto, mas mantém a altivez coloquial que não deixa dúvidas de que somos ilustres visitas, apenas!
Os velhos decanos dominam a plateia numa pose sublime e aquela cerimónia, sobrevive para além das vozes fantásticas, e coloca-se num contraponto à desordem das ruas que, mesmo ao Domingo de manhã, se imagina nos dez quarteirões abaixo, que exige cedências, alguns equívocos no discurso do reverendo, na exaltação que entorna por vezes contundentes criticas à justiça dos homens, apelos ao renascimento pacífico das comunidades protegidas, em troca da fé!
Mas não deixa de ser uma emoção especial enfrentar os fantasmas que povoam este bairro, sentir pequenos arrepios com a fama tão cultivada e que sinceramente não entendemos se a larga Lenox Avenue apenas torna difusa ou engrandece na sua largura, no seu epíteto, conjugação de sinfonias de seres que não nos ligam mas que na sua presença, em nosso redor, nos afirmam nos olhares que não nos cruzam, para além da indiferença, que somos toleradas visitas, apenas!




Outono 2002