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domingo, 10 de maio de 2026

Unidade na Diversidade




Às oito da noite na De Kerk, o cartaz anunciava um concerto intimista, uma noite de música, encontros e "togetherness" (parece-me uma expressão muito holandesa, uma mente que se exprime sempre em duas línguas)
Eline, Lara e a Stela, elas e a frugalidade de um piano e de guitarra elétrica, elas e uma viola acústica, um folk em bruto e sem filtros do chão até ao teto (alto) da igreja, há muito tempo transformada em estúdio de artistas da cidade.
E na fria noite de Roterdão, os tetos altos e a musica cristalina não foram suficientes para subir a temperatura interior e o frio intenso tornava-nos cúmplices das canções de um sofrimento contido, isto baseado apenas nas introduções dos artistas, sempre atentos aqueles que não entendiam a língua dos holandeses.
A Stela não costumava escrever canções de amor, mas agora escrevo, porque tenho saudades de um amor que está distante, e ela canta o sentimento de uma solidão que ela não sabe se é um sentimento real ou apenas uma letra de música.
Sim, quando o cartaz anunciava que eram autoras de uma música "raw” referia-se certamente à sinceridade sem filtros de quem se sente encantada por ter uma audiência de talvez cinquenta pessoas em vez de cinco, por escrever uma canção para avó que amava apenas para garantir que não se esquece nem dela nem do que viveu com ela.
A Eline fala de viver num barco, da liberdade (e do medo) de se sentir nua (uma música pouca própria - palavras dela - para um local como a de kerk) ou então canta a despedida de alguém ou, mais do que isso, um olá a coisas novas.
A Lara canta um daqueles momentos em que temos medo de avançar para o que é inevitável, mas precisamos daquele empurrão de quem nos quer bem.
Sim, eles também lhe chamam música do dia a dia.
Mas estas duas horas de final de dia, foram o fim de uma viagem, um dia de ventos gélidos e chuvas dispersas, uma viagem às profundezas da criatividade e, muitas vezes, do bom gosto e o esporádico mau gosto é, sempre, uma cascata de disrupção.
E o destino levou-nos a Katendrecht, a península a sul da cidade, à galeria de honra dos fotógrafos holandeses, apenas noventa e nove fotografias, sempre à espera da centésima perola para acrescentar ao primeiro andar da gloria do edifício Santos.
Sim, Santos, não há engano.
E o destino leva-nos ao Fénix, o museu das migrações, uma assunção explicita aos desafios de uma Europa que apenas nos últimos oitenta anos deixou de ser um continente de emigrantes.
Com a paz e com a prosperidade.
O muito recente museu das migrações integra a rede dos diálogos com a história e em prol do presente, a outra face do mesmo mundo do MAS de Antuérpia, um elogio às epopeias dos mares como o Fénix representa um elogio à diversidade das nossas raízes.
Não há um futuro óbvio, mas a arte em Roterdão já integrou a nova palete de formas num conteúdo predominantemente inclusivo.
Faltam eventualmente os outros, os uns e os outros, para lá dos portões dos armazéns e das fábricas do passado industrial.
E a diversidade não parece ter, para já, condicionado a criatividade e o livre pensamento, mesmo para aqueles que nunca tiveram acesso aos circuitos da arte.
Na antiga fabrica de Codrico, entre caldeiras e ferro ferrugento, nos contentores do Rotterdam Photo em Deliplein, ou nas salas do Fenix, de um espaço que se abre em janelas para o rio, deixou de haver uma explicação obvia para a palavra raízes.
Como o novo significado da palavra displacement, ou o retorno às origens das gerações de emigrados, como a incredulidade do regresso a uma Tunísia que nunca tinha conhecido ou as memórias da autora japonesa, a autora que não se lembra das fotografias que lhe tiraram quando criança, o pai com quarenta e um anos, ela com onze anos e a boia  com um patinho na ponta, com uma idade estimada  de dois anos ou as cartas de amor do meu avô para a minha avó durante a segunda  guerra mundial, ou a rotina dos seres de Beirute à beira da próxima guerra,  ou o desconforto da transexualidade nas ruas do Peru ou as paisagens que sobreviveram à extinção da Yugoslavia, histórias das guerras ou da mesma familia dinamarquesa que foi familia de adoção de crianças holandesas após a segunda guerra mundial e de crianças  na Ucrânia, quase um século depois.
E, qual acaso de quem procura uma igreja transformada em estúdio de artistas no norte da cidade, para os lados de Nordplein, as abstrações artísticas tornam-se a vida das pessoas, enquanto os feirantes desmontavam as tendas da feira de sábado e os passeios eram tomados pelos cheiros e pelas vestes e pelas cabeças cobertas do medio oriente.
No fim de tarde chuvoso nas fronteiras da cidade, sob o pretexto de procurarmos uma igreja em hora de concerto, percebemos que a diversidade não é apenas uma forma de expressão artística, são rotinas de um imaginário distante, de repente aqui tão perto, de portas abertas para a mercearia do bairro, sempre com um otimismo esperançoso de futuras gerações de finais felizes.
Porque eu tenho um fraquinho pelos finais felizes ou, como cantava a Eline, um “ Hello to new things”



domingo, 26 de abril de 2026

A lenda de Remo e Rómulo – uma história de fundação

 

Na sala de projeções, a protagonista é a estátua da loba que alimentou os gémeos humanos e que, por isso, fratricídios à parte, explica a fundação de Roma, para a generalidade dos entendidos, o berço da civilização ocidental, tal como a concebemos hoje.
Bom, antes ainda existiram os gregos, mas esses não eram exatamente uma nação, nem um império.
A loba de metal escuro era também a narradora da sua própria existência, porque uma estatua residente do alto da praça principal, ela a original, as outras espalhadas pelas capitais da europa, como lembranças dos descendentes da fundação, vivem no filme a vida dos que as cercam e uma delas confessava que tinha assistido a duas guerras e a uma ditadura.
Ou teria sido a criança loura que fugiu aos pais no museu e que descobriu a original loba a amamentar as crianças, que libertou a lenda e espalhou a boa nova da fundação do nosso mundo. por todo o continente?
Na sala de projeções da feira de arte de Roterdão, as projeções eram muitas e não ficamos para o fim da história porque havia um pavilhão de catorze mil metros quadrados de imagens para processar.
Hoje a europa inteira e uma parte do mundo que alinha com os princípios da fundação, que amamenta os novos filhos da liberdade criativa, juntou-se a nós no Ahoy para a feira de arte de Roterdão e para o unseen photo festival.
No subúrbio muito étnico da cidade, vive o ahoy, longe e pouco acessível a partir do metro, como se quisesse afirmar a independência do lugar, porque afinal uma feira e um centro de exposições tem de ser um lugar do mundo e não um repositório de etnias distantes.
A art rotterdam é, primeiro que tudo, uma feira de arte, um lugar de marchands e artistas, portanto um lugar exclusivo para quem quer comprar e vender, mas apesar do capital não ser, por definição, democrático, na sociedade do capital pode-se ser apenas remediado e ter acesso universal à cultura e aos criadores.
E, para quem ainda não percebeu, este bem a ficar escasso, é tão valioso que preferia nunca ter de me recordar dele.
E a Europa está viva e vive da diversidade, nos apelidos dos artistas, nas cores das telas e na estética da criação.
E na feira de arte de Roterdão mostram-se os consagrados e os miúdos que saem das escolas de arte,
Os consagrados, porventura vassalos dos colecionadores e do capital, centram-se na forma, formas que ficam bem nas paredes de grande formato, margens de contornos definidos, porque quem paga gosta de arte descodificada que possa partilhar com os amigos.
E, enquanto os consagrados se centram na forma, os miúdos expressam-se sem qualquer respeito pela forma nem pelos contornos definidos. Nem pela descodificação da arte, nem pelas paredes dos amigos.
Privilegiam as instalações não conformes, os vídeos e expressões de arte conceptual e os prospects ( como por aqui são conhecidos os juniores) dão tudo pela força da mensagem, têm receio do fim do mundo e abraçam as causas dos avós, da diversidade ao primado da experimentação.
E a arte dos miúdos partilha uma europa de influências exteriores, como as memórias do artista pop judeu iraniano emigrado na América que regressa a Tasckent para uma festa de aniversario, num vídeo de de cores frias e luzes cruas, ou sofrimento com a demência dos avós em fotografias de grande formato - estes jovens artistas vestem-se como os avós, há nas suas roupas um revivalismo da contestação e das grandes causas que não revêm nos pais -
A saída, na fila do bengaleiro, a fauna de seguidores dos prospects comentava a instalação de balões sensoriais a quem os visitantes se podiam abraçar vestidos numa versão artística de um aparelho de vigilância cardíaca, e dizia um deles, demasiado curto nas suas vestes de Pierrot, que as sensações não eram a cena dele, como nerd e artista em período de formação da sua estética e personalidade próprias.
E, no fim, perdeu o ticket para levantar o casaco no bengaleiro e também a compostura.



Meia hora mais tarde, na zona oeste  encontramo-nos com as memorias recentes do grande porto da cidade, os armazéns já foram abandonados pela azafama dos grandes barcos e dos contentores de mercadorias mas ainda não foram adotados pela urbe e, nesse limbo emocional, o armazém 9f de Delisplein, nos confortes da cidade, em despique entre os armazéns abandonados por um porto cujos guindastes se veem ao longe, cada vez mais perto da foz e do mar, alberga mais uma feira na semana de todas as feiras, e a Haute Photogarafie emerge em luzes quentes, grandes formatos e no único leilão silencioso de fotografias a preto e branco alguma vez presenciado, todas deixam as suas ofertas escritas numa lista de papel ao lado de cada foto e, hopefully, aumenta o numero de linhas e o valor a adjudicar pela obra.
O holandês da porta congratulou-se com a nossa pulseira rosa e assegurou-nos que esta é a melhor exposição de toda a semana de arte mas nem por isso o leilão silencioso despertou da letargia.
E apesar de não ter conseguido ultrapassar o preconceito de que a fotografia não deve ser comprada, havia um brilho especial naquela sala forrada de mundos reais e na fotografia de autor as novidades vêm do leste da europa, mais uma tendência estética da diversidade criativa da europa, e que prova que eles já tinham uma vida própria antes de serem o pasto da guerra e da barbárie 
Ca fora, os ventos do estuário continuam gélidos e transportam os odores da terra de ninguém por entre a amálgama de barracões inúteis e as novas instalações de arte pós industrial, uma nova antecâmera dos novos criadores, provavelmente um novo futuro da urbe.
O uber man palitava ininterruptamente os dentes, indiferente às metamorfoses prometidas, apesar do mercedes preto.
E nós terminamos o dia a ver a noite cair na cidade, pela janela do Melly na companhia de Marilyn Nance e Donna Kukama, a comer gelados de citrinos no restaurante Oliva, e a agradecer os sorrisos e a hospitalidade dos anfitriões desta cidade que se consideram filhos de um deus menor e por isso não escondem o entusiasmo de nos terem como visitas.
Sempre num inglês irrepreensível 
Obrigado, cidadão de Roterdão desde que nasceste,  por teres interrompido o teu jantar ainda a tempo de nos desejares um bom apetite, um spargetti al dente e um tinto de veludo.
É extraordinária a humildade da excelência.
É sempre assim




terça-feira, 21 de abril de 2026

Opa – O restaurante dos avós

 


Aterrámos com um sol tão envergonhado que gelava só de pensar na noite que havia de chegar.
Roterdão vive a semana da conexão ou a forma como a arte nos vai fazer experimentar ( e jamais explicar) o que significa estar ligado, num mundo pautado pelo movimento, tensão e pela fragmentação 
E nas primeiras horas de um país plano e sem interrupções, havia símbolos de conexão espelhados nos sorrisos e na jovialidade dos holandeses, um temperamento descontraído de quem sabe que a generalidade das coisas funciona, e a ausência de ansiedade facilita o empreendedorismo, a circulação entre lugares e a alegria de viver.
A cave explica o odor underground do espaço, podes entrar e podes comprar desde que sejam os meus quadros, assim me incentivava a primeira debutante desta vernissage coletiva de seres coloridos, habitantes de um antigo arquivo, agora desordenado por esta galeria nómada de artistas que partilhavam os seus conceitos de ligação, algumas visões tão experimentais que não se explicavam por si mesmos.
Algumas elas subiam as escadas apressadas para o ginásio dos pisos superiores, enquanto alguns outros mecenas subiam a escada da cave com esporádicas obras dos artistas coloridos e extravagantes que vendiam as suas criações, todas a menos de quinhentos euros e de formato não maior que 30 × 40
A loura de meia idade do SUV preto entrou e saiu enquanto eu esperava pelo tesla que me haveria de levar para onde guerra haveria de invadir o parque dos museus, perguntou se podia estacionar em cima do passeio, ah afinal não és de cá, será que se notava assim tanto e a loura sorriu, ainda estás à espera do tesla, sim mas já vem e eu juro que ela quase nos deu boleia para fora dali, enquanto a chuva caia sob a forma de uma neve liquida, de certeza que já vem perguntava a loura, e ria, nada destoava nela da loucura criativa da cave undergound e da extravagância artística daqueles seres que pareciam saídos de uma festa de finalistas da escola de arte numa década longínqua.
E a loura foi se embora sem arte nas mãos no seu suv preto e acenou nos com alguma nostalgia minha, reconheço, especialmente depois de perceber que o libanês do tesla, subia a rua de marcha atras para não ter de contornar o quarteirão gelado e periférico.
Mas na noite gelada de Roterdão toda a gente interage e sorri seja em holandês, seja em tradução simultânea, a conexão é tão importante para eles que não há barreiras de linguagem.
Bem, o libanês do tesla sorria, mas nós não entendemos grande coisa para além da satisfação dele por ser um perito em atalhos.
E despejou nos no meio de uma guerra armazenada em contentores e torres de vigia que transformaram a noite no parque dos museus numa alegoria provocatória à melhor forma de aprender a amar as bombas, com imagens explícitas a partir de contentores ferrugentos e sirenes que se acionavam com o impacto das explosões e o zumbido das balas.


Mais do que visual, uma experiência muito sensorial.
Mas os holandeses não paravam de sorrir, mesmo debaixo da ameaça de mais uma chuva de neve liquida ou uma qualquer bomba perdida de uma qualquer guerra alheia.
Opa significa avô em holandês e Opa é restaurante dos avós de todos os que se ligaram a este local, e há uma parede cheia de lembranças que ajudam a aperfeiçoar os sabores do jantar, e aquele ali no meio é o meu pai, explicou o louro e esguio holandês que parecia mesmo preocupado com a nossa opinião e bem-estar e agradeceu muito a nossa conta arredondada, afinal de contas povos felizes não cobram serviço.
E os avós todos, sorriram da parede abaixo!



domingo, 22 de junho de 2025

Ter vinte anos pode ser um mar de oportunidades

 


No primeiro andar, as histórias revelam-se em grandes formatos, num percurso circular, ao longo dos corredores do Chiostri di San Pietro, 
Como convém para quem reclama um dever de ter ideias muito intensas, de ter o direito de protestar por um futuro melhor e duvidar do poder dos mais velhos, que parecem não conseguir resolver os desafios do pós-progresso
Como ter mais (o suficiente) com menos é a pergunta com que a nova geração confronta o eco dos claustros e a imensidão dos grandes espaços.
Mas quando se tem vinte anos, ninguém espera que tenham respostas, porque respostas significam o poder que eles não têm.
O que impede quem está no poder, de fazer o que é necessário para resolver as questões em torno da crise climática?
A primeira história e, em todos os roteiros, devemos começar pelo princípio, conta-se em formatos pequenos que, de repente ficam do tamanho das salas vazias, tal como em “slowly and then all at once” procuram colocar em equilíbrio precário a irreverência e o status, quem procura organizar o mundo em redor de recursos que já não existem, no pressuposto de que os recursos não se esgotam, que o planeta tem uma capacidade infinita de se regenerar … E de quem grita ter a certeza que os outros não vão conseguir.
Mas no Chiostri di San Pietro, nem todos os atos têm as mesmas consequências porque todos querem, mas só alguns podem e, no escuro, choramos as desigualdades do mundo que nos criou e que criou os que protestam.
Mas, como sempre, a realidade revela-se mais complexa do que os exercícios de simplificação artística e as diferenças de oportunidade entre os que podem e os que ousam, os que regressam, no fim do dia, ao conforto do progresso e os outros que não têm outra alternativa que não seja aceitar a ausência do progresso que os tiranos lhes impõem.
Há, em todos os casos, um conflito geracional evidente, mas também no poder do protesto, o mundo é demasiado desigual
Há jovens que têm pouco e arriscam tudo por um sonho e outros que não arriscam quase nada porque nasceram na zona certa do mundo, apesar do desprezo que se tornou moda demonstrar pelas inseguranças da democracia humanista. 


Mas em “You don’t die”, Masha Amini morreu mesmo só porque o seu cabelo estava demasiado visível e as suas calças não eram adequadas, e milhares de jovens morreram com ela só porque ousaram desafiar os velhos e rejeitar as seguranças do dogma do terror e, na sala escura, não é preciso adivinhar para onde nos levam as imagens de cores intensas, porque o vermelho sangue não permite equívocos, estes jovens não vão poder regressar a casa e esconderem-se da sua vontade de mudança.
Como em “how is your dream?”, que nos mostra as imagens da repressão do movimento de protesto “umbrela movement” em Hong-Kong, em 2019, quando os jovens apenas pediam aos velhos que cumprissem a promessa que levava gerações, de um país, dois sistemas, como se as utopias pudessem esconder-se do destino debaixo de um chapéu de chuva.
E há também histórias de jovens que parecem armadilhados entre um passado determinado por um coletivismo utópico e um futuro com demasiadas escolhas como em “mal de mer” onde o autor desenvolve o tema das adolescências a preto e branco, rostos perplexos em cenários desfocados e paisagens suburbanas e um local escolhido que não podia deixar de ser a Lituânia.
E por detrás destas imagens há histórias, certamente que envolvem perplexidade e desencanto pelas formas que o mundo deles pode tomar, sem aviso prévio.
Em “control refresh” pressente-se o inóspito em cada imagem, como podem os jovens coexistir com a imensidão isolada das estepes russas e o mundo vibrante que espreita dos pequenos ecrãs luminosos que partilham entre as ruínas das cidades-fantasmas do isolamento boreal?
Como se estivessem a viver no purgatório e ainda não tivessem a certeza que futuro lhes é reservado
(entre o ocidente e o oriente, entre as democracias da qual a nossa individualidade parece agora desconfiar e as autocracias que destroem a nossa individualidade, entre a paz e a guerra).
E, depois, em cada nova sala, em cada curva de um novo corredor, há novas interpretações da mesma juventude inquieta, há ainda tanto tempo e espaço para a alienação como forma de expressar o direito à diferença, sem que haja um projeto de futuro nem a certeza se há ou não retorno a casa e ao mundo.
Nesta sexta-feira à tarde no Chiostri di San Pietro revejo-me, quarenta anos depois, na inquietante contradição entre o caos e a ordem, entre “raves and riots” ou “i fuck Tokyo” e “we are carver”, apenas diferentes alas do solitário corredor que nos transporta ao longo dos nossos vinte anos, até que atingimos uma espécie de paz de espírito quando deixamos de sonhar, aos trinta.
E há sempre a possibilidade de não se querer futuro nenhum e viver apenas um presente.
Em “raves and riots” retornamos às origens da geração z, quando a juventude europeia ocidental não conhecia as angústias do declínio civilizacional que parece ter arrastado a confiança europeia, após a primeira crise financeira do novo século.
(a crise de confiança no modelo de estado tão social que permitia às pessoas despojarem-se de quaisquer preocupações com o seu futuro porque o estado social o faria)
Por isso, estas imagens de caos devolvem-nos uma inesperada sensação de conforto, numa década em que a nossa perceção humanista do mundo, concedia à juventude o direito a uma longa série de pausas para conhecer o mundo, entre uma ideia não negociável de total liberdade de movimentos, extinção das fronteiras muito heavy metal e algum abuso de substâncias.
Para a maior parte deles, a inconsciência dos vinte, revelou-se um mar de oportunidades.
Na escuridão dos corredores do Chiostri di San Pietro dei por mim a rezar (sem um ritual preciso, é verdade) pelas inseguranças da democracia humanista e pela segurança dos putos que podem vir a mudar o mundo, se os deixarmos viver.



segunda-feira, 2 de junho de 2025

Ter vinte anos não é uma escolha

 



Ter vinte anos é o tema do festival fotografia europea e não é sempre um festival de imagens felizes.
Ter vinte anos não permitirá a ninguém afirmar que esta é a idade mais bela da vida. 
Há uma sensação de medidas que não enquadram em padrões de serenidade e alegria em muitas das histórias que desfilam em frente dos nossos olhos. 
E, no roteiro pelo palácio de mosto, ficamos entregues ao silêncio do público ausente e das personagens que saem dos ecrãs, das telas e das páginas dos livros, sem um som sequer, porque a fotografia é um filme mudo em que os sons se imaginam a partir das combinações de cores e pela intensidade dos contrastes. 
Nas salas do palácio mosto, ainda bem que há solidão na sala e solenidade em cada imagem partilhada, em cada história que se constrói a partir de uma ideia ou de experiências vividas. 
Porque ter vinte anos tem de ser uma experiência intensa, intangível como o título da primeira história, que mostra jovens cuidadores que dedicam parte do seu tempo a tomar conta dos familiares mais velhos, contraditória como a revolta que emana da primavera silenciosa, uma história de confrontação em nome do ativismo militante pelo clima, mesmo que a sua raiva seja  demasiado zangada. 
Em adolescência florescente, escolheram-se só livros que exploram a adolescência como o momento de transformação, física, emocional e social, em que os fotógrafos capturam a rebelião, a fragilidade a descoberta e a pertença em culturas e contextos tão diversos. 
Sempre num silêncio que exprime o presente e o futuro, sem que se possa escolher qual é a forma de adolescência mais inquieta 
E se a vida tivesse sido diferente? Pergunta um dos autores
Não é uma dúvida para quem tem 20 anos, diríamos nós, mas Matylda em Octopus Day pergunta-se já, então e se eu tivesse feito escolhas diferentes, tivesse vivido num local diferente ou mesmo que fosse de um género diferente e, em quarenta e oito horas apenas, a artista pede emprestada a vida  e  a identidade dos outros, vestindo a sua pela e vivendo as suas personalidades 
Independentemente de sermos capazes de  reconhecer nas imagens, que a experiência distorce a perspetiva como nós nos vemos no papel dos outros, reconhecemos nas imagens de Maryna que foi aos vinte que nós devemos ter feito quase todas as escolhas que definiram o que fomos décadas depois.
E se nós tivéssemos feito escolhas diferentes?
Ter vinte anos não é uma escolha!




quinta-feira, 29 de maio de 2025

Unire under 35

 


As memórias são o espelho de uma alma velha, de quem viveu a circularidade completa e de quem se refugia no longínquo passado por não suportar mais o peso do presente ou, simplesmente, já por ausência. 
Mas não, as novas tendências estéticas e de narrativa da nova arte são remotas e profundas, remetem nos para as tradições da aldeia, e as práticas de manufatura comunitária, para os rituais de passagem, laços de sangue e memórias de família ausente, um pai morto, fragmentado pelo terror das memórias policiais ou de um pai ausente que um filho pretende reconstruir o que poderiam ter sido as suas memórias, encenando o que teriam sido os passos do pai, os seus locais e as suas rotinas, na pele dele e nas suas fardas até conseguir abraça lo de novo num final redentor e feliz.
A coerência estética e  narrativa dos jovens under 35 é imaculada e o resultado é tão fluido e compreensível que apenas possível com um complexo pensamento abstrato.
Mas não deixa de ser perturbador que estes jovens sejam demasiado novos para ter tantas memórias.




Avere Vent’Anni

 




Hoje a trenitalia está em greve e a mobilidade está inquieta.
Não há previsões, ninguém está para explicar, nós seguimos os passos dos autóctones, do binário quatro, para o binário um e finalmente o oito, somos um rebanho de seres obedientes que, hoje, se conformam porque sem mobilidade, esmorece a nossa irreverência e a vontade de partilhar posts de gente feliz. 
Os rostos estão fechados, é possível que todos saibam que a democracia dá trabalho mas na estação central de Bologna não prolifera o espírito militante, antes uma atmosfera  de conformismo suicida que antecede as grandes depressões. 
No binário um, enquanto todos olham para o quadro eletrónico que vomita cancelados, a todos os minutos, como se os comboios, de repente, se desvanecessem, entrassem na plataforma 7b e fossem transportados para outra dimensão 
Enquanto, do alto da sua locomotiva elétrica, orgulhosamente debruçado sobre a janela que vigia a multidão no binário, o maquinista fuma o cigarro da contestação social, e certamente que o número um é importante, uma huelga segundo o único ser humano que, fechado numa barraquinha que devia ser de informações mas não era, que sabia pouco do que se passava fora do seu cubículo e também tinha uma versão muito lata da ibéria. O costume. 
Hoje, na era da automação total, sem bilheteiras nem revisores, com os únicos humanos que restam em huelga, não há comboios e a automação não resolve os imprevistos. 
Com alguma (pouca) vontade dos autóctones - eles até são ruidosos e felizes entre eles o pior mesmo é com os outros, seja no trabalho seja no lazer - mantivemo-nos à tona dos carris, à espera de um milagre, que até aconteceu, muito lento e atrasado
Quando não há imprevistos a eletrônica até funciona. 
Nos outros dias ficamos com saudade do estado social. 
Mas automação significa isenção de contestação e quando a maquinaria avaria e as bilheteiras precisam de ser ressuscitadas, o estado social desperta nervoso. 
Entre Bolonha e Reggio Emilia, enquanto o fura greves leva o rebanho à província, sem forças sequer de se revoltar - afinal de contas os trabalhadores são eles – lembro-me que a Itália não  mudou assim tanto desde os meus 20 anos, altura em que descobria os comboios de Itália, é verdade que com menos diversidade e menos interatividade do que hoje, ,mas a mesma balbúrdia Latina sem governo. 
Porque hoje em Reggio Emilia mora o festival fotografia europea, e o tema este ano é ter vinte anos, ora pois. 
E o regresso ao passado começou logo na realidade.




terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Flashback #2 - La ville s'agite

 


KIDZ é um trabalho coletivo que concede carta branca a cinquenta jovens artistas de todo o mundo, sem tema, forma ou enquadramento trata-se, afinal de contas, de uma ordem para criar.
( E, no mesmo espírito e uma décadas mais cedo, os velhos abriam a loja de livros de banda desenhada e questionavam-se se a banda desenhada não seria a forma mais precoce de arte contemporânea)
Na muito improvável Rua dos Francos Burgueses, no Marais que se entregou há muito às multidões amantes do consumo, e que empurrou os mais boémios para os subúrbios, entregaram aos miúdos um palacete resplandecente por fora e totalmente desventrado por dentro, o ambiente ideal para promover a destruição criativa, e eles redecoraram-no contra a tradição do bairro mas como era de borla, os sacos de papel de marcas de várias cores, cuidadosamente bordadas em tons dourados, acotovelavam-se debaixo de botas, calças e outros vestuários que homenageavam o arco-íris, pendurados em cordas de roupa , sim porque a cor parece ser a maior afirmação da juventude rebelde, pouco condescendente para com as formas ou, pelo menos, indiferentes.
Mas, e justiça lhe seja feita, Paris é uma cidade em agitação constante que se empolga com a revolução, com a contradição, com a polémica e, mais do que mais, com o protesto, contra as limitações da sua liberdade de escolha quando lhe impõem, a ela, gerente de uma ourivesaria na Place des Vosges, a obrigação de usar máscara, só porque é inverno e ninguém tem a certeza se o COVID já se tornou endemia ou contra a fome em África, o aumento do preço dos combustíveis, o aumento do custo vida, ou apenas a favor de poder protestar, sem ter de apresentar um motivo.
Na Praça da República, num fim de tarde antes de ser noite no Marais, mas depois de o Sol se pôr sobre o Canal de St. Martin, onde batelões que se empenhavam, tal amantes do Titanic, em abraçar as margens do estreito canal, e onde as margens recolhiam alguns dos boémios expulsos do centro, os criadores alternativos às tendências, a arte de rua com preocupações humanitárias, não só a liberdade para a Ucrânia, mas as 619 pessoas que desapareceram durante o governo fascista da atual primeira-ministra do Bangladesh, mas depois do Sol se pôr na praça, havia espaços de manifestação que exigiam uma nova independência para a Argélia, uma assembleia constituinte para um país latino americano, cuja bandeira desconhecia e é mesmo essa agitação cosmopolita que nos mantém vivos e que mantém viva a cidade.
A cidade estava, de facto, muito agitada para um Domingo de Sol, que outros europeus aproveitariam trazer as famílias ao parque ou comprar as últimas prendas de natal
Mas em Paris, não há desses estrangeiros, e até há, como os miúdos alemães que estudavam no restaurante do bairro onde uma sopa de cebola pode aquecer, até duas almas pelo menos, mas ou agitam ou ficam a ver e em Paris ninguém gosta de ficar a ver.
E o dia começou tranquilo, uma cidade que acorda tarde, nos bairros a norte onde o traçado histórico da cidade já foi substituído por blocos de habitação, todos muito parecidos e quase todos iguais, seis artistas ocupavam um pequeno pavilhão junto ao canal que teria sido certamente a casa dos guardas das comportas, onde, debaixo da cobertura de uma feira de natal, vendiam arte genuína, reconhecível e com elevado sentido estético, aquele que valoriza as formas com alguma soberba contra as cores, a preços de quem ainda não são jovens artistas emergentes.
Mas depois, mais a Sul o canal agita-se com o meio-dia e com a juventude inquieta que passeia os seus cães com a mesma veemência com que licita obras de arte ambíguas e com significados difíceis e, naquele dia, não fui mais capaz de não correr atrás da agitação da urbe, primeiro em processo de comoção pelo reencontro e a reconciliação entre Bresson e Parr, e finalmente, no MEP descobrindo Boris Mikhailov, o mais experimentalista, umas vezes documental, outras conceptual, pintura ou performance, fotógrafo que havia alguma vez presenciado, soviético de nascimento, ucraniano de nacionalidade, fotógrafo para o partido nas horas de trabalho, e fotógrafo erótico e de nus em casa, às escondidas do partido, do patrão e do país, afinal nesses tempos, sempre os mesmos.
Atento aos pontos cardinais da cidade que adora a revolução, sorrimos com a contradição que não deixa de representar, mais a Ocidente, a exposição de Arte Povera no sofisticado Jeau de Paumme, um pavilhão de campo dos muito monárquicos jardins das Tulherias.
Afinal de contas a Arte Povera é baseada nos elementos, construída com materiais comuns, uma espécie de arte reciclada uma forma livre de expressão, comprometida sendo a resposta com as contingências os eventos e o presente.
a resposta europeia à pop art americana.
O que deixa os franceses cheios de orgulho. apesar dos artistas serem predominante italianos.
E, enquanto aquecíamos a alma da noite fria na gastronomia de Borgonha e nos vinhos de Bordéus, na burguesa ilha de Saint Louis, não deixámos de pensar no que seria da cidade se não fosse o seu fascínio pela contradição, polémica e protesto.




segunda-feira, 15 de julho de 2024

Os fantasmas da liberdade

 


Vista da margem sul, da encosta do convento de Santa Clara, os anos não parecem ter passado por ela, sem rugas no horizonte, as fachadas da cidade histórica coradas pelo Sol da tarde por ser envergonhada e provinciana, e há um sotaque beirão que não descola da boémia que cheira a cerveja e invade as calçadas que serpenteiam a Sé velha. 
Olhando com atenção redobrada por cima das pontes, há um espelho de água que absorve toda a tradição que se acumulou nos séculos de vida académica e de conhecimento partilhado. 
E de boémia incontida. 
Da margem esquecida do Mondego, vive-se uma atmosfera de Outono nos jardins do convento apesar do Junho avançado, que o calendário não consegue desmentir, provavelmente porque é domingo à tarde e as tardes de domingo são tristes e nos impelem para as memórias do passado. 
Ou provavelmente porque as minhas memórias de Coimbra viveram todas do outro lado do rio, onde a ação acontece, seja qual for a geração ou a década. 
Ou porque o convento se despojou da clausura, dos hábitos austeros, orações e aí jesus, sim, quando Coimbra era também um centro do roteiro da religiosidade, uma porta da religião para o mundo laico da ciência. 
Do outro lado do rio, a uma distância segura, que não comprometa nem os rituais, nem as crenças, nem o acesso privilegiado a Deus. 
Abanava a cabeça, quase descrente, não filha, não pode ser aqui, não é aqui que mora a Bienal, Ano Zero dos fantasmas da liberdade. 
Enquanto olhava para as minhas memórias de Coimbra, há lugares assim, que passam incólumes à nossa passagem, e só as nossas rugas se refletem nas águas do rio que enchem a paisagem de cheiros a serra. 
Mas, afinal, a bienal mora mesmo aqui. 
Os corredores do convento alternam entre os despojos de um local em vias de perder a sua memória, uma pré-ruína de vazio do qual sobram apenas gritos de morcego produzidos digitalmente que percorrem os tetos do convento ao ritmo das correntes de ar, e as interpretações ousadas do presente, para que nada nos parecesse sequer familiar, como se mais importante do que o significado das coisas ou das palavras fosse a liberdade de expressão sem significados precisos. 
Arte contemporânea, portanto. 
Com locais de descanso, intervalos nas celas abertas, janelas para a cidade, sempre no chão pejado de almofadas, como se a liberdade também precisasse de pausas e de momentos de contemplação 
Há referências objetivas dos curadores da exposição ao filme de Luis Bunuel de 74, ao cinquentenário da Revolução dos Cravos, e ao centenário do manifesto surrealista de 1924.
E há uma referência muito explícita ao significado literal das palavras, os fantasmas da liberdade remetem-nos para a disputa entre o desejo e a realidade. 
Quase um lamento sobre as limitações da liberdade, não enquanto conceito, mas enquanto "paz, pão, habitação, saúde, educação" 
Apesar de, na Bienal Ano Zero, as instalações não sejam, de todo, um slogan renascido dos cinquenta anos da história da liberdade. 
O experimentalismo do século vinte e um já não se alimenta de memórias e os jovens artistas não perdem tempo a pensar como é suposto se conquistar a liberdade. 
Na outra margem, o dois cavalos engasga-se enquanto procura alcançar a praça da República, já na década de oitenta era uma relíquia, sempre sobrelotada a juventude era rebelde, mas não demasiado, ainda havia resquícios da revolução nesta geração que nasceu tarde de mais para ser verdadeiramente rebelde e anárquica e estávamos todos a ficar fora de época, quem havia de se lembrar de voltar a Coimbra sem ser estudante, procurávamos aspirar as últimas migalhas de aventura, álcool, festas e inconsciência, antes da idade adulta começasse a assumir o controlo da tua liberdade. 
O dois cavalos é a única memória nítida que me resta desta época de vapores e libidos exacerbados. 
Coimbra, finais da década de oitenta. 


Pendurados sob os tetos do corredor do primeiro piso do convento, os cartazes de Carla Filipe são únicas imagens da revolução e das memórias que vivemos dos tempos em que o tempo ainda era, para nós, imortal, as caras das mulheres que substituem os rostos dos manifestantes, não eram relevantes as causas porque o manifesto era feminista, e os tons vintage dos cartazes eram a afirmação da nossa época, em que a liberdade não era um conceito, tinha corpo, imagem, cor e rosto humano. 
São também, e afinal de contas, apenas memórias do tempo das nossas liberdades conquistadas, no tempo em que teve de ser, nem sempre as melhores memórias, quando queríamos ser livres mas não sabíamos o que verdadeiramente isso representava e quando percebemos que a liberdade significava muito frequentemente solidão e desassossego. 
E em Coimbra, não há vestígios da passagem do tempo e só as nossas rugas se refletem nas águas do rio que enchem a paisagem de uma nostalgia bem resolvida. 
Sem vapores nem libidos exacerbadas. 
Quantos cavalos são necessários para mudar o mundo? - questiona-se a artista Priscilla Fernandes, mas o curador apressa-se a assegurar que se trata apenas de uma sátira, mas nas paredes do fim da exposição, os cavalos surgem libertos de conotações de dominação, heroísmo, autoridade e força ostensivo, dedicando-se ao lazer, um privilégio que se julgava exclusivo dos humanos. 
Quando curvávamos, a todo o vapor, no Dois Cavalos da República de Coimbra, sabíamos, pela experiência dos outros, que nunca iríamos virar, e a suspensão do Citroen era a única garantia que a nossa liberdade precisava. 
Não há fantasmas que durem sempre, quando insistimos em cultivar o imaginário da liberdade 
Mesmo que tenhamos de regressar às longínquas memórias de Coimbra.




domingo, 3 de junho de 2018

Felizmente está tudo feito


"A arte não é estética, pelo menos na sua visão clássica, não se aprecia pela beleza, mas pelo gozo intelectual que proporciona a sua interpretação..."
...Ou apenas a constatação de uma espécie de deslumbramento, presente nas novas descobertas.
Antes, a arte representava o que as pessoas viam, a nossa visão contemporânea também representa a realidade, mas não como as pessoas a vêm, antes como a sentem porque a nova visão da estética prende-se com as energias que as obras libertam.
O entusiasmo da curadora é convincente e eu cresço de entusiasmo pela ideia de que a arte não serve para nada e, mais do que isso, para ser arte não pode servir para nada porque é esta inutilidade que lhe confere a intemporalidade.
Enquanto contemplo desinteressadamente (porque, mais do que explicar, o importante é constatar a sua existência) o ícone da exposição "No place like home", afinal de contas é apenas um urinol, ponho em prática os conhecimentos induzidos pela curadora e trato de simplificar, não me ponho a contar histórias e assumo que um quadrado é um quadrado, uma bola é uma bola e um urinol é um urinol.
Com as suas singularidades e ironias.
Tal como a pintura é forma e cor e a politização da arte torna-a efémera porque a condiciona à efemeridade dos movimentos políticos e sociais.
E o "ready made", é a sublimação da vida sem fazer nada, como o próprio Duchamp o reconhecia.
Despudoradamente.
Apenas acrescenta, continua ou aumenta peças já existentes, procurando (apenas por vezes) novos efeitos, novas impressões, singularidades e ironias.
Sem pretender resolver quaisquer problemas práticos ou sociais, apenas pelo gozo intelectual de descobrir os efeitos que elas podem fazer no conjunto.
Basicamente, sem ter de fazer (ou mostrar) obra.
Muito reconfortante para um retiro espiritual de final de tarde de Sábado.





domingo, 18 de junho de 2017

Não me deixem dormir!


Shut up ýou jerk - Manuel Alves (Fundação Serralves - O olhar dos artistas)

Não quero dormir, vou abrir muito os olhos, não me vou deixar entorpecer pelas vozes que crescem no eco dos corredores, apertados mas frios, vozes profissionais mas também vozes sonâmbulas de quem acorda de uma anestesia agitada, de quem se agita por um diagnóstico reservado das entranhas, vozes que se diluem por detrás de cortinas que não nos protege das nossas vulnerabilidades e claro, vou pensar muito alto nas realidades terrenas
E se não adormecer, como irei acordar? – E foi o último pensamento terreno que conseguiu agarrar, deitado numa maca gasta de tanta logística e de alvura própria de locais de uma medicina preparada para as boas notícias, preso por fios, ligado a ecrãs que debitavam números.
Rastreio – classificam eles
Silêncio, como se tivesse medo dos sonhos e a última imagem que reteve antes da escuridão em que mergulhou, foi a do professor Hélio, o neurocientista que inventou a máquina de fotografar os sonhos, bebendo chá em casa da Moira, sob a copa florida de uma enorme laranjeira afirmando, entusiástico da sua descoberta, que sonhar é ensaiar a realidade no conforto da nossa cama (in A Sociedade dos sonhadores involuntários – José Eduardo Agualusa)
Ele procurou seguir o conselho do professor, “…devolver ao sonho a sua vocação prática”, mas apagou-se, sem sentir o esboroar das batas brancas ou a frase seguinte do homem do sono, agora vai dormir.
E o ecrã dos dois números mágicos apagou-se de imediato sem que se tivessem manifestado falhas de energia invocáveis ao sono profundo do paciente de rastreio.
E voltou a acender-se, cheio de imagens que a classe médica parecia incapaz de explicar, tão nítidas que se assemelhavam a uma revolta das entranhas.


Dias de escuro e de luz - Julião Sarmento (Fundação Serralves - O olhar dos artistas)

Shoreline - Bruno Pacheco ( Fundação Serralves - O olhar dos artistas) 

Sem Titulo - Helena Almeida (Fundação Serralves - O olhar dos artistas) 

O que eles lêem - Carla Filipe ( Fundação Serralves - O olhar do artista) 

Aprender a viver com o inimigo - Pedro Neves Marques (Museu Berardo) 

 Museu Berardo  ( A única imagem que ela recordaria mais tarde mas que, ainda hoje, se questiona se foi sonho ou se será realidade)

E o homem (ou seria uma mulher) que não queria dormir acordou das trevas num lapso de vazio (porque ele não queria dormir, não existe tempo de acordar) e, hoje, apenas se recorda de uma enfermaria a preto e branco, cercada de seres de bata branca – pareceu-lhe reconhecer o professor Hélio, mas já não tem a certeza – que se dividiam entre olhares curiosos e alguma inquietação nos sinais do ecrã mágico que insistiam em debitar dois números mágicos, 66 e 98, números brancos contra um fundo preto.


E em vez das cortinas brancas de uma realidade asséptica ela viu-se rodeada de uma tela quase transparente que lhe anunciava ter regressado ao mundo dos seres acordados.

Ser e Estar - Museu Berardo

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Secessão






“A nudez é sempre crua”.


Como o mito, a mulher fatal, a feminilidade agressiva, o mundo das sereias, as ruivas, o refinamento sensível e a morbidez das figuras.
Gustav Klimt viveu numa Viena de cenários intensos e novas ideias, fim de século e fim de ciclo, naquele preciso momento em que a vida e as coisas se evaporaram dos palácios da dinastia e saltaram para a rua.

“ O artista traz uma nova perceção do espírito humano, um estilo pictórico e decorativo que vai influenciar o art nouveau. As suas obras são caraterizadas pelo simbolismo e dialogam com a arte japonesa e africana, tendo resultado numa pintura peculiar e muito própria.”

Este é o retrato do artista e a antecipação de uma era nova, em que os secessionistas foram o combustível do colapso do velho mundo e de uma nova sensibilidade para o nascer da nova cultura europeia.
E Klimt, e Schiele escolheram o nu frontal, o olhar evocativo das mulheres como figuras centrais, a sedução e o prazer, como os símbolos de um futuro promissor.
“ Nós sabemos que o tempo de liberdade iminente, vai criar um enorme conflito entre as tendências materialísticas da nossa civilização e as reminiscências da cultura nobre que esta cultura mercantil ainda não assimilou.”
Falar de Viena e omitir Klimt e Schiele é admitir que a cidade ficou presa ao século XIX e é manter o estado de negação de que a Áustria se transformou numa república.
Morreram em 1918, ano em que a guerra acabou e em que o império colapsou, como que o seu único objetivo fosse mudar a história e depois deixar o futuro invadir o palco sem intrusos nem memórias da transição do passado.

O mestre e o jovem génio que adorava trocar desenhos com ele.