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sábado, 27 de dezembro de 2014

Irmandade




Subi logo de manhã à Torre da redescoberta Irmandade à procura de um lugar privilegiado entre os apóstolos do Natal, e sentei-me à espera.
Era hoje que iria confirmar se o Pai Natal afinal sempre atravessava os céus num trenó puxado por centenas de renas.
Por isso fui cedo. Assim poderia estudar as rotas de mais perto, com mais tempo, sem as agitações de última hora, acender as luzes da pista de aterragem e, quem sabe, afagar pelo menos uma haste de rena, passassem elas ao nível da torre.
E se Ele fosse apenas um ser vulgar, anónimo, e, quão vampiro, se transformava na noite mágica a ele e a todos os que persistissem em vaguear na rua após o anoitecer, uma espécie de legião de Cinderellas a fugir da meia-noite inundados de presentes, e se as renas fossem apenas uma mistificação?



Tornei-me assim mais atento aos seres normais, com a proteção da Irmandade e a segurança das alturas.
E as horas passaram, o Sol subiu sem vergonha e desceu escondido entre o cinzento das nuvens.
E eu cansei-me de esperar. Afinal de contas não queria correr o risco de me tornar vampiro quando o sino da torre tocasse as doze badaladas
Do meio-dia ou da meia-noite!

Desci a torre a correr , convencido que estava a ser vigiado por seres extraterrestres, sem conseguir distinguir o que era a magia do Natal e um filme de ficção cientifica!


Pássaros




Não havia tempestade no mar por isso pássaros em terra na manhã de Natal só podia querer significar que o Homem dos presentes, do trenó e das renas douradas tinha espalhado a confusão entre a passarada, logo ali, na foz do mar!
Havia musgo na passadeira, poças de água de uma noite de maré cheia, um céu contornado por azul do mar, portanto uma noite de estrelas, um rasto de estrelas cadentes que, contrariando as leis da física, subiram rio acima, mal o sino protetor dos pescadores da margem sul tocou as doze badaladas, e os homens do mar nem perceberam a agitação dos pássaros porque a missa do galo tinha apenas começado.



A agitação, a perplexidade e insanidade matinal dos pássaros da foz do mar revelavam sinais de uma noite mal dormida, à procura de um refúgio das fantasias de Natal.
Quando o bando de pombos virou a suas cabecinhas escanzeladas na minha direção, numa sincronia impossível num bando tão grande, lembrei-me do grande mestre do suspense e fiquei assustado
Mas afinal de contas, apenas procuravam o Sol e eu era o único ser assustador que por ali andava.
Debrucei-me no espelho retrovisor de um carro transeunte e só vi um velho de barba branca e de gorro encarnado.

E os pássaros voaram!



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O comboio fantasma



A imagem do comboio a cirandar no vale escuro do Mondego oeste na escura noite de natal, assaltou-me os sonhos.
Apareceu do escuro, só poderia ter aparecido da curva do rio, para lá da Figueira, a caminho das Caldas, duas carruagens sem locomotiva, entre o escuro e a berma, e o meu olhar fustigado pela vertigem da autoestrada reparou que vinha quase vazio, porque os vultos não sobressaiam da luz, aquela luz de fim de festa, amarelo sujo, sinónimo de melancolia de uma celebração que não sobreviveu ao regresso.
Na linha do Oeste, concorrendo com a autoestrada escura, esta árvore de natal rolante e de cores sóbrias percorria o vale a cumprir um horário absurdo, porque na noite de natal não é pressuposto vislumbrar o comboio fantasma, porque na noite de todas as estrelas, o pai natal deve sobrevoar o vale num trenó guiado por renas sábias e no velho trem do oeste só o revisor sobressaia, hirto como uma rocha cinzenta, e até de cima da vertigem da velocidade eu consegui perceber que ele furava bilhetes e não entregava presentes.

Tão fugaz foi a visão, que sonhei toda a noite com o comboio fantasma que não se cansava de apitar, ligando todas as imagens desfocadas que coleccionara no dia de Natal!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Seres (não imaginados) imaginários




Na quinta-feira de noite cerrada, chovia tempestade nas ruas.
Sem parar, sem parar nunca mais.
E não havia sombras que não as das árvores que tremiam de frio, de humidade e de medo de caírem.
Os faróis dos últimos automóveis despenhavam-se em lagos agitados de água mista, doce vinda do céu, salgada empurrada pelo mar.
Poucos se lembravam da mesma noite de tragédia, algures ano longe de 67.
Mas às sete e cinquenta e nove, por detrás dos portões calcinados da quinta da vila, moviam-se dezenas de seres que rondavam os faróis com trejeitos de mortos vivos de sorriso aberto e espírito sem resquícios de conformismo, daquele conformismo que antecede a falência dos sentidos vitais.
Eram apenas homens e mulheres que vivem em buracos "quando a tempestade vier já estamos escondidos no covil" que se alimentam do que a caridade lhes dá, que rondam por ali ou por aqui sem destino, mas com vontade.
E gratidão, e humor malandro e uma delicadeza que se expressa em diversas línguas, sim porque " tu, ó cabo verdiano, a tua língua não é língua" -diz o moçambicano, ri-se o português, agradece o moldavo
"Desculpe ó menina" enquanto aceitam tudo, guardam o que podem e aproveitam para falar, porque falar espanta os fantasmas e não perdem o sentido prático de comer enquanto falam, sem vergonha de pedir enquanto comem.
Sem sofreguidão, todos nós rodeados de uma tempestade que transforma as árvores enormes da quinta no Adamastor, que virá com certeza, assim que todos partirmos.
Sem lar, mas nem parece que não têm abrigo ou destino!



" porque o homem inventa deuses para dançar com eles e para eles, e brinca aos animais para poder gritar como eles e cantar e voar como eles e perder a consciência de ser homem e poder ser humano e divino"

domingo, 9 de novembro de 2014

A fuga - 29 anos



Apesar de ser Agosto, estava frio.
N. sentia frio, talvez porque sabia que estava em fuga e, nesta espécie de cidade, fugir, mesmo que fosse uma mera retórica, era sempre um risco.
Às três da manhã, como a qualquer hora, acotovelavam-se os seres apressados que caminhavam em círculos, porque só havia gente naquela grande rua e, de repente, as pessoas desapareciam, depois a humidade dos parques invadia o resto da urbe e, no fim, restava a terra para onde ninguém ia, uma espécie de floresta assombrada por espíritos mortos vivos.
Na gare de luz insuficiente, passavam os comboios que paravam e os que andavam sempre, todos na mesma linha e nos diversos sentidos.
Havia sombras em todos os intervalos de luz, que se alongavam como num pôr-do-sol que se recusa a ceder à noite, porque é importante que o dia continue a rolar, a noite é silêncio e a escuridão torna-nos transparentes.
E os mesmos viajantes que à chegada, sempre carregados de pertences, história e objetos de culto, hesitam sobre que carruagem escolher, apenas um desejo de que, depois de atravessar a noite escura, acordassem em terra firme, com o fresco dos ventos do mar e do norte a aliviar a claustrofobia da cidade dividida.
Vindo das sombras, de leste e do fundo da gare aproxima-se um comboio de cores carregadas, tão diferente dos comboios normais, puro ferro e uma locomotiva que trazia o peso da neve e do gelo, os milhares de quilómetros percorridos na estepe e uma foice vermelha que resplandecia na frente como um farol do mundo.
N. abriu a boca e o expresso de Moscovo passou sem parar com destino a Paris.
Quando finalmente pode partir no seu comboio, refugiou-se no canto mais longe da janela e, rodeado de uma multidão de gente, adormeceu de imediato, procurando recuperar depressa o sonho que estava a viver.

A campainha da porta tocou.
- Sim, conheço as Asas do Desejo de Wim Wenders – A inacessível Cristina, aparecia do outro lado da ombreira de telefone na mão direita, dois bilhetes de um qualquer comboio sem destino impresso, igual ao deslumbramento inicial, sedutora de tão distante, igual aos sonhos destruídos de um poeta inseguro.
- Um anjo não argumenta!
Quatro anos depois! Acaso ou destino? N. não sabia e Cristina não lho explicou.
- Hoje os céus de Berlim estão cheios de asas.
-?
- A partir de hoje sim! O muro está a cair!
E sem que Pedro pudesse ou soubesse argumentar que não devemos provocar o destino, que a verdadeira liberdade é partir, que a conversa do Wenders era apenas retórica existencialista, e que sem muro deixava de haver inacessível, e tudo era …., Cristina, pousou os bilhetes sob os seus olhos e sussurrou-lhe ao ouvido:
 - Carruagem 21! Amanhã de manhã. Partirmos é sinónimo de chegar, como dois sinais menos que se anulam…
- Berlim não é uma cidade de amor e encontros
- A revolução é o laboratório de amores épicos…
-…e impossíveis!
- Não, se o mundo hoje mudar para sempre, estaremos definitivamente ligados como siameses à centralidade…passada e futura!
Incapaz de fugir, de evocar a timidez genética, a solidão criativa, a indecisão perante os maus momentos que inevitavelmente se seguem aos bons, Pedro limitou-se a suspirar:
- As asas do desejo!

A manhã começava a nascer quando N. acordou, abraçado a uma companheira do lado, que falava uma língua incompreensível e parecia tão surpreendida e assustada como ele com aquele enlace, mas ninguém mais no compartimento parecia importar-se ou reparar com o insólito de dois seres a separar-se com brusquidão.
N. saltou do compartimento em fuga, era uma sombra apenas que se agarrava a ele, ou ele a ela?

Cá fora, os transeuntes voltavam a entrar e sair do comboio, o vento norte entrava na carruagem 21 e o Expresso aproximava-se rapidamente do porto de Hamburgo. 

sábado, 8 de novembro de 2014

Baldios, 29 anos

Por mais que se pretenda esquecer, Berlim é o fogo cruzado sobre a sensibilidade de quem detesta sentir-se preso ao transitório, apenas mais uma face do definitivo, temperado de esporádicos complexos de culpa.
Mas, junto àquele gélido muro, a inspiração esvai-se por entre complicados projetos de fuga que se enlaçam nos arames farpados, apenas disfarçados pela arte subterrânea, sinistro doping de sentimentos sem horizonte.
Ali tudo perde a racionalidade suprema do bom europeu intimamente marginal; o inexplicável estende-se pelos longos baldios sem sentido, que se esforçam por alargar os horizontes por cima do muro, de onde o romance desapareceu há muito e apenas as imagens soltas dos postais a preto e branco nos fazem sentir as trovoadas de esperança, sobretudo de desespero e frustração!
E naquela tarde de Agosto, a trovoada e a chuva foram as únicas manifestações possíveis de semelhança entre os dois mundos, separados por alguns metros, suficientes para impedir a reconstrução de ruas bloqueadas a meio, cujas linhas de elétrico comprovam que Berlim já foi Berlim.
Por isso parto e fujo atrás da minha terra, do meu mundo, porque aqui os baldios são tudo o que resta da vontade de acreditar num mundo livre. E nem as violas solitárias à beira do tráfego intenso, músicas das quais apenas ficou a melodia, me fazem esquecer a indiferença mal simulada dos rostos que me rodeiam, sobretudo porque aquela cruz, submersa por muitas outras, me garantia que mais um homem sem rosto ali morrera em Dezembro.
Aqui, todos já deixaram de se sentir ameaçados, de tão ameaçados que estão; é decididamente o princípio do fim de um sonho, inundado de palavras e atos bem aceites, como o ser revolucionário na Europa é incrivelmente vulgar, e cultivar a solidariedade apenas um mito nas mentes de uma terceira vaga esclarecida, confortável entre muros baldios ou apenas numa cabana refúgio montanhoso do Bom Selvagem.
Como diria o poeta, a liberdade não se inventa, descobre-se!






Berlin, Jardim Zoológico, 29 anos

Anoitecia nos subúrbios da cidade, seja ela qual for afinal, porque tinham alertado N. que havia duas cidades, algo que ele entendia, mas tinha dificuldade em verbalizar, em palmilhar em cima de um mapa.
Muros e mais muros outra vez, depois da estepe e, para lá das silhuetas do arame farpado, despontava um clarão de luz branca, que parecia nascido do chão, cada vez mais forte com o aproximar da noite e sempre que atravessava mais uma fronteira, mais uma troca de polícia, mais uma linha truncada, um trocar de olhares, e cães que farejam tudo.
Uma luz que absorvia a escuridão circundante e um destino que deixava N. intrigado: nunca tinha entrado numa cidade pelo Jardim Zoológico.
Mas em Berlim, uma das duas cidades, um novo país depois de atravessar outros, com a mesma língua, mas outro hemisfério, Zoological Gartens é a estação ferroviária do centro de uma das cidades.
Depois do silêncio e da solidão, uma babilónia de gente atordoou N.
Era gente na plataforma que quase trepava pela cobertura de ferro fundido e vidraças de arte nova, e ninguém parecia estar aqui de passagem, gente de latitudes tão contraditórias, embrulhos e bagagens que se abraçavam à multidão que se movia sempre muito apressada, mas como formigas num quintal, afinal de contas porque é têm tanta pressa se o quintal é pequeno e os muros são altos?
E logo entendeu que não havia regras conhecidas neste epicentro de sensibilidades exacerbadas.
Refugiados que pela latitude e cor da pele era pressuposto serem hóspedes da outra cidade, atapetavam os subterrâneos desta cidade, como uma sala de espera de quem, vindo de tão longe, se equivocou na fronteira.
E quando ainda se procurava libertar destes equívocos, N. foi projetado para a rua, que o recebeu com um frenesim que não tinha nação, tal era a confusão de sons que a língua resultante, já não era alemão.
Afinal tinham construído três cidades e N. perdia de vez a perceção de tempo e espaço.
No chuveiro do Hotel Flórida, um longo corredor de chão amarelo brilhante , de portas de castanho fechadas e uma fila de chuveiros comuns, com torneiras de um metal envelhecido que lembravam que já tinha havido uma só cidade, N. lavava-se cuidadosamente deste banho de multidão e procurava acertar o passo com esta multidão tão furiosa.
Da janela do quarto, lençóis encardidos, cortina de renda amarelada e uma cadeira encarnada sem braços, espraiava-se um mar de luzes e néon.

Na Ku’ Dam, fosse dia ou fosse noite, havia três quilómetros e meio de mundo que se atropelava, sabe-se lá para onde eles iam, num quintal tão pequeno, com muros tão altos.


Berlin Express, 29 anos

N. soprou uma baforada de fumo reciclado pelo pulmão com uma força de rajada, janela fora.
Se era aqui que se estendia a cortina, então o fumo voltaria para trás.
Mas não! Voou por cima do arame farpado e extinguiu-se para lá da fronteira de ferro ferrugento.
Apesar de ser Verão, N. só vislumbrava planície cinzenta, onde devia haver campos castanhos em pousio, porque a fronteira não é povoada por agricultores ou outros seres sedentários
Então era ali, o lugar
A imagem de um corredor desolado trespassava da estreita linha que apontava a leste, lá fora da janela entreaberta, para dentro da composição, um corredor vazio, cercado de cores amareladas pelo tempo, compartimentos fechados, gente de rostos fechados.
Um polícia, uma carruagem, uma placa numa plataforma de cidade insignificante, que nunca teria acesso a algum mapa, não fosse a fronteira.
Helmsted.
E N. sentiu um arrepio, porque aquela placa de letras negras sobre um fundo branco, naquela língua e com uma caligrafia tão bem definida, quando o destino é leste, é símbolo de diabo.
N. lançou a beata para a linha, porque descobrira que o esforço de emitir sinais de fumo para o horizonte era insano. Não havia ninguém que lhe respondesse nesta, ou noutra linguagem qualquer.
Olhando para baixo, era evidente que milhares doutros tinham desistido antes dele, por tédio da longa espera ou por falta de incentivo. A linha estava pejada de beatas, conclusão óbvia de que este lugar não era a fachada da frente, para ninguém.
Mas a beata de N. incendiou os guardas, porque devia ser diferente, ninguém se pode atrever a querer fundir o ferro, a desprezar este espaço de não terra, a sinalizar uma presença, a enrolar um cigarro, tudo muito suspeito vindo de um jovem sujo, barbudo e de cabelo desgrenhado.
Solene, enfadonho e infame
N. enfiou-se no seu assento, rodeado de alemães incomodados, circunspectos e de cara fechada, e desistiu de ser irreverente.
Afinal de contas, o comboio já estava a andar e o destino, em 1985, era DDR.

E N. nem reparou que, à medida que penetrava nas profundezas do corredor, os campos tornavam-se castanhos – imaginação dele que a leste só havia estepe – e que as centenas de pequeninos pioneiros bordejavam as passagens de nível, e que havia carroças e tratores, tudo muito desfocado pela velocidade deste comboio sem paragens até Berlim.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Maria Luísa


Maria Luísa, o parque está silencioso porque é noite profunda, e a Maria Luísa, a égua que puxa a carroça não relincha, apenas obedece a trote às instruções do andaluz e desdentado comandante, que não troca os locais históricos e nos recorda que a égua nos agradeceria o nosso reconhecimento.
O som martelado dos cascos na pedra é fantasmagórico, e dá uma vida imaginária às sombras, ao recanto do romântico, ao do poeta, do soldado, tudo isto a Maria Luísa abarca.


E no território da Expo de 1929, há lembranças de Portugal, vestígios da epopeia ibérica, conquistas mais do que descobrimentos.
Em Sevilha à meia-noite, só mesmo a Praça de Espanha dorme!


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O descuido de Hércules






Reconheço o meu fetiche aberrante pelas fronteiras.
Posto de controlo de saída, posto de controlo de entrada, homenzinhos muito compenetrados do seu dever de guardiões de uma terra qualquer, uniformes diferentes, línguas que se misturam e, depois de tudo passado, ainda falta a alfândega, os controlos de segurança e, com um pouco de sorte, os cães que nos farejam os pés e uma revista corporal profunda.
Tudo isto, não porque mudamos de mundo geográfico, mas apenas porque os humanos se alimentam de posse, uma espécie de direitos de autor sob propriedade da natureza, da qual nos apropriamos recorrendo a uma bandeira, uma língua e um hino
Daí, homenzinhos compenetrados, portanto!
Portanto quando me aproximo de uma fronteira começo a sentir aquele bichinho que me corrói a espinha, a que muitas vezes chamamos de arrepio!
Descontrolado, uma adrenalina de montanha russa, nos segundos finais da subida que antecede a queda sobre o vazio.
E, muitas vezes, só há vazio depois da fronteira.
E quando aterro num local como Algeciras, a adrenalina passa a ser tão errática que nem me apercebo que há tipos que se atravessam nas estradas para me empurrarem para estacionamentos clandestinos, tão longe do barco, que só podia ser mentira.
Mas Algeciras é uma fronteira de trezentos e sessenta graus (bom, para ser preciso é só de cento e oitenta), com europeus a imporem um hino, uma bandeira e uma língua em África, com africanos a povoar o lado de cá das fronteiras da Europa, uns ilhéus – europeus é certo – a desfraldar uma bandeira, uma moeda, uma língua, um hino e, ainda mais, uma rainha, num rochedo de terra firme na outra ponta da europa, de onde era pressuposto viverem, uma fronteira a sul que é fronteira da natureza – ou de Hércules – porque separa mares e continentes, mas que afinal não é fronteira, apesar de parecer.
Tudo à distância de um só olhar, quer estejamos no pontão do porto de Algeciras, no barco para Ceuta, em cima do rochedo ou na marginal de Ceuta
Uma aberração diz J.
Uma fonte de inspiração, pensa N.
Ceuta é a fronteira africana – começaria por narrar a crónica de N.
O estreito revela a cor azul viva da sua superfície e no fundo do mar, que se comprime entre placas continentais, ficam as falhas tectónicas, provavelmente uma obra de Hércules, que ainda não adivinhava que, interferir com a natureza, teria repercussões geoestratégicas.



Tão inspirado me sentia com o azul do mar, o cinzento da neblina que pairava sobre as montanhas de África e o castanho do rochedo que quase não me apercebi que hoje, o deck superior do ferry para Ceuta ia cheio de polícias e marroquinos clandestinos algemados, prontos para serem recambiados para Sul.
E o marroquino rico, recém regressado de Portugal em férias – Vila Nova de Milfontes, imaginem – cantava as maravilhas de Portugal, paraíso tão diferente do agitado Marrocos onde um telemóvel à vista, significaria perigo de assalto.
- No teu país (fantástico país) não passa nada, é um paraíso – recostava-se a estibordo, olhava o mar, e chupava num cigarro bem enrolado em ervas exóticas.
E em Ceuta, também já houve tempos em que, nós, os portugueses fomos felizes.
Na geografia como na História, as fronteiras são mesmo efémeras!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Retalhos de uma vida em 3D


Gostava de poder escrever sem sinais. Mas não posso.
Acto 1, nevoeiro no dia da partida (dele), bravo Sebastião
Acto 2, os homens que se julgam deuses, com maiúsculas pequenas
Acto 3, navegar à vista
Acto 4, profissões do futuro, uma visão 3 D(o) desenvolvimento organizacional
Acto 5, apenas mais um dia de chuva no almejado retiro do bom selvagem
Acto 6, a sentir-me uma peça de museu da era pré glaciar
Acto 7, o sonho da libertação da água desemboca na urbe caótica
Acto 8, uma vida a acreditar nos símbolos



Para a semana há mais!









quarta-feira, 17 de setembro de 2014

(Parte 3, e última) Bem-vindo ao mundo louco do baixo custo – O regresso

… Ou o que faz um Homem para tentar poupar os remanescentes setenta e cinco euros!



Liverpool Street, duas e cinquenta da tarde
Enamoro-me pela velhinha que me chama darling, uma cabeça de alfinete bem descoberta no lado de lá da fronteira do guichet, que me trata por querido e me devolve dinheiro não gasto no cartão de transportes que, por acaso, se chama ostra, e fico-me a perguntar porquê.
Mas não de forma obsessiva, porque a avozinha que me continua a tratar por querido, também é cliente do banco do meu cartão e sugere-me trocar de contas enquanto me descansa, soltando uma gargalhada que ecoa no túnel, escadas rolantes abaixo, do metropolitano da babilónia central.
Sim, querido nós devolvemos-te o dinheiro, nove libras certinhas vezes dois, para o teu, para o nosso banco, quarenta e oito horas, e assina aí, duas vezes, dois papéis, e não é preciso a morada, basta o país, que é para lá que voa a caução que pagaste e as libras que carregaste, um troco certinho, um exemplo que devia envergonhar os abusadores da EMEL.
Mas isso, penso eu.
Liverpool Street, três da tarde.
Assusto-me com o bigode de meia-idade que me espreita do guichet, o outro guichet, acima do chão, no fundo da gare de comboios, arte nova e a babilónia que vem à superfície.
Vinte e três libras de bilhete de comboio, para o aeroporto, se faz favor!
Todos os dez minutos, quarenta e cinco de viagem, argumentos adequados, se o meu susto fosse da espera ou da demora.
Trinta euros, de Londres à Azambuja das ilhas britânicas, porque tínhamos vindo de Abrantes e pago apenas vinte.
Antes de partir para Stanstead já só faltavam gastar quarenta e cinco euros, para que a indiferença me deixasse refém dos argumentos de que as novas experiências enriquecem.
Sim, mas este Expresso de Stanstead era a montanha intrometida no vale do baixo custo: tecnologia, silêncio, uma casa de banho aerospacial, nada que me fizesse lembrar que o meu destino era uma aerogare, tão longe que seria provavelmente capaz de servir os escoceses, antes da independência, bem entendido!
No grande armazém da Azambuja – este entreposto rodeado de animais de focinho descontraído - renasce das cinzas um formigueiro de gente, que não se entende de onde chegou.
A tese escocesa perde força à medida que o burburinho da multidão se torna percetível.
Mas não foi do comboio vazio que vinha de Liverpool Street, mais propriamente em Londres.
Não fosse o litro de cerveja já almoçado e teria certamente reparado que, outra vez, tinham transformado um hangar num terminal entupido de bifes que se rebolavam pelos corredores sem teto – porque o hangar era sempre o mesmo, por mais curvas e lojas francas que torneássemos – em direção aos paraísos baratos do sul da Europa, do sul do mundo.
Em vez disso, corri apressado e apertado para o mictório mais próximo, bem no centro do hangar, quase sem teto.
Aliviado, então voltei a ligar-me à experiência dos animais de focinho contraído, encaminhados obedientemente entre corredores sem teto, portanto currais.
Portanto, como gado!
Stanstead, o império azul e amarelo da harpa amarela sobre a cauda azul, onde o low cost se confunde com o charter, em que o estacionamento das naves é tão anárquico que incomoda pelo contraste.
Com tanto pasto lá fora, tanto aperto aqui dentro.
Por isso reforçámos a dose de cerveja, sempre a cinco libras a meia centena de centilitros, e se fizéssemos contas à cerveja sorvida, para mais fácil ultrapassar as agruras de um homem que já se habituou a gostar de mimos, a experiência já me estava a custar dinheiro, mas este bar era diferente, até tinha amendoins que arredondaram as contas e enganaram-me o estômago.
É que na volta não me iam enganar com a história do cartaz com a sandes e a cerveja com o gelo a escorrer pela fotografia.
Mas os amendoins provocaram danos colaterais. Por esquecimento ou por confiança – ou talvez apenas pela cerveja – fomos ficando para o fim, porque afinal de contas o avião não parte mais cedo para os que embarcam primeiro e, vantagem do check-in precoce, ninguém se iria sentar no nosso lugar marcado.
Tal como no primeiro, devíamos ter percebido que mais importante do que medir as malas é correr lesto e chegar primeiro.
Mas não percebemos!
E lá foram os nossos pertences para o porão e nós que tínhamos medido as malas e havia seres que, somente porque denotam um espírito de sobrevivência mais apurado, embarcaram malas que pareciam tapetes voadores assentes em blocos de argamassa.
E a brigada de moças vestidas de azul e amarelo, menos rechonchudas que as outras, mais sardentas e sorridentes, receberam-nos de sotaque em punho, sem dramas porque tinham o porão, e pelos pecados duns pagam outros, melhor assim do que obrigarem as moças de saia curta a pendurarem-se nas bagageiras, de cuequinha à mostra e gáudio da multidão.
Mas as pequenas trabalhadoras não descansaram em todo o voo, porque estes anjos de harpa amarela, menos fortes no marketing visual, trocaram o orçamento em artes visuais por uma força de vendas direta, que se bateu de forma heroica nas marchas incessantes pelos corredores fora.
Felizmente, e ao contrário da odisseia laranja, eu tinha escapado a uma coxia, e aos permanentes embates laterais com a coxa esquerda – e respetiva nádega – da chefe de cabine.
Mas o altifalante ainda se ouviu em terra, os passageiros em falta, que tinham nome e tudo, queiram fazer o favor de se acusar, porque falharam no controlo do embarque.
Como se um ausente, se pudesse acusar de coisa alguma. Mas o apelo resultou, porque ninguém apareceu e lá se perderam três transeuntes de check-in feito, com aquela antecedência necessária para se conseguir o desconto perfeito.
E o avião partiu.
E a azáfama despertou entre o pessoal da venda direta.
Uma azáfama bizarra, reconheço, porque elas mexem-se tanto que o amarelo e o azul começam a misturar-se e, a dado momento, deixamos de perceber se é a saia que é amarela se a blusa que é azul, se afinal de contas não estão todas vestidas de verde.
Primeiro, as bebidas frias
Depois, as sandes quentes
E o público, sem mexer a cabecinha, para não ser contemplado por uma venda forçada pelo sorrisinho sardento das moças.
Hirtos e firmes.
Depois, as bebidas quentes.
Porque o sucesso não era grande, ousaram uma estratégia que roça a venda agressiva, puxada ao sentimento.
Pede-se aos senhores passageiros que contribuam para uma obscura instituição de beneficência – primeiro em inglês, depois com uma perfeita tradução para português.
Perante a falta de entusiamo geral, de novo um solene anúncio de que afinal, podiam ganhar um automóvel e algumas viagens na esvoaçante harpa amarela, procurando escoar as raspadinhas, apelando ao lado mais ganancioso do público-alvo.
Nem assim as filas do lado direito viraram a cabeça, com receio de serem apanhados na armadilha.
E, por fim, já península ibérica adentro, a famosa carripana dos produtos livres de impostos que, por forretice extrema, nem sequer tinham direito a aparecer na inexistente revista de bordo.
Quando já todos acreditávamos que o pesadelo tinha terminado, com os cheiros da nossa pequena nação a emergir entre as nuvens, novo anúncio solene a informar que as casa de banho iriam encerrar ao público, meia hora antes da aterragem, porque tempo é dinheiro e as moças de farda amarela e azul se preparavam as pequenas limpezas, certamente porque no ar não se paga parqueamento, nem horas extraordinárias nem horas de trabalho temporário de outras moças, igualmente fardadas de amarelo e azul, mas com umas letras nas costas.
Bravas e valentes moças, que fazem por merecer o privilégio de passar o dia a andar de avião.
E nós contentes, porque poupámos duas ou três dezenas de euros e ainda tivemos acesso a esta invulgar experiência…
… não tivesse sido quebrada a promessa de ter as malas à porta do avião, única razão pela qual as tínhamos largado na aerogare da harpa amarela.
Queixem-se, sugeriu o bagageiro português, encolhendo os ombros e cofiando o bigode desgrenhado, num que se lixe tão prazenteiro que nos tirou o gozo de uma reclamação escrita.


P.S. E a mala apareceu no tapete, tão desgrenhada quanto o bagageiro, mas sem danos de maior!


domingo, 14 de setembro de 2014

( Parte 2) Bem-vindo ao mundo louco do baixo custo – O embarque

… Ou o que faz um Homem para tentar poupar os remanescentes cem euros!


Ah! Ainda bem que medimos as malas porque na porta de embarque estão uns apetrechos medidores de malas, para garantir que a lei se cumpre.
Mas os apetrechos vivem numa solidão profunda, apesar dos esforços do segurança em regime de trabalho temporário insistir em pontapeá-los distraidamente – um temporário não pode ser ostensivo nem autoritário – para os meio dos pés dos transeuntes que, aos saltinhos e olhando distraidamente para os tetos de zinco do terminal dois, congeminavam conversas que os mantivessem ocupados e pretensamente distraídos.
E ninguém tenta lá enfiar as malas e centenas de jovens e mais velhos contornam o apetrecho com caixotes que parecem montanhas.
Atravessámos a pista a pé (já se passeia a pé no aeroporto de Lisboa) ultrapassámos umas velhas tão corcundas quanto as malas que as puxavam e saltámos para a traseira do laranja sem pudor, porque aqui os lugares são marcado mas as malas não.
Ops. Chegámos mesmo a tempo de enfiar as nossas modelos viajantes no último cantinho disponível
Devíamos ter percebido que mais importante do que medir as malas é correr lesto e chegar primeiro.
Mas não percebemos!
Depois vem a inglesinha rechonchuda – como todas as insulares aliás – enfiada numa farda demasiado apertada e colorida, e as faces da pequena começam a corar, de embaraço, de desconforto, ira, tudo isto numa sequência de tom que quase destruía a reputação da fleuma britânica.
As miúdas stressam mesmo nesta fase de arrumações, de tal forma que já não me lembro se o salva vidas que exibiram ao alto, tão em simultâneo com a discussão em tons de ameaça e absoluta necessidade de não perder o lugar no corredor aéreo, era para nós ou para ela!
E partimos nos laranjas. Os laranjas são bons. Furam as nuvens sempre numa linha direita que empena de solavancos, em estado de hipnose diante dos apelos de consumo que exalam do banco da frente, perto, muito perto do nariz, porque em baixo as pernas encolhem-se e em cima a vista desfoca-se, de tão próximo, do apelo laranja ao consumo.
Uma sandes de aspeto que sabemos de antemão que não é real, até porque a cerveja, por detrás de um impossível copo de vidro – estamos no avião, certo? – jorrava partículas de gelo e uma espuma, tão perfeita que só podia ser mesmo, fotografia.
Os laranjas são bons: onze libras de perfeita ilusão.
Sabemos que o sabor da sandes ia ser deslavada, que o copo vai ser de plástico e a cerveja vai estar quente!
O melhor era mesmo um sumo de tomate. São só onze horas da manhã, o sumo de tomate disfarça melhor os equívocos de temperatura.
Nós temos a certeza que é mentira!
Mas aquele solavanco permanente e sincopado, o cartaz laranja a saltitar à frente dos meus olhos e a caravana laranja que se aproximava e as libras a tilintar destruiu a minha resistência à hipnose aeroespacial.
E no meio daquele ar imenso que é o céu azul em cima, os nimbos em baixo e a carcaça laranja a latejar, sucumbimos à ilusão.
A cerveja estava quente, a sandes tinha um sabor a molho inglês, o copo era de plástico, mas nós sorrimos com o desconto de uma libra por sermos dois!
E ainda não tínhamos abandonado a jangada de pedra e a poupança tornava-se perigosamente vã: estávamos a uns míseros oitenta e cinco euros de uma viagem normal.
Mas os laranjas confiavam no marketing e as rechonchudas já estavam mais felizes, pelo que, sobre o golfo da biscaia deixámos de as ver, a elas inglesas, rechonchudas e laranjas e às tentações de perdermos a nossa honra e de nos perdoarmos pela nossa teimosia.
Verde, vacas, hangares e pistas vazias foi o que vislumbrámos no regresso a terra, o que, sem GPS poderia significar a França do Norte, a Escócia do Sul, ou qualquer outro prado da Europa chuvosa.
Mas aterrámos na ilha, na verdade um pedaço inóspito de terra firme, em que o hangar principal aparentava origens mais nobres que o terminal de passageiros, uma térreo e plebeia barraca de zinco, tão cinzenta que se confundia com o céu, tão térreo quanto o porão das bagagens, talvez por isso mesmo Luton fosse tão térreo, talvez assim os passageiros não se atrevessem a trazer bagagem.
Uma hora e meia depois, vinte euros mais tarde, um autocarro com volante à direita uma revisor italiano, cinco minutos de viagem e mais uma gare no meio de nada, saídas da plataforma para os prados verdes, quinze minutos de espera e um comboio pontual, mais quarenta e cinco minutos de verde até imergirmos nos túneis da urbe, inconfundíveis vestígios da fuligem industrial, agora preservada como memória coletiva, e tivemos finalmente a certeza que tínhamos aterrado do lado certo do canal.
Às duas e meia sentíamos finalmente a babilónia do mundo a pulsar, entre a modernidade ostensiva do Shard e o classicismo enternecedor da Torre de Londres

A sessenta e cinco euros de distância de um viajante conformado.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

(Parte I) Bem-vindo ao mundo louco do baixo custo – O bilhete

Ou o que faz um Homem para tentar poupar cento e cinquenta euros!


Começa tudo numa noite de insónias, em que vimos estrelas de tanta agitação entre motores de busca e sites marados.
Primeiro, é preciso eliminar as escalas (17 horas até Londres, duas escalas uma overnight em Copenhaga e sabe-se lá mais o quê).
Depois é preciso navegar à procura dos minutos felizes, entre preços que variam ao segundo, competitivos à meia-noite, extravagantes às duas da manhã.
Finalmente encontrámos, entre várias pastas abertas e todas prontas para o próximo leilão, algo que se assemelha com uma expetativa humana: duas horas e vinte à ida, duas horas e quarenta à volta.
O aeroporto, esse não é o mesmo para onde vamos de onde vimos. Mas ficam os dois na grande ilha chamada Britânia.
Mas as horas de partida e chegada não dão jeito a quem trabalha, nem a quem passeia.
Vamos lá restringir as horas, partir cedo e chegar tarde dá mais tempo mas custa caro.
Dos cento e cinquenta euros de ganho, já foram vinte e cinco.
E com a atrapalhação de quem dedilha mais lento que os putos de vinte anos, lá vamos fechando pastas e arrependendo-nos logo de seguida, como quem muda de fila na autoestrada, porque quer andar mais depressa, e logo a fila mais rápida da direita se torna mais lenta, como que nos tivemos subitamente esquecido dos princípios de engenharia dos fluidos…
Obviamente para quem alguma vez os aprendeu.
É que a comparação de partida, diverge à chegada e as despesas, e os custos de cartão, e as taxas de urgência, tudo aquilo precisava mesmo era de uma folha de cálculo dinâmica, depois de estudada cada uma das infinitas hipóteses de modelo de negócio.
Mas ao fim de duas horas de um surfar ansioso, começámos a perder as forças e a aceitar que mais vinte menos vinte, sempre ganhávamos uma hora na chegada e quarenta minutos na partida.
Mais cartão, e após uma heroica resistência a todas as tentativas de up (upgrade, upselling) e lá carregámos no botão mágico do order.
E pronto, só ficámos a cem euros de um viajante normal!
Dormidas umas semanas em descanso, somos subitamente alertados por um email pulverizado de laranja e de harpas em amarelo sobre o azul dominante, lembrando-nos que a viagem estava a chegar.
Maçada. Queria mesmo esquecer-me.
E com as boas-vindas das duas companhias aéreas, a chegar a um aeroporto e a partir de outro, começamos a verter lágrimas de tanto tentar perceber as dezenas de instruções ameaçadoras que jorravam do ecrã, tão contraditórias que sentimos precisar outra vez de uma folha de cálculo.
À ida são 50*40*26cm de mala, mas à vinda perdemos seis centímetros de espessura mas ganhamos uma pasta de mão de dimensões não identificadas. E os líquidos e as horas de embarque e o check-in eletrónico (isso obrigatório porque senão, aproximar-nos-ia mais setenta euros do tal viajante normal) e as notas gerais e o clicando aqui saio da companhia aérea e entro no meta buscador para logo sair para a companhia aérea, que basicamente são duas.
E depois explicam que temos dois bilhetes independentes, porque são duas viagens, duas companhias, dois aeroportos, mas a mesma – e felizmente gigante porque senão ficávamos com os pés de fora – ilha.
O que vale é que podemos fazer os check-ins todos para o ano – e depois atrasamo-nos meia hora na saída porque desaparecem pelo menos um trio de passageiros –
E ainda, porque não um hotel em Londres (já tenho, obrigado e é baixo custo, sim senhor uma residência de quarto de entrada na transversal), um aluguer de automóvel com volante à direita, especial para si que gosta de viajar online (preferimos o comboio, obrigado) e, finalmente, uma magnífica opção de reserva de lugar – que basicamente se resumia à escolha de uns míseros seis lugares disponíveis – por uns frugais quatro euros.
A toda esta torrente resistimos estoicamente porque, afinal de contas, estávamos determinados a viajar a custo baixo.
Estamos quase a desistir do embarque eletrónico, porque não encontramos o clique aqui certo, entre tanta letra e tantos convites, mas lembramo-nos dos euros, mas principalmente da maçada a que nos demos, não podemos fraquejar agora, que o pior já passou.
Julgavas tu, julgava eu!
É melhor encontrarmo-nos outra vez, e durante o dia, para assegurar que o check-in é electrónico e para fazermos tudo certinho.
E depois de relermos todas as instruções direitinho, enveredamos aos solavancos pelo caminho crítico; entramos no meta buscador outra vez, para depois sair para a companhia da ida e, dois botões à frente, desnuda-se o primeiro cartão de embarque, agora grava envia por email e aguarda impressão lá em casa.
Depois sai da companhia, entra no meta buscador, sai do mesmo e entra na outra companhia, as cores mudaram mas graças a deus o caminho é parecido, dois botões depois parece que chegámos ao prometido céu. O segundo cartão de embarque salta meio desnudado, mas desta vez rodeado de harpas e anjinhos.
Já chegámos quase a Londres!
E não me vou esquecer de medir a malinha, não vá a coisa correr mal.
Já de noite, na véspera, estico a fita métrica enferrujada, que já não enrola, de tão maltratada, conferimos a medida, relemos as instruções e…
Voilá! Encontrámos uma mala à dimensão do baixo custo

Agora é que nada mais poderá correr mal, porque ainda estamos a cem euros de um viajante comodista!

domingo, 17 de agosto de 2014

O último ferrie do Sul


Não é conveniente, é caro, tão imprevisível como o tempo de Verão, nestes dias e nestes anos.
Duas horas e meia de Melides a Setúbal, um alto preço que a inovação via verde não permite conhecer, uma hora e tal de espera a imaginar a capacidade do barco e a contar os carros que estão à frente na fila.
Razões mais do que suficientes para escolher não atravessar o rio, nem mesmo quando não temos pressa, quando não corremos atrás da praia
Mas o último ferrie do Sul é um clássico, faz parte do programa de festas, como a descoberta, ao longo de um enorme estradão que se agiganta à nossa frente em nuvens de pó, da praia da Aberta Nova, para os lados de Melides, a salada de polvo na tasca de praia com uns pedações mal cortados de um pão alentejano que se ensopa no molho do tomate, o chapéu-de-sol que o dono do bar nos emprestou, radiante, mas desolado de já não ter mais toldos para alugar.
A passagem pela prisão de Pinheiro da Cruz, o trepidar das estradas que continuam a não esconder completamente as raízes dos pinheiros, dezenas de anos de obras mais tarde.
A chegada à curva da Comporta por entre arrozais verdes e berrantes, a curva de entrada na Península, a descoberta dos areais à nossa esquerda, e aquela estrada que todos nós sabemos que tem fim, doze quilómetros mais à frente, e que serpenteia que nem um ébrio, encostando-se à berma do rio, uma imprudência que denúncia o ADN industrial do estuário, encaminhando-se velozmente para o mar, sabendo nós sempre, que ela irá encalhar sem fugas nas dunas de areia, derrapar e estender-se ao comprido reta abaixo na direção de Troia.
Na direção de Troia, não fosse a rotunda do ferrie, o último clássico do dia.
Por isso, mal se estacionam as viaturas no barco que não tem fundo, nem proa nem ré, todos amigavelmente encostados, porque o espaço é precioso, já o povo afogueado desata a correr escadas acima, corredores de corrente de ar – afinal, o barco não tem fundo – um terraço feliz que rodeia o comandante e a sala de controlo, também ela bidirecional, e a malta tira fotografias, respira fundo, salta de janela em janela, banco de madeira em banco de madeira, sobe e desce escadas, tantas vezes quanto andamento do barco permitir.
Enfim, também eles acham que o último ferrie do Sul é o verdadeiro final de festa de um dia de praia
Bom, nem todos. Alguns - poucos é certo -trancam-se nas viaturas indefesas, enchem-se de ares de tédio e fazem figas para que a ponte se abra do outro lado.
Mas esses são poucos, muito poucos e são assim porque não têm História, ou são do Norte.
Tudo mudou, mas nada verdadeiramente mudou neste ícone do Sul.
Tem via verde, a viagem dura mais uns minutos – o que só aumenta a intensidade da experiência – mas sem o regresso no ferrie, nunca teríamos estado em Troia, nunca regressaríamos a casa pela única porta que faz sentido, Setúbal do cheiro a assados e do festim de peixe, espalhado pela Avenida Luísa Todi.
É verdade que há outros clássicos mais clássicos que este.

Mas, puxando pela cabeça, não me consigo recordar de nenhum, que não esteja morto ou moribundo 


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Riviera



Makarska, a Riviera Croata, dizem eles.
Falta espaço em terra, cercada entre as montanhas abruptas e o mar plano, verde, e hoje povoado de um país inteiro.
Numa faixa de praia de cascalho de cinco metros de largura.
Um dia de pausa absoluta, com os pés na água e cercado de toalhas, baldes, crianças e gente em geral.
Depois daquele banho de multidão, o jantar na esplanada do hotel Osejava, no final da marina, com a cidade ao fundo e os ruídos dissipados pela música instrumental a meio tom, pela escuridão da merina e pelas minúsculas luzes da encosta e da cidade velha.

Afinal, há mesmo Riviera em Makarska!