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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

E...Viva o México, segundo Ixca Cienfuegos

 

Afinal o México acaba.
Pelo menos para nós, que partimos!
Do fundo do cenote de Xkeken, flutuamos no rio subterrâneo que percorre as profundezas do Yucatan, ao que consta resultado da queda de um meteorito que extinguiu os dinossauros e deixou esta terra com milhares de buracos que descobriram rios, outrora escondidos no infra mundo.
E olhamos para cima, nós e os morcegos, e vislumbramos um céu azul e dezenas de raízes a tombar pela terra abaixo.
Seria a nossa última visão do México, se não tivéssemos de regressar à superfície para voltar a casa.
E alguém disse que, se calhar, tinha valido a pena extinguir os dinossauros, para isto.
Para quem flutuava nos cenotes, era uma heresia genuína e, sei lá porquê, só me lembrei de kundera, na sua insustentável leveza do ser.
Em Valladolid acabou a imersão de México, muito apropriadamente nas profundezas do México em sentido literal.
Mas, porque a imersão mexicana vive-se na rua, voltámos às esquinas da cidade onde se pode comer uma sandes de leitão por quarenta e cinco pesos, uma espécie de roulottes que constroem sandes enquanto os condutores esperam pelo semáforo verde, tudo muito dinâmico, há bancos para sentar, balcão para encostar, take away entregue no veículo em andamento e nem os detritos despejados do telhado retiram a motivação que reina na esquina da calle 41 com a calle 44.
E, de sandes de leitão na boca, percebemos que, afinal o México sempre acaba, um dia.
Mesmo depois de uma alegada propina paga à guarda nacional - o visado nega, o colega suspeita - para um perdão de multa por excesso de passageiros a bordo do veículo que nos transportava, eles nunca estão aqui, argumentava o colega, mas afinal estavam hoje, azar ou afinal de contas uma sorte de ter sido perdoado, ou talvez não, apenas o acaso.
Afinal ninguém foi preso e o México não quer acabar mesmo.



No dia anterior, tínhamos visitado a maravilha do mundo maia, mas ontem demasiados como nós tiveram a mesma ideia - mas ao que consta é sempre assim, não é uma questão de sorte - e o esplendor do local perde-se na relva e nos ruidosos turistas que, ao contrário dos de Palenque, não tinham visitado o grande museu maia no dia anterior, e tinham gasto uma parte importante das doze horas de imersão mexicana, que lhes foi prometida,  no autocarro que os trouxe das praias da Riviera maia.
E, por isso, em vez de se deslumbrarem em silêncio diante a pirâmide quetzal, interiorizando a energia que podia emanar do local, enchem o ar de inconveniências que quase destroem a magia de Chichen Itza, a maior cidade do lado mexicano dos maias.
O resto da magia sobrevivente foi então tragada pelos milhares de vendedores ambulantes que entupiam os caminhos e conseguiam esconder os vestígios arqueológicos menos exuberantes, os que, apesar da selva e do esquecimento humano, ainda arranhavam a superfície do sitio arqueológico.
Mas não podíamos deixar de vir, alguém lembrou, por causa da pirâmide, do templo dos guerreiros, da praça das mil colunas, do grande jogo da pelota, da plataforma dos crânios, do templo superior dos jaguares, do caracol do observatório ou do conjunto das monjas, o que faz de Chichen Itza um lugar onde até os mitos comprovam a existência de um passado que deixou raízes que explicam porque é que tanta gente ainda fala dialetos maias no Yucatan.
E enquanto o António, o guia local,  construía a narrativa animada e pintava as cores do que terá acontecido no local, como os rituais que precediam as grandes epopeias, a adoração a Ek Chouah, o Deus do cacau e o protetor dos comerciantes, rituais antes e os sacrifícios apenas depois, a única forma de agradecimento e apaziguamento dos deuses, nós imaginamos o que seria o estádio de pelota cheio - e o estádio de Chichen itza é enorme - o Conselho de nobres intelectuais e religiosos a sul, a norte os guerreiros, o rei na casa do jaguar e os burgueses nas bancadas laterais, e só havia um jogo sagrado, em cada 52 anos, quando o  calendário solar de 260 dias e o lunar de 365 dias se encontram e era um fim de um ciclo. 
Assim os festejos deviam ser especiais, um jogo de pelota, sete contra sete, os melhores contra os melhores e, no fim, o melhor era sacrificado e assim acalmava os deuses  que, ficando contentes, seriam generosos para o ciclo seguinte.
O sacrifício era voluntário e o escolhido era decapitado por um jogador da equipa derrotada, uma honra para os escolhidos, porque para os deuses só servia o melhor.
Mas, porque os Maias eram civilizados, eles tinham de controlar o tempo, e por isso desenvolveram um calendário ligado às culturas e a astronomia e o controlo do tempo pelo calendário leva à prosperidade das sociedades sedentárias, através do desenvolvimento da agricultura.
E, à medida que o António se entusiasma com o que sabe e com o que perguntamos, deixamos de ouvir os sons da ignorância e da soberba contemporânea e imaginamos o mundo maia em todo o seu esplendor e contradições.
Sim, afinal tínhamos mesmo de vir!
Em Valhadolid,  provam-se doces de mel e nutella, temperos de chili e mel, rezam-se terços de janelas abertas para a rua, na Calzada dos Frailes, enquanto os turistas da Riviera maia desembocavam dos autocarros na praça principal, às centenas, ainda receosos, hesitantes, para a parte dois das suas doze horas de imersão no profundo mundo mexicano, mas não arranharam mais do que apenas uma das muitas camadas com que se veste este povo.
Na primeira noite na Cidade do México, descobrimos, entr
e as paredes escuras da cidade adormecida. um painel de azulejos, colado numa esquina do centro histórico com um excerto do livro “La region más transparente” do escritor e diplomata mexicano Carlos Fuentes de 1958.
Só hoje, consegui encontrar uma forma de o traduzir para a realidade do mundo deles:
" O meu nome é Ixca Cienfuegos, nasci e vivi na Cidade do México. Isso não é grave. No México não há tragédia. Tudo se torna uma afronta.
Afronta, este sangue que se queima como a ponta de um agave ( planta suculenta, matéria prima da tequila)
Afronta, minha paralisia desenfreada que coagula a cada amanhecer. E o meu eterno salto mortal até ao amanhã.
Jogo, ação e fé do dia a dia, não só nos dias de recompensa ou de castigo: vejo os meus poros escuros e sei que serão proibidos lá em baixo, no fundo do vale."
Viva o México porque ele nunca acaba.
Tenho a certeza!




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Os hijos de Dios


 No museu Palácio Canton, no muito célebre Paseo Montero, a tal avenida da soberba, está em exposição Hijos de Dios, uma reportagem fotográfica sobre a diversidade religiosa na península do Yucatan. um fotógrafo que conta as histórias de vida dos católicos, dos crentes de Pentecostes e dos Menonitas.
São imagens contrastadas, no uso das cores, mas também nas escolhas do enquadramento, cheias de histórias que ficam por contar, porque é mesmo assim com as boas imagens.
No Palácio Caton, a ambição do estado cultural é imensa, pretendem narrar as origens e a história do comércio no tempo dos maias, o que é um projeto vago pela imensidão do período de análise e não é um feito desmesurado, pois os maias, muito avançados nalguns ramos da ciência, não dominavam a roda nem a moeda, o que tornava o comércio um exercício difícil e até um pouco aborrecido.
Depois também tem a ambição de contar a história do palácio e dos seus antigos residentes ou proprietários e o que o estado fez pela sua memória, quando tomou conta deles, a partir do século vinte.
E, além disso, o desfile temporário dos filhos de Deus.
Muita ambição para um estado e para um palácio só.
A história da vida no palácio confunde-se com a do General Francisco Canton, um residente famoso e resiliente e que se foi adaptando com arte aos tempos conturbados da mudança de século, do dezanove para o vinte.
Foi militar e combateu as revoltas indígenas, foi político, mas assistiu impune à queda de Porfírio Dias, ao assassinato de Madero, e de todos os revolucionários que a revolução tragou ao longo dos dez anos seguintes e ainda teve tempo de ser empresário, uma terceira vida que atravessou sem grandes sobressaltos a constituição revolucionária de 1917, uma prova viva de que o ímpeto revolucionário perdeu muita intensidade ao chegar ao Yucatan.
Mérida é uma cidade grande e nota-se também pela ambição do Estado e pela qualidade do comércio local, a verdadeira montra da diversidade cultural do país.


Do outro lado da rua, o gordito acena a cabeça e continua a limpar o pó dos seus manequins, o jovem entusiasta da loja da frente faz um desconto de quarenta por cento na árvore da vida, como se se tratasse de uma bênção que garantia um futuro de saúde e sorte, na geladaria não havia descontos, mas havia sempre um sabor extra, agora que as esquinas guardavam as cores do fim do dia, os restos do sol amarelo entre as nuvens negras das promessas tropicais.
E, nos corredores e nas arcadas do palácio do governo, a tradição mantém-se depois da noite precoce cair nos pátios anteriores, onde Fernando Castro Pacheco, um discípulo tardio de Rivera, enche as paredes do poder com as cenas épicas das lutas eternas do México, como se fosse necessário lembrar aos políticos que é o povo, e não o patrocínio das artes, que os elege e para quem eles devem governar 
Na lucha eterna do México, a águia que representa o bem, combate a serpente que corporiza o mal, esperando uma vitória do bem, a libertação do povo mexicano e de todo o bem que há nele sobre os negros presságios do mal, a corrupção, a exploração e a miséria.
E as paredes contam também histórias da conquista do yucatan, da escravatura, da guerra das castas, um mural com s figura de Salvador Alvarado, o homem que aboliu a escravatura, sempre o México em carne viva e cores quentes.
Na loja de artesanato, ele fala português es brasileiro? Não,  la chica, la novia? Sim, mas não mais, e faz uma cruz no ar, para que não restassem equívocos.
Mas Mérida é uma cidade grande e nota-se especialmente pela noite.
Em La Negrita, há música ao vivo, margaritas e guacamole, a banda toca alto demais e afoga a voz da vocalista que nunca consegue combater contra a banda inteira e por isso não desperta as emoções na plateia que come e se diverte independentemente dos esforços infrutíferos, em palco.
Na casa Kau, um lounge pateo, ainda existe um disco jockey e bolas de espelhos na pista de dança, o único espaço coberto do Páteo, cercado de paredes amarelo vivo, Fridas e outros ícones da arte de rua.
E enquanto dançamos, o disk jokey começa a entusiasmar-se e vai passando musica cada vez mais antiga, procurando aproximar a realidade, tal como ele a vê, com a nossa alguma antiguidade em pista.
Afinal de contas, somos todos filhos de Deus.
E como o México, no hay dos!




O homem Maia foi feito a partir do milho


Mérida é uma cidade grande. 
Percebe-se pela dimensão dos seus arredores, pela densidade do seu tráfego de final de tarde, pela forma como as ruas se inundaram quando uma carga de céu negro tropical desabou sobre a cidade, por ter um aeroporto moderno, uma autoestrada sem buracos e uma linha de comboio brilhante de novo, sugestivamente chamado de Tren Maya, especialmente surpreendente num pais quase sem comboios de passageiros.
Por ser a capital do estado de Yucatan, um nome que nasceu por equívoco, ou pouca vontade dos invasores espanhóis em preocuparem-se com detalhes indígenas
"Como se chama esta terra?" - terá perguntado o Caudillo aos índios
Estes, não entendendo o Caudilho responderam com outra pergunta " O que dizes?" ou, em dialeto maia *Vic Athan?" E então o espanhol - que também não terá entendido o maia - resolveu o assunto ordenando aos seus súbditos ou capatazes que se chamasse Yucatan, a esta terra. Com equívocos descuidados como este - normalmente em cenários que ninguém questiona o chefe - ja se desencadearam muitos conflitos, pelo mundo fora.
Ainda assim, Yucatan ficou e este não foi, de todo, o episódio mais sangrento da história da colonização do México.
Já quanto às origens do nome da sua capital, julgo não existirem grandes dúvidas.
Yucatan é um lugar de exploração e de soberba, porque foi uma zona de plantações, grandes senhores rurais e mão de obra escrava e, quando a escravatura foi abolida nos primórdios da independência, passou a ser uma terra de senhores e assalariados.
As primeiras grandes fortunas nascem do cultivo e transformação do açúcar e do sisal, e a soberba dos senhores de Yucatan ainda hoje é visível nalguns dos palácios construídos ao longo da enorme avenida Montejo, alguns ainda residências de família mas outros transformados, pelas famílias, em museus ou tomados pelo estado para transformação em patrimónios vivos de uma época, com utilizações contemporâneas ao serviço  da cultura ou do ensino da sua história.
Assim sendo, diria que todos os povos têm direito à sua soberba e que, sem ela, haveria poucos despojos materiais vivos para ilustrar os feitos (ou, pelo menos, os factos) da nossa história, sejam as cidades estado maia, sejam as igrejas construídas com o ouro americano, sejam palácios construídos pelos senhores rurais, com a fortuna do sisal.
Claro que sem juízos de valor nem interpretações da história baseadas nos valores ocidentais e humanistas de hoje.


Mas o Yucatan é também um lugar de revolta, porque os Maias nunca foram um verdadeiro estado mas sim um conjunto de cidades estado com poderes descentralizados e concorrentes - há quem afirme, de forma muito convincente que o maias eram os piores inimigos dos maias - e , quando os espanhóis chegaram ja não habitavam as grandes cidades maia e, estando dispersos, lhes resistiram com mais persistência, dificultando a sua absorção (ou aniquilação) tendo mantido uma guerra de atrito com o estado mexicano dos brancos e dos mestiços, para defesa das suas terras e dos seus costumes, durante toda a segunda metade do século dezanove.
E, apesar de derrotados na guerra das castas em 1901, as diversas subculturas maia são hoje mais vivas que a dos povos do Norte. descendentes dos aztecas e dos seus contemporâneos.
Assim, o legado maia vive-se tanto nos mercados de Campeche e do yucatan como nos museus regionais.
Não os retiram da base da pirâmide social, mas dão-lhes outra confiança e outra sensação de pertença, ajudam a construir o contraditório, e ajudam a explicar a nova versão oficial da história dos maias, contada no muy moderno grande museu da cultura maia, em Mérida.
Visto desta forma, talvez a forma grandiloquente como o regime trata hoje a herança maia não seja apenas uma construção ideológica para justificar um grandioso presente  da nação mexicana.
Mas o presente é mais subtil e menos épico que a história declamada.
O autocarro suburbano (coletivo) que se atravessou à nossa frente algures, no centro histórico, publicita. nas traseiras, todos os cursos superiores disponíveis na universidade local.  Mas lá dentro, só se viam rostos fechados, de gente sofrida e indígena e com expressões pouco dadas aos diplomas e aos estudos e muito consumidas pela energia despendida em longas horas de trabalho e de transporte para as distantes periferias.
E mais uma vez ficamos com aquela sensação, muito mexicana de que o bom e o mal devem ser divididos entre todos os autores de uma contenda (enfim a uns mais que a outros) de forma a evitar finais absolutamente felizes.
Segundo o livro sagrado Popol Vuh, o Homem Maia foi feito a partir do milho, surgiu da fecundidade amarela da maçaroca, sustentada pela mão do bacab do Sul, diante da observação daa estrelas que iluminam a noite na mão branca do Bacab do Norte.
O Ocidente e o por-do-sol são a origem dos ventos maus, simbolizam a guerra, os animais da noite, a fome e a morte e o seu Bacab é negro
Vermelho é o Bacab do Oriente donde vêm as chuvas preciosas para as grandes colheitas que dão vida aos homens, assim como às ciências e às artes.
O destino do Yucatan é assim uma espécie de luta entre o ocidente e o oriente maia.
Pois!



terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A Máscara de Calakmul

 


A nossa manhã é, como sempre, precoce, e vamos acordando com a cidade, com os locais, como se, todos os dias repetíssemos o ritual de iniciação à imersão local, seguindo as passadas de quem vai trabalhar ou às compras ou apenas perder-se na cidade em que toda a vida viveram.
Um calor húmido dos trópicos debruçado sobre o golfo do México entorpece a nossa vontade, mas o ritmo também baixou, os ruídos são mais lentos, as cores tornam-se mais diluídas tipo mate, e os sons tornam-se mais abafados.
As igrejas recebem os fiéis, quase sempre mulheres idosas que se recolhem sob a proteção do seu santo, mas naquela igreja particular na esquina da rua 57 - sim, em Campeche, as ruas têm números - as mulheres estão todas de joelhos viradas para o altar e uma delas reza em voz alta, e as outras seguem-na, e a igreja é delas, em relação direta com o criador, sem intermediários, e aqui os sons saem nítidos e transparentes nesta missa rezada sem padre.
Junto à muralha sul, há um pequeno museu com vestígios das cidades maia, retirados dos inúmeros locais arqueológicos que rodeiam Campeche, e este local de culto maia, obrigatório para jovens estudantes, é também um dos empregos seguros em que o estado assume função social para um rácio generoso de vigilantes por cada vestígio arqueológico encontrado.
Entre a muralha e o mar, o tempo e os homens foram aterrando marés ao longo dos séculos e construíram múltiplos equipamentos sociais, instalações de organismos públicos e uma generosa avenida marginal.
Fora da muralha ficaram os menos afortunados, os que fazem fila à porta do  banco do bien estar ou a mulher em cadeira de rodas e chapéu de sol que cantava na esquina da rua 55, cantava para sobreviver.
E o mar de Campeche é sujo e baço, daqueles lugares que o mundo parece ter escolhido para despejar todo o seu lixo.
No mercado da cidade vendem-se bananas a 20 pesos a dúzia, revistas e jogos de azar, legumes e outras frutas, carne e flores, sandes de leitão ao almoço, e a agitação que se vive nos apertados corredores do mercado parece indiferente à humidade que sufoca apenas quem não vem aqui para comprar.
E no mercado de Campeche tudo é negociável.
Menos a Máscara de Camakmul, cuidadosamente escoltada por zelosos funcionários, dentro das muralhas do museu local.



sábado, 27 de dezembro de 2025

O lugar das grandes águas

 

No dia 15, entramos na vertigem do final, a mesma vertigem com que começamos a descer das serras do interior central para as planícies do yucatan e para o mar.
E, contra as piores expetativas possíveis, não nos cruzámos com a revolução zapatista que consta ter o hábito de descer dos montes e montar umas portagens informais no meio das estradas
Anda tudo tão calmo com a revolução - segundo informações pouco fidedignas - aparentemente em reflexão silenciosa, agora que, passados trinta anos, desapareceu o efeito surpresa, e que o mundo e a perceção popular do que uma revolução pode ser, mudou.
E, em Palenque, o lugar das grandes águas, provavelmente devido as cascatas de água que existem no local, situa-se o sítio arqueológico, o charme maia entre a planície e a serra, no meio da imensidão da selva.
Toda a envolvente desperta o melhor que há nos nossos sentidos, mistério, natureza e antiguidade de esplendor maia, como se o mergulho da tarde nas cascatas da água azul, nos tivesse purificado a alma e preparado o corpo para os rituais maias do dia seguinte.
No hotel MayaBell, os ruídos da selva confundem-se com a chuva e com os sons dos clássicos que se ouvem no arejado bar do hotel.
O Templo das Inscrições, o Palácio e o que se julga ser a sua Torre de Observação Astronómica, o Tempo da Cruz e o Templo do Sol são estruturas notáveis que realçam da selva, mas também do silencio que ainda reinava naquela manhã precoce, no lugar, onde os ainda poucos visitantes entendiam o privilégio e olhavam, com respeito, para as realizações dos nossos antepassados que viveram, mais de sete séculos, nas fronteiras do mundo maia, mas também nas fronteiras entre os reinos da planície e das montanhas.
Voltámos a estrada, e à musica dos clássicos, e em Catazajal em frente ao lago, comemos ceviche e peixe de rio assado ao vapor, enquanto observamos as crianças que regressam da escola para casa de barco e fazemos figas que ave predadora que sobrevoa o local não ataque as famílias de patos e de aves de pequeno porte que posam na vegetação anfíbia que se ondula, em frente aos nossos olhos, como se de uma miragem se tratasse.
Atravessamos terras de ganadeiros e voltamos a ver pequenos mexicanos de grandes chapéus de volta de estábulos que forravam a paisagem.
O condutor - o gordito já chegou, teria atirado o nosso intermediário, no inicio da viagem - mantem-se firme no compromisso de chegar a horas e não se desfazer nos buracos de uma estrada de bom traçado, mas a precisar de reparação desesperada e trás, no banco da frente, a mulher e a filha de quatro anos, como se precisasse de nos inspirar confiança.
Os camiões são grandes, muitas vezes com longos reboques, tao grandes como o México consegue ser, mas o gordito também é imenso e nunca nos desilude, naquele soberbo sorriso de um otimismo tal que nos deixa, invariavelmente. comovidos.
Ao anoitecer chegamos ao mar do Caribe, às noites quentes e húmidas, aos sons tropicais, aos homens temperamentais, os descendentes dos piratas que assolaram a costa e as muralhas e mudam outra vez os cheiros e as cores.
Ao anoitecer chegamos a Campeche.
Mas o gordito e a sua família voltaram para casa naquela mesma noite. Sem tempo de descanso.
Por isso. o otimismo deles é tão extraordinário.



Revolution e /ou Fe

 

A Livraria Cosecha é um recanto de revolução, no sentido puro do tema porque apela ao estudo, à reflexão abrangente da realidade que nos rodeia e à ação comprometida através da palavra escrita e da partilha da diversidade.
Sem destino preciso folheei "Sobre o duelo" de Chimamanda Ngisu Adichie, uma história de separação entre pai e filha, o pai que morre na pandemia, longe, na Nigéria 
É um espaço apertado, cuidadosamente organizado por temas, produtos gráficos e literários e autores improváveis, temas de investigação. todas as feridas que matam o México e o mundo, a emigração, o narco, as endémicas guerras do mundo, um altar do dia dos mortos dedicado a uma criança morta na Palestina, a coleção de postais dos zapatistas, do comandante Marcos, cartazes com mensagens fortes ou cores expressivas com personalidade de tradição indígena, prémios Camões, Pepetela e Lídia Jorge, e imagens da mesticidade, edições de investigação e revistas universitárias.
Num país em que a palavra Revolução se proclama tão alto e se repete tantas vezes como se perde com frequência em discursos de retórica e deixa de lado os mais excluídos, aqueles que não tem sequer acesso à palavra, a livraria Cosecha em San Cristobal de las Casas é um lugar que respira inclusão e diversidade, numa voz firme, mas contida, deixando as interpretações ou as opiniões para as quem quiser aprofundar.
Revolucionário, portanto 
No cemitério de San Cristobal neste domingo, dois de novembro, vive-se a festa católica do dia dos mortos, rituais diferentes dos maias, um cemitério católico com campas e jazigos mas a mesma festa que no dia anterior, apenas de uma forma um "pouquito mais católico" porque as famílias vêm para os jazigos, comer e beber, jogar jogos de família e partilhar recordações e bebidas, como a mistela chamada Nancy.
Beber com amor porque estão felizes por receber os seus mortos
Porque basta não os esquecer.
Como referia uma transcrição de Pedro Lemebel, a quem o New Yorker apelida de uma voz radical para tempos calamitosos, colocada ao lado da porta de entrada da livraria Cosecha "Olho de louca não se equivoca"




domingo, 21 de dezembro de 2025

Dia dos Muertos nas aldeias de Chiapas


 Os maias acreditam que regressam dos mortos depois de uma viagem de meses através do infra mundo 
Não acreditam na reencarnação, mas acreditam que o espirito ou a alma voltam de alguma forma ao nosso convívio, desde que não te esqueças deles. Por isso insistem em lembrá-los!
E é por isso que festejam o dia dos mortos.
Em San Juan Chamulla, festeja-se o dia dos mortos no cemitério da aldeia e a tradição é uma mescla de religiosidade católica  e de  crenças maias e a manhã do primeiro de novembro no cemitério é uma experiência  de todos os sentidos. 
Primeiro visto de cima, parece um formigueiro de gente e sons de bandas mariachis, num terreiro desordenado e sem cercas, onde se destacava uma igreja em ruínas, vitima de um terramoto fulminante que a deixou sem remédio a ela e aos quatro santos que lá viviam,  estes últimos sobreviventes do terramoto mas severamente punidos pelos aldeões, porque foram incapazes de proteger a capela.
(Hoje jazem na nova igreja com os braços amputados e sem direito a veneração dos fieis).
Visto de cima, só se percebe que estamos sobre o cemitério, porque era pressuposto ser esse o nosso destino.
Não existe uma definição precisa de campas. por definição não existem túmulos de pedra, são apenas montes de terra, com a forma de ventre materno, o ventre da mãe terra, e apenas os mais católicos guardam os seus mortos debaixo de estruturas construídas,  uns uma espécie de lápides, outras uma espécie de albergues, ou mesmo casotas, que delimitam a propriedade de cada defunto.
Mas quando descemos ao nível dos mortos, antes das almas regressarem do infra mundo e voltarem a pairar sobre a cabeça dos familiares que os homenageiam e recordam, desfazemos as duvidas que caminhamos sobre os mortos, porque pisar as campas não é desrespeito, mesmo que algumas campas estejam delimitadas por pequenas sebes de flores e outra vegetação que cruzamos com pudor mas sem dificuldade.
Os tsotzils (é este o nome da etnia que habita Chamulla) falam exclusivamente a língua deles e falam alto, reconhecem os familiares e os amigos e, supomos nós porque não deciframos a sua língua, folheiam as memórias dos antepassados enquanto depositam oferendas, comida, flores e coca-cola nos seus túmulos e continuam  uma alegre cavaqueira, não  pestanejando sequer, perante a nossa presença e o nosso excesso se pudor.
O espaço não é limpo, mas mesmo a desordem que reina sobre as campas, sobre as famílias que se empoleiram por cima dos mortos ou em redor das bandas de mariachi que são pagos para atuar em concertos de música popular dedicados aos familiares defuntos, parece ser parte essencial do ritual.
As cruzes são os únicos sinais que identificam os defuntos e as cores têm significados muito próprios, as brancas dizem respeito. a crianças, as negras identificam os mais velhos.
As famílias inteiras ignoram-nos na nossa falta de jeito em nos querermos integrar nas suas celebrações dos mortos deles, mas talvez eles sejam apenas as leoas que, no seu espaço de conforto, brincam com as suas presas, quando pressentem o medo, antes de as comer.
 Com as devidas distâncias, entenda-se, nós somos apenas a contrapartida voyeurista dos seus rituais, que eles acreditam que precisam de ser contados ao mundo, nas não mostrados, para assim inspirar temor e o respeito, o ambiente é de uma festa controlada, mas  descontraída.



Na porta da igreja de Chamulla, rebentam os foguetes sobre as nossas cabeças ,sem aviso prévio, como se eles estivessem a testar a nossa resiliência, antes de permitir a nossa entrada no templo único da realidade de Chamulla , uma absoluta demonstração da fé mestiça.
Ainda antes de transpor a porta, largam as cordas do sino da igreja e, por pouco, não nos atingem, eles riem-se do nosso inesperado, afinal de contas fazer tocar os sinos a rebate a partir do meio da praça, agora que se afastava o meio-dia, não é afinal comum, no nosso imaginário religioso. 
Mas a comunidade de Chamula também não é  comum.
A igreja de Chamulla estava hoje menos cheia que o habitual, mas vivia-se o mesmo ambiente de espécie de transe de fé,  o chão coberto de caruma que facilita a comunicação com os quase duzentos santos, os rituais das velas acesas junto ao altar, cada cor de vela tinha associada uma razão para a homenagem ou pedido de ajuda aos santos, e um fumo espesso pairava sobre os santos múltiplos ou sobre o altar, onde um dos santos tinha a cabeça tapada porque hoje não era o dia indicado para aquele santo ser visto pelos mortais.
É uma igreja sem lugares sentados, como se não fosse compatível a devoção com o conforto, e expõe com o direito de renuncia, os três elementos para eles dissonantes, mas representativos da fé católica, a cruz, que representa o sofrimento. a pintura do dilema entre o céu e o inferno, que os crentes de Chamula não creem e a pia batismal, que representa a repressão decorrente da evangelização forçada. 
Em San Juan de Chamula, as famílias de estatuto e recursos na aldeia tomam conta de cada um dos muitos santos da igreja por um ano, uma despesa que não está ao alcance de qualquer um, mas representa uma honra irrecusável que proporciona estatuto, mas também poder, numa comunidade em que o Estado parece não ser bem vindo, o conselho de anciãos substitui o município e a polícia é substituída por uma milícia local.
Como os curas da igreja a quem todos se dirigem. quando têm uma enfermidade e as mais difíceis são as doenças sobrenaturais (por contraponto as naturais) apenas resolúveis  com o sacrifício de, pelo menos, uma galinha.
Mas hoje, dia de celebração dos mortos, a igreja não estava cheia e nenhuma galinha se apresentou hoje para sacrifício involuntário. 
É uma comunidade desconcertante, que rejeita as formas e os  rituais da igreja católica, porque impostos por um povo invasor, mas adota a Coca Cola como um dos elementos centrais dos rituais religiosos, rejeitam todos os rituais da igreja católica exceto o batismo (apesar de o associarem a este sacrifício imposto pelos espanhóis aos indígenas, portanto um mal necessário, para poderem aceder aos múltiplos santos que veneram especialmente a São João Batista, o santo maior, mais venerado que Jesus Cristo), não se casam e permitem a poligamia por parte dos homens, não aceitam cultos alternativos, como os evangélicos, nem as uniões de facto com parceiros de outras comunidades. 
Como não permitem que os fotografemos, pois eles acreditam em algo parecido com a ideia de que os espelhos das maquinas lhe roubam as almas.
É uma comunidade de múltiplas camadas, em que não existe uma lógica cartesiana que a defina, rejeitam tudo o que lhes pretendem impor de fora por isso rejeitam também os zapatistas. que iniciaram a sua "luta de libertação " em 1994 nestas comunidades, apesar destes terem iniciado esta revolução tentativa, com o objetivo de emancipar os povos indígenas do poder central e invasor 
Conforme opinava Raul, esta comunidade é um mundo à parte, mesmo na muito particular região de Chiapas, cujas comunidades falam quase uma dúzia de dialetos e em que as velhas tecedeiras da aldeia vizinha de Zinacantam diziam ser bom falar com ele em espanhol para poderem aprender, falamos mas não lemos nem escrevemos, exprimia-se ela num espanhol sofrível.
Mas neste sábado de manhã do dia um de novembro, é verdade que entrámos numa realidade paralela, resultado de séculos de choque, mas sobretudo de harmonização de culturas.
Mas neste sábado de manhã percebemos que, independentemente da forma como cada mexicano interpreta os rituais da religião, todos os mexicanos têm uma relação muito distinta com a morte, daquela à qual somos familiares.
Como disse o poeta Pablo Neruda, se nada nos pode salvar da morte ao menos que o amor nos salve da vida.
Naquele sábado de manhã, nada me pareceu mais verdade.




A caminho da selva

 


De Oaxaca a Tuxla Gutierrez são mais de quinhentos quilómetros através das montanhas do maciço central, com paragem em Tehuantepec, a cidade que dá o nome ao istmo e, ai, regressam as planícies, as palmeiras e o gado.
E a noite passou-se na estrada, mais de quinhentos quilómetros numa luta entre um primeiro motorista enfurecido e as curvas abaixo, curvas acima, e de manhã chegámos muito combalidos, dois motoristas depois, a Tuxla, a capital de um novo estado.
Chiapas é um mundo diferente de mais de vinte línguas, povos e culturas pré-hispânicas, um velho mundo de rituais e uma nova realidade de revolução zapatista, entrelaçadas por redes de crime organizado, que parecem querer monopolizar os sentimentos de pertença, de comunidade e até a cultura indígena dos povos remotos das montanhas.
Mas entre a primeira parte da viagem, a descida abrupta e em vómito do primeiro motorista até Tehuantepec e a pausa sonolenta dos outros motoristas ao longo das planícies em Juchitan e Ixtepec, pouco tempo nos sobrou na noite, senão para procurar sobreviver à sensação de fronteira e de vertigem.
Dizem as histórias escondidas pela noite que é no istmo que desaguam os pobres dos pobres, vindos dos países vizinhos, agachados pela lama, curvados nos comboios de mercadorias que atravessam o continente em direção ao el dorado que, para muitos, será só uma ilusão.
Mas por volta do istmo, tínhamos acabado de adormecer das tormentas e certamente que os vultos gastos e curvados que vislumbrámos através da janela do autocarro terão sido apenas sonhos de uma mente sugestionada, fantasmas na terra de ninguém.
De manhã, em Chiapa del Corso, vive uma comunidade indígena pautada pela indolência do vale e o clima mudou, instalou-se o calor e a humidade, e também no clima há uma nova fronteira no interior do México. 
E porque nem todas as historias que se contam de Chiapas são histórias, a presença policial e militar tornou-se mais persistente e, porque a realidade em  Chiapas não permite a construção de modelos de realidade absolutos, CERO corruption  era a frase preferida, escrita nas pontes dos viadutos que cruzavam as vias rápidas, nos muros brancos que se confundem com os placards de publicidade da era antiga (as que protegem os que vivem nas bermas das estradas e as vidas das pessoas que vivem nos bairros) ou nos vidros das pick ups da guarda nacional
E nós decidimos dedicar-nos a tarefas mais mundanas e apanhamos um barco a motor para o Canon del Sumidero onde só havia rio, selva, montanhas, crocodilos e montões de lixo acumulados no leito do rio.
Todas as viagens devem ter um momento ecológico, diria o J, e o vento fresco fez bem à minha noite de insónia e vómito.
Ao fim da tarde, voltámos a subir às terras altas, às noites frias, às comunidades indígenas de montanha, aos rostos remotos do isolamento, dos rituais singulares e, esporadicamente, da revolta zapatista.  



sábado, 13 de dezembro de 2025

Dios nunca muere

 


O mercado 20 de novembro está ligado à data de início da revolução mexicana de 1910, apenas por convicção de um grupo de cidadãos que decidiu eliminar o nome original de mercado industria para castigar o petulante ditador Porfírio Dias e restaurar a modernidade neste espaço de cultura e gastronomia Oaxaquena, construído nos finais do século dezanove para albergar os comerciantes da praça de armas, as tradições de uma região inteira e as histórias das vidas de cada dos seus comerciantes.
Não há mercados iguais, nem diferentes,  mas em Oaxaca os rostos deles são mais sorridentes,  como se os locatários quisessem assumir a sua herança de ponte cultural entre os locais e os visitantes, dando um cunho quase pessoal a cada um dos corredores,  o corredor do fumo onde os transeuntes são engolidos por dezenas de grelhadores de mistas de carne a grelhar a céu fechado ( uma espécie de céu aberto, mas dentro de um recinto fechado) ou o corredor do chocolate onde podes comer ou beber chocolate solo ou acompanhado e nesse corredor não faltam cheiros, mas delicados, profundos e muito seletivos, o corredor do pão, o corredor do queijo e, claro, o corredor do mescal, com sal e limão ou apenas forte, para melhor apreciar o sabor.
Um mercado que transborda os espaços confinados e se estende, quarteirão a quarteirão, cidade acima, primeiro especiarias e ingredientes, depois têxteis e cerâmicas e, quando chegamos às redondezas da calle Macedónio Alcala, o artesanato e arte pura nas galerias da cidade.
Mas no México não há direito ao presente sem uma herança histórica substancial - ou, em ausência absoluta de, pelo menos, uma linha no compêndio de história nacional - pelo menos três milagres devidamente comprovados, três atos heroicos pós-independência ou uma personalidade consensual nascida entre portas.
E em Oaxaca nasceu e lutou Benito Juárez contra os franceses e em Oaxaca situa-se uma das mais antigas cidades do período pré-hispânico, muito antes dos períodos áureos das civilizações maia e azteca, fundada ao que consta em quinhentos anos antes da nova era (uma versão envergonhada do nascimento de cristo) e suficientemente resiliente para durar mil e trezentos anos para depois ser abandonada pelos mesmos não motivos totalmente claros - mas todas as hipóteses conduzem nos à loucura humana - como a generalidade dos centros populacionais mesoamericanas do período pré-clássico e clássico que durou até ao seculo nove: finalmente, conhecemos Monte Alban


Na fila do autocarro ( que não era bem um autocarro, era mais um daqueles decanos coletivos que, pela sua excessiva idade mas falta de rendimentos suficientes foi emprestado a uma transportadora de garagem para uma pré-reforma esforçada antes do merecido descanso final) a velhinha, que era um posto avançado dos transportaciones turísticas Mitla, porque encaminhava os clientes desde a porta da garagem, por mais de três metros, até a uma bilheteira, que era afinal uma mesa de madeira com um bloco de bilhetes em cima, que obrigava os clientes a sentar-se nas poucas cadeiras espalhadas pelo resto da garagem que a organização deixava livre, e afastava os outros do meio do passeio para que não impedissem a passagem e, finalmente, conduziu-nos a todos pelo meio da rua, do tráfego intenso, dos vendedores ambulantes para um lado nenhum geográfico onde o cambaleante com rodas iria chocalhar até  se deter uns minutos depois num lugar que só ela sabia ser o adequado, a velhinha (isso mesmo) abanava as mãos e repetia, sem emoção, "tenham calma porque vão visitar um sítio arqueológico" e havia qualquer coisa de espiritual e místico neste anuncio.
E tinha razão!
Foi um local habitado durante mais de mil e trezentos anos por uma sucessão de povos, e os seus terraços, barragens, canais, pirâmides e montanhas artificiais, foram escavados na montanha e são os símbolos de uma topografia sagrada.
Num dos muros ainda visíveis no complexo, estão esculpidas as estatuas dos dançantes, inicialmente associadas a eventuais rituais e danças mas, após análise mais detalhada, foram identificadas como sendo imagens de governantes e dirigentes de povos  vizinhos, primeiro capturados, depois mutilados e por fim mortos em sacrifício para ofertas de sangue aos deuses, após o regresso de batalhas, eram afinal escravos em posições de sofrimento. 
Nada no mundo antigo pode, afinal, ser explicado à luz dos olhos de hoje
Ao meu lado, no coletivo, uma senhora com dois gémeos, ele Filipe ela talvez Marinela, nasceram com um minuto de diferença, talvez ele mais tarde porque ela tem um ar de desafio de quem não se deixa dominar.
Ele sentou se entre os dois bancos e adormeceu 
E eu também 
Amigos de ombrinho, sem termos trocado mais de que uns olhares.
E sonhamos os dois com as personagens e os desfiles que estavam a chegar para o dia dos mortos!



sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Mujer si puedes tu con Deus hablar

 


A noite de Oaxaca é vibrante, não fosse a capital do turismo mexicano e o ícone para todos os visitantes do dia dos mortos.
E a atmosfera rodeia-se de uma cor e de um tipo de luz que parece não querer condizer com a proximidade da data. 
No El Negro, cozinham os especialistas em Tlayudas da cidade, uma espécie de pizza de tons e sabores mexicanos, a cerveja serve-se com sumo de limão, gelo e sal à volta do copo e o entertainer não se revela um especialista a cantar, por isso se intitula, por precaução, de comediante.
Na manhã seguinte procuramos a biodiversidade no jardim etnobotânico que parece estar em cambio administrativo, segundo o primeiro funcionário ou, de acordo com a segunda funcionaria, com falta de pessoal para fazer visitas guiadas.
Mas os visitantes de tez europeia. embrenham-se nos tons exóticos dos cactos longos e espinhosos, em elaboradas poses de Instagram com tripé e tudo.
O funcionário mexicano que falou dos câmbios administrativos encostou-se à sombra das paredes do convento, a escutar uma novela radiofónica mexicana no seu rádio a pilhas, vestido de preto, com chapéu de palha e trejeitos de vigilante, mete as mãos com pose de megafone e grita adelante por favor todos na direção de saída. Pelo menos, hoje no jardim de gestão federal, o nada é gratuito.
Mas a ideia, aliás não explicada por falta de verbas federais, de procurar recuperar espécies vegetais antigas e autóctones, num espaço aproveitado para o efeito no centro da cidade entre a igreja de São Domingos e o convento, agora museu da história regional, é de mérito indiscutível, pelo que decidimos não relevar a a atitude pouco cooperante da frente unida de trabalhadores.
Magnânimos, ou talvez receosos do poder do protesto que emana dos incluídos da revolução mexicana (uns mais do que outros)
O museu da história regional, fronteiro do jardim, estava em pleno funcionamento, bilheteiras e bengaleiro em funcionamento, vigilantes em todas as salas e uma longa série de espaços cronológicos que enfatizam a continuidade (ou a sobreposição) entre as civilizações pré-hispânicas e as culturas contemporâneas, numa narrativa oficial que procura promover a reconciliação entre todos os povos e culturas e alardear, com orgulho patriótico, a mesticidade da grande nação mexica.
Pelo menos esta é uma muito aceitável narrativa oficial, mas é um exercício sinuoso, especialmente porque a diversidade ainda é, no México, sinonimo de desigualdade (e todos os outros flagelos que decorrem da infiltração do crime organizado nas sociedades mais frágeis e mais isoladas)
É uma narrativa muito visual e não se poupa em detalhes quando se trata de mostrar os tesouros do século catorze encontrados por Codice Alfonso Caso  em 1932, os tesouros do túmulo 7 de Monte Alban ou os feitos do primeiro presidente reformista da nação mexicana, porque Benito Juarez é de Oaxaca e liderou a reforma liberal e uma batalha decisiva contra os invasores franceses.



Longe das retoricas (e, muito frequentemente, da proteção) do regime, estão os muitos milhares de artesãos ou outros pequenos empreendedores que se organizaram em cooperativas e, de facto, mudaram a sua vida - da agricultura para artesanato - e também as suas condições de vida.
"Não há nada mais desafiante no México do que ser mulher e indígena"
Pensava eu, enquanto tentava imaginar o que as artesãs, muitas mulheres, passarão todos os dias para ali chegar, aquela arena de combate pela sobrevivência que representa a rua mexicana.
Afinal de contas nem sempre os mais protegidos pela revolução.
“Estoy chica?” Sim, linda na banca de doces que ilumina o mercado.
Hoje, com a noite a cobrir as festas e os desfiles ininterruptos, que antecipam a festa oficial do dia dos mortos,  provámos três sabores de mescal, no bar terraço com vista para a praça de São Domingos, e para o longo espetáculo sobre os rituais e tradições da morte nas aldeias, e só nos ocorreu o poema de Carlos Oliveira " tepido mezcal / para inventar / a mezcaligrafia / gémea do som / ou da sombria / pauta musical / onde as notas florescem / em breves / compactas carolas / e hastes / que sobem, descem / esguiamente / os degraus /de um jardim" 
Como na exposição fotográfica de Jocelin Ortiz no centro da cidade, também são estes os rituais da vida e da morte.
No fecho do espetáculo da tradição local, a banda começou a tocar o hino de Oaxaca e, na plateia. toda a gente se levantou e cantou em uníssono.
E as mulheres tomaram conta da praça, da pátria e do profundo fervor federalista que parece varrer os estados mais remediados do país.




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

La China Poblana

 

Há um potencial milagre ou um fenómeno paranormal em cada esquina de Puebla, para quem vagueia por lá numa manhã de Sol, adelante e bienvenido nas arcadas do Zocalo, espreitando para dentro do café que ocupa hoje o edifício Jenkins, o primeiro armazém ao estilo francês que foi inaugurado na cidade, desgraçadamente para o sr. Jenkins o ano de 1910 não foi muito favorável ao empreendedorismo comercial, e a sua ideia foi triturada pela revolução mexicana, mas o edifício ficou e, durante os últimos cento e vinte anos, nunca deixou de exercer atividades comerciais.
La dentro, do outro lado do vidro, um velhinho sublinha furiosamente o jornal no interior do café jenkins, certamente procurando assegurar-se de que nenhuma data relevante é obliterada pelas ingratidões da história. 
Mas os primeiros milagres moram no templo de São Francisco, uma localização um tanto periférica para um fenómeno tão sublime, mas com uma vista única sobre um dos vulcões ativos que rodeia a cidade.
As instruções, junto ao altar do templo são claras: se pretende pedir um milagre para a saúde de  alguma pessoa por intervenção do beato Sebastião de Aparício, providencia toda a informação médica antes do milagre e reúne também a documentação médica de que o paciente já está curado, que a cura não está explicada e o seu efeito dure para sempre, tem na tua posse os testemunhos do milagre porque desta forma poderemos obter a canonização do beato Sebastião de Aparício.




Lá fora, para lá do horizonte, o vulcão continua a cachimbar.
Do outro lado da rua dois velhinhos beijam-se prolongadamente, talvez porque tenham saído do pincel ou do spray de um artista de rua inspirado pelos milagres do beato.
Na casa de alfanique não ocorreram, segundo consta, milagres, apenas amor e lenda, uma casa que ficou com um aspeto exterior de doce de alfanique - seja lá como ele se parece - porque a noiva exigiu ao proprietário, como prova de amor que ele construísse para ela uma casa doce e ele assim fez.
Uma cidade de histórias que se contam nas ombreiras das portas, nas esquinas das ruas ou nos interiores das casas palácio dos novos donos da nova Espanha, e que a republica decidiu transformar em espaços de memória.
E a história das China Poblana é quase um milagre como algumas mulheres de classe baixa e de origem pouco conhecida tenham criado uma moda de vestir com roupas vistosas, de corte e cores inspiradas no artesanato indígena, que ninguém  tinha visto antes nem mesmo entre os  indígenas, e se tornaram um símbolo de independência das mulheres que as usavam.
Notável, especialmente por ter sido no século dezanove.
E, sem que a nossa retina se consiga concentrar numa só ideia, as imagens começam a sobrepor-se na linha do tempo, à medida que nos puxam para fora da cidade, para a descoberta do velho sul;
Os distribuidores de bilhas de gás que anunciam o seu serviço, rua fora, em carrinhas de caixa aberta com uma música de fundo que, em mesmo tudo, nos recordam os dias de tourada e cruzam-se em contramão com o afiador de facas na sua bicicleta tão ferrugenta quanto a gaita que sopra;
Um outro velhinho, diferente do outro do dia anterior, estava sentado noutra rua, com outro chapéu estendido dando música à rua inteira com outra coluna de som, esta com luzes de néon azul;
E as aparições celestiais na narração de san miguel;
E os altares das oferendas na casa de cultura;
E os blindados do exército mexicano que se passeiam na cidade histórica com soldados armados de pé nas traseiras de uma caixa aberta;
E a fumarola do vulcão que se mostra ao fundo outra vez;
Para nós e para ti, cidade nomeada quatro vezes heroína, segundo rezam as evocações narradas nas esquinas da cidade, porque a história do México é feita de batalhas e invasões algumas vezes derrotas outras conquistas sem ordem precisa porque, no México, mais importante do que as vitórias são os atos heroicos e os heróis improváveis, mesmo que afundados em copiosas humilhações e derrotas
Quiçá, uma prova de confiança no milagre deles!



domingo, 7 de dezembro de 2025

O lugar onde todos somos aztecas

 


Bem-vindos a Puebla, o lugar onde todos somos aztecas 
Acordamos no sopé do vulcão com os ruídos dos motores dos coletivos que se desfazem, a partir das cinco e meia da manhã na rua, do lado da lá (ou seria a partir de dentro?) do nosso quarto.
No México, as cidades escondem-se da noite, enclausuram-se nas portadas metálicas, será medo, precaução ou é mesmo assim? mas acordam muito cedo e, quando acordam, abrem as portadas da vida e despejam toda a cor e o ruído que acumularam durante a noite.
A noite é, pois, a bateria do México. 
 E, do outro lado do passeio do nosso quarto do hotel rincon poblano vivem os heróis da lucha libre poblena, sim, a arena de Puebla é mais modesta que a da capital, mas está forrada de caras mascaradas e recheada de entusiasmo, golpes de magia e caras felizes.
Tudo no mesmo quarteirão, por isso quando Puebla acorda, acordamos todos.
Mas na igreja de São Domingos reina a paz, porque a porta estava apenas entreaberta e a rua não ousou entrar.
E na igreja São Domingos, o silêncio está forrado a ouro, uma capela inteira imersa em barroco, uma extravagância daqueles que construíram uma Puebla de grelha urbana renascentista e a colocaram estrategicamente na rota entre a capital e o porto de Vera Cruz, numa prova dourada de que havia na nova Espanha uma vontade própria, distinta da Coroa.
Conta-se que a mãe de São Domingos, quando estava grávida, sonhou que tinha no seu ventre, um cão que transportava uma tocha na coleira, iluminando o caminho debaixo das suas patas e atribuiu este sonho a uma premonição do futuro do seu filho. O cão simboliza a fidelidade e a tocha, a luz que dará ao mundo, e desta forma decidiu dar-lhe o nome do santo ao homem que fundou a ordem dominicana em Puebla, uma tradução literal de os cães do senhor.
A construção da capela forrada a ouro será certamente uma outra lenda, ao que consta, cheia de símbolos indígenas e referencias aos cultos pré-hispânicos, porque a maioria dos artesãos contratados eram indígenas.
Os vulcões de Puebla deitam fumo e as igrejas disputam a riqueza e o ouro
Cá fora, agora que a rua nos invadiu de novo, um velhinho de fato sem mácula e cruz ao peito cantava, apoiado na sua modesta coluna, músicas de amor e sofrimento, procurando manter a compostura em cada nota, mesmo quando se apercebe que nem os seus graves fazem tilintar moedas no seu chapéu coçado se tanto chão.
A rua do México pode ser dura, porque é grande a competição por agradar!
Mas, na face da maioria dos intérpretes (tal como na maioria dos vendedores de sonhos ou de produtos banais) há uma expressão de otimismo caloroso de quem acredita que todos, a seu tempo, irão conhecer a boa ventura.
Como o homem da casa que matou o animal, que enfrentou e matou uma gigantesca serpente que tinha invadido a cidade e comido o filho de um habitante rico e influente da cidade. 
O pai do infeliz ofereceu-lhe metade da sua fortuna o que lhe permitiu construir uma mansão de três pisos, símbolo máximo de mudança de sorte e a cidade deu-lhe o reconhecimento dando-lhe o nome oficial de a casa que matou o animal.
É só uma lenda, mas pode ser verdade no imaginário de quem precisa de acreditar.
Ou simplesmente a velha lojista do mercado de artesanato que beijou as notas de pesos e benzeu-se logo de seguida, com os olhos pregados no céu, agradecendo quem sabe se a primeira venda do dia, se não termos pedido desconto na compra do vestido com bordados de flores ou se apenas por estar viva e de boa saúde.
Mas Puebla vive na rua e almoçar cemitas no mercado central é uma sandwich de pão fresco saloio, cheia de tudo o que possa pedir mais uma dúzia de molhos e ingredientes, é cheirar oa cheiros intensos das especiarias, das ervas, dos fritos e dos fumos, é escutar os pratos sobre as mesas e os pregões dos vendedores de carne e frutas e encandear-nos com as gigantes figuras dos super-heróis repletos de doces no seu interior para desventrar nas festas de aniversário das crianças.
Sempre o mesmo quarteto da realidade deles: os cheiros, as cores, os sabores e o ruido.


Em Puebla, o centro do estado, mas também na capital do planalto que se rodeia de aldeias históricas, onde impera o triunfo do barroco espanhol sobre a tradição e a cultura mesoamericana, como a catedral de barroco intenso construída em cima da mais volumosa pirâmide pré-hispânica do mundo na aldeia de San Andres Cholula ou a igreja de San Francisco, a única perola arquitetónica da aldeia indígena de Chaletec.
E, no resto da tarde, deambulámos pelas aldeias e pelas preciosidades arquitetónicas do planalto, encostados no conforto dos Uber de Puebla, uma experiência diferente da capital porque, a sul da grande metrópole, os condutores preferem o som dos clássicos românticos anglo-saxónicos dos anos oitenta, Billy Joel ou Whitney Houston com o mesmo nível de som com que trauteámos, a norte, as relíquias musicais de Victor Fernandez e José Luís, como se, à medida que nos embrenhamos nas profundezas da história do méxico, fosse inevitável o triunfo de uma certa modernidade sobre a inevitabilidade da tradição e das raízes.
Sempre o México e as suas construções em múltiplas camadas e interpretações alternativas. 
Acabamos a noite no bar El idolo do México, um espaço acanhado com prateleiras de álcool engarrafado ate tocar o teto, por detrás do longo balcão de onde saem tequilas e margaritas entre outras preciosidades e a toda a hora, orgulho mexicano da banda de musica ao vivo e nós outra a vez a brindar com estranhos e a cantar e a dançar "Antes muerta que sencilla "
O México não acaba !