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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A História sentida em Bernauer











O muro em Bernauer Srasse é diferente. É uma versão remasterizada, sentida e esteticamente correcta da história recente da cidade.
Longe do folclore dos locais mais mediáticos da urbe, sentimos que interferimos com o oráculo de meditação berlinense, alemão, factual mas contemplativo, o verde dos jardins ajuda, as barras de ferro que substituem pedaços de muro abrem os espaços antes fechados e prolongam os horizontes e as imagens espalhadas pelo verde, como que por acaso, dão-lhe a dimensão de templo ao ar livre…
Bernauer Strasse também merece o descanso e as mentes livres porque representou o que de mais absurdo consiste em separar os mundos, as pessoas e as histórias de vida em comum: as casas com janelas viradas a Oeste e a porta a Leste, e um debruçar (ou não) que marcou a vida de muitos habitantes desta cidade durante décadas – para alguns, uma vida inteira.
A capela da Reconciliação – situada no corredor da morte – renasceu das ruínas da ignorância (dinamitada pelos ateus orientais, apenas em 1985) de madeira e simples como um sinal de lembrança serena de um pedaço de História, que os mais novos nem sequer conseguem conceptualizar.
Por isso, no fim de tarde de Domingo eram os habitantes mais velhos que passeavam nos parques com as bicicletas pela mão, refugiando-se brevemente em cada um dos pilares de memória erigidos no local, como se sentissem no direito de ali passar e estar todos os dias, sempre que lhes apetecer, um direito conquistado por décadas de abstinência forçada.
Ameaçava chuva – como sempre as nuvens acompanham o traçado antigo da demência humana – e o céu escuro era o reflexo cristalino (tanto quanto possível num dia de chuva) do obsessivo e genético sentimento de posse e espaço que nos caracteriza e faz viver (mirrar!)Por isso Bernauer – um verdadeiro não espaço no centro da História – é um longo momento espiritual, integrado na vida dos novos berlinenses, e uma lição de frugalidade descritiva, desprovido de panfletarismo e de comércio de sentimentos

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Marx is back









A Karl Marx Allee é como desfilar diante de uma tela de cinema de propaganda dos longínquos anos de guerra fria. Sem tirar nem pôr.
Os prédios de uma geometria bélica e obsessiva, alinhados com exemplares de um neo modernismo, anos setenta, azulejos em relevo em paredes que sonhavam ser murais, as referências reverenciais à bendita mãe soviética.
Lembraram-me a minha escola – mas apenas subitamente e em flash – eram os anos setenta, de resto a imensidão a desmesurada dimensão das coisas – para quê tão grande, tão largo e tão alto – como se o objectivo fosse reduzir as pessoas à sua insignificante dimensão, fazer desaparecer a escala humana das coisas.
E por isso mesmo a avenida parece permanentemente fantasma, apesar de povoada, fora de época apesar de moderna, fria e ventosa porque demasiado arejada, quem sabe se mais exposta a leste.
Circulava a alta velocidade em cima da minha bicicleta social urbana e via desfilar diante de mim aquele filme e já não entendia bem se estava dentro ou fora do filme, tal era o realismo e, apesar da velocidade turvar os detalhes, o hexagonal relógio vermelho, mostruário quadrado, números explosivos de um plástico quase efervescente atirou-me definitivamente para os meados do século passado, nas Olimpíadas de um socialismo maior.
Acidente ou hipnose súbita? Finalmente o vento empurrou-me para a praça: AlexanderPlatz, o centro do mundo, segundo os saloios democratas do leste profundo.