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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

1/2 C - O filme



Não há história que não tenha um filme, mesmo quando não conseguimos escrever o seu final.
(E eu que adoro finais felizes!)
O filme ½ C é uma mini produção dedicada às nossas memórias e à memória dos ausentes que fazem parte da nossa história.
Só recordando a nossa história é possível estarmos sempre a construir um futuro, independentemente de sabermos que tem duração limitada.
E a nossa história continua, porque ninguém pode sonhar por ti!
Doutra forma, nenhuma das nossas mecânicas rotinas que constroem o nosso dia a dia, faria qualquer sentido!
Perdoem o tom levemente (!?) lamechas da introdução, mas é apenas a constatação de que a imortalidade não é palpável.
Sinais do ½ C.

http://www.youtube.com/watch?v=Zw7sa2BbvzU




sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A linha Verde


Hoje tirei folga e parti em peregrinação pelos locais mais improváveis, na senda da linha verde.
António Augusto Aguiar,15
Calçada de Arroios, 39
Campo Grande, 185
E a Alameda e o cinema Império, a Praça do Chile e o Jardim Constantino
A pé, tantos anos depois, é uma cidade diferente, de uma forma que chega a ser confrangedora, porque é diferente e, também aqui, recanto imutável de gerações emigrantes do seu próprio país, se sente a invasão do mundo e a exclusão dos residentes nos subúrbios deste pedaço de cidade central, a nossa exclusão, que sempre nos considerámos lisboetas.
No bairro de Arroios, aos mesmos velhos (que são obviamente outros) que sobem e descem as calçadas e as escadinhas, juntam-se as consequências da História que transformaram as redondezas da Almirante Reis num espaço de etnias difusas.
A descolonização, o êxodo dos povos subsarianos  a globalização, o mercado único, a queda do muro de Berlim, a crise económica, tudo se espelha nas ruas da velha cidade residencial, sem vista para o rio nem o glamour do centro da cidade.
E os rituais adaptam-se, como as portas se fecham e os negócios se transformam, como um bazar de emoções fortes entornadas para o passeio, como os alguidares de água suja e detergente muito usado, e os dejectos animais que se advinham vaguear pela noite escura de lampiões com desenho da era do petróleo.
Nada parecido com a pacata vizinhança de aldeia de província do mini mercado A Pérola dos Açores (na Rua Ponta Delgada, pois claro)
Na esquina do alfarrabista vive um cabeleireiro, mais abaixo um estabelecimento de depilação completa de porta aberta e clientes à vista.Não vi a padaria, já não há lojas de ferragens e, na inclinada Calçada de Arroios, emerge uma novíssima agência de viagens, de vidros espelhados e reclamo modernista
Nos jardins sobram sem abrigo de todas as nacionalidades europeias, pronúncias com sotaque e os idosos sem voz, mas também esplanadas e jardins infantis, cartazes de propaganda eleitoral e grandes, largas e frondosas sombras, porque nenhuma revolução cortou as árvores do jardim (nem as raízes de uns dedos de conversa entre as compras e a lida da casa).
Apenas os cheiros e a sujidade das ruas diferem, aparentemente.
Mas não há crianças nos jardins, talvez por causa das companhias incómodas que, por ali se instalam, nos bancos de jardim ou simplesmente porque não há crianças no bairro.
Mas há parques infantis.E o maior hospital de crianças da cidade.
Mas sente-se e respira-se um bairro, nas redondezas da Almirante Reis, diferente é certo, mais confuso e multi cultural  diria mesmo que, nalguns momentos, nalgumas esquinas, se reinventaram as origens árabes, apenas bazares, olhares suspeitos e nacionalidades indecifráveis.
Quando o tempo salta sem quotidiano e se constrói de visitas muito esporádicas, sentimos decididamente o seu efeito erosivo, a certeza de que afinal as vidas e os locais mudam muito mais rapidamente do que o hábito nos permite ver.


Campo Grande, 185 desfaz-se em ruínas, (porra!) enquanto gruas desfazem o jardim do Campo Grande, o lago seco e sem barcos, sem árvores e sem esplanada e, uns metros acima, renasceu o burburinho de novos estudantes, novos espaços universitários da era 2000 e os caloiros humilham-se nesta manhã muito abafada de Setembro às mãos dos veteranos.
No Campo Grande, duzentos e tal
Em Entrecampos, no que resta do Jardim do Campo Grande.
Na Alameda…


Felizmente permanece reluzente a António Augusto Aguiar,15.
Seria triste que a minha origem se tivesse desfeito com o tempo!

Afinal nem tudo mudou!


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Alt (e) amente – A essência do poder local


Domingo à tarde no estabelecimento da Dona Manuela e não havia mais turistas.
Só envelhecidos residentes em volta das mesas de pedra, cercados de prateleiras pejadas de artesanato de loiça e cerâmica pintada, chaminés que não deitam fumo porque, mesmo na serra, as leis são para cumprir.
Discute-se a idade dos velhos e as eleições para a Junta
"Nascida em Alte, residente em Alte"
- Mentirosa
"Ela não é de Alte é de Santa Margarida"
Ainda não chegou lá e já está a mentir!
O meu filho é o terceiro da outra lista (portanto a D. Manuela é parte interessada) e ela é uma mentirosa.
- Eu cá acho que ela não é mentirosa – Aquele bigode enxovalhado e mergulhado numa mini discordava com a patroa do estabelecimento
- O pai dela é um intrujão e um mal-educado. Ele teve cá a fazer uma obra e esticou-se no orçamento. O meu marido chamou-lhe a atenção e ele atirou os instrumentos para o chão e disse:
- Então façam vocês!
Está a ver?
- Mas a filha não é o pai – resistia o velho
- A mãe é outra que tal. Veio para a terra e abriu um estabelecimento igual ao meu (Ah!) e desde que o abriu, vão sete anos, nunca mais voltou a cá entrar, nem para tomar um café. Sim, porque o estabelecimento dela não tem café! Como se eu lhe tivesse feito algum mal.
- Mas a filha não é a mãe.
- É igual, porque também ela nunca mais cá entrou!
E o velho desistiu, suspirou baixinho e virou-se para o visitante.
Mas a D. Manuela não deixou.
Acha bem que ela minta assim ainda antes de sentar lá o rabo, senhor visitante?
Pois, mentir não é bom…
Tás a ver? Ela é mentirosa e ainda não foi eleita.
O meu filho sim, é de confiança. Ele não quis ser o número um…
Finalmente a Manuela afastou-se, dobrada por um troco difícil.
-És de cá? (Como se fosse possível ser de lá e ele – e o seu bafo alcoólico ressequido – não me reconhecerem) - perguntou o curioso autóctone 
Lisboa? Os meus irmãos vivem lá; em Odivelas e em Sto. António de Cavaleiros. São taxistas e têm um táxi deles. Eles estão bem, só eu é que estou na merda!
Distraído com a mini e com as suas memórias, aproveitei para me retirar desta ameaçadora contenda, para mim, tão incompreensível quanto a diferença entre viver em Alte ou em Santa Margarida.
Onde quer que ela seja!
Ali, à saída da porta, do outro lado da rua, jazia a pequena casa de arquitectura do Estado Novo, com as suas letras brilhantes, de tão polidas, a aguardar que aqueles dois, e mais algumas dezenas escolham o próximo inquilino.
Junta de Freguesia de Alte, os amigos do filho da dona do estabelecimento, ou a maldita emigrante de uma terra qualquer?

Esta deve ser a essência do poder local!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Memórias de um Domingo à tarde



As memórias vivem afinal à flor da pele, seguindo os passos da escola, as ruas que procuram sobreviver à desertificação absoluta do velho burgo que vivia outrora rodeada de verde e planície e hoje deambula solitária entre edifícios que preservam estoicamente as história da aldeia, agora cidade, cercada de construções que levaram as pessoas e afundaram a planície entre viadutos e urbanizações interrompidas pelo colapso do El Dorado.
As escolas são o elo que mantém a memória de pé, privada dos eucaliptos, é certo, e do espaço circundante, aquela imensidão de terra batida que unia as pontas do rio aos pontos cardinais mas, num fim de tarde de Domingo, ligam o vale abrasador ao parque pulmão, verde e sombra no centro da aldeia velha, que permanece, caminhos, bancos de jardim, roseirais, absolutamente imutável!
E nesta persistência, o velho parque é o único, mas enorme, resistente à desertificação do lugar, como uma selva que destrói todas as tentativas de a domar.
Humana também, porque aqui, nós voltamos a sentir gente no vale!
E ao rio, vento e planície, o único local para onde a aldeia não cresceu.
Até que o rio me transbordou para a outra margem.


domingo, 1 de setembro de 2013

Os cavalos de TROIA são verdes




Hoje não havia golfinhos no Sado e a caminho dos areais imensos não há multidões que destruam a grande língua branca que preserva a inocência deste lugar de fronteira, os cais de embarque que construíram o passado deste lugar, os blocos kibutzianos de uma primavera bolsista exuberante em que a Torralta representava uma oportunidade para os colonizadores do Sul.

Tróia sobreviveu em tons de azul e branco, como uma lenda da antiguidade e mesmo depois da fúria civilizacional que nos trespassou, resistiu com os seus rituais de terra de fronteira, refúgio popular dos seus vizinhos do norte e do sul, o barco que traz os víveres e leva areia, mosquitos e paisagens e as dunas que se entornam na única estrada que atravessa o mar.

A magia do lugar reside nas travessias, uma terra que se recusa a ligar à outra como em todos os lugares que exalam uma sensação de fim do mundo.


Bendita ponte que nunca construímos!