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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Heritage - u(e)ber alles ou mais do que qualquer outra coisa



Restauradores, Fevereiro 2013

Queridos filhos,

Esta carta é para vocês!
Eu sei que ainda sou novo demais para vos falar de heranças.
Eu sei que não tenho muito jeito para vos falar de coisas tão sérias.
Mas, filha, não consegui ainda esquecer que ontem à noite passámos umas horas para nos pormos de acordo sobre a matéria de História para o teste, e de como foi difícil explicar as diferenças entre o livre cambismo professado por Adam Smith e o protecionismo de Marx.
Lembras-te?
Só ao fim da noite entendeste que um e o outro falavam do mesmo fenómeno, e tinham, os dois, visões diferentes do capitalismo
Um acreditava que cada indivíduo se deve dedicar ao que melhor sabe fazer e deixar os outros fazerem o que eles melhor sabem fazer, e que o mercado resolve o resto.
O outro acreditava que este princípio só é válido se todos tiverem as mesmas oportunidades (capacidades, dinheiro e tudo o que possas imaginar) e se assim não for (e ele considerava que não era) então os mais ricos tornar-se-ão cada vez mais ricos e os mais pobres cada vez mais pobres.
O difícil nesta história é perceber onde está a razão e em que circunstâncias cada um pode ter mais razão que o outro.
Agora, o que não te ensinam na História (talvez porque seja presente) é que existem outras teorias e que são nessas (teorias) que se vive o nosso presente.
U(e)ber alles (ou mais do que qualquer outra coisa) é uma das herança, meus filhos, que o pai (e os outros como o pai) vos vai deixar.
E nos livros de História vão passar por ela sem perceberem.
Por isso o pai vos escreve para falar de corporativismo.
Corporativismo é uma cena meio complicada, porque não é livre cambismo, mas também não é protecionismo, no sentido de proteger os mais fracos.
Não protege os mais fracos, os que são demasiado novos para pertencerem a uma corporação, os que ainda procuram o primeiro emprego, os inventores, os inovadores e aqueles que são tão revolucionários, que nasceram antes do tempo.
Mas também não é livre iniciativa Darwiniana onde os mais fortes e os mais dotados arrasam a concorrência, porque basicamente protege quem chega primeiro o que, numa lógica geracional, protege os mais antigos mesmo para além do seu prazo de validade.
Por isso, meus filhos, eu vos escrevo, porque isto é convosco e o pai (e os outros pais), desde os primórdios da nacionalidade que constrói esta herança para vos deixar.
E esperemos que algum dinheiro, para a destruir.
Basicamente, um Estado corporativo defende os interesses instalados, mas de uma forma muito democrática e até social, porque tanto protege magistrados como taxistas, desde que tenham um cartão de sócio e um sindicato ou associação profissional.
É assim uma espécie de jogo das cadeiras, mas em o que número de jogadores é igual ao número de cadeiras e os jogadores são sempre os mesmos.
E o que é perverso nisto, é que aqueles que estão de fora – por exemplo vocês, meus filhos – são incentivados por nós geração dominante, desde miúdos, não a jogar outro jogo, mas a descobrir a fórmula de conseguir, um dia, fazer parte de um qualquer interesse corporativo.
Era desta herança, filhos, que eu vos queria falar!
E não se deixem enganar, porque isto não nem nada a ver com ideologia.
Terão a possibilidade de conhecer, na História, conceituadas e ideologicamente distintas personalidades corporativistas como o António Oliveira (Salazar) e alguns dos grandes e revolucionários sindicalistas das últimas gerações.
Tinham um cartão de sócio, pertenciam a um clube e, filha, era como o Benfica, do clube até morrer.
Portanto, a ambição de vida é pertencer a um clube, receber um alvará de herança, e conduzir um táxi com um milhão de quilômetros até que ele se desfaça (mas em segurança porque o condutor tem carta do grupo 2) e não permitir modernices de internet, marcação antecipada, carros novos, motoristas cuidadosos e bem vestidos, pagamento com contactless, e inquérito de satisfação do cliente no fim da corrida
Ser sócio do Benfica, não tem nada de errado e eu, meus filhos, e eu não tenho muito jeito nem feitio para vos escrever cartas lamechas, mas hoje fiquei verdadeiramente irritado por ler no jornal que afinal eu sou um sério risco para o público em geral, porque não tenho carta do grupo 2 e não tenho custos fixos com o alvará e o nosso carro tem menos de um milhão de quilômetros.
Fiquei tão desorientado que fiquei sem saber se vos vou poder continuar a levar à escola no nosso automóvel, limpo uma vez por semana, e naquela condução suave e paciente de pai.
E depois há outra coisa. Vocês que vão ser uns tesos, vão correr sérios riscos de serem presos pelos agentes do Estado Corporativo, quando decidirem partilhar automóveis e despesas, sempre que quiserem viajar porque, na altura de fazerem as contas, ninguém vai ter um recibo para passar.
E eu não quero que vocês sejam presos pelos agentes do Estado Corporativo.
É que são os fortes e os medíocres que, mais tarde ou mais cedo, tomam conta dos interesses corporativos, porque basicamente são estes que mais ganharam com o cartão de sócio e que mais perdem, se o perderem
E esses, meus filhos, esses são maus, e podem prender as pessoas sem motivo!
Isto, não aprenderam vocês na História, nem em casa. Porque o pai sempre vos diz que não basta ter sorte ou ser bom uma vez, é preciso combater sempre para ser melhor e diferente, estar aberto à inovação e à mudança…
Mas isso não impede que esta é uma herança que eu vos vou deixar, mas acredito que, como vocês são péssimos com ideologia e política em geral, mas são ótimos a piratear tudo o que representa direitos de autor, o corporativismo não passará do século XXI
Gastem o dinheiro que eu vos deixar para aniquilá-lo!
Isto não tem nada a ver com ideologia, mas sim com o vosso futuro
Beijos
D

P.S. Filho, aquele teu colega belga que contratou por 20 libras na Internet um lugar num automóvel que saía de Londres na quinta feira para Bruxelas e combinou encontrar-se com o condutor ( e esperemos que dono do carro) na estação ferroviária, chegou bem ao destino?






domingo, 26 de abril de 2015

The city of broken roots - no return



Frank espreguiça-se à porta do quarto, enroscando-se logo depois na ombreira, como um gato vadio em estado de repouso, concedido por uma noite de folga nas batalhas em caixotes do lixo, nas corridas entre beirais e janelas, enfim, tudo a que um animal de recorte fino lhe é concedido, sempre que a pátria não olha por ele.
“ A cidade mudou muito nos últimos dez anos” – a mãe pátria ainda o vê como o seu menino, mas este jovem tardio, parece não ter encontrado o seu espaço gémeo.
De rosto esguio, olhar inquieto, interroga um horizonte que obviamente não é possível decifrar, naquele corredor estreito do apartamento partilhado, “muito diferente de quando cá vivi dois anos”
Alguns sorrisos depois, recolhe-se no seu reduzido espaço de conforto, sem conta bancária, nem número fiscal, um africano branco que não resistiu provavelmente às memórias de uma outra vivência, a idade também conta e ter vinte não é o mesmo de ter trinta e ele parece não ter resistido à procura de um passado congelado, que se derreteu em cascata e correu para o mar.
Sem mais detalhes. Os seres com raízes arrancadas não são expansivos, procuram ocultar as suas pegadas, como os predadores se querem furtivos e as presas de passo leve.
E as cidades apressadas também não retêm o detalhe das histórias.
Frank partia em breve para o continente, à procura de um presente sem memórias, conformado com a certeza de que regressar a casa não era opção. O único detalhe!
Profissão indefinida e horários incertos.

Não o voltei a ver e ainda hoje me pergunto se realmente tinha algum destino para ir!



quinta-feira, 23 de abril de 2015

Your new (other) Homeland



Juan, ou qualquer outro apelido, fala depressa e soa familiar nas traseiras de Notting Hill, não divaga perante os temas do lixo, um assunto tão sério quanto o verde da sua farda, ou o cuidado do bordado que a recorta, com uma caligrafia arredondada, muito própria de um súbdito de uma monarquia que trata cada jardim como se os pássaros que o povoam fizessem parte do património real, que aliás insistem em assobiar ao ritmo do nascer do Sol, todas as nobres manhãs.
Percebe-se que viver no prédio do espanhol é prova de estatuto, porque também ele (como os pássaros) assobia com admiração e prontifica-se a ajudar no que for preciso.
O lixo é um assunto muito sério e, afinal de contas, não valia a pena continuar a largar os sacos do lixo debaixo do taipal das obras do quarteirão do lado
Basta no quintal, que o espanhol trata!


Oito e quinze da manhã, ou uma outra hora qualquer e o espelho não é uma miragem, é a certeza de que ninguém se deve atrever a curvar em duas rodas, não vá a escada nos cair em cima ou um degrau ser atropelado pela pressa da cidade
Mind the Gap, e o barbudo que se cuide!


Breves minutos depois de uma hora qualquer, o mundo rola em direção contrária, à procura do conforto da estação terminal, lá para sul, para a terra do ferreiro.
Ali começa o território da revolução industrial que a cidade só agora começa a devorar.


A mulher procura esgueirar-se entre a plataforma e a gare, mas fica presa na faixa de sol. Afinal já é meio-dia e, porque hoje mudou o turno, esta já não é mais uma estação de partida.
Para lá de Ladbroke Grove só há trabalho e cidade esplendor.
O verdadeiro centro da cidade


Afinal não são oito e um quarto, nem meio-dia, já passam quinze minutos do novo tempo, as horas vão ser sempre diferentes, e a rotina terá sempre tonalidades e intensidades de luz diferentes


Nos subterrâneos do museu de cera, ou do banco do Mo, ou do café do Costa é sempre noite, qualquer que seja o dia ou a hora, mas mantém-se a distinta postura real das letras impressas e dos locais de uma nobreza inquestionável.
Sempre vinte minutos antes da hora e, porque já mudou o turno outra vez, são hoje vinte para as nove e a mulher presa na faixa do sol apressa-se para apanhar o trabalho!



Doze pences de pontos vale um café e um bolo de chocolate
À chegada à superfície, os guindastes não deixam mentir: mesmo no centro da nobreza, a cidade continua a reinventar-se



O W é uma verdadeira prova de dedicação e empenho
Repenicado 
Desenhado
Amor Monárquico em dia de concerto no Royal Albert Hall!


...marco, ponto de referência, solidez de uma construção que tem fundações e que se reveste de materiais duradouros.
Cá fora, a urbe atropela-se com estilo.


O bairro sobreviveu às estrelas, reergue-se todas as semanas depois do mercado de sábado, sacode a poeira e o incómodo das ruas e das janelas e desperta para a sua vida própria.
Sempre de regresso a casa, um espelho de cores e portadas berrantes, não fosse- segundo eles - um bairro de mente latina!


É sempre dia de mercado na rua do porto belo e, numa manhã de sol, a sonolência roça a lascívia e estende-se pela colina acima, e o meu arco-íris de tijolo antecipa que também haverá nuvens no céu.
Mas o arco invertido, parece um baloiço protector dos seres que habitam para lá das janelas de guilhotina, impedindo-os de deixar rolar as suas cabeças nos dias em que não houver céu.
Mas hoje faz sol e é mesmo dia de mercado e ninguém entende porque me ajoelhei perante o reflexo das vidraças



As esquinas deste bairro de mente latina - dizem eles - parecem de papelão e, se não fosse o contrário, diria que eram inspiradas nos estúdios de cinema.
Por isso é que é impossível não aproveitar o sol de primavera sentado numa esquina, à espera que nada aconteça, sabendo que o cabeludo de chapéu coçado está a chegar com o seu violão, tão roufenho e enxovalhado que só pode ter sido resgatado, no passado sábado, da feira vintage que por aqui passou. 



sábado, 11 de abril de 2015

O território de um Deus alternativo




Odemira é o fim da carreira, é o princípio do território do fim do mundo.
Já foi assim, hoje é um pouco como se ainda fosse assim.
A ponte branca que se eleva por cima do rio Mira, marca o princípio de um território, o Alentejo do Sudoeste, um território com uma heterogeneidade muito própria.
Não é interior, porque é fustigado por um mar azul intenso
Não é litoral, porque tem poucas casas, tem campos que cheiram a estrume de tão cultivados, tem estradões que parecem nuvens, ruídos de campo, mosquitos de charco, sentimentos encardidos de tanto pó.
Verde dos campos
Vermelho das estradas
Azul do mar.
Ao meio-dia das redondezas de Odeceixe, o Sol mantém-se discreto, o vento oeste sopra no vale e está frio.
Silêncio no mar de Odeceixe e uma neblina de fora de estação
Ao meio dia, a caminho da estrada de Rogil, chegam os autóctones às tabernas à procura de almoço.
Grandes botas de borracha com resquícios de bosta, barba por fazer, olhares de extraterrestre em terra própria, enterrados em barbas profundas e olheiras mal dormidas
E depois chegam os outros, os putos bronzeados oriundos de uma qualquer capital, enrolados num qualquer Saxo e em mortalhas de uma substância qualquer, provavelmente a verdadeira quilha da prancha de surf.
Mais a Sul, em Aljezur, outros encardidos que procuram tapear às cinco da tarde e o taberneiro que lhes responde que as ovas só voltam amanhã e assegura, a todos os que o querem ouvir, que tem um serviço ao domicílio para entrega de bêbados em casa, desde que eles se enfrasquem no local.
Seres que não se vêm em mais lado nenhum, ou será que este ar de fim do mundo os vidra os olhos?
Ainda mais a Sul, na Arrifana vivem os campeões do surf na areia, e aqui juntam-se todos os anteriores (à excepção dos lavradores), ondas, mundos de gente, tão diferentes que não se destacam nacionalidades nem comportamento especialmente bizarros.
Sobra apenas a comunidade das estufas.
Na nova centralidade de s. Teotónio, vemos chegar as carrinhas de filipinos, cingaleses e outras nacionalidades impensáveis no sudoeste da europa, que entopem o grande supermercado da zona de cheiros intensos, olhares que perfuram as mulheres louras, olhares que despontam das peles muito escuras e que só se conhecem no Oriente longínquo.
Na rota das novas especiarias, pelas redondezas da Azenha do Mar, os mares de plástico escondem vidas muito errantes e precárias por detrás de vedações ostensivas, carrinhas brancas que circulam vazias nas estradas de acesso, muito desconforto perante tal dissimulação.
O Sudoeste não é paraíso homogéneo

O Sudoeste é o território de um Deus alternativo!


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Walking Distance V (último) - A cidade é uma festa


"Paris é uma uma Festa" é a primeira imagem que me atravessa de uma cidade em festa.
Festa de fascínio, o da juventude do escritor, o da época dos loucos anos vinte, ressuscitados de uma tragédia - e, sem saber, à beira de outra - o da cidade dos velhos castanheiros, das esplanadas, dos cais, das avenidas,
"De bolsos vazios e cabeça povoada de sonhos", em começo de carreira sem saber que glória o iria esperar
Cidade é uma festa é, assumidamente um plágio indecente que, assumidamente, contorna Paris por fora, mas vive-a implícita em todas as imagens
Como a juventude, sonho e incerteza
Por isso o Montijo ou Andaluzia, conforme a tua geração,
Como o fascínio pelas coisas simples e pelas obras-primas dos Homens
Um permanente estado de pós guerra,
Por isso Dubrovnik, moça e rebelde, pronta para invadir o mundo com a genialidade da sua História.
Ou Split, uma pérola do Império, destruída pela sua queda, uma pérola que apareceu fora de tempo.
Por isso Espanha, muitas vezes Espanha, onde a vida na rua é uma alegria contagiante porque a cidade é para se viver!

Tributo a Doisneau


Não é a primeira vez que fotografo uma mulher que se parece com Doisneau em Madrid
O ano passado foi no Retiro, provavelmente a mesma mulher que se misturou com a multidão no Sol.
Como poderia ter sido na ponte das artes, nos anos cinquenta do pós-guerra
Ela está no fim da imagem...porque não quer ser a protagonista, o fotógrafo nunca o é, mas advinha-me o movimento porque se divide entre a paisagem, será que eu sou a sua paisagem?
Sinto-me lisonjeado, mas não tremo, porque ela é o meu alvo.
Só depois de olhar para a foto, me apercebi que havia outras histórias na praça
Havia festa no Sol.

(Março 2015 - Madrid) 

Cinderela


A mulher de branco é a diva que vive no centro da imagem, que brilha ainda mais ao nível do chão de pedra, brilho que lhe realça a postura de fascínio pela obra prima do Homem, a imperial Stradum.
Vestida para a cerimónia que é a contemplação
Enquanto a multidão se acotovela pelos últimos raios de Verão
Mas afinal são quatro os seres em contemplação, revestindo a praça nos seus arcos e percebemos que a festa não é só movimento.
Muito próprio, para uma cidade que renasceu da guerra para o mundo
E que sobreviveu por causa do seu carisma!

(Julho 2014 - Dubrovnik)


Palmas de Ouro


O ar ainda cheirava a humidade. Chovera toda a manhã.
Mas não chovia mais e já havia uns pequenos rasgos de azul no céu.
Pequenos é certo mas foi-se a chuva e logo a promenade se encheu de povo, espanhóis, movida, gente que precisa desesperadamente de ar.
Instantâneo.
Esperei sem pressa que a passagem de mármore agarrasse o movimento, porque tinha a certeza de que eles não se iam embora
Enquadramento natural em forma de triângulo, deixar encher a ampulheta dentro da moldura, o mar como prolongamento da mármore
Ou as colunas a representar o lado tridimensional do quadrado
Seja qual for a perspectiva, enchi o espaço com gente
Espanhóis que respiram da rua!

(Março 2015 - Málaga) 


Parasol


Surpreendente e encenação das coberturas de lona que protegem as ruas da Andaluzia do Sol de Verão
Ou do calor de Outubro
Uma estrutura metálica que é uma passagem para a outra margem da cidade
Onde as famílias não se escondem e trocam histórias por entre chupetas e carrinhos de bebé!

(Outubro 2014 - Sevilha)


Imperatriz


Na porte Norte do Palácio de Diocleciano  a antecâmara foi desimpedida pelos guardas do templo para que passassem as ninfas do Imperador
Demorei o tempo suficiente para garantir que houvesse luz e velocidade suficiente para captar aquelas pernas sem tremer. 
Ao longe, apenas por pudor.
Ia falhando, mas aquela porta, exactamente sobre as suas cabeças serviu para eu as coroar à revelia da guarda real
A preto e branco, vêem da festa certamente!
Croácia no seu melhor

(Julho 2014 - Split)


The Ball Room


A nova Croácia mantém a sua ruralidade dos gostos simples, e os bailes de rua de um certo jeito ultrapassado  revelam-nos a alegria ingénua do folclore tradicional, que não distingue as três gerações no mesmo recinto.
orquestra de clássicos , o empregado fardado, os arcos romanos e o solene e distante leão do Imperador acentuam o contraste.
A nitidez é proporcional à idade, porque a velocidade já não é a mesma.

(Julho 2014 - Split)


São Pedro


O ritmo é da charanga e as festas populares têm os mesmos rostos, as mesmas multidões, as mesmas luzes e as mesmas atracções que no século passado.
A cidade mudou de centro, desertificou-se nas margens do rio
Mas nos dias de festa a rua dos pescadores ressuscitou e juro que me cruzei com as mesmas caras e com os mesmos percursos 
Parece que o tempo não passou pela tradição
Efémero mas impressionante a fiabilidade da festa dos touros e da sardinha assada.

(Junho 2014 - Montijo)

terça-feira, 7 de abril de 2015

Walking Distance IV - Mislead

As cidades também são um território de mensagens dúbias, imagens que não são o que parecem, contrastes de diversidade no contraditório, o inesperado debaixo da nossa vista, as personagens desfeitas pelos efeitos da luz e pelo arrastamento de quem quer parar o tempo.
Enganos ou ilusões, portanto!




90 anos luz


A Praça do Império é a mais bem conseguida contradição da cidade.
Arquitecturas e principalmente História, regimes e uma projecção optimista do nosso futuro.
Num equilíbrio apenas possível pelo desfasamento temporal dos seus criadores.
À saída do CCB, Jerónimos à esquerda, fonte luminosa pela e padrão dos Descobrimentos à direita sobre o rio
( e ainda o museu dos coches, o palácio de Belém e a fábrica dos pastéis de nata dentro do espaço sensorial), percebemos que o tempo e a distância dos acontecimentos, tendem a criar harmonias a partir dos contrastes. 
E que todo o passado é bom para se construir um futuro.
A imagem da formatura dos alunos da Casa Pia, em 1924, ocupa apenas um pouco mais de metade da imagem, não porque o passado valha mais que o presente, mas porque é preciso mostrar a geometria completa de uma parada do recente Estado Novo, para que se entenda o contraste entre a rigidez de um certo passado e a informalidade do presente, três jovens desalinhados que olham a fonte apenas pela cor.
Ou, noutro prisma, nos apercebermos que a perfeita geometria da calçada (arte, esforço e vontade) portuguesa realça o espírito livre dos jovens do presente, como contraponto ao  alinhamento bélico de uma outra época.
E naquele fim de tarde de um Janeiro luminoso, a Praça do Império, voltava a ser o centro do mundo, composto por uma multidão multinacional de cidadãos.
90 anos luz separam as duas meias imagens

(Janeiro 2015 - Lisboa, Praça do Império)


Sombras chinesas


Na praça vazia, iluminada nos lados e escura ao centro, a infância que vive em mim despertou as memórias das formas que construíamos com as mãos contra as paredes brancas e iluminadas pelos candeeiros de mesa de cabeceira.
E as formas resultantes nunca eram consensuais.
Criatividade na disputa.
Mas nesta realidade construída. os seres não têm pernas ( as pobres arrastadas pela minha falta de velocidade) os candeeiros que deviam servir de foco, são parte integrante da composição, (os faróis do saber, ou uma barreira de luz que reforça a escuridão do centro)

(Maio 2014 - Cascais)


No Smoking


Pretendia captar a liberdade do espaço aberto, uma passadeira que atravessa o mar, mas deixei lá o reflexo para que ele me traísse porque nós humanos não somos capazes de sobrevoar espaços imensos sem a força da máquinas e a segurança dos elementos
Afinal de contas não somos pássaros e precisamos sempre de uma margem à qual nos agarrar!
Há o querer e há o poder!

(Junho 2014 - Lisboa, Parque das Nações)


Gangsters


Pura miragem. Os cinco jovens até podiam ser gangsters (tinham uns blusões destoados do tempo e do contexto e um sotaque bandido). A jovem, sentada no anfiteatro virado para o mar, tão só e tão vulnerável até podia ser uma vítima. Pura miragem, de facto, porque os jovens entretinham-se a atirar pedras para o mar e a jovem, tão embrenhada na leitura nem levantou os olhos. Soberba indiferença.
Cá em cima, éramos mais que muitos
Se ela abrisse os olhos, todo aquele anfiteatro em forma de olho se abriria e arrastaria os jovens dos blusões de cabedal para o mar.
Como lágrimas
Como ramelas

(Fevereiro 2015 - S.Pedro Estoril)


Labirinto


Os únicos seres que deambulam pelo labirinto, escolhem caminhos diferentes, procuram uma saída que seja diferente da entrada. E não parecem querer encontrar-se, ou então apenas não se viram, porque estão demasiado perto para perceberem que estão sozinhos.
E eu demasiado alto para lhes ler os pensamentos, suficientemente acima para perceber tudo.
Por exemplo, que aquela praça não era um labirinto!

(Dezembro 2014 - Porto)


O fantasma de sapatos brancos


Não é um fantasma. É uma metáfora
Quando não somos suficientemente rápidos, o tempo passa a correr e, depois, só nos lembramos dos detalhes sem importância.
Dos sapatos brancos!
E eles voam na nossa frente, e quanto mais rápidos eles são, mais nos treme a mão.
Na cidade mundo, esqueci-me de lhe perguntar de onde vinha e para onde ia.

( Setembro 2014 - Londres, Trafalgar Square)

PS: Voltei a sentir a mesma impotência, no último Domingo à tarde, Páscoa por ironia. O destino era Londres, só os sapatos não eram brancos e sabia donde ele vinha!


O Português


Tão inesperado como óbvio. Na cidade do mercantilismo, só o flamengo condiz com os prazeres do Porto. 
Na cidade, outrora capital da Flandres, só fica bem uma marca de Portugal.
Por toda a cidade, em todas as ruas, o símbolo da nossa afirmação no mundo, mostrava-se orgulhosamente em campanha.
Apesar da indiferença dos transeuntes.
Também o que percebem eles de vinho? - Nós não admitimos, por definição, que nos ignorem, a não ser por ignorância (deles)
É ( o ser) português, pelo mundo fora

(Abril 2014 - Antuérpia)



domingo, 5 de abril de 2015

Walking Distance III - Movimentos

Sempre senti um fascínio canino pelas rodas das bicicletas, enfim, por todas as rodas.
Cidade é movimento, e não há melhor forma de definir uma urbe que não seja através dos seus meios de transporte: cidade verde, cidade industrial, cidade jovem, cidade enérgica, cidade mãe, cidade rio, cidade frenética, cidade negócios, cidade história, cidade moda, cidade pressa, cidade frenética, cidade monumental ...
E quase sempre, fico em terra!



Lugares do morto


O Museu / Fundação EDP é um (meu) espaço de veneração, não fosse ele/a o abrigo do World Press Photo, dos sete mil milhões de seres, dos momentos de paz interior nos espaços silenciosos da outrora ruidosa central eléctrica, rodeado de arte de vanguarda (ou apenas contemporânea) e até me esqueço do preço que pago pela electricidade (entre outros inaceitáveis privilégios).
E a saída do museu é um ritual: sempre pela saída do rio (e a entrada sempre pela entrada terra), respiro o rio, seja de dia, ao anoitecer ou de noite, volto-me para a imensidão de tijolo vermelho que nos enfrenta e sinto-me uma espécie de revolucionário industrial, cercado de máquinas do passado e da ponte sobre o Tejo.
Naquela tarde de Maio, encolhi-me no corredor dos peões e agarrei-me ao único pedestre que circulava na via certa.

( Maio 2014 - Lisboa ribeirinha)



Voando sobre o mar da palha


E em Junho voltei ao teleférico da Expo, porque de toda a família só ela, a mais graúda e mãe de família nunca tinha sobrevoado o mar da palha. Dezasseis anos depois da Expo, a máquina ainda funciona e a vista do carrossel continua surpreendente...como se fosse a primeira vez, no dia 18 de Agosto de 1998, quando levei o miúdo à Expo de barco, e a mãe não veio porque a irmã tinha nascido.
O mesmo rio mar da palha, naquele castanho pardacento, o mesmo passadiço de madeira moderna, só as sombras horizontais de um fim de tarde de Verão nos diferenciam da primeira vez.
Não resisti às seis sombras da direita, debruçadas sobre o (agora) cinzento rio, à sombra da bicicleta e à minha própria sombra, enforcada no poste, como um outro quadrado qualquer!

( Junho 2014 - Lisboa Expo)


Tripé


As filas de bicicletas municipais em descanso, a última das inovações dos presidentes modernos e populistas, é uma das tentações do Cristo feito fotógrafo..A estátua no topo da Gran Via, alinhada com a fila de bicicletas em V dava ao enquadramento o aspecto solene e depois,  e, quatro fotos depois, foi só esperar que a pequena se deixasse cortar a cabeça, salvando-me dos direitos de imagem.
Só o velhote dos braços cruzados pareceu não gostar que eu tivesse enrolado o parceiro em volta do quadro.
Menos óbvio foi o reflexo do anjo do alto da cúpula, na terra; a pequena que emerge no último V da imagem, uma sombra artificial de um qualquer elemento santificado pela cidade monumental

(Março 2015 - Madrid Gran Via / Cibelles)


Mind Games


Na City, tudo é mais arrumado, e não há selins de alturas diferentes, as bicicletas têm uma marca única e de respeitada solenidade...e porque os ingleses são mais distantes, deixei-os ao longe, vestidos de casual friday, transmitindo a errada imagem - no presente, um absoluto mito urbano - de que a cidade é limpa, geométrica, arrumada e verde.
Mind Games

( Setembro 2014 - Londres "City")


Close - Up


Esperam eles pelo eléctrico ou pela jovem que empurra um carrinho de criança?
Ou talvez a palmeira espere a jovem e os outros o eléctrico.
Movimento que, vindo do lado direito da fotografia, empurra os elementos estáticos, que se percebe serem oriundos da cidade histórica.
O close up possível da melhor vista da cidade!

(Dezembro 2014 - Porto Clérigos)


O ouro dos barbudos


Agachado entre mais ou menos um século de História - Terá durado mais o saque americano? - até acho que a torre do ouro não é tão impressionante como o sangue derramado ( ou o esplendor das conquistas, conforme a perspectiva).
Faltava-lhe contraste, apesar do amarelo falso com que a pintei. 
Ao fim da quinta fotografia, descobri uma utilidade dinâmica para a torre, contrastante que baste, seja qual for a ambição: escuro e claro, formas redondas e quadradas, vertical e horizontal, lazer (bicicletas) e trabalho (ouro, ou talvez guerra)

(Outubro 2014 - Sevilha)


Passadeira vermelha


Rodeado de símbolos da prosperidade da era do comboio a vapor, pareceu-me que a reconversão numa cidade de moda e lazer só estaria completa se estendêssemos a passadeira vermelha à elegância, ao espaço pedonal e à ciclovia inexistente, porque também há peões com duas rodas!

( Abril 2014 - Antuérpia)

Poster


Os fotógrafos machos da excursão, competiam pelo melhor poster. Eu acho que ganhei, porque a minha era mais graciosa que a deles!

(Abril 2014 - Antuérpia)


O revisor


Pelo meio do dia de um Sábado de Abril, aproximamos-nos convictamente do século XIV, mas ao contrário do que se poderia esperar de uma região que também foi proeminente por causa da sua capilaridade fluvial, viajamos de cavalo de ferro, a grande invenção europeia do século dezanove.
Porque somos muito modernos!
E o revisor era o único ser de carne e osso ao alcance da objectiva.

(Abril 2014 - Gent)


Aparição


Enquanto disparava furiosamente contra o ruidoso eléctrico do pós-guerra, surgiu-me uma aparição, solene, equilibrada e distante da trepidação frenética da cidade mercantil!
Puro acaso!

(Abril 2014 - Antuérpia)