Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 8/8


Agora sobrevoava o Atlântico Centro numa intermitência sonolenta, sentia o Sul pelas costas e procurava espreitar entre as nuvens, à procura de referências, tarefa impossível em pleno Oceano para um leigo em orientação marítima e profundo ignorante em estrelas.

E exatamente no prolongamento do Cabo Bojador – um olhar furtivo aos ecrãs de televisão da cabine, comprovavam-no – uma mancha de luzes, num formato retangular familiar, parecia flutuar sem direção precisa, seria um barco, um barco não era certamente porque não coincidia a dimensão com os dez mil metros de altitude anunciados no visor que lhe iluminava a face, a ele e aos duzentos e tal passageiros que dormiam.

E como dormiam, não se puderam aperceber que, naquela imagem de satélite azul, verde e castanha, comprovava-se, primeiro de forma pouco nítida, depois mais claro e, alguns segundos depois um contorno de luzes folclóricas qual arraial minhoto, a profecia de Saramago, Portugal flutuava no Atlântico, mas sem a companhia de Espanha,

Sem a companhia de Espanha e de luzes bem acesas como não houvesse um cabo elétrico que liga a nossa energia à Europa

Exatamente no prolongamento do Bojador.

A agitação apoderou-se de L. porque Portugal deveria ser o seu destino de regresso e, ao contrário do retângulo bem real, que se afastava agora por detrás da traseira do avião, sentia-se mais à deriva do que em qualquer um dos infindáveis dias em que estivera exilado, porque nas vinte e quatro horas de cada um deles ele sabia que a geografia se mantinha inalterável e que havia um lugar para regressar, mesmo que fossem remotas as possibilidades de readquirir a sua vida, o seu conforto e as suas raízes.

E, de repente, L. entendeu tudo: voltava a casa, mas o país não esperara por ele, procurava uma nova epopeia, renascia das cinzas numa inesperada e inusitada vocação marítima antes que os filhos da Nação abandonassem a Pátria de vez e, tal caravela, tinha agora um novo desígnio, recolher os portugueses pelo mundo, e L. não devia ter partido, ou regressado, conforme a perspetiva.

Será que o país também o viria buscar? Mas porque é que ninguém, naquele avião lotado, entendia que este absurdo, tão tridimensional quanto um quadro de Dali, estava mesmo a acontecer?

Adormeceu a congeminar como seria possível a ele, uma mente errante encerrada num corpo que ansiava pela criação de laços, voltar a tirar partido desta oportunidade que o seu surpreendente e caprichoso país lhe dava de novo, de ser viajante no conforto do seu próprio espaço, beneficiando da energia e das oportunidades de novas geografias promissoras

E L. sonhou o resto da noite com P. o P de Portugal.

Quando Luís acordou, não havia noite, antes um Sol que se escapava por debaixo das cortinas, nas minúsculas janelas duma aeronave de nacionalidade lusa, comandante e hospedeiras devidamente fardadas, e ele de mente absolutamente desperta de quem vira a sua vida desfilar em algumas horas de sono profundo, embalado pelo som dos motores…

Enquanto procurava discernir o que, da sua desperta memória, era realidade ou sonho, abriu a cortina e deparou-se com aquele extraordinário cenário, sempre renovado, a entrada no estuário do Tejo, com o Sol nascente a varrer o rio, a margem Norte, o bugio e a linha de Cascais.

Luís, quarenta e nove anos, regressava de mais uma entediante viagem de uma semana de trabalho em S. Paulo

Mas tudo o resto, que se recordava como tivesse acontecido, só podia ser um sonho, porque, nas histórias de verdade, os personagens têm nome e não uma maiúscula com ponto.

Mas parecia tudo tão real que lhe provocou um arrepio na espinha, tão frio quanto uma madrugada de sonos sobressaltados em altitude

Entre o alívio da reconfortante e avassaladora vista aérea de uma cidade no sítio certo, e o indisfarçável desconforto de um exílio sonhado, preferiu relegar para as profundezas do cérebro o que sabia da teoria dos sonhos, um enredo de premunições e memórias soltas de experiências e viagens passadas.

Sorriu sem disfarçar, quando se recordou do país iluminado a navegar no Atlântico Central e preparou-se para o regresso sonhado, no sentido literal, à pista da Portela.

“ O número tentou ligar-lhe 3 vezes….”

Era Ana, que ainda não se habituara aos atrasos do voo da noite!