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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Riviera



Makarska, a Riviera Croata, dizem eles.
Falta espaço em terra, cercada entre as montanhas abruptas e o mar plano, verde, e hoje povoado de um país inteiro.
Numa faixa de praia de cascalho de cinco metros de largura.
Um dia de pausa absoluta, com os pés na água e cercado de toalhas, baldes, crianças e gente em geral.
Depois daquele banho de multidão, o jantar na esplanada do hotel Osejava, no final da marina, com a cidade ao fundo e os ruídos dissipados pela música instrumental a meio tom, pela escuridão da merina e pelas minúsculas luzes da encosta e da cidade velha.

Afinal, há mesmo Riviera em Makarska!


quinta-feira, 31 de julho de 2014

A última valsa em Dubrovnik



Uma visita ao palácio do regente,
Encontro com as pinturas renascentistas dos notáveis da república, homens de imponentes perucas e currículos impressionantes, reconhecidos diplomatas e intelectuais da renascença europeia,
Mais uma subida até à porta sul,
Um diálogo solitário com um artista esloveno que tem procurado esquecer tudo o que aprendeu na academia de artes, e cinquenta anos depois já conseguiu.
Olhando das janelas do palácio renascentista, o contraste da arte surrealista que se confunde com o verde do mar e das ilhas.


Deambulando na noite quente ouvimos, através das portas da catedral, um som lânguido de um qualquer artista croata romântico, com tonalidades italianas e sonoridades gregas.
As raízes confusas sentem-se por todo o lado

Incluindo no mau-génio do povo!


Lokrum




Uma ilha perto de nós, a apenas dez minutos de um barco que se afasta do porto velho aos solavancos, com muralhas a desaparecer no verde da ilha e do mar.
Em Lokrum, vamos à praia no mar alto, bebemos cocktails com os pés na água da lagoa salgada, imaginamos os frades beneditinos nas ruinas do mosteiro – terá sido uma manifestação de agradecimento aos cidadãos da república, por safá-los de provações maiores -
No cimo do monte, os restos do forte tinham a marca de Napoleão e os objetivos eram diferentes.
A vista sobre a cidade era gloriosa e os franceses lamberam-se de gula.

Pouco tempo depois engoliram a República!



terça-feira, 29 de julho de 2014

A vida efémera dos conquistadores



O general francês do exército de Napoleão, instala-se no seu cadeirão, em cima do torreão sul da muralha que circunda Trogir e reúne a sargentada para uma partida de cartas.
Não há piratas que cheguem perto e, enquanto não chegar o inverno na frente russa, a vida de um soldado no Adriático é azul.
Tão absorto no jogo, não se apercebeu qua a paisagem urbana, polvilhada de telhados vermelhos e de torres de igreja, era predominantemente de origem veneziana, alguns alçados medievais e nada, ou quase nada, das civilizações da antiguidade.
O general fazia a guerra, não era arquitecto ou artista mas, se entendesse alguma coisa de estilos de construção, ficaria certamente irritado com esta manifestação de ostentação de um povo que não se destacava pelos seus dotes militares.
Ou então, se percebesse que não chegava conquistar os lugares para lhe modificar a paisagem.
E o general tinha mau génio, tanto quanto a soberba vista que podia dali desfrutar.
O azar dos franceses é que, para serem donos de impérios exóticos, não podem destruir o que outros construíram, dado que o património do lugar é o que dá valor às conquistas.
E quando os italianos voltaram, aproveitando-se da desgraça dos outros, sentiram-se em casa.
Um Azar dos Croatas, que não se conseguiram conter, e estoiraram com um leão de pedra na Loggia Veneziana, na praça central de Trogir

1930 DC.



segunda-feira, 28 de julho de 2014

O palácio do último Imperador



Split, a morada de Dioclesano, um dos últimos Imperadores da Roma Ocidental.
Filho de escravos, nascido em Salona, na Croácia Adriática, chegou a Roma através de grandes feitos militares
Visionário, foi o primeiro que se reformou em vida e planeou-a, construindo por antecipação o palácio em Split.
Sentado no seu palácio, viu de longe o Império a desmoronar-se, implodindo pelo seu interior e suicidou-se seis anos depois da sua reforma voluntária.
Depois da sua morte, da queda do Império do Ocidente e da invasão de Salona pelos eslavos bárbaros, os sobreviventes refugiaram-se nas muralhas de Split.
Quatro séculos depois, o seu palácio transformou-se em cidade
Hoje vive entre ruínas, o vibrante porto de mar e uma movida muito mediterrânica

E Salona, seis quilómetros pela encosta acima é um descampado sem glória que relembra Pompeia, um vulcão chamado eslavos.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Korcula – A outra costa de Veneza



Para alcançar a ilha, é preciso ultrapassar as muralhas de Ston, percorrer a península de Paljesac, uma quase ilha que se esgana ao chegar à costa continental e se espraia à medida que se aproxima do mar e das inúmeras ilhas do Adriático.
A quase ilha é apenas um paraíso para as ostras e para o (sobrevalorizado) vinho croata.
Quinze minutos de mar mais tarde, uma réplica em miniatura convincente do mesmo Estado Veneziano, o mesmo Adriático, as mesmas origens mas uma língua diferente, porque reinventada pela pacífica invasão dos Eslavos
Segundo consta, convidados pelos Bizantinos para os proteger das influências ocidentais e sobretudo orientais.
Na ilha de Korcula, estamos rodeados de Adriático e chove nas cornijas das igrejas, debaixo das varandas do Palácio Episcopal, arcadas venezianas por todos os becos e uma disputa inconsequente sobre o berço do Marco Polo
Respiram felicidade de Ilhéus, porque dizem ter provas documentais que esta celebridade não nasceu em Veneza mas aqui e porque os otomanos nunca cá conseguiram entrar.

Por isso não há mesquitas no Mar Adriático
Mas existe a casa onde nasceu Marco Polo


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Os limites da equação de Ragusa




Se eu fosse ela, habitante de Dubrovnik e guia de pretensão, eu começaria por nos contar a História de Ragusa
“ Meus amigos de um grupo pequeno, eu hoje vou-lhes contar a História de Ragusa. Quinhentos anos de uma quase independência muito esforçada, uma democracia que lembrava os Governantes no Palácio de Rector, impresso na pedra, esqueçam as preocupações pessoais, preocupem-se com os assuntos públicos, uma cidade cercada de inúmeros inimigos geracionais, sempre geridos por uma diplomacia de alianças e muralhas inexpugnáveis, uma armada que chegou a proliferar marinheiros onde a diplomacia e o comércio eram a razão para a sobrevivência”
Bom, mas isso sou eu, ela tinha um bico que se confundia com um nariz de pardal, mas em grande e faltava-lhe anos e eloquência para dizer numa frase, uma única só, o nome de todos os invasores e povoadores que por aqui andaram, antes de Napoleão. Sim porque Napoleão é importante.
Gregos, Romanos, Bárbaros, Húngaros, Venezianos, Mongóis, Otomanos, Austro-Húngaros e sinto que me esqueci de alguns, convidados ou infiltrados.
Só Ragusa, a Dubrovnik Libertas sempre resistiu até que, num ousado golpe de diplomacia, Napoleão anexou esta colónia que, de tão antiga, esquecera a sua origem composta de Eslavos convidados pelos Romanos de Constantinopla e os Latinos residentes, provavelmente a prova de que o Império já tinha sido Ocidental.
Todos os peixes morrem pela boca!
A noite quente da véspera testemunhava a coerência de um governo que soube atrair os talentos nascidos nos povos vizinhos e manter fora das fronteiras os indesejáveis – mesmo que por vezes aliados – conquistadores vindos de longe.
Duraram cinco vezes mais que os incas e metade do tempo do país mais antigo da Europa: Nós!
Na manhã seguinte, junto ao istmo que quase corta a península de Peljesac pelo umbigo, descobrimos uma maravilha desta república em Ston, a ponta  da maior muralha da Europa, reconstruída recentemente pedra a pedra pelo orgulho Croata, porque apenas a guerra moderna – demasiado moderna – a destruiu, e a destruição veio do céu.
Mas o que persiste são cinco quilómetros de muralha, que une as pontas do istmo, e protegeu durante anos o sal de Ragusa, das invasões de todos os piratas que a ameaçavam, uma moeda de troca e uma absoluta necessidade de sobrevivência.
Nesta grande península de fronteiras que são os Balcãs, Ston, como Dubrovnik, são extraordinários momentos de História

Muralhas e fronteiras como meios de preservação.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Hrvatska


























Zagreb, sexta-feira à noite.
A cidade saiu à rua numa movida cheia de energias positivas.
A música nasce das calçadas numa alegria contagiante de país recente, e os croatas vivem este Verão escaldante na rua, nas esplanadas, durante a noite, a manhã…sempre!
É uma realidade folclórica mas serena, uma ambição de promenade permanente, música e cinema ao ar livre, uma mescla de tradição e vanguarda, algo só vivido em momentos de grande afirmação colectiva.
Na zona alta, a cidade velha é a serenidade em oposição ao alegre folclore da cidade nova. A bandeira croata namora ostensivamente o azul comunitário e estrelado e os soldadinhos de chumbo ensaiam um render da guarda que acabou sem novos guardas no templo.
A aprendizagem de um país novo!
Lembramos a velhinha que canta com vozeirão em cima do coreto, à frente de um conjunto de aldeia, os noivos que se casam na rua e se atravessam à frente do eléctrico na rua central.
Recuperamos um local de fervoroso culto católico, no interior da porta da fortaleza, uma serenidade profunda, quase mística!
O museu das relações destruídas é uma invenção croata que expõe objectos deixados por relações terminadas e deixa um desafio terapêutico, baseada na exposição pública na expiação pública e conjunta dos cacos amorosos.
Folclore ou serenidade?
O cemitério de Mirogoj é um retrato da história de uma nação – fosse ela qual fosse, Jugoslávia ou Croácia – como o mercado central de Dolac, também.
Em Miragoj, o último monumento de granito tem uma porta orgulhosamente nacional e milhares de nomes gravados na pedra.
Advinha-se que se tratam dos mártires do renascimento croata!

sábado, 6 de agosto de 2011

Dubrovnik – A beleza Adriática



Hoje em Dubrovnik regressamos ao Ocidente e às memórias de batalhas intestinas entre povos artificialmente criados por guerras tipicamente ocidentais.
Foi em 1991 que os sérvios bombardearam o património da Humanidade.
Em 6 de Dezembro, dia do padroeiro da cidade. Significativo!
Hoje nada relembra a destruição. Excepto as cicatrizes visíveis no tom das vozes e nas expressões deles.
E as imagens!
Croácia, meio-dia espraiado no Adriático Ocidental.
Não, Oriental é que não! República Veneziana, independente na Renascença, noventa por cento católicos.
Na proa do Costa Atlântida, a cidade, a fortaleza, república e cidade mártir, património da Humanidade emergiram solenemente do nevoeiro matinal.
Dubrovnik, antes da Croácia.
Fica no ar a ideia que se trata (eles pensam que) da origem da Croácia, a última fronteira Sul, junto a Montenegro (disso não restam dúvidas, para já)
Ficámos sem entender se o ódio sobreviveu a vinte anos de uma nova geopolítica, recuperada através de uma guerra fratricida.
Ou é apenas uma forma de auto convencimento da sua curta independência (recente) “o impossível manter junto o que nasceu separado”, porque vinte anos de separação é um nada histórico e setenta anos é uma referência histórica de união pobre!
Deve haver uma qualquer razão profunda, baseada nas entranhas do seu percurso, que nos permita efectuar um prognóstico mais do que reservado do futuro dos Balcãs.
Tem de haver um padrão qualquer! Tem de haver.