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quinta-feira, 4 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 4/8


Apesar de ser uma mente que pairava o mundo, não o empolgava qualquer sentimento ou apelo ao destino atlântico e descobridor, revelado no ADN lusitano, e muito menos à Ibérica ambição de grandes e épicas conquistas. Nem mesmo o amor convicto pelas causas humanitárias num mundo globalizado, o terá alguma vez despertado para o voluntariado de impulso e sem regresso, que a sua mente em estado de sono profundo, sonhava.
Era eventualmente, e apenas, uma forma de expiação do pecado de viver num mundo remediado. Por isso, era um sentimento sem força suficiente que levasse alguma vez L. a pensar sequer em partir sem bilhete de regresso.
“ Tu és um homem maratona “ – uma profecia indesejada de furtivo e não assumido amor.
Convenceu-se então que isso de ser corredor de fundo era uma espécie de gene diletante e ramificado na sua consciência de ser, que não lhe permitia tomar decisões grandiosas e absolutamente não convencionais.
E por isso mesmo, tornou-se um adulto conformado e portador de uma existência tão linear quanto previsível, empurrado pelas circunstâncias conciliadoras de uma vida socialmente enquadrada, temperada por laivos de irreverência condescendente, décadas de ascensão consciente e estruturada, a obstinação que, esporadicamente, se sobrepunha à determinação e uma invulgar capacidade de acumular experiências e devolvê-las, sem golpes de mestria e de forma absolutamente gratuita, a todos os que dele se abordassem.
Socialmente inapto, portanto, este homem da maratona, no amor e no trabalho.
E à medida que as luzes amarelas do aeroporto galgavam o horizonte em sua direção, do táxi que o transportava e dos subúrbios sem esgoto nem pavimento, L. via desfilar, neste oásis de luz fosca, esbatida e sem sombras, a súbita destruição do seu mundo familiar e a incapacidade de lidar com um mundo laboral de metas curtas e personalidades afirmativas.
“Vou sair de casa” – foi de uma forma tão simples e cruel que o amor da sua vida, subitamente o privou da família, do sentimento que julgava ser apenas uma esbatida e longínqua paixão, e de uma vida social em recente estagnação.
“Apaixonei-me outra vez!” – A paixão é um sentimento do fim dos tempos, que se reacende em momentos de crise profunda, uma espécie de anestesiante para a queda iminente nos abismos, os momentos de loucura que precedem os marcos da História.
Foi o regresso da teoria dos ciclos, após décadas de crença absoluta no enriquecimento eterno, baseado no conforto, na indulgência e nos valores em que fomos habituados a acreditar.
“Lamentamos, mas não se adaptou aos novos tempos” – Retrato de uma geração em apuros
No amor e no trabalho!
Assim, para L. as generosas taxas de crescimento destes povos latinos, ansiosos por ascender ao patamar mínimo da classe média, ainda entre senhores e servos, eram um desafio sem segredos para quem já não acreditava, depois dos cinquenta, que o mundo fosse o seu novo e instável lar.
E os laivos de memória descontextualizada invadiam-no com a aproximação dos lugares com fuso horário.
E o aeroporto da Cidade do Panamá era um deles.
E, enquanto procurava consumar uma bandeirada a preço aceitável nesta viagem de bigode e tez morena, viu a sua vida a desfilar em contramão na esporádica autoestrada deste destino improvável.