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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ei! Silly season, os nossos filhos estão a emigrar!


A estação tola aproxima-se do fim
Silly season para que não restem equívocos
São as manhãs de neblina costeira e outonal que nos acordam para a elevada perecibilidade do Verão
E do inverno...
A rapidez das ondas do tempo desfaz as memórias num ápice
Enquanto no país do sol poente as festas e festivais de verão extinguem a chama de um povo que se incendeia no calor da estação alta, os velhos emigrantes regressam "quando se prova o sabor de Paris nunca mais ficamos contentes com Portugal " e os miúdos com uma idade cada vez mais próxima dos nossos filhos despedem-se dos empregos precários (os nossos) e do desemprego e preparam-se para seguir o regresso os velhos emigrantes
 
 
 
Para saltar a fronteira inexistente
Não queremos (porque somos) ser piegas porque…
É o mercado, é a vida todos entendemos, o equilíbrio da oferta e procura, o mundo global que provoca a desertificação das periferias e enriquece os lusitanos de novas vivências e realça a nossa competitividade no mundo.
Mas o que será de nós se os nossos filhos não voltarem?
Seremos a geração que não consegue fechar a porta, os solitários guardiões de templo perdido
Não é retorica, é um fado!
Juramos que vamos gastar os últimos euros para os ajudar a emigrar como triunfadores de um mundo global
E não como o cu do mundo inteiro
Mas... E se não voltam?
Não é retorica, é uma visão aterrorizadora (sim, exagerada e piegas) de extinção
Demasiada diáspora para a velhice residente.
Resta-nos plantar raízes nos seus pés e lembrar-lhes que somos o melhor país do mundo para viver
 
 
Ganhem a taça e tragam-na para casa!
Seja isso o que for!

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Volta Galileu, serás (estás perdoado) reabilitado


(foste absolvido em 1983) ...
...ou um quase poema em honra do pai da ciência moderna

Na praça da república, o que resta dos banhos de Diocleciano, reconstruído pela basílica de santa maria de (todos) os anjos, a partir do século XVI, recupera a dignidade das suas abóbodas na destruição dos seus vestígios
Roma no seu âmago
Miguel Ângelo, arquiteto ao serviço papal, num traço hoje também irreconhecível perante as reformas do século XVIII
Ganhou dimensão e grandiosidade, mas tornou-se fria e distante porque os banhos tinham a composição genética dos templos pagãos
Falta-lhe espiritualidade baseada na abstinência


E aquele que só muito mais tarde teve direito a um túmulo católico regressou em vida, reconhecido pelo templo católico dos espaços abertos e raízes… (numa linguagem moderna) laicas!
Irónico?
Ou o reconhecimento de que a ciência precisa de espaços amplos e múltiplas origens?
Quando deixou a matemática e se dedicou a por em causa os dogmas da criação do mundo, as trevas do renascimento avançado cobriram a sua chama,
O pensamento científico
Não morreu na fogueira inquisitória, mas foi-lhe negada a honra da razão
Queimado, no sentido figurado e social do termo
Na última manhã da Roma turística deparei-me com Galileu na paz dos anjos, abençoado pela república na grandiosidade (quase pagã) bíblica de uma basílica católica
Um triunfo pelo cansaço da teoria heliocêntrica


Não podia haver melhor síntese para a Roma dos quatro atos, a vitória da inteligência, apesar da permanente insistência das trevas do tempo.
Antiguidade, Cristianismo, Renascença na modernidade e redenção!
Um Génesis possível do imaginário de uma Roma futurista!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Antiguidade em estado (im) puro – Mercados de Trajano


Oásis de silêncio nas traseiras do fórum imperial, numa manhã de calor abrasador em que as memórias sobrevivem na solidão dos passos perdidos, das pedras renascidas das mãos dos arqueólogos.
Sem multidões, as paredes intactas do mercado contam-nos a História sem pressas, interferências com sotaque ou contadores de histórias profissionais: só nós e a perceção sensorial do passado, salpicado, quase de forma não intencional, por peças genuínas, recém-descobertas no subsolo intocado do mercado e fórum de Trajano.
Bustos, estátuas, colunas e lápides, sem ordem precisa mas com significados próprios.
Silêncio e memória!
Provavelmente porque aqui não houve imersão em banhos de sangue nem superproduções, nem mesmo gladiadores em discurso direto
Apenas mercadores e comércio, uma vertente pouco heroica e pouco convencional da antiguidade romana
“The most exciting city-center roman ruins”, segundo os colunistas da atualidade
Deambulando pelos corredores, subindo e descendo escadarias corroídas pelo tempo, abraçando as vistas desafogadas do fórum, a partir das varandas milenares e vagueando o olhar pela serenidade deste lugar, simplesmente sentado numa qualquer pedra com uma profunda perspetiva histórica…
Tal como a visão se habitua gradualmente â escuridão, os espaços redescobrem-se à custa de olhos estremunhados.
Primeiro temos a visão do espaço grandioso e milenar; depois apercebemo-nos das peças expostas com o orgulho de uma descoberta recente; subitamente, entendemos que novas artes se intrometem no nosso angulo de visão – duvidamos, antiguidade desconhecida ou modernidade consentida - sublimam e realçam a envolvente e, finalmente, absorvemos as intenções dos artistas e a sua cumplicidade criativa com os arqueólogos.


Novos olhares e interpretações contemporâneas da Antiguidade, os novos tons da modernidade romana, são uma forma diferente de elevar a Antiguidade ao estatuto de arte contemporânea
Segundo o manifesto do artista, compara o passado, o presente e o futuro olhando para simples utensílios como copos, pratos, garrafas


“…Objetos simples obedecem a um ritmo lento, quase geológico…”
O artista confronta a arqueologia romana com a arqueologia do futuro
E o espaço renasce por ele mesmo, numa visão deliciosamente não convencional dos monumentos romanos
É como se a Antiguidade pudesse ser viva, soubesse dialogar com o presente numa milagrosa inversão do paradigma absoluto (do passado) da cidade, aquele que apelava à reconstrução devoradora em camadas sobre as (à custa das) ruínas (sobre ela própria)
Aqui, nada se constrói à custa de nada
Nada se cria nem se destrói, tudo se funde com a solenidade de um Templo submerso em Deusas fotográficas que espreitam das paredes numa descoberta surpreendente da intemporalidade do espírito (e da criação) humanos.
Meio-dia, nas traseiras do Fórum Romano!

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sagres – A derradeira fronteira


Sempre me habituei a considera-la a fronteira, nas esporádicas peregrinações a este Portugal debruçado sobre o imenso Atlântico
Num país de fronteiras, até o estendal de vendedores ambulantes que vendem tudo o que no país atrai a massa de visitantes sem referências históricas ou culturais do nosso passado, nos remete para o imaginário fronteiriço, quando os países eram ciosos da sua identidade

 


Esta estrada que acaba tão abruptamente quanto a falésia, parece navegar no azul do mar e do céu, nos nossos sonhos e passado glorioso
Muitas vezes é nas memórias que se constrói uma identidade forte e combativa
Aqui, a fronteira é o mundo!

sábado, 4 de agosto de 2012

Trastevere ou a embriaguez das noites de Roma


Lambretas aceleram entre o trânsito impossível e uma multidão que não tem pressa de regressar a casa
Também não apetece porque a temperatura de corpo humano com febre ligeira serve de suave casulo para a brisa inexistente que se sobrevoa o Tibre em voo rasante
Em Trastevere a noite faz se de ruelas estreitas de uma cidade alem rio diferente com sentido e vida próprias, cheiros que denunciam existências suadas, roupas interiores expostas, sem pudor, nos estendais das traseiras mal iluminadas, tascas de bancos corridos cheias de memórias de aspeto autêntico e cheiros de comida mediterrânica
Santa Maria Trastevere, a praça e a igreja são apenas um prelúdio medieval que nos convida a embrenhar pelo bairro adentro - quanto mais recôndito o canto, melhor - porque cada esquina é um microcosmo tingido de cores próprias, existências diferentes e seres de texturas especiais
Os comedores de fogo que pululam na praça convidam-nos a experimentar o bairro
Sem sofisticação nem ruínas milenares em emersão constante, apenas vida incontida num bairro que não conheceu (nunca) imperadores e que nasceu na era das trevas (ou da penumbra, conforme as vivências)
E por isso mesmo é um local mais familiar porque os personagens podiam pertencer a uma qualquer fita de cinema do sul da europa, com uma ausência total de fantasmas adoradores de deuses pagãos
Católico, apostólico e romano
É assim Trastevere numa noite de verão abrasador nas margens do Tibre
Embrenhamo-nos com os vapores do limoncello a pairar à volta das nossas cabeças, no arraial à beira rio e as referências (turvas) ao nosso mundo - mediterrâneo e europa do sul - são reconfortantes
Num dialeto esmagadoramente italiano, incha-se o ego machista no tiro aos pratos, lê-se as cartas numa tenda de mil e uma cartomantes, bebem-se caipirinhas e mojitos, disputam-se acesos campeonatos de matraquilhos, vendem-se bugigangas dignas de uma feira.
Debruçados sobre a ilha Tiberina – regressam os vestígios de Roma antiga – atravessamos pontes para a ilha do cinema, mais referências latinas em múltiplos jardins cinema
E, de repente, apetece-me ser cinéfilo,
Lambretas aceleram entre o trânsito impossível e somos nós que não temos pressa de regressar a casa
Trastevere, ou a embriaguez da noite de Roma!

Roma em três atos - Ato III - A modernidade romana


Em pleno terceiro ciclo de vida da urbe (do Império, do País?) – terá começado com o regresso dos papas ou com o renascimento tardio?
 A nova Roma, a Roma dos dois elementos, nasce com o renascimento adiantado e integra a recuperação do elemento antigo com a sumptuosidade luxuriante do barroco
É o que consta dos relatos e o que ressalta dos passeios na cidade habitada e cosmopolita
A intrigante coexistência do (profundamente) religioso e do pagão (o culto da beleza e do corpo) nos últimos séculos, é um acontecimento pleno de êxtases e arrependimentos, revelações, equívocos e algumas sórdidas vinganças.
Mas salvo acidentes e algumas adaptações convenientes - daí as estátuas nuas sem sexo nos corredores do Vaticano – a obra dos artistas do novo renascimento da cidade é a essência da arte compreensível e completa, a modernidade anunciada que se respira nas igrejas, nas piazzas, nos lugares de culto ou exaltação pagã.
Michelangelo, Bramante e Raphael desbravaram a nova era por entre a indefinição de estilos de uma cidade que olhava, soturna para o passado, e Bernini soube render guarda aos poderosos mecenas e as suas exuberantes obras prolongam o fulgor dos mestres do Renascimento, com um toque muito (barroco) especial
Assim nasceram pedaços da nova Roma, os retalhos da vida de um turista na cidade.
No Campidoglio, no alto dos capitolinos, encrostado entre o fórum e o monumento a Vittorio Emmanuel (uma extravagância fora de época, muitos séculos depois numa nova, e fugaz, tentativa de construção imperial) …


(Porque é fascinante alimentar a ideia de que a cidade se (re) constrói permanentemente sobre ela própria, por camadas de História…)
Nas fontes da Navonna, entre o bairro judeu, o panteão – obra mágica de céu à vista, de dia e à noite – um rio que se confunde com as origens de Roma, e na vizinhança das sedes do poder…


Em S. Pedro, não somos surpreendidos por um toque de barroco demasiado especial que confunde os sentidos com os compromissos apostólicos e artísticos a basílica centro do catolicismo ocidental …), desbravado muito mais tarde por avenidas “mussolinicas”…


Pela Via Sistina adentro até Trinitá del Monte, escadarias abaixo em direção à Piazza di Spagna, navegando na Fontana dela Barcaccia pelos mares de luxo da Via Babuino até ao Popolo (igreja, praça e a porta da cidade), uma praça quase perfeita de formas geométricas e de simetrias cheias de significados misteriosos…


E os locais de culto sucedem-se, independentemente das hordas de turistas acidentais, ruidosos e, por (muitas) vezes incapazes de entender o sentido mais espiritual das obras e das crenças de um povo.
Sim, porque as referências são quase impossíveis de abarcar num roteiro, numa visão panorâmica, ou numa superficial visita com tempo contado, porque Roma não se esgota numa unidade de tempo / dia.
Mas os heróis do terceiro ciclo têm uma vantagem preciosa: não experimentaram a decadência e a derrota, viveram numa Europa de bárbaros domesticados (ou convertidos)
Foi só criar nos espaços vagos
Por isso os génios da arte andam à solta na citá!