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terça-feira, 25 de junho de 2013

O tempo Olho de Boi (ou há nimbos no céu...e na terra)




...contra-ataca e já não há nimbos no céu (mas persistem na terra)
O tempo Olho de Boi sugere temperaturas extremas, alternadas com ventos ciclónicos, na mesma semana, no mesmo periscópio mental, e transforma os pontos de vista em desérticas miragens, sejam de calor ou de vento e a malta transe, meio enlouquecida, pela lógica do amanhã pode chover.
E, nas praias da costa sul, proliferam as bundas de branco leitoso e tatuagens ruminantes, que substituem os fatos de banho e as curas de emagrecimento expresso.
A sofreguidão entope o areal e espanta as marés vivas, fora de estação, e até o mickey vai à praia, porque já foi anunciado que o amanhã, ou não existe ou vai pairar de nimbos no horizonte.
Hoje não se vislumbram os tais nimbos no céu e a fauna desceu à praia entre duas entrevistas no Instituto de Emprego, umas saudades imensas de umas férias no areal salgado de Santa Cruz, umas rajadas de vento, em dias intercalados e duas imperiais no bar da praia.
Só o tubarão poderia enxotar este enxame de adoradores do fim do mundo.
Esta perceção de permanente último dia (de calor, de verão, de emprego) ainda por cima com a lua, que quase rebentava ontem à noite, desperta excentricidades e comportamento ( de transe) muito alternativos.
Talvez resolva os nossos problemas demográficos!

domingo, 16 de junho de 2013

Chove na cidade festa


 
Chove na cidade anoitecida que arrefece a fúria espanhola, o burburinho da final da tarde de Sábado nas Portas do Sol, onde todos os madrilenos se pareciam conhecer nos pés do urso, um ponto de encontro natural das legiões de cidadãos que cerram fileiras e entopem os bares de tapas e cañas, entre as nove e meia e as dez da noite, que é o quilômetro zero das estradas de Espanha.
Pontualidade espanhola, um povo que se recusa a ficar em casa.
Mas a intempérie de temperatura calda (o verão asfixiante dos 37 graus, tem regresso prometido para a próxima semana) também parece acalmar a fúria dos homens estátua que povoam (como persistentes empecilhos de personalidade mutante) as praças da urbe turística, em busca de fama ou de uns euros que distraiam a crise e o desemprego.
Piratas e monstros, ícones do cinema e da animação americana numa dobragem sem legendas e em três dimensões.
Ou a fúria do homem sem braços que agita com a boca o balde das esmolas…
Ou o homem que grita na composição de metro o acidente da mulher grávida e assegura ameaçadoramente que não está a roubar ninguém mas que devem comprar uns lenços de papel por um euro, e os passageiros que baixam as cabeças e os olhos para não o ouvir, ou não acentuar a sua ira!
Ou a turma gótica que povoa o Templo Debod, de vista sobre a cidade e a casa de campo, com as luzes e as sombras que mancham o horizonte urbano em final de tarde
Piercings em cobertura de negro ao por do sol!
Apenas Cervantes e sus muchachos, Quixote e Pança, permanecem impávidos e serenos, no alto da sua estátua na tão nacionalista Praça de Espanha, ainda que na sombra da fachada imponente e cooperativa do maior arranha-céus da Europa após guerra.
E o Homem Árvore na Praça do Oriente.
 
 
 
Para eles, não há fúria nem chuva que os demova da sua missão que é a de abençoar todas as espécies que povoam os moinhos de La Mancha
Nem para a polícia sempre presente que lida, com distância e sem fervor, com o seu povo afirmativo e impaciente em relação aos tempos difíceis e à crescente multiculturalidade que os rodeia.
Tudo o que seja preciso para garantir que se mantém o excitante glamour da cidade fiesta.
 

sábado, 15 de junho de 2013

É dia de clássicos em Madrid


 
Madrid
Madrid Real
Real Madrid!
É um dia de clássicos na capital mais alta da Europa.
Na Real Rainha Sofia desfila, e até Agosto, a vida do grande e alucinado Dali em onze capítulos, em onze salas, desde a infância artística até às tentativas de projetar a arte em quatro dimensões, as reflexões do átomo e, em flashback, as aventuras cinematográficas e publicitárias da sua expedição americana, a premunição da guerra como um monstro que é o ser humano, que se estrangula numa imagem épica, a descoberta do surrealismo, “ o surrealismo sou eu”, e és mesmo porque olhamos para ti e para as tuas obras e entramos numa dimensão diferente, não é humana nem celestial, é uma espécie de estágio pós vida, imerso em paisagens profundas e tridimensionais de um mundo que só existe nos sonhos de inquietude e temor e nas imagens da infância, remetidas ao início de século!
É por isso um Universo Dali!
Tão magnífico que, depois do contacto com o universo do "surrealismo sou eu", a visão da cidade só podia ser diferente, alternativa e, em espaços, desconcertante.
Em Lavapiés, respiram- se as questões de uma cidade e de um país que vive nas extremidades da Europa remediada, mas também o regresso aos ambientes e à moda vintage, os cafés de pendor literário, a feira de desenho independente e design em La Boca de piercing nas extremidades das artistas alternativas e de uma indiscutível beleza latina, a caminho da Calle dos Embajadores, onde palcos improvisados promovem o entrosamento das civilizações em bailes de escola e a comunhão do flamenco e da dança do ventre, sem que se entenda se nasceu (ou não) uma nova raça indígena e mestiça.
Regressados ao tempo das fronteiras dos reinos católicos e sultanatos árabes na grande Península Ibérica.
A caminho do Rastro, o mercado de todas as pulgas, no bairro da Latina.
E ala Madrid porque é Domingo e mesmo fora de estação e degustando presunto ibérico com vista para o relvado do Barnabéu, a romaria de adeptos não cessa de rodear o estádio, è espera de mais um clássico de velhas glórias.
 
 
Não há tradição que resista a esta movida latina que deixa o bairro de Salamanca descansar no fim-de-semana, lojas de marca e de luxo inatingível sempre abertas em ruas desertas, mas entope os estradões do Retiro com uma inundação de barcos a remos, artistas de rua (parque) e versões latinas do rato Mickey que dão um colorido berrante e anglo-saxónico a esta parada de estrelas que são os madrilenos.
E enquanto as nuvens ameaçam novamente o passeio de barco da cidade inteira, a rapariga da máquina fotográfica, revela-nos um retrato clássico de Doisneau, não fosse ele francês e ela (presumivelmente) espanhola.
Este foi decididamente um dia de novos clássicos em Madrid!
 

quinta-feira, 13 de junho de 2013

A milha dourada


 
Gran Via é a nova milha dourada para os guias turísticos da capital do (antes) Império, mas é também o que resta da velha Espanha (dos seres) de fato escuro e bigode grisalho, dos engraxadores que acompanham o ondular da grande rua que sobe da praça de Espanha até ao Callao, plana nas alturas até a saída do metro, junto ao velhinho hotel que virou Trypp, na esquina da Calle de la Montera, para voltar a descer em graciosa curva pela direita fora, até desaguar no rio maior chamado Alcalá.
Apesar das novas montras de design e das aspirações pós modernas e da moda de apelo mediático que substituíram cafés e livrarias, das salas de espetáculo que paulatinamente convertem as sessões de cinema em musicais de reminiscências anglo saxónicas (O rei é Leão), as calçadas e as fachadas clássicas da grande rua ainda transpiram a Espanha dos Ducados e dos fatos cinzentos, dos sabores clandestinos de um refrigerante invulgar, uma espécie de primavera de Madrid na década de setenta do século passado, das touradas e do flamenco, das boinas bizarras da guardia civil, dos caramelos e dos boiões de perfume de litro, das roupas cinzentas e dos óculos de sol à Alain Delon e a grande sensação chamada de Tiburón, uma grande estreia de Spielberg em versão dobrada.
 
 
Não há nada de particularmente errado nesta visão da Espanha da segunda metade do século passado, convertida a si mesmo e ao grande espaço continental, como que a lamber as feridas de um início de século alucinante e fraturante.
Mesmo que as reminiscências deste lugar nesse tempo só sejam percetíveis para quem cá tenha estado!
A única nota aparentemente disfuncional nesta grandiosidade quase decadente são as prostitutas que parqueiam, à uma da tarde, na esquina da rua pedonal entre esplanadas e lojas de moda, vigiadas por velhos com penetrante olhar de chulo (os novos velhos de fato escuro e bigodes grisalhos) perante a indiferença geral e o despeito das próprias.
Eu quase que garantia que estas almas depenadas, que ficaram presas na escala do tempo, como fantasmas pululando entre os vivos, encurralados entre o passado e o futuro, são a única prova de que provavelmente a milha dourada já foi, em tempos idos, o coração (e todos os outros órgãos vitais) da grande Espanha nacionalista, uma monarquia de Rei exilado!
Obviamente apenas evidente para quem viu o Tiburón que se exprimia em castelhano!