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domingo, 27 de dezembro de 2009

Navegando para lá da Taprobana -



Este fim de tarde no Forte de Galle, é um regresso ao passado, tão redondo quanto este mundo pode ser!
Os vestígios do mar, batalhas, conquistas e prisões emanam destas pedras escurecidas, um promontório de engenho lusitano, envolvido num longo abraço colonial britânico (maldita aliança), o campo de cricket como uma herança de quem reinou – apenas 150 anos.
Mas o Forte resistiu – holandês de nome, português de origem da aldeia global e das grandes ideias! Mas o campo de cricket afundou-se nas ondas do tsunami!
Ao fim da tarde no forte, as crianças jogam cricket junto à muralha, as mulheres vendem colares e vestidos de seda, as civilizações confundem-se, budistas com vinte e três séculos de convicções, cultura e história, os árabes de vestes brancas, que aqui atracaram para negociar com os portugueses…e ficaram como habitantes naturais do forte!
É um mar de vestes e de gente, de diferenças que se fundem nos tons pesados da paisagem, verde e castanho-escuro.
Este marco civilizacional não podia ser mais o espelho do passado, reflectido no presente das quinquilharias, facas portuguesas do século XV, telefonias do século XX, sem qualquer ordem nem rigor, porque o único critério que persiste é o de pertencerem ao promontório…
…E a gorjeta de 200 rupias rapidamente deglutida pelo pretenso guia, escondidas das vistas da Autoridade diluída no enxame de culturas…
Sem critério e sem nomes, tal como a História se arrisca a ser, se tão condensada for a forma de a julgarmos.
Mas a emoção de acariciar as pedras que restam do forte português, engolido pelos flamengos, faz soltar as lágrimas interiores, um orgulho contido, mas reconhecido pelos indígenas – português? Vasco da Gama e Luís Figo, my last name is Perera – por termos sido os primeiros dos últimos a abraçar este pedaço de terra…
Daqui partem os pescadores em barcos de flutuadores, absolutamente indiferentes ao passado, em barcos tão primários como as nossas caravelas…Um primeiro plano técnico, tendo como fundo o templo budista, além baía; como foi possível termos chegado tão longe?
O espírito colonial sem mácula, obviamente que não existe: Novo zoom dos seres e dos detalhes e a certeza de que as especiarias se sobrepõem sempre, as galerias de cimento esburacado emergem ininterruptamente entre uma infinidade de bugigangas, indecifráveis no banco de trás das motoretas fumarentas e ensurdecedoras…sempre aquela sensação de que o que é antigo está abandonado e de que o que é novo nunca foi, nem será, acabado!
E quem disse que as igrejas holandesas, o farol do forte, a igreja anglicana, a mesquita e o forte português deverão ser o modelo do tal mundo redondo?
Também os árabes vieram à procura das especiarias e de uma qualquer razão para o comércio e ficaram quase donos do forte, só por fascínio talvez!
E o forte resistiu sem estragos, sequer, à fúria do Tsunami, quinze dias depois. Será um sinal?

Galle, Dezembro 2004

domingo, 6 de dezembro de 2009

Chove em Copacana

Chove em Copacabana


Copiosa entranha-se nos vultos que alisam o areal em desportos inconfundíveis na cidade Praia, nos corpos sobreviventes das nuvens densas, uma humidade tropical que os invade, eles desportistas, nós mirones!
A cidade submerge-nos em ondas sem pátria com a leveza de uma alma aguadeira…
O ruído incessante da urbe desvanece-se com a chuva que escorre do céu lamacento, das encostas dos morros que embrulham os vestígios de postal ilustrado.
Mas o dilúvio também afunda a magia; sim, a magia não desperta com a chuva dos Deuses.
Nem no Posto 6 de Ipanema, nem no boteco do Calçadão, não há vudu resistente, nem princesas de tanga, essas esperam o Sol para lhes realçar o culto do corpo.
A Metrópole perde a razão com a água que não vem do mar, esse ente que interage com a urbanidade letárgica.
A água do céu é um chuveiro que entope as avenidas de uma cidade carente, não há sombrinhas que te segurem, Cidade Maravilha que os teus poetas cantavam como sua, tolhidos pelo Sol que não vem esta semana!
Por isso os poetas e trovadores refugiam-se nas caves, no inacessível…
O táxi amarelo submerge-nos nas águas revoltas do bairro boémio, quisemos abrir a escotilha do submarino, mas o marinheiro chaffeur atracou-nos no Rio Scenarium, não fomos na enxurrada porque não havia morro, ali tão perto!
E afinal existem poetas no Rio, enclausurados no armazém da Lapa, segurem-se nas velharias embutidas de memórias, os sete anões e as pernas que apenas vestem ligas de renda, um elevador sem garçon, telefones e telefonias, uma vespa que jurava ter levitado a garota de Ipanema.
Pura magia!
A chuva todos os fins de noite dizia basta…a cidade era um deserto sem semáforos vermelhos, um downtown irreal com vultos imersos nas fachadas das torres de escritórios, federais à vista armada, mas jogava-se na baixa do Flamengo, sem Luar, banhados de luz artificial, garçons que vingavam noites de trabalho com madrugadas de bola até de manhã.
Em Copacabana não parava o jogging no Calçadão, não há horas no Rio para abarcar tanta diversidade.
Às quatro da manhã pensava se o submarino amarelo teria submergido, lá para os lados da Lapa.
Não há respostas. A urbe esquece!
Será assim com Sol?
O novo táxi amarelo enxuga os rolos de água da calçada, mas não resmunga: é neto de Cinfães do Douro, sonha com o paraíso que é Portugal, diz que há-de vir!
Tudo é indecifrável, sobretudo os sonhos!
As grandes urbes são fontes inesgotáveis de glamour e movimento…mas não resistem às imagens em câmara lenta de um interior bucólico!
Hoje, foi mais um dia de chuva em Copacabana!
Dezembro 2006

sábado, 21 de novembro de 2009

Um Outono em Nova Iorque - Glamour na cidade






Atravessar Queens ao anoitecer num táxi amarelo de preço fixo, não sendo uma experiência aterradora, lembra-nos, com um cerrado sotaque porto-riquenho do taxista pendurado ao telemóvel (sabe-se lá com quem), que abraçámos o último e derradeiro grito da Babilónia terrestre, um trânsito que invade os bairros residenciais de casas pré-fabricadas, todas plantadas em minúsculos jardins, sem sombras de vivalma sob os candeeiros, triunfalmente perfilados às portas altivas, reflexos de imponência que não sobrevive às ombreiras, e este mar de faróis de camiões que trovejam ruídos angustiados, indiferentes ao deserto das bermas e dos passeios (quantas horas mais já passaram nesta invisível fronteira?), das ruas que se atrevem a desembocar nas auto-estradas que só tem um rumo, um destino desejado: Manhattan!
E, tão repentinamente como o cinema nos liberta sem dor de um subúrbio triste e submerso na melancolia de um manto de escuridão, que se advinha (será pressentimento?), emerge na colina rolante de asfalto, uma enorme planície de escuro e, ao longe e tão perto, os picos de luz da ilha mágica (porque será que na ilha se caminha para o centro?), as pontes e o túnel e finalmente sem surpresas (porque lhe conhecemos os sons, os neons e os cheiros....e os fumos que nascem do chão, mesmo sem garantias de termos vivido o sonho americano) penetramos no âmago de língua que já suspeitávamos ser a versão laica (pagã e prosaica) da Arca de Noé, sem vergonha da apregoada falta de pedrigree e tradição, laivos de alguma juventude inquieta, o elogio permanente ao absoluto exagero, uma miscelânea apoteótica de enclaves étnicos, que serão a garantia da futura existência de História na Metrópole.
Também quem cá chega não procura a História, naquele sentido tão estrito, como as pedras com centenas de anos de idade, não se defrauda perante o aço, o vidro, o ferro fundido (e a madeira dos subúrbios, é preciso não esquecer!) e jamais perde a tentação de espreitar pelas janelas do táxi, pescoço torcido à procura do topo dos edifícios, experiências repetidas no meio da rua, pescoço que se estica como se as torres fossem esbeltas mulheres de.....75 metros para cima! E sem pudor juvenil, as olhamos de admiração no primeiro dia, no último dia, muitos anos depois, sempre!
Ela pasma-nos, deixa-nos pavonear nas suas ruas, onde tudo parece pequeno e fácil (estamos sempre nas mesmas ruas, nos mesmos números) mas é imenso e universal, não nos deixando dar nas vistas, porque devora qualquer pretensa celebridade, engole todas as peneiras na selva de gente, luz e no puro gozo dos sentidos!





Os cânticos de uma raça

No Domingo de manhã, na Abyssinian Baptist Church, uma comunidade procura reencontrar-se aos braços de um coro em Godspell, protegidos por um ritual bem treinado que lhes reforça as crenças, um reverendo que aprendeu a comunicar para dentro e para os ilustres visitantes, com uma mística regeneração de fervorosos combates pelos direitos cívicos e uma piedosa crença num Deus que proclama a imaterialidade incolor.
Um Harlém de Domingo de manhã revela-nos uma tolerância, uma organização que não vislumbramos nos neóns das películas revisitadas por décadas de guetto, mas mantém a altivez coloquial que não deixa dúvidas de que somos ilustres visitas, apenas!
Os velhos decanos dominam a plateia numa pose sublime e aquela cerimónia, sobrevive para além das vozes fantásticas, e coloca-se num contraponto à desordem das ruas que, mesmo ao Domingo de manhã, se imagina nos dez quarteirões abaixo, que exige cedências, alguns equívocos no discurso do reverendo, na exaltação que entorna por vezes contundentes criticas à justiça dos homens, apelos ao renascimento pacífico das comunidades protegidas, em troca da fé!
Mas não deixa de ser uma emoção especial enfrentar os fantasmas que povoam este bairro, sentir pequenos arrepios com a fama tão cultivada e que sinceramente não entendemos se a larga Lenox Avenue apenas torna difusa ou engrandece na sua largura, no seu epíteto, conjugação de sinfonias de seres que não nos ligam mas que na sua presença, em nosso redor, nos afirmam nos olhares que não nos cruzam, para além da indiferença, que somos toleradas visitas, apenas!


Outono 2002

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Die Mauer



Por mais que se pretenda esquecer, Berlim é o fogo cruzado sobre a sensibilidade de quem detesta sentir-se preso ao transitório, apenas mais uma face do definitivo, temperado de esporádicos complexos de culpa.
Mas, junto àquele gélido muro, a inspiração esvai-se por entre complicados projectos de fuga que se enlaçam nos arames farpados, apenas disfarçados pela arte subterrânea, sinistro doping de sentimentos sem horizonte.
Ali tudo perde a racionalidade suprema do bom europeu intimamente marginal;o inexplicável estende-se pelos longos baldios sem sentido, que se esforçam por alargar os horizontes por cima do muro, de onde o romance desapareceu há muito e apenas as imagens soltas dos postais a preto e branco nos fazem sentir as trovoadas de esperança, sobretudo de desespero e frustração!
E naquela tarde de Agosto, a trovoada e a chuva foram as únicas manifestações possíveis de semelhança entre os dois mundos, separados por alguns metros, suficientes para impedir a reconstrução de ruas bloqueadas a meio, cujas linhas de eleéctrico comprovam que Berlim já foi Berlim.
Por isso parto e fujo atrás da minha terra, do meu mundo, porque aqui os baldios são tudo o que resta da vontade de acreditar num mundo livre. E nem as violas solitárias à beira do tráfego intenso, musicas das quais apenas ficou a melodia, me fazem esquecer a indiferença mal simulada dos rostos que me rodeiam, sobretudo porque aquela cruz, submersa por muitas outras, me garantia que mais um homem sem rosto ali morrera em Dezembro.
Aqui, todos já deixaram de se sentir ameaçados, de tão ameaçados que estão; é decididamente o princípio do fim de um sonho, inundado de palavras e actos bem aceites, como o ser revolucionário na Europa é incrivelmente vulgar, e cultivar a solidariedade apenas um mito nas mentes de uma terceira vaga esclarecida, confortável entre muros baldios ou apenas numa cabana refúgio montanhoso do Bom Selvagem.
Como diria o poeta, a liberdade não se inventa, descobre-se!

Berlim, Agosto de 1985

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Krakow, 7:30h da manhã

Krakow, 7:30h da manhã

O amanhecer de uma luz oblíqua, as cores amareladas do Outono, ou da estepe, uma neblina que nunca morre, e escorre como uma flanela de cor difusa, dos topos das árvores, dos arbustos silenciosos, um abanar de orelhas à relva imaculada do jardim que cerca a cidade, daqueles que cheiram a bons velhos tempos, turvas mas persistentes recordações de qualquer, e de todas as infâncias, com passos apressados, só se conhece juventude altiva sim, enquanto os velhos se escondem no passado, talvez demasiados no alcova matinal, quem saberá porquê!

Krakow, 7:30 h da manhã de uma terra diferente e distante, mas que se revela a todo o momento, em todas as esquinas na incapacidade de comunicar sem ferir, desprendimento metálico de uma mesma multidão que desemboca na estação central, que juraríamos pertencer, sem qualquer especificidade relevante, a uma sub urbanidade despojada, estremunhada e triste, não fosse aquela sensação que me persegue sempre, as imagens estereotipadas do Leste profundo, militância e deselegância, despojo absoluto do conforto material do austero socialismo, vigente algures no tempo, na memória definitivamente implantado!
Atormentado pela dúvida, seria preconceito, reflexo condicionado, ou as diferenças não se esgotam na língua, nos autocarros ainda fumarentos que pululam no largo da estação, os quiosques que se estendem por uma feira ambulante que reflecte os primórdios do capitalismo, tão diferentes (mas tão iguais) das nossas feiras do CD e da cassete pirata, mas continua a parecer diferente, será do sotaque ou da memória que me turva o discernir?




Krakow 17,30h e o regresso à civilização redentora

Reentrar no anel relvado da cidade histórica é recolher ao casulo da civilização redentora, qual cadinho de uma longa e profícua História da Europa Central, quase incólume aos desvarios de algumas décadas, sem importância histórica que abale a confiança na monumentalidade, no bom gosto e no conforto do âmbar que faz luzir a cristandade de um povo, reflectido nas inúmeras igrejas que se vergam para o céu, que combatem as sombras de um fim de tarde precoce, com fé, confiança nas luzes, e com a longa meditação ao pôr-do-sol, debaixo das torres superlativas que reinam nesta sensacional praça, dito mercado central, aleluia!
O céu vermelho de verão, de fim de dia, de uma temperatura que não se usa mas que desperta uma multidão de seres para as ruas, esplanadas, a grande praça e o infindável castelo de Wavel, todos o veneram, qual remendado, reconstruído e acrescentado como a devassa que se imagina terem sido os tempos de invasões, conquistas e saques, um corredor permanente de vilões que se adivinha, porque todas as reconstruções são jovens de poucas, muito poucas centenas de anos, numa urbe com mais mil!
Mas ninguém se importa, porque hoje o Vístula estava sereno, sentia-se espreitado pela imponência das muralhas em guarda no cimo do monte, uma certa altivez merecida, de quem viveu com a juventude do Papa e se adicionou capital europeia da cultura, há tão pouco, poucos anos!
E agora, o esplendor do católico neste baluarte da Europa Central, novidade e moda, impõe-se numa profusão de templos, onde se confunde (e assume) a militância libertadora e a fé redentora que relega o bairro judeu para um quase subúrbio boémio e noctívago, onde por agora não há mais de cem judeus, sete sinagogas e um cemitério (por entre as árvores no meio de uma cidade buliçosa, muito barulho que se ouve, estranha calma que sobrevoa o local e o ruído que deixa de incomodar, se esvai pelos raios de Sol que penetram nos jazigos hebraicos, poucos com menos de sessenta anos de morte).
Vinda de Leste, a noite revela uma luz mortiça, felizmente aqui o néon nunca chegou a ser moda, nem antes nem agora, uma poesia que se esconde como morcegos da claridade, que nos lembra Kundera (porque será, também aqui?), que nos revela o culto da sabedoria nos pátios da Universidade, juventude que renasce um novo mundo, uma velha civilização e obviamente uma sobranceria tão eslava que ainda não incomoda e já não estranha!


Cracóvia 2004

domingo, 1 de novembro de 2009

Noites Longas, Deuses Loucos



Memórias longínquas, 1983

A noite tombou sobre uma pirâmide de seres, como um roupão cheio de astros, pintados num céu provocante, que deixava rastos brancos (de branco?), estrelas cadentes ou o prelúdio da fecundação da terra e do mar!
O mar prateado (seria da lua?) derramava-se sobre os calhaus que rolavam de êxtase, onda após onda, tontas como as sombras aveludadas dos seres primitivos que povoavam a enseada. (seriam mesmo humanos, ou apenas sombras?) – não digam jamais que não vivem fantasmas entre nós -
Deslizando encosta abaixo, os fumos entrelaçavam-se no ar profuso de cheiros frutados e entonteciam os pinheiros, que de tão mansos, se assustavam e se revelavam ciprestes, um fenómeno inexplicável neste Mediterrâneo profundo, árvore premonitória da loucura dos selvagens que adoravam a interminável fogueira (estariam nus os selvagens, ou seria apenas o reflexo das sombras que se banhavam no fogo e no mar).
Havia ruídos de cigarras nas envenenadas e múltiplas cabeças das serpentes que emergiam das ondas a um ritmo alucinante, atiçavam o fogo e os selvagens dançavam ao som de batuques que não se ouviam (Seriam as cigarras? Seriam as serpentes?); a lua entornava-se vagarosamente neste mar, primeiro cândido, depois subitamente incendiado pelas línguas das serpentes que transmitiam o fogo ao mar, e o enfureciam num maremoto de espuma e cores, movimentos submersos que encapelam as profundezas (quaisquer que sejam); os seres nus (eram definitivamente humanos) abusavam das serpentes, chamavam os animais ferozes, furavam o mar de sofreguidão e de estranhos rituais de prolongado e ancestral prazer.
A enseada mal se continha na sua pequenez e assistia impotente ao emergir do Sol em plena noite (era o fogo a fecundar a lua), as sombras transformavam-se em formas bem definidas, falos pendulares e fêmeas que eram lobas que uivavam sem cessar, presas despedaçadas nos calhaus da enseada; sentia-se o cheiro a sangue queimado, arfar roufenho da longa cama de pedra que engolia sofregamente todos os seres que não deviam povoar esta cena.
Sem aviso, um clarão sem precedentes nasceu da fogueira, cruzou-se nos céus com as estrelas cadentes em fogos de artifício de espanto, gritos lancinantes que se confundiam no Juízo Final com o prazer dos corpos, tão sôfregos que se tornavam num só (selvagens, lobas, serpentes e cigarras); uma sombra elevava-se sem mácula do carvão, do esvaziamento da luz, do vazio, a mais incompleta definição conhecida do buraco negro, nada simplesmente nada, o vácuo depois do tudo... e a sombra tomava forma (haverá formas no vácuo?).
Lúcifer crescia irremediavelmente para o céu, agora laranja, Sol que substituiu definitivamente a Lua e apenas silêncio...sem aviso e uma última pedra solta tombou sobre os corpos inertes na praia.
Pedro acordou estremunhado, desconfortável, levemente enjoado, seco como uma casca de sobreiro e sentou-se a custo sobre o dorido traseiro. O Sol resplandecia, o mar tépido, lago de reflexo, acenava-lhe com ondinhas de trinta centímetros, espelho da magia de Hydra, pérola no Mediterrâneo profundo.
À sua volta, quase nada e ninguém, apenas a sua mochila bicolor, ligeiramente entreaberta, um pedaço de papel preso, sem razão, e ele completamente nu no areal reluzente, as primeiras carumas da manhã, prenúncio de Outono precoce, intrometidas nas covinhas da areia e um par de garrafas que se recusavam afundar (quem seria o mensageiro ou o líquido alucinogénico), lá longe, para lá da ondulação, plof, plof, plof!
Apenas as cigarras continuavam a cantar!
De Miguel não havia sinais e na sua memória apenas uma ténue batalha com o Deus Baco, luzes e música junto ao cais de embarque, a única chegada desta ilha, uma fauna de gente, Miguel que se encharcava em cerveja e falava de um amor longínquo, saudades, prisão, (lembrança de marinheiro longe do mar?) momentos únicos sem repetição e precisava de voltar depressa no primeiro barco da madrugada! para o púbico e louro embalo da Germânia inebriante.
De Miguel nada mais, havia-se desvanecido!
E as recordações acordavam devagar da sua cabeça pesada e procuravam competir com o calor deste Sol (e ele jurava ouvir gargalhadas vindas do Além, mas as miragens também podem ser sonoras); e nos becos caiados de branco, a noite reflectia as pedras redondas da calçada e nos espelhos baços do chão (polidos pelo caminhar dos profetas?), apareceram reflectidas a Lua; e entre os estilhaços dos pratos quebrados com muito ruído e sem nossa licença, nasceram Mónica e Rebecca, destino alemão neste paraíso de Gregos.
Estranho, Miguel não se tinha despedido, sequer!
Mas havia mensagem presa na mochila bicolor (azul e vermelha) sabe-se lá quando ele a escreveu, demasiado lacónica para quem está perdido de amores.....
Vou atrás dos meus impulsos
Diverte-te com as emoções satânicas
Encontramo-nos...no Além!
As memórias ainda choravam incompletas, doridas e combalidas.
A noite teria sido longa? Como teria aqui chegado? Tantas dúvidas que o convenciam que poderia ter sido uma noite ardente (mas olhava suspeito para o seu desconsolado fecundador – não havia sinais evidentes....) e mergulhava solto no mar sereno, procurando limpar-se de uma noite sem identificação!
Teria sido sonho ou teria sido sexo?
Com a água salgada, começavam a dissipar-se as dúvidas; os anjos invocavam Satã, e tinham um buço tão comprido (como os bodes?) que impregnavam a cheiro de hambúrguer demolhado num licor – anunciava-se um bálsamo afrodisíaco – peitos cheios como uma lua generosa, que se tocavam amiúde num encaixar cúmplice; sim, trocámos brindes sem copos, junto ao pinhal, canhões que apontavam para o mar e para as luzes da costa grega; elas tão próximas entre si, segredos inconfessáveis, orelhas húmidas, havia certamente referências às estrelas cadentes que povoavam o ar inúmeras e incontáveis, bom presságio para uma longa noite de insondáveis e diversas opções, noites que aqueciam naquela fortaleza próxima do cais, inclinada sobre o manto de prata e negro, adivinhava-se mar!
O licor aproximava o Céu e a calçada e já não se ouviam os pratos estilhaçados nas ruas da aldeia; recordo-me do nevoeiro que me submergia a caminho da praia, convite disputado (por eles ou elas?), desejava-se um longo banho de mar ou desejava-se a Lua?
Pedro, ainda só nesta praia do Mediterrâneo profundo, perscrutava as garrafas que lentamente sulcavam as ondas (meros enrugamentos do mar sereno) num apelo à terra firme, deprimia-se só e sentado junto ao desfalecer do mar em sal, o licor e o nevoeiro tinha-lhe ocultado todas as sensações, uma falésia desconhecida, uma enseada intacta nas suas memórias.
Miguel desaparecido e os anjos evaporados!
Terá sido sonho, ou terá sido sexo?
E as garrafas desaguavam com vontade própria nos seus pés enterrados na areia fina, água morna.
- Uma mensagem na garrafa gémea? – Espanto sobre as luas, imaginavam-se cheias, os seios das amigas da noite, tão gémeas, sorrisos cúmplices nos ouvidos (delas), não havia já recordação de beijos (delas ou com elas?), já não havia recordação possível, porque o nevoeiro do licor tinha-se embrenhado na mente solta, sem ordem nem rédeas.
Teria sido um sonho......
A garrafa tinha mensagem (message in the bottle) uma letra definitivamente feminina (então não era buço de bode, era de cabra) e de uma firmeza indubitável, uma repentina e gelada onda gigante que inundou a enseada e afundou o sonho:

No condom, no sex! Kisses M & R

Hydra 198?