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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

S. Pedro (Perro) de Atacama – o deserto das estrelas


S. Pedro, uma terra de mochileiros, tão diferentes entre eles, mas tão vivos e presentes.
Alguns são apenas revivalistas da mochila, sedentos absolutos do conforto e do bem-estar, no centro de uma verdadeira aventura, remotas latitudes, exóticas referências!
Como Calafate, Cahuita e Canoa Quebrada, icons (presentes, passados, futuros?) dos viajantes solidá(tá)rios, um regresso às origens ou a expiação colectiva das suas inquietações burguesas ou solidões profundas.
Na praça da igreja, um largo do coreto tão recôndito como familiar, a aldeia reinventada no sopé dos andes, passeia-se ao fim da tarde e prepara-se o cinema ao ar livre.
Cine Paradiso na noite fresca de S. Pedro.
Caracoles ao anoitecer é o centro da diversidade, onde se reúnem os contadores de histórias do mundo inteiro à volta de um braseiro, os viajantes são assim, mesclam experiências e são apenas pescadores de sensações com uma contextualização pouco precisa.
Chegam e partem dos cumes e dos vales; uma aventura em ambiente controlado!
Impossível de definir um padrão, uma origem, porque não há uma fronteira social entre os autóctones e os forasteiros.
Apenas na fisionomia andina…alguns!
Sente-se ainda no ar os cheiros e as sensações de uma última fronteira.
A Bolívia é já ali ao lado, por detrás do Licancabur, 45 quilómetros de encosta íngreme, uma estrada que se adivinha esburacada sem controlo de fronteira. Ninguém quer ir para lá! – Dizem eles
Argentina, um pouco mais a sul, Paraguai, em entreposto para chegar ao Brasil!
A música andina entope a rua, construída de sal e areia, intermitentemente iluminada por candeeiros amarelos, homenagem às cores do deserto, um suave contraste com o barro das cercas, das paredes e dos pátios, heranças de influências múltiplas:
Andes, deserto e colonização espanhola.
A noite é curta no deserto e a Via láctea é o lençol iluminado (a nuvem?) que nos fecha os olhos!
Géisers e fumarolas a 4,300 metros.
Acordados desde as quatro da manhã, tivemos saudades das furnas dos Açores.
A actividade geotérmica estava dormente, porque a temperatura do ar era demasiado alta…diziam eles!
3º Graus é muito calor – dizem eles
Uns fumitos e uma aguazita a espirrar.
Não ousamos troçar da natureza no seu estado puro, mas aquele banho matinal nas águas quentes (e sabe-se lá mais o quê) das termas de margens lamacentas sofre de tendências depressivas, multidão de cabeças espetadas no vapor e flutuando sobre as sombras da água, no limite da indecisão entre o riso e o choro.

Os fatos de banho ancien regime deviam ser proibidos, porque interferem com a vida selvagem!
Agora entendemos porque é que o pico que circunda o vale geotérmico se chama choro do avô!
Pobre avô!
A descida pelas encostas, montanhas abaixo, tão deserto, riachos cheios de verde, pontes que não existem.


Uma aldeia recôndita, sem nome que deixe recordação ou lembrança!
Uma fotografia do lama bebé órfão que bebia biberão custou 1000 pesos.
Afinal o lama não era órfão, mas a igreja era linda!
O intervalo da aventura do dia, chama-se sopa de beterraba fria, de frente para o Licancadur, sala de almoço no Tierra Atacama, arquitectura minimalista, sem traves mestras, só vidro, paisagem e vulcão.
O mais famoso dos vulcões.
O vale da Muerte (que devia ser Marte se não fosse um equívoco linguístico) é o princípio da última experiência de deserto.
A primeira verdadeira experiência do deserto no seu estado natural: absoluto inóspito.
Gargantas profundas esculpidas pelas águas, gelo, vento, lava e sedimentos, montanhas esculpidas de areia e sal, encostas arenosas que escorregam só de olhar, formas bizarras esculpidas no ar e na terra…
O Vale da Lua!

Dizem que é o lugar mais seco do mundo. Dizem!
Sublime a não cor, a forma da lua nas rochas, um arrepio na cordilheira dorsal …
Nossa ou do deserto?
Inesquecível a versão Atacamenha da Lua.
Começam a juntar-se os adoradores do Sol Poente, dançarinos da areia e do monte, adivinham-se os pés descalços e as plantas alucinogénicas, capazes de tatuar (sem possibilidade de remoção) as cores do Sol a despedir-se das montanhas, dos vales …
…oásis, vulcões, lagos salgados e…areia!
Pôr-do-Sol no deserto!
Andes pintado de tons laranja que mudam a cada momento, a cada ângulo.
Oásis de S.Pedro deita-se no planalto e o deserto capricha em formas e cores, amarelo, laranja e tons desconhecidos, porque não os há noutros lugares.
Deserto é vida!
Deserto é extremo!
Inenarrável a despedida do Imperador dos elementos!
Causará danos irreparáveis nas partes mais sensíveis do cérebro?

Atacama – o deserto das estrelas


O céu que cega os sentidos, é a primeira sensação do deserto.
Via Láctea, as Três-Marias…
Os camiões sulcam o deserto que se pressente na escuridão, e pressentem-se as maiores minas de cobre do mundo.
A chegada à cordilheira dos Andes é visível a quilómetros, pelos vultos luminosos que se confundem com as estrelas dos alucinantes monstros do asfalto…
E a distância entre os portos do Pacífico e as grandes metrópoles do interior Atlântico, torneando as cordilheiras, afrontando os cumes dos vulcões extintos
Bolívia, Paraguai, Peru e Argentina, refazendo as áridas rotas de Pedro de Valdívia.
São as novas fronteiras que se cruzam no Atacama!
O deserto em movimento, dominado pelos faróis da estrada e pelas estrelas do céu.
Depois, vem o silêncio; o deserto longe da estrada.
E no fecho da trilogia dos sentidos, o cheiro: a seco, perfumado e (particularidade deste deserto) a vento, 2,200 metros de altitude ventosa e resfriada.
De manhã, nasce um outro deserto.
Quente, vermelho, os vulcões que assomam do cimo das fronteiras, imensidão que se vê, as distâncias que não se entendem.
Tão perto (que parece), tão longe (que é).
Miragem indiscutível
Acordar com o vulcão Licancabur aos pés da cama!
Inactivo, mas com 6,000 metros de imponência, num absoluto contraste ente a terra de cor indecisa e o céu de um azul que não é cor de mortais!
O oásis dilui-se progressivamente no asfalto intermitente, nos muros altos que bordejam as árvores frondosas, os rios subterrâneos, primeiro, substituídos por arbustos, depois por umas penugens secas, tão inóspitas quanto o horizonte, por fim pedras e areia cinzenta.
Oásis, deserto, bosque inacabado, oásis Toconao.
Tudo o que se imagina num oásis: uma igreja – missionários que não se detinham na sua missão evangelizadora, pela ausência de crentes – pó que se entranha na vegetação que ousou nascer, um repositório de todo o lixo que o deserto rejeitou, uma luta que se vislumbra entre a civilização e as forças da natureza.
Um lama no curral e uma cabra que se passeia no banco de jardim, patas atadas por precaução de quem as conhece.
Mas tem gente; brinquedos esquecidos no quintal da senhora de idade, um tear que se prepara para trabalhar e a velhota da loja dos souvenirs, também dona do lama, da cabra e provavelmente das crianças que abandonaram o quintal, em defesa da sobrevivência do negócio.
É um cenário de purgatório geográfico e humano.
Antes do deserto que não tardou a afirmar-se como dono do planalto.
Salar de Atacama: uma imensidão de caprichos da natureza (ou o fascínio pela obra da criação e transformação do mundo), o terceiro maior lago salgado do mundo, o coração do deserto nas alturas, afinal o deserto tem vida
Flamingos, os donos dos pequenos lagos do Salar
A subida para as lagoas altiplanas, faz-se de medo das alturas e de transição de estado…o deserto que se perde nos cumes da cordilheira continental, simplesmente Andes!
4200 metros de altitude, lagoas de azul impossível, que competem com o céu e os vulcões.
Dizem que há alguns milhões de anos, a actividade de todos estes vulcões, correspondia a um terramoto de 40º…
Muita animação nos primórdios do mundo.
E ficaram duas lagoas…o vento assopra-nos os sentidos, um bando de vicunhas desce a encosta até ao lago, para matar a sede, um vulcão extinto de 5900 metros de altura vigia a vida animal do lago, do vale e das encostas sobranceiras.
Afinal, parece que o grande explorador dos interiores inóspitos, Pedro de Valdívia, passou apenas no vale e não conheceu este cenário do nosso mundo.
Pena para ele, e uma sede mortífera para os seus comandados que se perderam e reencontraram nos recantos mais secos deste planalto de Atacama.
Um problema de definição de fronteiras?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Punta Arenas - O outro lado do canal


Punta Arenas é o testemunho de que o Chile é o dono do Estreito da Magalhães.
Sem possibilidade de disputa.

Eles fizeram questão que esta fosse uma sinóptica lição de História.
Na fronteira do estreito e do país!
Os factos revelam a apetência pelo Sul, a vista do morro Norte desvenda uma ambição traçada em avenidas largas e desenhos geométricos.

Uma colonização precoce, famílias poderosas, casamentos de conveniência, fortunas colossais feitas com o ouro branco – a lã dos carneiros do Sul!
O português José Nogueira que não resistiu ao apelo do estreito, enriqueceu e casou com a Diva, Sara Braun
O regresso do espírito português ao estreito…o fascínio pelas terras frias, encontro de mares e de trajectos!
Sara Braun, a benfeitora, adoptou a dois terços da Terra do Fogo como se fosse riqueza de berço, construiu o seu palácio para a posteridade e ofereceu a si própria a porta para a eternidade.

O cemitério de Punta Arenas é a prova da riqueza vivida: alamedas sumptuosas, ultimas residências de pedra trabalhada.

Ironia que este seja o museu vivo do espírito de conquista do inóspito!
Irónico e um pouco desconfortável.
Mas também a diversidade cultural de um povo de imigrantes, que aqui descobriam o fim da linha.
Na cidade e no estreito!
La Luna é um momento zen na fronteira do estreito.

Mensagens de postais ilustrados, dos viajantes que gostam de deixar troféus e bilhetes em todos os confins, ou onde lhes seja permitido.
Uma eslava almoçava sozinha junto à janela
Almoçava, escrevia bilhetes, e complicava as referências geográficas.
Ela não era daqui.
- Todos nós temos amigos com apelidos croatas, croatas imigrantes que fugiam do conflito dos Balcãs, com data 1ª guerra mundial
Afinal era de cá
Pareceu-me que não falava dialecto local
Viajante à procura das origens?
A lua nascia sob a forma de candelabros, posters azuis e amarelos.
O restaurante enchia-se, perdia o silêncio mas conservava o teor multicultural.
A eslava esperava o par!
A língua espanhola traiu a nossa dúvida.
Croata – concluiria algumas horas mais tarde
O único povo imigrante com direito a monumento na cidade.
Sobreviveu a Tito – o Marechal – a uma guerra civil e a muitos anos de não afirmação da diferença entre expressões de nacionalismo balcânico.

Mas…
O ouro branco que se transformou simplesmente em lã
O canal do Panamá que destruiu as rotas épicas e a aventura
A vitória da engenharia sobre os pântanos
Os indígenas absolutamente extintos
Hoje…
A cidade vive da distância, da inevitabilidade de ser periférico,
Um destino que não é fado, é o outro lado do óbvio!
É uma reputação que perpetua o fascínio das rotas quase incólumes, o dom da natureza e do desafio à coragem humana…
Também é possível viver assim!

Quando partimos para Norte, recordo-me do símbolo do Sol Nascente, atracado no estreito, atrás do Via Australis.
E entendi porque a baleia solitária da madrugada anterior, se manteve tão à distância…não teve tempo de verificar as cores da bandeira!
Boa sorte, mamífero (quem tem coragem de lhe chamar selvagem?), porque os predadores andam por perto!
E a Patagónia desvanece-se a Sul, no horizonte azul e frio
Paragens do outro mundo!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ushuaia – O princípio do fim do mundo



Bem-vindos ao Aeroporto Internacional das ilhas Malvinas, em Ushuaia – estas simbologias não podem ser ignoradas!
São reveladores de um povo – Um dos aeroportos mais bonitos do mundo, segundo especialistas independentes!
Nas portas do fim do mundo, revela-se uma activa e agitada marcação de fronteiras (os chilenos não se esquecem de classificar um condutor desastrado como um tipo mais perigoso do que um argentino a desenhar fronteiras!) e pressente-se uma afirmação de princípio, que o fim do mundo a Sul lhes deve prestar vassalagem.
Ushuaia, a cidade mais ao Sul do mundo, debruçada sobre o canal de Beagle, fim do mundo, Terra do Fogo.
É um bilhete de identidade impressionante.
E o canal de Beagle, que entra pela cidade adentro, numa baía reconfortante, num porto que recebe, alimenta e incentiva os aventureiros da Antárctida, os cargueiros ferrugentos que sulcam os mares esquecidos do Sul, longe do tráfego e das grandes rotas mundiais.
Os cumes gelados enquadram a cidade nas suas costas, dando-lhe um ar mágico, majestoso, donos da última fronteira, na terra e no mar.
À medida que nos afastávamos da baía para o canal, à procura do farol mais fotogénico do mundo, sonhando com os leões-marinhos e outros seres flutuantes, tomámos consciência da força do mar, ausentes nos lagos, virtual na terra.
O apelo do marinheiro ou do adorador do mar.
Aventura ou contemplação?
É, desde logo, o cheiro a maresia e as marés, a ondulação ou a crispação, os cargueiros que povoam os portos…
Sim, os portos!
Visto ao longe que se afasta, Ushuaia revela-se aos leões-do-mar, um porto de abrigo sem mácula, encosta acima, cores vivas, os seus guardiães brancos.

É assim que se criam os mitos.
A cidade torna-se mais pequena, mesmo minúscula, mas o canal não a abandona.
Os aviões continuam a aterrar no aeroporto, a pista debruçada sobre o canal!
A vida marinha no canal é fascinante: tão perto e tão selvagem
Os leões-marinhos são os reis da ilha dos Lobos, lentos, preguiçosos, conscientes de quem manda e porque manda.
Umas aves tipo pinguim são os hóspedes dos lobos, mas ocupam os lugares menores.
A vida selvagem tem códigos próprios…
O mar agita-se e a vida descobre-se: albatrozes, gaivotas…
E o farol deixa-nos aproximar dele, contorná-lo, fotografá-lo.

Pudera; é o farol do fim do mundo!
Mas é lindo, cheio de significado, provavelmente com pouco uso!
Mas o estilo e a personalidade não se perdem com a falta de uso.
Está frio no fim do mundo!
E irá nevar nas encostas da cidade.
Mas em terra, Ushuaia torna-se menos personalizada, mais anárquica e mesmo, por vezes, miserável… quatro quadras acima do mar!
Falta de ordenamento e incapacidade de resposta dos organismos públicos – dizem eles
Terra franca, e a conquista desenfreada (e necessitada) do Sul, explicam as barracas que pululam na cidade, hoje aqui, amanhã no morro de cima.
São os fenómenos do Far (West) South!

Mas estão longe os tempos da colónia penal, uma moda de povoamento forçado que perdeu adeptos (e ganhou opinião pública) após a segunda guerra mundial.
Mas transformar o inóspito, longínquo e desesperado em terra de oportunidades não tem sido, certamente óbvio (pelo menos sempre)
O tunning ganhou adeptos nas ruas de Ushuaia…e há mais que um!
Moda de longínquo Sul? Ou um reflexo de baixa auto-estima esporádica?
Sonhamos com as expedições Antárcticas, debruçados sobre as luzes da cidade, o temporal e a neve nesta noite de Verão que começa tarde mas é gélida!

Circulamos em torno de nós próprios e aproveitamos a luz até ao último suspiro.
Do dia, da neve nos montes, dos barcos enferrujados na água…
Uma rua, uma fotografia ou simplesmente inspirar o ar gélido que provém do sul.
São 23:00 horas, e não é nada vulgar respirar um fim de tarde destes em lado algum.
Vista do alto, a noite invade o vale, as luzes despontam da terra, mas os montes, ao fundo, permanecem brancos.
Custa fechar os olhos, seja pelo que for, é um local mi (s) tico!
Por isso (ou provavelmente não) fomos expiar as culpas do fim do mundo…de manhã, neve e Sol, tudo muda na fronteira dos 400 metros de altitude.
O Tren de Fin do Mundo conta-nos a novela dos mau maus agrilhoados às barras do comboio.
Hoje, os maquinistas Avelino e Marcelo não nos chicotearam mas também não nos sorriram…nem os vimos!

Chegámos ao final da ruta 3, 3079 quilómetros da beleza impura que se chama Buenos Aires.
Menos místico, mais postal…e a certeza de que afinal não éramos presos do fim do mundo, mas com sabor a novela na boca.
O parque Nacional, provavelmente um paraíso para os naturalistas convictos, e coleccionadores de tesourinhos deprimentes!
A Centola na Tia Elvira - e um vinho branco argentino com muitos graus acima da latitude de Ushuaia - supremos consolos para a alma, a olhar o Via Australis….

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Os Glaciares do Lago Argentino – A vertigem azul



Visto do ar, o lago Argentino é azul, uma cor tão clara como os olhos azuis, mas tão baça como os cinzentos; não se revê em nenhuma outra referência da natureza!
Miragem ou pintura a óleo?
O princípio da descida do pássaro mecânico das Aerolíneas foi difícil, quase penosa, não fosse a visão fantasmagórica das lagoas, entre nuvens e a turbulência Patagónica, o susto do voo rasante sobre a meseta, porque o dia estava bonito, a temperatura fugia do Verão argentino, em direcção ao frio e a paisagem mudara sem avisar.
Depois das pampas, a grandiosa Patagónia, província de Santa Cruz, um território de tremenda dimensão, somente 225,000 habitantes…
Esta geografia declamada ajudou-nos na aculturação a esta terra normalmente monótona, árida e plana, mas surpreendente na água e no gelo.
El Calafate, o entreposto comercial, posto de mudança de carroças de transporte.
El Calafate a planta que era utilizada para calafetar os fundos dos barcos, dos enormes rebanhos à solta, vacas mas sobretudo carneiros e o personagem que já foi dominante:
Gaúchos?
O arame farpado e a queda do preço mundial da lã arruinaram-lhes o futuro.
Reconversão ou extinção!
O futuro tem chegado todos os anos, primeiro só no Verão, hoje todo o ano.
Cheira de facto a estância; a rua que se sobe e desce após o anoitecer tardio, vezes sem conta, antes da aventura do dia seguinte, depois do degelo de hoje…
Os amantes e os loucos da natureza, do trecking, das emoções fortes também se pavoneiam neste povoado que já se assume com 25,000 habitantes…mas que é uma rua à beira do lago Argentino, cordeiro assado à Patagónia, reminiscências a chalé suíço, com chuva todos os dias e montes com cumes gelados, os Andes ao longe, setenta quilómetros de referências índias:
A índia adormecida.
O monte dos elefantes.
A cidade parece querer recriar em todos os cantos a simbologia da recuperação da cultura e tradições indígenas.
Mas não consegue!
Nada naquele lugar nos faz lembrar sequer a sua existência de forma consistente.
Calafate é de facto, e sobretudo um entreposto para o gelo, uma fantástica maravilha da natureza.
Imagine, é a música escolhida para nos apresentarem Perito Moreno, a vertigem azul!

A adoração durou quase dois dias; de barco, longas esperas pelos blocos de gelo que deviam permanentemente lançar-se nas águas do lago, contemplação sem horário, pasmo pelo que se via, pelos estrondos que laceravam o silêncio gelado, caminhando nas margens verdes …
Apercebemo-nos que cada pedaço de gelo que caía no lago, poderia ter sido gelo durante 2,000 anos…
…E a pressão dos blocos originava ar comprimido,
O que mais impressiona não é a imensidão do branco, mas os filões de um azul tão intenso que até dói.
Com Sol, mas também com chuva, vento ou frio.
A vertigem do azul!
35 Quilómetros de comprimento, uma enorme parede branca de 70 metros de altura, uma massa de gelo viva que se move permanentemente.

Perito Moreno, Upsala e Spegazzini são santuários que resistem ao degelo da Terra,
Na época glaciar tudo era gelo neste confim do mundo!
Branco, azul, massas gigantes que parecem imóveis, mas que estão vivas, e narrá-las pressupõe que sejamos capazes de nos abstrair das estatísticas e dos recordes, da teoria do aquecimento global, e da maldade feita Homem.
Com espumante argentino, é a melhor forma de narrar Perito, uma despedida ao fim da tarde, ao longe, longe das entranhas que inspeccionámos cuidadosamente, uma a uma, minuto a minuto, durante um dia sereno de contemplação e desfrute!

Bom gosto argentino e uma veneração respeitosa às dádivas da natureza.
Ecologismo no seu estado mais puro: sem panfletarismo nem teorias conspiratórias.
O cordeiro patagónico, assado naquela brasa especial (três horas ao lume), o vinho tinto de 15º, que larga lágrimas pelos pedaços de gelo caídos hoje, lembra-nos (quando nos lambuzamos nele) que, apesar de não durarmos dois mil anos, como o gelo do glaciar, estamos mais quentes (aquecimento global?) e desfrutamos muito mais!
Uma forma alternativa de ecologismo!
Até o fogo que assava lentamente o cordeiro me fazia lembrar a vertigem azul!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A caminho do Estreito de Magalhães – a rota dos puros



0º Centígrados no fiorde.
Chove que desunha, os blocos de gelo (icebergs) atravessam-se à frente do Zodíaco, cataratas explodem água gelada pelas escarpas do fiorde abaixo, uns pássaros Cormorans equilibram-se na ponta dos rochedos, e vivem, procriam e defendem-se dos depredadores.
Pudera! Tanto frio e tanta inacessibilidade!
Que estes pássaros não morram da cura!
Um glaciar que ninguém tem a certeza se avança se recua.

O Zodíaco fura mesmo os icebergs que são trespassados pelo casco vencedor.
- A versão chilena do Titanic! – Risos largos do chileno explorador dos glaciares e dos mares e nervosos de todos os outros
Foi um êxtase de água nos seus múltiplos estados e origens.
O frio era intenso e molhado, mas os seres inebriados pelos vapores do glaciar cheiravam as quedas de água (e molhavam-se), sentiam as nuvens de água gelada a entrar pelas narinas, e gostavam, absorviam todo o branco que havia no glaciar…e ficava o azul das profundezas.
Água vida!
A adrenalina da água – quanto mais molha…

O vinho quente e amargo no regresso ao conforto não aniquilou a adrenalina no estado líquido.
Fim de tarde em frente a um glaciar, no final do fiorde, nós, o Via Australis e o gelo
Rifaram a bandeira do navio: Saiu a um brasileiro de Magalhães
Sentimos o Estreito de Magalhães a chegar: 11 da noite e o mar acordou!
Ilha Magdalena: Estreito de Magalhães, manhã do ultimo dia!

Pinguins: cheiro de mar impregnado na pele, animais que cantam que nem burros, uma visão de multidão alucinante bicos espetados, garanhões e outros mais atrevidos
Rufias que bicam nas pernas de um passante, um tráfego de pinguins para cima e para baixo atravessam o sendero sem olhar, aos grupos todos juntinhos, com um andar de pinguim (pareciam mesmo pinguins)
Entram na água, lavam-se, sujam-se e entram na água.

Aos pares, aos grupos, sozinhos, todos juntos numa agitação sem limites.
120.000 pinguins numa só ilha!
Uma verdadeira comunidade de buracos (ninhos) que pareciam apartamentos de um sobrelotado bairro suburbano com as sopeiras a atirar o lixo pela janela abaixo.

Estes animais não são certos! Animal que não foge do Homem não acerta com todos os parafusos.

Canal Beagle – As baías dos índios anfíbios






A lua cheia enche a noite de um rasto de luz amarela que persegue o Via Australis noite dentro, rodeado de margens estreitas e picos escarpados.
São onze da noite, mas o crepúsculo persiste no canal Beagle, um lago espelhado, despovoado dos índios extintos, reino das aves marinhas e lobos solitários.
Darwin ganhou fama nestas paragens, três séculos depois dos descobridores, chegariam as primeiras tentativas de colonização, de aplicação prática da imberbe e imprecisa teoria da evolução das espécies.
E os índios Ayamanas, foram as cobaias de um biólogo cura, que sonhava com os mundos longínquos, mas que abominava o contacto físico com o primitivo e o selvagem.
A ciência como (poderoso) exercício da mente.
A baía de Uluaia é um retiro da natureza em estado puro, águas frias e verde deslumbrante, bosques pejados de vegetação Patagónica, uma encosta íngreme que se preenche de cascatas e plantas com frutos amargos e (dizem eles) afrodisíacos (a legião italiana uiva de emoção), caminhos lamacentos e paisagens deslumbrantes.

Tínhamos chegado ao ponto de encontro de culturas, o marco do encontro entre Darwin e os índios selvagens, primitivos e anfíbios.

Mas Darwin equivocou-se; o vocabulário dos Ayamanas tinha mais de 40.000 palavras.
Dormiam nos barcos, saltavam de terra em terra e descansavam em cabanas construídas por folhas de árvores e revestidas por peles de lobos-marinhos!
Uma visão profunda e sofisticada do mundo, a ecologia no estado mais puro, viviam com o que tinham em completa harmonia com o meio ambiente.
Por isso acabaram exterminados pelas doenças dos povos que se encontravam no topo da cadeia de evolução.
Ironia científica?
Manuela, a bióloga da expedição dixit!
Tínhamos recuado dos mares tormentosos, das forças de uma terra em nascimento, para uma acalmia pôs parto…
O final da cordilheira chilena dos Andes, revelava ao longo um glaciar seco e os cumes gelados, marcava a fronteira entre a terra e o mar, ou revelava-nos o regresso a terra dos auspiciosos navegadores de mares infinitos.

Regresso ao finito, ao explicável e ao alcançável.
Três mil metros de altura, ilhas que salpicam o mar interior, um silêncio esmagador no topo da colina, a natureza que nos penetra em todos os sentidos, e nos fere o nosso racional civilizacional.
Os castores destruíam as árvores – foram importados do Canadá e esqueceram-se dos predadores – e construíam barragens na castoreira, atrevidos e descarados estes bichos roedores que nadam nas nossas barbas e roem árvores para se entreterem (?!)

Um equívoco humano?
O conforto civilizacional (sobre a forma de semi-rígido) recolheu-nos a bordo, e a noite caiu com um manto de lua sobre o barco, as pequenas ondas de um mar interior e o sono profundo de quem vive emoções profundas sem vacilar!
De manhã, já na vizinhança do mar da Tranquilidade (diziam os navegadores), Oceano Pacífico por perto (sentia-se o cheiro, o frio e a diferença), os lobos-marinhos acordavam-nos com a mania da perseguição, saltavam atrás do Via Australis e chamavam a baleia que, ao longe, expirava água, espuma (ou apenas miragem?)

E o Estreito de Magalhães (português ou mal compreendido?) aproxima-se sem pressa!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Cabo Horn – Os monstros do fim do mundo


Francis Drake teria adorado, 500 anos depois, acordar junto ao temido cabo, dentro de uns lençóis imaculados ao som da música tradicional chilena!
Teria?
O cabo mais ao Sul do Mundo (Antárctida não é terra, sequer!) acordou-nos de um verdadeiro sono de mar, um amanhecer pesado e chuvoso, umas vagas mais crispadas que os civilizados lagos glaciares, uma expressão afirmativa de mar salgado, ventoso e inóspito, …
O Via Australis não é um contingente expedicionário com o destino fim do mundo, nem um veleiro de piratas, mas havia um toque de legião estrangeira neste mundo flutuante de tecnologia e conforto.
Dezasseis nacionalidades, velhos lobos de terra firme, alguns mesmo velhos, e um contingente de herdeiros puros de Magalhães, lembrados em público pelos marinheiros chilenos (e um arrepio de espinha e orgulho), e porque será que ninguém lembrou Drake e os seus herdeiros naturais?
Talvez a sua tendência para bombardear Valparaíso…
O advento das nações tornou relevante os motivos, atravessar mares pejados de monstros (imaginação ou miragem?) com precisão de mestre navegador, não apaga temperamentos belicistas (ou piratas) de um inglês que antipatizava que as alianças latinas. Não na memória dos povos!
Imensidão, solidão, aventura no estado líquido, tempestade e montes desérticos, desertos de vegetação rasteira, tão rasteira que só não afugenta os pássaros – esses podem voar entre a terra e o mar e podem, mesmo que não queiram, fugir – é a imagem do desembarque madrugador e anfíbio na ilha de Hornos.

Não tem problema, é água do Cabo Horn – o semi-rígido inundado pela traseira e o primeiro teste de impermeabilidade algo comprometedor, a lembrar que uma expedição se faz de alguma capacidade de suportar os elementos…
Drake teria apreciado os homens-rã em fato de mergulho a embalar os legionários com coletes garridos e expressões de fascínio juvenil.
Terá ele desembarcado no Horn?
A subida penosa até ao planalto desolador, reserva-nos um frio cortante e uma saudação chuvosa – a chuva foi despejada sobre a ilha como um souvenir do mítico referencial do atrevimento e loucura dos navegadores aventureiros –

Albatroz, monumento, os habitantes quase exclusivos das escarpas incendiadas de verde e rocha.
A bandeira, o farol, o monumento e uma base expedicionária do exército chileno.
A nação, o elemento humano e estranho a este paisagem que, na sua génese, é de ninguém, afirma-se por um pedaço de pano tricolor ao vento…
A tempestade obrigá-los-á a relembrar que o espírito de posse – identificado como nacionalismo – é efémero, na inexorável lógica da natureza!
Tantos panos por uma Nação!
Os albatrozes são anarquistas e anseiam a revolução mundial!
A Patagónia também se assume multinacional: Cordilheira Darwin, terceira massa de gelo do globo, fiordes, oceanos, cordilheiras e canais, oceanos, canal de Beagle, cabo Hoorn…
- Bem-vindo ao cabo Horn – os homens rã, os militares expedicionários, também eles se renderam à legião multinacional de exploradores, num largo sorriso de quem se sente a atravessar uma última fronteira: o Grande Sul.
Vento, panorâmicas desoladas mas infinitas e deslumbrantes; mar imenso, escarpas que desafiam as ondas encapeladas do Mar de Drake.
O êxtase do planalto no meio do mar!
800 naufrágios ao largo deste cabo.
Um farol isolado do mundo!
17 nós de vento, 8º C de temperatura
Não havia fogo, porque não se via fumo e os demónios tinham-se esfumado na imaginação dos navegadores do século XVII.
Somente vento, chuva e imaginação do que será o Sul gelado!
Mas o Via Australis zarpou da ilha de Hornos e o Sol furou o vento e a chuva, hasteou a bandeira de piratas num afoito desafio ao cabo (autoridade física?), Drake, Fritz Roy e todos os navegadores do absurdo, furou as ondas na direcção do estreito de Drake, ultrapassou o cabo num momento raro de bons ventos e apitou três vezes, sozinho no oceano, sobrevoado por albatrozes e outros pássaros agoirentos, para êxtase global de todos os velhos lobos de terra firme, que abanavam agora ao sabor do mar crispado, provocados pelo vento, iluminados pelo Sol e resistentes ao enjoo, porque a emoção e o momento histórico enchia-nos o estômago e lavava-nos a alma.

10;18 da manhã de 31 de Janeiro do ano da graça de 2010.
Dobrámos o Cabo Horn em grande estilo expedicionário.
O monstro rendeu-se à vontade indomável da tecnologia e das máquinas.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Boca – El Caminito de uma grande afiction




Boca, um bairro muito pobre!
Provavelmente o único bairro mesmo pobre da cidade.
Um gueto, certamente a origem de todos os descamisados da cidade
A partir da Praça Lezana, mudam as coordenadas do mundo porteño; as ruas transformam-se num cenário quase igual às pobres cidades centro-americanas: casas pobres, sujas e feias, estradas com um asfalto gasto e quebrado, ruas sem saída nenhuma, baldios que penetram e envolvem o bairro, gente que não olha de cabeça erguida, pouca gente nas labirínticas vielas, um perigo eminente para turistas que não se aperceberam da fronteira que atravessaram, impossível de adivinhar nos mapas da cidade!
Aparentemente nos afirmam, droga, criminalidade e alguma violência ocasional…excepto quando submergem as grandes paixões.
Aí, tende a piorar.
Uma grande paixão: Boca Juniors
Um herói quase mítico: Maradona

Um estádio que nos deixa com sentimentos contraditórios: básico e antigo, assustador (quase selvático) de arames farpados que cobrem o peão em pé; pujante na afirmação com o bairro e com o povo, emoção que se respira em torno do estádio e dos aficionados que não o abandonam…nunca, como uma pala (será uma asa?) protectora, as marcas dos pés das vedetas no passeio de cimento que circunda o estádio – o verdadeiro passeio das estrelas popular, porque não há ouro, nem assinaturas fancy, só cimento e a marca do verdadeiro sustento deste bairros: os pés dos ídolos!

Tal como os heróis, o bairro não é seguro. Demasiado popular, para todos os restantes habitantes da cidade
À medida que tombamos para o porto, cada vez mais um dinossáurio cemitério de navios enferrujados, a solidão das ruas, a ausência de passeantes (tínhamos subitamente mudado de cidade, de planeta) deixa antever um mal-estar, um desconforto na espinha, para quem se perder neste labirinto de pobreza e, sobretudo, descamisados, ausência de referências e de alternativas.
Linhas de comboio abandonadas, baldios dentro do bairro, confundidos no bairro...
Bairro ou baldio?
Subitamente…

El Caminito, a versão popular visitável: 60 metros de barracões de lata, encavalitados numa imaginária montanha de cor e um espectáculo de rua que respira Buenos Aires: alegre, insinuante e provocante, criativa, artista, plena de diversidade e sem vergonha de si mesmo, dos seus traumas e alegrias, tango de rua sem complexos…
Tínhamos retornado à cidade!

O tipo de boca desdentada e perfil distintivo Boca, vestido de colete amarelo berrante, TAXI nas costas, e ele assobiava e os táxis apareciam, apreciava a camisola 10 do Boca, versão 1981.
- É a primeira camisola de Maradona! Tenho uma igual, que está cheia de sangue!
Alguém terá querido saber de quem era o sangue?