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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 8/8


Agora sobrevoava o Atlântico Centro numa intermitência sonolenta, sentia o Sul pelas costas e procurava espreitar entre as nuvens, à procura de referências, tarefa impossível em pleno Oceano para um leigo em orientação marítima e profundo ignorante em estrelas.

E exatamente no prolongamento do Cabo Bojador – um olhar furtivo aos ecrãs de televisão da cabine, comprovavam-no – uma mancha de luzes, num formato retangular familiar, parecia flutuar sem direção precisa, seria um barco, um barco não era certamente porque não coincidia a dimensão com os dez mil metros de altitude anunciados no visor que lhe iluminava a face, a ele e aos duzentos e tal passageiros que dormiam.

E como dormiam, não se puderam aperceber que, naquela imagem de satélite azul, verde e castanha, comprovava-se, primeiro de forma pouco nítida, depois mais claro e, alguns segundos depois um contorno de luzes folclóricas qual arraial minhoto, a profecia de Saramago, Portugal flutuava no Atlântico, mas sem a companhia de Espanha,

Sem a companhia de Espanha e de luzes bem acesas como não houvesse um cabo elétrico que liga a nossa energia à Europa

Exatamente no prolongamento do Bojador.

A agitação apoderou-se de L. porque Portugal deveria ser o seu destino de regresso e, ao contrário do retângulo bem real, que se afastava agora por detrás da traseira do avião, sentia-se mais à deriva do que em qualquer um dos infindáveis dias em que estivera exilado, porque nas vinte e quatro horas de cada um deles ele sabia que a geografia se mantinha inalterável e que havia um lugar para regressar, mesmo que fossem remotas as possibilidades de readquirir a sua vida, o seu conforto e as suas raízes.

E, de repente, L. entendeu tudo: voltava a casa, mas o país não esperara por ele, procurava uma nova epopeia, renascia das cinzas numa inesperada e inusitada vocação marítima antes que os filhos da Nação abandonassem a Pátria de vez e, tal caravela, tinha agora um novo desígnio, recolher os portugueses pelo mundo, e L. não devia ter partido, ou regressado, conforme a perspetiva.

Será que o país também o viria buscar? Mas porque é que ninguém, naquele avião lotado, entendia que este absurdo, tão tridimensional quanto um quadro de Dali, estava mesmo a acontecer?

Adormeceu a congeminar como seria possível a ele, uma mente errante encerrada num corpo que ansiava pela criação de laços, voltar a tirar partido desta oportunidade que o seu surpreendente e caprichoso país lhe dava de novo, de ser viajante no conforto do seu próprio espaço, beneficiando da energia e das oportunidades de novas geografias promissoras

E L. sonhou o resto da noite com P. o P de Portugal.

Quando Luís acordou, não havia noite, antes um Sol que se escapava por debaixo das cortinas, nas minúsculas janelas duma aeronave de nacionalidade lusa, comandante e hospedeiras devidamente fardadas, e ele de mente absolutamente desperta de quem vira a sua vida desfilar em algumas horas de sono profundo, embalado pelo som dos motores…

Enquanto procurava discernir o que, da sua desperta memória, era realidade ou sonho, abriu a cortina e deparou-se com aquele extraordinário cenário, sempre renovado, a entrada no estuário do Tejo, com o Sol nascente a varrer o rio, a margem Norte, o bugio e a linha de Cascais.

Luís, quarenta e nove anos, regressava de mais uma entediante viagem de uma semana de trabalho em S. Paulo

Mas tudo o resto, que se recordava como tivesse acontecido, só podia ser um sonho, porque, nas histórias de verdade, os personagens têm nome e não uma maiúscula com ponto.

Mas parecia tudo tão real que lhe provocou um arrepio na espinha, tão frio quanto uma madrugada de sonos sobressaltados em altitude

Entre o alívio da reconfortante e avassaladora vista aérea de uma cidade no sítio certo, e o indisfarçável desconforto de um exílio sonhado, preferiu relegar para as profundezas do cérebro o que sabia da teoria dos sonhos, um enredo de premunições e memórias soltas de experiências e viagens passadas.

Sorriu sem disfarçar, quando se recordou do país iluminado a navegar no Atlântico Central e preparou-se para o regresso sonhado, no sentido literal, à pista da Portela.

“ O número tentou ligar-lhe 3 vezes….”

Era Ana, que ainda não se habituara aos atrasos do voo da noite!

O voo da noite - Parte 7/8

Enquanto esperava pacientemente pelos atrasos do voo da noite, L. observava o puto que dormia em cima de uma mala, aparentemente abandonada, como se não houvesse pais, donos ou um conceito equivalente de núcleo familiar. Mas o puto acordara, e agora perdido no sonho ou da família, choramingava sobre a grande mala que antes o acolhera.
Transeuntes preocupados de volta da criança desorientada, interrogavam-se sobre a solidão e o abandono, as seguranças de luva branca e feições carregadas, demonstravam o seu lado maternal, agitavam os olhos nervosos à procura e, vindo de sabe-se lá donde aparece o pai da criança que a embrulha nos braços, como ramos de uma árvore pejada de raízes. Mas a frieza da mestiça de feições carregadas só entregou a criança depois de identificado o alegado indigente.
L. sorriu com este final feliz e embrenhou-se na leitura, a lâmpada de Aladino de Luís Sepúlveda, como antes e durante, Borges, Garcia Marques e Vargas Llosa, companheiros na sua solitária viagem.
A capa brilhava agora na penumbra das apagadas luzes de cabine, como uma lâmpada de criatividade em histórias espalhadas pelo mundo, atenuando o ambiente soturno e bolorento que persistia neste interlúdio entre a terra e o espaço exterior.
Um Aladino desperta sempre a atenção, sobretudo abandonado à sua sorte no assento côncavo de uma aeronave, a mais louca máquina voadora do mundo.
O voo noturno descola do istmo ensopado de chuva e de luzes e L. voltava a embrenhar-se em Sepúlveda que, fora do território panfletário, esbanja memórias sem geografia definida, facto estranho para quem nunca se exilou, tão estranhamente vulgar quando lido do céu, uma ponte aérea tão curiosamente comum e intemporal entre a América do Sul e a Europa, refúgio envelhecido de todos os apátridas.
E memórias são de uma criatividade e de um encanto que o autor muitas vezes esconde por detrás de palavras de revolução perdida.
Mas numa noite de Inverno sobre o Atlântico Sul, são as histórias de um exilado na Europa do frio e da chuva, que pareciam familiares a L. e são as interjeições latinas com a Alemanha do Norte, que adormecem o corpo de L. e voltam a despertar as suas memórias.
Eram as noites que marcavam o seu ritmo afetivo e a sua tolerância à distância que, à medida que o tempo escorria, deixava de ser apenas uma distância física e se transformava no reinventar de uma nova existência, como se tivesse reencarnado na essência de um outro ser.
Deixara de haver rotinas para L., e os finais de dia alternavam entre a profunda e temível solidão e a euforia dos encontros fortuitos nos bares de todas as cidades, nas sociedades de elite ou nos hotéis de luxo que a nova profissão lhe proporcionava.
Jamais L. se imaginaria um ser de sociabilidade tão fácil e de pendor tão universal como nas terras de um exílio tão dourado e compensador.
Chegava a sentir-se um mercenário do seu interior, agora que decidira deixar de contemplar a vida dos outros e se assumia, qual jovem rebelde e de natureza errante, como participante desta nova existência reincarnada.
Nos compassos de solidão, debruçava-se no skype, cada vez mais intermitente e ausente, e constatava que os filhos reinventavam a vida na sua ausência, com uma saudade cada vez mais difusa e uma necessidade cada vez menos premente.
É diferente ser exilado fora de tempo.

domingo, 7 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 6/8


Mas cedo percebeu que BA era uma cidade da boémia decadente, tão sedutora quanto falida, e não era por ali que L. podia viver do seu trabalho
Tal surpreendente constatação não o impediu de vaguear semanas a fio pelos mercados de S.Telmo ou pelos bares de Palemo, de se embrenhar em peregrinações pejadas de atos de fé nos Santuários da cultura e paixão.
Acompanhado de E. um orgulhoso cicerone de Borges e de uma legião bem representativa da nova inteligência porteña, vasculhou todos os lugares do autor e captou o seu espírito mais denso e profundo no café Tortoni, Rua de Mayo, 875, referência de intelectuais e artistas, teimosamente posicionado no eixo do poder, como a barricada da irreverência incontida e permanente á ousadia imperial dos governantes.
Rua de Mayo, entre a Plaza de Mayo e a dos Congressos. Borges e Gardel: duas extremidades do quadrado estético de referência do passado recente de um povo jovem. Tortoni, antiga tertúlia, hoje espaço de culto.
L. sentiu-se rapidamente preso a este povo, tão jovem mas com uma História tão intensa, tão cheia de contradições e tão familiar na sua profundidade intelectual e na sua inabilidade para gerir as coisas práticas, sempre à beira do abismo e tão juvenis quanto emocionalmente instáveis, quando se entregam em desespero a um pai ou uma mãe do povo, dê por onde der!
Na Plaza de Mayo, a fronteira entre a boémia S.Telmo e as avenidas imperiais, e o obelisco que se impõem como uma bandeira de pedra entre o palácio do Presidente e a praça do Congresso, símbolos do poder e (quiçá) do nacionalismo aceso, L. sentiu-se no âmago das encruzilhadas históricas deste povo jovem.
Para E. e os seus entusiastas amigos – e agora amigos de L. - a Casa Rosada, ao fundo, representava o farol do (fascínio pelo) poder, da força messiânica dos líderes do povo (descamisados, pobres e infelizes), dos militares absolutistas e opressores com sonhos imperiais que repõem uma ordem instalada (?), uma sucessão alucinante de extremos, que se intercalam periodicamente com os reinados de famílias com mística popular e o fascínio pelas mulheres de personalidade forte que se tornam poderosas e idolatradas.
“O clã Peron, os militares e as mulheres são os protagonistas da História da casa rosada, do farol da Plaza de Mayo e de um país” – repetia L. entre um gole de café gelado com sabor a rum – “Sangue, suor e lágrimas” – realçava E.
E L. já imaginava Eva discursando ao povo na janela da casa rosada.
“Mas a Plaza de Mayo é também o palco dos equívocos, os absurdos, os contrassensos e as encruzilhadas do nacionalismo excessivo”
“A mistificação das mães de Maio no auge da ditadura militar, que exibiam os sinais dos filhos desaparecidos opositores de um regime, que não tolerava protagonismos populares ou cento e cinquenta mil pessoas que aplaudiram a invasão das Malvinas, em pleno período de declínio da ditadura militar de Vilela “ – continuava E.
L. percebia cada vez melhor a nossa raiz latina comum; Manipulação, revolta, nacionalismo, mistificação e a voz do povo, tudo numa só Plaza e num só século.
L. concedeu a si próprio estas indulgências de turista – ele preferia ser reconhecido como viajante, ou explorador da natureza humana - como sendo parte integrante do seu processo de aculturação a uma nova vida num novo hemisfério.
Mas, latitudes diferentes e a mesma língua levantaram voo, semanas depois, para Santiago, São Paulo, Bogotá e Lima, o quadrado da sua nova vida de exilado económico e sentimental

O voo da noite - Parte 5/8


Quantas vezes se debruçara sobre os balcões de check-in, era uma equação de variáveis indefinidas, perdidas nos horários trocados de uma massa humana que freneticamente se deslocava permanentemente de um lugar para outro, em complicadas manobras de segurança, bagagem, vistos e passaportes, novos tempos e novos hábitos de latitudes longínquas a que L. já se tinha adaptado

Incomodavam-lhe mesmo as facilidades aduaneiras europeias quando, cada vez mais esporadicamente, regressava ao velho continente.

E, enquanto abria mais uma vez a sua mala, sem se importar nem questionar com a sua utilidade, constatava divertido que, por estas bandas, as revistas e os controlos eram sempre desempenhados por mestiços profundos de feições carregadas e olhar frio e cortante, mas que as suas mãos enluvadas apenas acariciavam a roupa, sem entrar em detalhes, esperançados de nada de suspeito encontrar.

Mais um raio X na mala de um caixeiro-viajante da era moderna, adormeceu L. da atmosfera pesada, noturna e de luzes de néon amareladas de tão gastas, da área de embarque e transportou-o para a viagem de partida para as Américas.

Ou seria a de regresso, considerando as circunstâncias e a sua fulgurante ascensão na nova vida de (i) emigrante.

Corria atrás do Ocidente numa tarde que não tinha fim. Deixara a sua vida por resolver e, da cabine da aeronave lotada, olhava a profundidade temerária que ressaltava a turbulência em imagens de abismo.

Não entendia na altura se era o abismo do profundo mar azul e do deserto humano que se espelhava nos areais do Sahara e de Cabo Verde, ou apenas uma vida que se desmoronava num exílio fora de época.

Sentia-se apenas confortado pelo facto do Sol ser amigo, porque sobrevoa sempre as nuvens e por não vislumbrar fenómenos do fim do mundo como árvores plantadas no céu.

Imaginava Buenos Aires, como serão os cheiros da manhã nos mercados, nas cervejarias, será verdade o ritual do café sem pressas, como se fizesse parte da sua função no mundo observar os outros, imaginar as vidas de quem se atreve a passar, não há nenhum impedimento em construirmos histórias ao sabor lento do café e tinha saudades de Lisboa, como se o oceano me estivesse a esticar de forma intolerável entre dois mundos.

A realidade a dez mil metros de altitude, despertava-o para uma aula de ritual dos porteños e, como se fosse natural recomeçar a andar, aprendia como imaginar a segunda vida dos que o tentam lixar a vida

“Tal como eles não imaginam a minha segunda vida!”

Procurava entre a turbulência, as subidas e descidas e o apertar os cintos não me enredar nas nuvens, regressar à construção do meu mito sobre o novo mundo, calibrar a nossa expectativa, porteños de beleza impura que envolve as tradições submetidas ao Tango, os cheiros e as cores, as referências obrigatórias ao início do século XX, cafés e tertúlias, a intelectualidade e a ditadura, Borges e Gardel, o Déco que impõe ainda hoje o ritmo da modernidade

E as saudades das suas referências de passado em glória e tragédia nacional, um fado que nunca ouvia, pareciam-lhe agora intoleráveis enquanto sobrevoava, em descida prolongada, a colónia de Sacramento.

21:07, a tarde esgotou-se finalmente no início de noite e sentiu o céu vermelhão escuro na cauda do Airbus; Atravessara meio mundo sem mudar de língua e, no aterrar da segunda vida (ou seria o descolar da segunda e aterrar da primeira?), e assegurava que a visão argentina do universo hispânico, seria uma versão claramente melhorada do original.

Assim acreditava porque tinha atravessado o mundo nessa esperança

E. esperava-o na cidade do Tango….

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 4/8


Apesar de ser uma mente que pairava o mundo, não o empolgava qualquer sentimento ou apelo ao destino atlântico e descobridor, revelado no ADN lusitano, e muito menos à Ibérica ambição de grandes e épicas conquistas. Nem mesmo o amor convicto pelas causas humanitárias num mundo globalizado, o terá alguma vez despertado para o voluntariado de impulso e sem regresso, que a sua mente em estado de sono profundo, sonhava.
Era eventualmente, e apenas, uma forma de expiação do pecado de viver num mundo remediado. Por isso, era um sentimento sem força suficiente que levasse alguma vez L. a pensar sequer em partir sem bilhete de regresso.
“ Tu és um homem maratona “ – uma profecia indesejada de furtivo e não assumido amor.
Convenceu-se então que isso de ser corredor de fundo era uma espécie de gene diletante e ramificado na sua consciência de ser, que não lhe permitia tomar decisões grandiosas e absolutamente não convencionais.
E por isso mesmo, tornou-se um adulto conformado e portador de uma existência tão linear quanto previsível, empurrado pelas circunstâncias conciliadoras de uma vida socialmente enquadrada, temperada por laivos de irreverência condescendente, décadas de ascensão consciente e estruturada, a obstinação que, esporadicamente, se sobrepunha à determinação e uma invulgar capacidade de acumular experiências e devolvê-las, sem golpes de mestria e de forma absolutamente gratuita, a todos os que dele se abordassem.
Socialmente inapto, portanto, este homem da maratona, no amor e no trabalho.
E à medida que as luzes amarelas do aeroporto galgavam o horizonte em sua direção, do táxi que o transportava e dos subúrbios sem esgoto nem pavimento, L. via desfilar, neste oásis de luz fosca, esbatida e sem sombras, a súbita destruição do seu mundo familiar e a incapacidade de lidar com um mundo laboral de metas curtas e personalidades afirmativas.
“Vou sair de casa” – foi de uma forma tão simples e cruel que o amor da sua vida, subitamente o privou da família, do sentimento que julgava ser apenas uma esbatida e longínqua paixão, e de uma vida social em recente estagnação.
“Apaixonei-me outra vez!” – A paixão é um sentimento do fim dos tempos, que se reacende em momentos de crise profunda, uma espécie de anestesiante para a queda iminente nos abismos, os momentos de loucura que precedem os marcos da História.
Foi o regresso da teoria dos ciclos, após décadas de crença absoluta no enriquecimento eterno, baseado no conforto, na indulgência e nos valores em que fomos habituados a acreditar.
“Lamentamos, mas não se adaptou aos novos tempos” – Retrato de uma geração em apuros
No amor e no trabalho!
Assim, para L. as generosas taxas de crescimento destes povos latinos, ansiosos por ascender ao patamar mínimo da classe média, ainda entre senhores e servos, eram um desafio sem segredos para quem já não acreditava, depois dos cinquenta, que o mundo fosse o seu novo e instável lar.
E os laivos de memória descontextualizada invadiam-no com a aproximação dos lugares com fuso horário.
E o aeroporto da Cidade do Panamá era um deles.
E, enquanto procurava consumar uma bandeirada a preço aceitável nesta viagem de bigode e tez morena, viu a sua vida a desfilar em contramão na esporádica autoestrada deste destino improvável.

O voo da noite - Parte 3/8




Há três anos que os nativos irónicos comparavam abusivamente L. a um novo “barbudo malcheiroso” qual Pizarro, voando de mercados em mercados, vendendo consumo ao crescimento económico, pelo menos isso ele sabia fazer, porque havia vendido consumo durante anos a fio a um povo que comprava sem crescer.
Para além do incómodo gerado pela generalizada perceção da grande Ibéria, havia esta diferença não subtil e muito profunda, que marca a diferença dos povos: comerciante mas não conquistador, sem necessidade de converter os nativos à fé católica ou roubar a prata das minas.
L. estava longe de imaginar, tantos anos depois da opressora escola primária da professora Helena e do Hino Nacional cantado sem convicção nem especial amor à pátria, que se voltaria a confrontar com as contingências do Tratado de Tordesilhas.
“ A principal razão pela qual o Brasil é um país uno e esta unicidade não existe nos restantes países de língua espanhola, é porque todos os membros da elite brasileira estudaram e graduaram-se na mesma universidade “ – referia entusiasticamente o reitor da Universidade de Coimbra em todas as cerimónias públicas.
As razões da História iam-se alinhando cronologicamente, à medida que L. crescia e se transformava num Homem de calças coçadas e espírito libertário.
Por esta fase, o mundo já não chegava pelo correio, através de panfletos turísticos zelosamente pedidos por carta, numa letra irregular de adolescência avançada, sempre acompanhados de elogios bajuladores a todas as repúblicas ou monarquias, algumas tão obscuras, quanto o seu relevo no mapa-mundo, religiosamente colado nas paredes do quarto, mas que evoluíam no seu ranking de admiração em função do tamanho do envelope de resposta.
Avançáramos sem hesitação pela década da televisão a cores e L. tinha tudo para ser errante como o vento que assola a costa ocidental atlântica no inverno do norte, incapaz de se prender a uma existência vulgar e convencional.
Tão longe deste Pacífico, obscurecido por um anoitecer precoce a caminho do aeroporto, num mar que se deixa atravessar por um canal sem vento, construído no meio da sufocante humidade tropical, dos mosquitos e sacrifícios humanos, uma tentativa sobre outra, até resultar.
A natureza é obstinada em defender o que é sagrado e ligar dois mares com diferentes altitudes e histórias, que só se haviam ligado no extremo sul, entre tempestades e fiordes, não obedece de todo às leis da mãe natureza.
Daí o enorme sacrifício humano!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 2/8



Não fosse o solavanco inesperado numa cratera camuflada por um gigantesco lago artificial feito da chuva diluviana, e o miúdo jogaria futebol no espelho retrovisor de onde espreitava um bigode moreno, desconfiado de tanta reflexão absurda, saltaria do quintal pela janela da frente no lugar do morto, pedalaria campos fora a uma velocidade que os pesados ciclistas de rua, na imagem de fundo, não ousariam seguir.
Convencido, o puto, de que aquele era o mundo dele, uma província da qual não haveria História de Portugal que o colhesse. Tinha impregnada a noção de uma Pátria a preto e branco, modesta mas livre para os putos que se enchiam de pó nos infindáveis estradões de terra solta.
O bigode moreno do banco da frente balbuciou um “Perdão!” e o L. empertigou-se no banco de trás, no seu orgulho e na carcaça de homem feito, compondo-se de uma breve, mas sentida, emoção.
A chuva convenceu-o de que não estava em Lima, a terra de nevoeiro opressivo, mas que não aceita chuva por capricho da natureza, este tinha sido o seu poiso de semanas passadas, Santiago também não, porque aqui cheirava a Pacífico e as estradas tinham buracos.
Panamá e decidiu bem. Ao longe levitavam as luzes dos monolíticos cargueiros que esperavam a vez para entrar no canal, mas o táxi não se comoveu e, subitamente curvou para Leste, deixando o canal, os cargueiros e os milhares de marinheiros impacientes pelas costas…
A literatura do policial Carré não servira afinal de preparação, na sua primeira visita a este local, e nas outras que se seguiram, sempre como um entreposto, um mero poiso, umas horas de espera sem recordações nem memórias que valham sequer a fama e o proveito que resultam das suas ancas elegantes e curvas generosas, mas as memórias exóticas e românticas nada tinham a ver com este lugar, perdido entre a espelhada downtown e uma imensa e precária periferia pardacenta de predominância em latão e zinco.
Desejou muito, e de repente, voltar para o confortável e aquecido mundo das memórias.
Um exilado, compulsivo e rebelde levita permanentemente, sem ordem nem prioridade, por universos persistentemente contraditórios, mas tem sempre um refúgio sentimental para onde se recolhe, sempre que o incómodo ameaça torna-se insuportável.
Mas, assim tão de repente, não conseguiu porque a escuridão era agora total, e tal como o silêncio também a falta de luz impedia que película se projetasse nos reflexos sua memória. 

O voo da noite - Parte 1/8


“E quando ele tiver idade de ir para a guerra?”
Quando estamos longe, a nossa memória mais juvenil torna-se num potente motor de busca que recorda acontecimentos improváveis, meticulosamente extraídos de um pedaço descontextualizado de tempo, bem para além das profundezas da nossa consciência.
E sem entender qual tinha sido o gatilho das memórias que tinha disparado, L. deparou-se com um reflexo no vidro lateral do táxi noturno, um miúdo de calções curtos e joelhos esfolados que olhava atónito os pais, sem entender coisa nenhuma do que era a guerra e aquela palavra redonda, mas clandestina e envergonhada: emigração.
A noite já cobrira a cidade, uma qualquer metrópole sul-americana que bem poderia ser Bogotá, Lima, Santiago ou São Paulo, tantas tinham sido as partidas e as chegadas nestas novas geografias dos negócios, das oportunidades e do destino, que as referências esbatiam-se entre as diferentes pronúncias de uma língua comum e mestiçagens singulares.
Mas o táxi investia pelas anárquicas ruas da metrópole em hora de ponta procurando, na perpendicularidade das ruas secundárias, um impossível atalho para mais um aeroporto, e a criança que se chamava L., cinquenta anos atrás, esborratava-se nas gotas de uma chuva persistente que deformava a paisagem de fundo, os seres sem expressão que olhavam para os resquícios de vazio em autocarros lotados, os vendedores de cana-de-açúcar que exorcizavam a cana com rudes golpes de catana, carrinhos de mão carregados de tudo e de nada, e um trânsito interminável que tornava intermitentes as fileiras de prédios de cores escuras e encardidas, ou apenas tijolos empilhados, sem ordem nem prioridade, apenas iluminados por velas e santos que, esporadicamente preenchiam as janelas e cornijas.
Mas a imagem do menino, agora mais crescido, renascia das gotas de chuva e projetava-se no reflexo do vidro ou das poças imundas de água que enlameavam a face refletida, de calções mais compridos e joelhos menos esfolados e, na mesma inconsciência ideológica de adolescente incompleto, via os soldados regressar da guerra, e depois milhões não soldados de grandes malas e um olhar aterrorizado, ainda mais confuso porque os pais lhe haviam explicado que os emigrantes são aqueles que partem.
E estes partiam para onde?

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Lima - A cidade das brumas



Lima é a cidade dos Viracochas e, quem sabe, uma afirmação de modernidade de um país. Deuses que viriam do mar…e vieram
Lima é a cidade dos reis brancos, barbudos e malcheirosos que desconfiavam da mística Cuzco, demasiado grandiosa e sobrenatural
Portanto, incontrolável
No credo en brujas, pero que los hay, los hay
Nove milhões de almas que se acotovelam nos bairros populares em gigantescos mercados grossistas
Cidade das brumas, fenómenos meteorológicos que lançam capacete sobre a cidade, que devia ser tropical, mas não é, pelo menos mais de seis meses por ano!
É bizarro, o equador tão perto e os caprichos das correntes marítimas, e o pacífico oceano que se empurra de encontro aos Andes transformam, esta amálgama de metrópoles tão latinas e tão sul americanas numa distinta urbe, tão britânica quanto a neblina permite, qual chapéus de coco que estranhamente povoam as ruas poeirentas dos mercados de rua e que se equilibram, quais trapezistas entre o infernal burburinho desta cidade, sem caírem sequer!
A vingança nativa (incas e os seus incógnitos ascendentes) serviu-se retardada e definitiva.
Oitenta por cento do povo é mestiço!
Sol e Lua, oposto e complemento em três estágios de vida: ave, puma e serpente
Cidade das crenças que, em dia de procissão da Nossa Senhora das Dores, se revela de uma profunda religiosidade que leva multidões às ruas, magotes que se deslocam a pé dos bairros pobres, distantes e inacabados para um centro que, se encolhe porque estranha, no seu abandono e despovoamento crescentes, o movimento e a alegria dos crentes, pobres mas crentes!
Não estamos habituados a ver tanta fé em povos que (foram, de forma musculada convencidos a mudar de..)mudaram de Deuses há menos de quinhentos anos, de tez inca, mestiça ou índia.
É uma nota disfuncional na paisagem, mas que é perfeitamente coerente com todas as notas invulgares que povoam a cidade.
Nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma!
Símbolos religiosos, impregnados nos mantos cristãos, através da mãe natureza
Não há barbudos e malcheirosos espanhóis a atravessar as húmidas brumas de uma manhã tão cinzenta, mas tão colorida porque a cor é aqui, e em todo o país, o Perú intenso!
Mas a Praça de Armas é uma afirmação do poder espanhol que resiste teimosamente à desertificação do centro da cidade, uma auréola de edifícios coloniais gastos pelo tempo, pelas revoluções e pela ascensão do poder revolucionário subversivo e clandestino
Em seu redor, expande-se uma cidade caótica, cuja inexistência de infraestruturas empurra milhares de carros, motos e combies (pequenos autocarros independentes) para uma dança de desfecho sempre incerto, em que a prioridade é concedida a quem for o último a parar. Sem ofensas, como se as buzinas apenas prestassem honras ao mais destemido dos guerreiros do trânsito.

Saindo da Praça de Armas em direção ao mar e a sul, percebe-se que coexistem nesta larga extensão de casas quase térreas, vários destinos de um mesmo povo.
As grandes migrações dos anos noventa, a pobreza extrema dos sem raízes, aqueles que já foram integrados dentro dos limites da cidade e os que se espraiam pela pan-americana à espera de entrar;
Os bairros de classe média, com quintais vedados, e um espaço de garagem ao ar livre onde param os automóveis de família, gastos mas dignos;
A frente Pacífico com bairros a tocar o glamour e com uma gastronomia de fama e eleição, espraiam-se os soprados pela riqueza e pelo crescimento económico de seis por cento ao ano, abençoados pelo poder e pela pátria
Mas não se chegam ao mar: as arribas de Miraflores espreitam o mar mas deixam a marginal, lá em baixo, para os surfistas e para quem quiser, numa espécie de zona livre porque afinal o mar (porque não há sol) quando nasce é para todos.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Santiago – A cidade que ousa desafiar


Santiago não se deixa conhecer num dia.
Porque não ambiciona ser exuberante e persegue uma necessidade de afirmação.
Das fronteiras, da sua identidade!
Estreita e comprida, Santiago é a cidade que se afirma como a americana.
Um desafio permanente aos vizinhos, sem compaixão.
Quarta-feira de manhã de Verão e sente-se a leve brisa dos Andes a soprar pelas ruas movimentadas do bairro de escritórios.
Vitacura pretende ser um elogio ao sucesso, ao trabalho e às riquezas naturais de um país, e à elegância e requinte, as torres de vidro.
- Estamos a construir o maior edifício da América, maior que o Empire State!
Não há calor na manhã da cidade. Por isso ninguém se lembra da boémia.
E a nossa voz de fundo, o Chile que abençoa os Andes que os separam dos vizinhos, esclarece que o bairro universitário, hoje vazio de Verão é o viveiro do futuro…
Afinal há sinais de boémia na cidade…até irreverência!
Esporadicamente entrecortada por lembranças de um passado recente:
As camufladas casas de tortura do regime militar.
Em ruínas…de propósito, impossíveis de reparar por decreto. Reminiscências?
Lembra-me as ruínas na capital dividida de Berlim, no auge da guerra-fria; destroços que se afirmam como espelhos dos nossos (seus) próprios excessos, feridas que não se conseguem sarar, se não formos capazes de expiar os nossos pecados.
Exagero romântico!
Afinal de contas, Allende pode ter sido um governante sonhador, absolutamente destituído de sentido prático, mas é muito mais sedutor que o General.
Contudo, não se vislumbra na nossa superficial memória visual, algum substancial vestígio de trauma colectivo. Talvez uma paz negociada, por falta de consenso!
Casa de la Moneda: Outrora símbolo, actual residência da bem-aventurada Presidente.
95% de aprovação, dizem eles!
E mesmo assim é obrigada a abdicar…os tempos modernos têm um medo horrendo de perpetuar mitos, sobretudo na Latina América.
Palácio La Moneda…
É um palácio urbano, encurralado na cidade (como conseguiram bombardeá-lo, entre os prédios, a cidade e o povo?), em sintonia com o país, sem jardins que o rodeiem, e que turvem a visão aos governantes…
Allende, presidente eleito, tem aqui o seu espaço de memória, entre o palácio e o Ministério da Justiça.

E ninguém estranha que o bombardeemos de fotografias, habitantes desta cidade que se vestem de bancários e funcionários, e que não se abandonaram aos prazeres do Verão na costa, para os lados de Valparaíso.
Ao que consta, políticos e magistrados já foram.
Restam as referências católicas.
Uma freira solitária nas ruas de Santiago, caminha apressada para a Praça das Armas, uma verdadeira inspiração fotográfica. A praça!
Foi aqui que tudo começou; a cidade, o país, a encarniçada disputa com os índios pela posse de uma terra que não pára de tremer, que nunca parava de tremer.
Ontem à noite foram dois abalos, garantem!
A melhor memória ao passado sangrento é o povo mestiço que povoa a praça.
Quinhentos anos depois o presente testemunha que não houve vencedores; extintos ou imersos, os donos dos bosques e das armas, fundiram-se numa nova raça!
Pedro e Inês estão presentes na Praça, na Catedral erigida, mas não era possível ignorar os índios, os espíritos de um país que não chegou a ser: eles vigiam-nos de perto, na entrada Sul da Praça, estupefactos pela petrificação abstracta a foram sujeitos, mas conformados porque a pedra é o destino final de todos os heróis. Também de Pedro e Inês.
Em breves ângulos de exposição do Sol, rendemo-nos à evidência de ser uma Praça espanhola… mas nos profundos e demorados ângulos da sombra, perdemos a certeza e as referências europeias.
Fantasmas ou povo?
Não há gritos mapuche no ar, os cães não ladram mais e o único conquistador a cavalo, também ele petrificou, no extremo Norte da Praça!
Norte, Sul, parece evidente que ninguém abandona já, esta terra!
Praça de Armas, inspiração fotográfica e memória contundente.
Quando revejo as chapas (sim, fotografamos com chapas), os vendedores ambulantes de sonhos e bugigangas desapareceram e sentimos as inexplicáveis sombras…ou talvez seja a brisa que é inexplicável nesta manhã de Verão?
Fantasmas ou povo?
Na altura, povo diria!
Em flashback, fantasmas certamente!











Bellavista, finalmente a reconfortante boémia, sonolenta, preguiçosa e causticada pelo Sol, cores tropicais e latinas, casas térreas e arte popular, apelando ao Pisco Sour e à cerveja gelada.
Afinal sempre deve ter havido bosques frondosos!
Atravessando o rio Mapocho…Ah, terra de selvagens, para lá do forte!
Estivemos na casa de Neruda! Uma das três casas de Neruda, uma das três paixões do poeta:
Matilde, entre outras!
O poeta precisa de inspiração e liberdade, só podia ser Bellavista!
Por isso, morreu três semanas depois do golpe de estado.
Misteriosamente…afinal a pedra não é o destino final de todos os heróis. Nalguns, a mente e a pena (símbolo da escrita) gravam a nossa memória de recordações doces e sentidas.
Mas vista de cima, a cidade parece nunca ter sido bosque, o Sol está demasiado alto para alaranjar os Andes, e o fumo que não se vê mas se sente desvanece as cores e presenteia-nos uma cidade cinzenta aos nossos pés:
Sathanattan? Nãa!
A diva de quarenta, descansa o olhar delgado e as coxas can-can sobre a cidade.
A bicicleta vigia-a, e um olhar furtivo descortina cor na cidade entre os raios da roda da frente.
A Diva e a sua montada. Momento fotográfico…digital!
Concéption, dixit!



Descemos à terra no mercado central.
Entre o peixe do Pacífico e a Centolla universal, o mercado é um momento de cheiros e sabores fortes, uma babilónia onde não se distinguem os que compram e os que vendem, pratos com sabor a música chilena que ecoa na abóbada das esplanadas interiores…
Escapa-se por debaixo das cadeiras e dos menus, trepa nos pilares metálicos, surpreende-nos em todas as esquinas, todos iguais e um som inconfundivelmente diferente.
Na hora do almoço, os estridentes e gelados picos dos Andes, tinham descido à praça.
Não havia flautas, mas violas que competiam pelo reconhecimento e pelo espectáculo.
Almoçámos Santiago no mercado central!
Só o vinho branco do Chile, nos faria sentar junto à fonte – lavagem dos legumes? -reconhecendo, na música, a originalidade de uma cultura e na comida, o apelo do mar!
Mesmo que Santiago não se deixe conhecer num dia.





Nem em dois…
Dupla personalidade na baixa, é o sentimento de Sábado à tarde na mesma cidade. Deserto humano, primeiro e uma repentina enxurrada de gente que não pertence ao mesmo filme.
De onde vêm? Para onde vão?
É Sábado à tarde e os subúrbios desceram à rua, agitam-se num só sentido e despovoam as ruas em redor.
Uma súbita sensação de América Central: as hordas incas que desceram do Peru?
Era tempo de espreitar os conspiradores no Rincon dos canalhas!
Chile libré! Seria a verdadeira senha?
Nunca se soube. Debalde!
Uma velha de vassoura na mão, exclui-nos do bar, deste pequeno pedaço de clandestinidade.
Tínhamos chegado demasiado cedo e não tínhamos sido devidamente recomendados. Ninguém sério procura secretas conspirações pela Internet.
Mas juro que vi, por cima do cabelo palha-de-aço da velhinha antipática (e amedrontada?), Allende e o camarada Che a sorrirem sobre um fundo de bandeira do Chile livre.
Roubei-lhes, num vislumbre, o seu olhar e toda uma revolução!
Como água para chocolate. O não último jantar em Santiago na cama, com Laura Esquível!
Todos comeram na mesa, feita cama dela; no bairro da Bellavista, a dois quarteirões da casa de Neruda, o Pablo na casa da Matilde…ou a virgem mãe…Poetas!
O pisco sour, aguardente chilena, recorda-nos que todos somos livres: temos plata e passaporte e não tenho perro (cão) que ladre. Uma vez mais dixit!
Força Chile!