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terça-feira, 20 de maio de 2014

MAS – Museum Aan de Stroom





(Um edifício impressionante com um museu, entre outras coisas)

Retrata a longa História do comércio e do intercâmbio cultural entre a cidade e o mundo, parecendo esquecer que a interação se faz de épocas - e quinhentos anos é muito tempo - são muitas histórias, que apenas respeitam um tema, entendido de forma muito lata / muito larga.
MAS conta novas histórias baseadas na evidência dessas trocas mútuas.
História sobre a cidade, o rio e o porto.
Sobre a diversidade do mundo, em objetos que aqui vieram parar
Sobre os signos das diversas idades do Ouro de Antuérpia (com o mundo)
É de facto Antuérpia, é certamente global e enriquece a perspetiva com que ficamos da cidade atual: mercantil e experimental.
É passado, é presente, perto e longe com referências inequívocas aos sonhos e pesadelos da cultura Ocidental.
MAS é um edifício da nova vanguarda flamenga no sentido lato (o arquiteto é holandês), que conta histórias nunca contadas sob uma perspetiva mercantilista do mundo, com a qual interagimos por força da gestão criativa do caos.
E os trinta e três quilômetros de porto, que se avistam do terraço merecem este monumento, exatamente na primeira doca conhecida deste gigante dos mares.
Construída (imaginem por quem) por necessidades práticas, bélicas e mercantis.
Napoleão, claro!
Ah, é verdade, os temas (e andares) da Exposição:
1.       Display of Power
2.       Metrópolis
3.       World Port
4.       Life and Death of Men and Gods



terça-feira, 6 de maio de 2014

Na rota da Portuguesa






Isabel, filha de João I e Filipa de Lencastre, irmã de Duarte, Fernando e Henrique.
Filha do rei de Portugal e senhor de Ceuta.
Casou aos trinta e dois anos com Filipe Borgonha e chegou a Bruges em 8 de Janeiro de 1430
Estes são os factos.
Na praça central de Bruges…era ali, sob os arcos que se vendiam os tecidos flamengos, o ouro que Isabel encontrou a cobrir as ruas, quando entrou na cidade e a cidade celebrava o terceiro casamento do Duque de Borgonha com a princesa portuguesa
A torre significava o poder dos cidadãos e os sinos marcavam a vida dos habitantes, da varanda faziam-se os anúncios públicos e era na Belfry que se guardavam os tesouros e os documentos mais importantes.
São 55 degraus até à Tesouraria.
No Prinsenhof viveram Isabel, Philippe e Carlos e aqui dormiu D.Fernando, o Infante Santo.
O duque investiu na decoração do paço, trazendo tapeçarias, quadros e móveis do palácio de Dijon.
Chegámos ao Burgo, onde a duquesa assistiu a tantas missas e onde o edifício da câmara municipal afirma que Isabel ali viveu.
Foi aqui, na Béguinage, que concebemos o encontro entre Isabel e o seu colaço – irmão de leite – Lopo de Carvalho.
Foi aqui, na paz desta espécie de convento de religiosas, em que mulheres solteiras e viúvas decidiam dedicar a sua vida a uma fé e a servir os pobres que Lopo lhe conta os detalhes da morte de D.Pedro, assassinado pelos soldados do meio-irmão, Afonso de Bragança.
É na Igreja de Nossa Senhora que jaz, Carlos, o Temerário e filho de Isabel e da sua neta Maria, rodeados pelos brasões com armas portuguesas
Só Isabel se encontra em Dijon, mas a sua presença, a da mãe Filipa e do pai João marcam esta catedral que aponta para o céu, terminada bem depois da morte da princesa, num esforço que durou duzentos anos.

Havia uma perspetiva de longo prazo neste reino de burgueses precoces.



sábado, 26 de abril de 2014

Altitude O – Os Condes da Europa (O toque de Midas)




Viajar pelas províncias unidas dos países baixos é um esforçado retorno aos primórdios da Europa, enquanto esforço de construção de Estados por entre uma mescla de regiões, tribos e dialetos.

Pelo meio do dia de um Sábado de Abril, aproximamo-nos convictamente do século XIV, mas ao contrário do que se poderia esperar de uma região que também foi proeminente por causa da sua capilaridade fluvial, viajamos de cavalo de ferro, a grande invenção europeia do século dezanove.
Porque somos muito modernos!

Vários séculos depois de 1300 e do início do domínio dos Borgonha, e algumas décadas apenas depois do emocionado juramento de uma Europa Única – os propalados Estados Unidos da Europa – pressentimos na insatisfação flamenga uma questão não resolvida, apesar dos inúmeros juramentos, casamentos e traições, guerras e secessões.

É triste a paisagem neutra que desfila pela província plana, depois do átomo – o único símbolo de modernidade? – ter-se escapulido pela janela direita do comboio em andamento, depois do rapaz com cheiros fortes ter mudado de lugar sem saber onde se sentar.
A neutralidade não é uma característica muito interessante, nem na paisagem nem na vida, presente ou história.
E os flamengos continuam zangados, tristes e um pouco confusos.

(Por isso não me esqueci de referir que o rapaz flamengo de cheiros fortes, não cessava de mudar de lugar)

Apesar da província triste que desfila junta à janela esquerda do nosso comboio ter virado um estaleiro, em todas as terras – e o comboio parou em dezassete, entre Bruxelas e Bruges – asfaltos levantados, estações férreas em reconstrução acelerada, o castanho dos campos e o cinzento das obras de construção, sugerem uma mão de pai.



Se calhar é por isso que, ao contrário da batalha das esporas douradas de 1302, em que os artesãos flamengos, armados apenas de lanças derrotaram os lordes franceses, roubando as esporas dos humilhados cavaleiros, porque os impostos lhe tolhiam o empreendedorismo e a sua vocação comercial, a revolta de hoje repousa na retórica e nas sombras do centralismo europeu que lhes foi concedido administrativamente pelos burocratas do Estado Social e da Grande Nação Europeia.

Não vislumbrámos lanças em riste contra este toque de Midas.


Segundo a mitologia grega, Midas foi um rei que viveu na Frigia no século 8 a.C. 
Muito rico, tinha mais ouro que qualquer pessoa no mundo. Passava horas a contar a sua riqueza em enormes depósitos e porões do seu palácio. Porem ele não estava satisfeito. Segundo a lenda, uma noite apareceu um homem vestido de branco diante do rei Midas e concedeu-lhe um desejo. O rei imediatamente desejou ter o toque de ouro; assim, tudo o que ele tocasse viraria ouro. Quando Midas acordou pela manhã viu que seus lençóis de linho puro se haviam transformado em ouro puro! Espantado levantou-se e, ao tocar em sua casa esta também virou ouro. “ É verdade”, gritou, “ eu tenho o toque de Midas”. Quem não desejaria ter esse toque? 
O rei foi tomar o seu pequeno-almoço e, quando tocou no seu pão, viu que o mesmo se transformou em ouro 
Ê em tudo mais em que tocava, se transformava em ouro.
O Rei ficou assustado e apreensivo e pensou: “se a comida vira ouro o que vou comer?”
Nesse instante, sua filha Aurélia entra no seu quarto e corre para o beijar. O rei, sem pensar, tocou nela e beijou-a.
Estranhamente, ela ficou parada no mesmo instante, linda e sorridente, a garota transformara-se numa estátua de ouro. O rei grita desesperadamente, porem nada podia fazer pois desejara isso e seu desejo tornara-se realidade.
Como é uma lenda e todas as lendas têm uma moral da história, o ser vestido de branco aparece novamente ao Rei e pergunta-lhe: 
- Porque estás triste? Não lhe dei o que mais amava?
E o rei responde:
- Não, o que eu mais amava era a minha filha! 
- Então quer me dizer que prefere um pão e um cálice de água do que todo o ouro do mundo? -Sim - responde o rei e prossegue,” dou toda a minha fortuna se me tirar essa maldição que coloquei sobre mim e a minha família”, lamentou Midas.
“Tudo o que realmente amava está perdido para mim ”. 
Segundo a lenda, o ser vestido de branco mandou que Midas se banhasse numa fonte onde lhe seria retirado o toque de ouro e que trouxesse um pouco de água, para lançar sobre sua filha e tudo mais que ele quisesse restituir à sua forma original. 
Assim, o lendário rei Midas desistiu de bom grado de seu toque de ouro e alegrou-se com coisas simples como a família, a vida, comida e a beleza natural.



Nem vislumbrámos lanças em riste contra os seres vestidos de branco que quase lhes tiraram o feitiço.



Mas não há duvida para quem percorre as terras baixas que são os canais que mantém viva a fé flamenga destes católicos que falam uma língua protestante.

Se calhar por isso tristes, os flamengos!

Sempre limpos e arrumados, os canais e os rios!
Dicotomia entre a água e a paisagem terrestre.

Convenço-me de que é necessário conhecer melhor a História e as suas versões, para entender estes lapsos de cor, cuidado e estética, num lugar da Europa muito propenso ao verde, organizado e limpo.


Sempre em altitude 0, com uma perceção omnipresente de um mar tão próximo quanto alto, que contudo, raramente se vê.

domingo, 8 de dezembro de 2013

A paisagem nórdica do Museu do Prado - MNAA






A perspetiva dos pintores nórdicos das terras baixas além Alpes, da barreira montanhosa que os separava das cores quentes das terras do Sul, é fantasmagórica.
Os picos gelados sem encostas suaves, uma sensação abrupta de azuis gélidos num horizonte que eles nunca tinham visto, destoam do detalhe minucioso dos primeiros planos predominantes de verde e castanho e de cenas do quotidiano da Flandres do século XVII.
Segundo a Rita, licenciada em História de Arte havia, nos primeiros sete núcleos, uma necessidade panfletária de narrar e evocar as cenas de um quotidiano feliz, como se de uma época de paz se tratasse, não coincidissem as datas das pinturas com o período da guerra dos oitenta anos.
A desconstrução sistemática das realidades não é pois um fenómeno exclusivo da imprensa escrita e reveste-se de cores vivas, gente feliz e referências mais ou menos explícitas à boa moral religiosa de uma predominância católica.
As montanhas (imaginável fronteira sul que os pintores desconheciam), a vida no campo, a paisagem de gelo e neve, o bosque como cenário, Rubens e a paisagem e no jardim do palácio.
Capítulos de uma sociedade de classes bem vincadas, mas em harmonia no trabalho e no lazer, burguesia feliz em piqueniques no campo, rodeados de trabalhadores que tratam a terra e de animais no pasto e, um pouco mais nos contornos do horizonte, crianças que dançam em roda em manifestação espontânea de alegria no trabalho.


Os bosques escuros e verdejantes que representavam a verdadeira fronteira dos povos da planície são retratados como a verdade assustadora para onde eram remetidos os animais e os renegados, mas surpreendem pelos diversos efeitos de luz e por esporádicas referências bíblicas ou (mais bizarro ainda) mitológicas, como se os pintores utilizassem metáforas e humor subtil para relevar dissonâncias que a autoridade jamais entenderia.
Como os nobres vestidos de vestes simples a trabalhar a terra ou as Ninfas no bosque, ou a camponesa que cai no gelo e, no meio de uma multidão feliz e bem comportada, se expõem de rabo para o ar, o cavaleiro que atravessa o lago por cima das águas, o cão que alça a perna no canto inferior esquerdo de um quadro repleto de representantes da igreja…
Depois há o Rubens só para amigos que pintava florestas com luz de entardecer a furar as árvores, provocador porque subverte as cenas de caça onde o caçador perde sempre para um anjo que lhe rouba a presa.
As cenas de guerras navais surgem apenas nos núcleos finais com evocações a guerras longínquas, os turcos como sempre retratados como infiéis e as bandeiras holandesas substituídas por cruzes espanholas, certamente por censores autorizados sem sensibilidade artística.
Obrigado Rita pelas lições de luz, de profundidade e de foco como expressões de arte e pelo belo exercício de regras de composição clássicas expostas em ambiente intimista numa exposição clássica com auréola pop.
 Ainda que haja pinturas feitas ao metro encomendadas por monarcas espanhóis, patéticas perceções à distância das terras exóticas (imaginem a capacidade inventiva dos marinheiros derramada em pintura sobre uma tela) e experiências atabalhoadas (no núcleo nove) quando os nórdicos atravessaram os Alpes e se depararam com a luz quente e desconhecida do Sul da Europa.

Imperdível hora e meia!