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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Há mar na Costa Norte!


Uma manhã de brumas sobrevoa o Inverno tardio na língua de terra emparedada entre a ria e o mar, o território dos guardiões da natureza furiosa.
Para lá da barra, o mar ameaça desabar numa onda de espuma, cor de névoa diluída num horizonte que não tem contraste, como se os vultos planassem sobre uma fiel réplica do Adamastor, mistura de céu, tempestade, água revolta e imagens mentais de assustadores reflexos condicionados (quiçá lendas muito reais)
(Os monstros do mar não têm, nem exóticos comportamentos nem latitude muito precisa)
Breve Jesus voltará é uma promessa que, artesanalmente pintada como um desesperado pedido de ajuda ao Além, (um espanta espíritos?) soa a consolação menor para quem se atreve a dobrar a barra.
Um singelo barco de pesca artesanal regressa do tormento feito mar e parece ter dificuldade em se equilibrar neste lago interior, de tão plano, de tão protegido pelos diques de betão, pelos pilotos da barra e pela alegoria religiosa feita grafiti de fé.
Ninguém mais regressa nem se atreve a partir para o mar e concluímos, pois, que o desespero e a coragem têm provavelmente dia marcado, e não é hoje!
Os outros pescadores (os de cana pendurada e de pés bem firmes nas rochas) esperam pacientemente que o peixe assustado fuja da tempestade e se aproxime ordenada e obedientemente das margens do mar interior…
Pela quantidade de espécimenes (pescadores, evidentemente) a fé é grande ou a coragem é menor.
 
 
Na língua de terra emparedada entre o mar e a ria, que por aqui se chama de Costa Nova, o Homem parece ter feito de tudo para perpetuar a sua presença, ignorando o seu estatuto de terra de fronteira.
Cimento (o mar é uma fúria contida pelo betão!)
A vida urbana e sonolenta de uma congestionada, mas silenciosa, periferia residencial à beira do mar (não se comporta – mas será que devia? - como uma besta acossada pelas investidas do mar contra a muralha exterior)
Ria adentro, há estaleiros e indústrias, depósitos e ancoradouros
Sobra a inexistente vida selvagem que, hipoteticamente, se refugiou a Norte!
Nas costas do mar há outra vida e sensações diferentes; um Sol que rompe, tímido mas honrado, a neblina costeira do ar, o verde da relva que se espalha pelos passeios à beira ria e o horizonte que passa a ter contornos definidos de terra firme, paisagem humana e cores vivas, tal quintal do mar e esplanada da ria.
Longe do Verão e das multidões do interior, esfaimadas de fresco e mar, a intensa e desordenada ocupação humana da ria, não chega a ferir as sensíveis mentes dos artistas contempladores, sobretudo por o Sol é tímido e a névoa funciona como um filtro das cores berrantes deste estaleiro humano e industrial.
Está-se bem, entre o verde e o cinzento indecisos, as cores da costa norte, na fachada e nas traseiras da Costa Nova porque, por aqui, as gaivotas estão sempre em terra e ninguém se lembra de perguntar se há tempestade no mar!
 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Downtown LX – Shadows in the Night



Por de entre as gargalhadas que ecoam na calçada velha, para lá do Carmo, multidões de jovens (vultos que riem alto, como jovens e tudo o resto, simplificações mentais) provocam o silêncio do convento ou do quartel, com as garrafas de cervejas eretas em punhos cerrados.
Entre (cai) o Carmo e Trindade, a exuberância do Chiado e a solidão dos becos que o rodeiam e dos ministérios na praça do comércio, submerge um microcosmos de seres que se alimentam da noite: mendigos encovados mas eloquentes na estação do Rossio, traficantes de haxixe nos cruzamentos da Augusta, hordas de turistas jovens que se “flasham” sem descanso, num intenso fulgor que cansa a estátua cavalo do D.José.
E também sombras que não habitam a noite, que a usam apenas como um intervalo entre a luz do dia e o conforto de um lar maior.
 
(Passos rápidos e intermitentes que voam sobre a calçada em direção ao rio)
 
A noite também escurece as personagens que a povoam!
Não são apenas os filhos de um Deus menor, os sem-abrigo por vocação ou pudor, que flutuam solitários entre as esquivas esquinas de um frio que resiste à luz branca que nos afronta das fontes do Rossio e nas fachadas da Praça do Comércio.
(Quantas pessoas pareciam esperar que ninguém os viesse buscar, debaixo do candeeiro de rua, à frente de um ecrã iluminado de telemóvel?)
E ninguém, equilibrando-se no lancil de passeio polido pela humidade e pelos reflexos da água, parece ter qualquer significado cósmico na noite inclinada da cidade.
Mas a noite não tem contraste, só sombras e reflexos e, à distância de uma objetiva vulgar, imaginamos gatos pardos, em todas as silhuetas que rolam pela rua abaixo e viela acima sem destino preciso.
A capital é um zoológico de seres, quando o manto escuro envolve a cidade, como uma selva que não identifica nem os predadores nem as vitimas, apenas os cheira e os pressente.
Frio, vozes de múltiplas línguas, sombras e reflexos de cores bipolares (bendita a predominância arrogante e ofensiva dos ofegantes e sincronizados semáforos urbanos) no asfalto e na calçada portuguesa
Sábado à noite, downtown LX!
Shadows in the night!
 
 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Riso em Shangai



Shangai, quatro horas da tarde e uma jovem portuguesa desfaz-se em gargalhadas, ela ri sozinha, de dentro dos seus simulados auriculares, lusitana isolada num mar de rostos asiáticos, fechados na sua própria concentração no largo escritório de espaço aberto, quarenta rostos que a olham na torre envidraçada da capital financeira do império chinês.
(Eu imagino a vista fabulosa sobre o movimentado porto de Shangai)
 
Lisboa, nove horas da manhã, e o humorista radiofónico faz rir a jovem lusitana em Shangai, com chalaças de teor oriental, destinatário tão preciso quanto Psy de nome, Gangnam Style em língua coreana, poemas que um português jura invocar realidades lusas, apesar dos biliões de visualizações no youtube.
(biliões que não rimam com Portugal)
E os vizinhos (colegas, concorrentes, amigos ou desconhecidos) levantam o sobrolho e não entendem este lusitano e estridente riso (sim, chinês não é coreano), e resta apenas a condescendência de quem não perde tempo em demoradas conjeturas.
Ela ri, sorri, recompõem-se e encolhe os ombros.
Ri sem tradução simultânea disponível e posta algures numa qualquer e transmissível rede social.
E eu rio, no trânsito de uma qualquer manhã infernal dos subúrbios da cidade, capital do país mais distante e periférico do mundo, na perspetiva chinesa;
Rio-me do humorista, da chalaça que, obviamente não entendo, porque o recordista coreano de visualizações do youtube é-me tão familiar quanto a sua língua natal, da portuguesa que ri em Shangai, da surpresa dos chineses, do locutor que orgulhosamente conta a história da lusitana que ri na China de uma piada sobre um coreano, contada por um português, da inconsequência de tudo isto (não parece que ninguém sequer lhe tenha perguntado porquê) e provavelmente também me rio – já agora, previno-me – da figura de tolo alienígena que não evito, cercado de trânsito e de vizinhos.
Enfim, rio-me de tudo e de nada.
Viral e contagioso!
Louco e subversivo, porque provoca a evasão, e evoca a recordação e a associação de lugares!
Lisboa, ontem cinco da tarde, meia-noite em Shangai.
Desespero, procurando Susana (parece-me que uma lusitana em Shangai só pode ser Susana, imagine-se lá porquê) neste final de tarde à beira Tejo.
Provavelmente perdeu-se propositadamente nos mercados noturnos de Shangai (não conheço Shangai, que fique bem claro, mas só podem haver mercados noturnos – imaginemos pois que se trata de Hong Kong, por aí há mercados noturnos, sim senhora) e, na noite fria da cidade come sopa de vegetais cozidos com pauzinhos de bambu, não se incomoda com os escorpiões no espeto, impressiona-se com a multidão de seres e de luzes que povoam a urbe em turnos precisos, os da noite e os de dia na grande fábrica do mundo onde só tu, Susana, se atreve a trocar os turnos e viver de dia e a noite!
Tu e eu, Susana – ou lá quem tu és – tu e eu sempre a rir!
Cada um sabe de si!
(Exposição do riso – Museu de Eletricidade, Lisboa)