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segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Santo das multidões


Por aqui ninguém se importa qual é a verdadeira ordem do João, o santo das pessoas, desde que seja o maior, o mais pujante, o mais intrometido e que a malta não proteste com os martelos na cabeça e mais um empurrão rua acima.




É o primeiro e o último, é um santo protetor porque beatifica a loucura coletiva, purifica os vapores do álcool, perdoa a ousadia de um povo que a única coisa que se lembra é que hoje é dia de sair à rua




Todos os 23, uma noite em que a multidão acorda a santíssima trindade, a lança ao ar,a atira ao rio e ainda a transforma num bode expiatório para a força do martelo, da tradição e da imponência dos machos.




É a noite em que não há paisagem porque as gentes ocupam espaço e se intrometem no nosso (e no deles) espaço natural, porque é preciso é seguir em frente




Porque para a frente é que é destino, mesmo quando os sinais translúcidos se atravessam ao caminho




Junho é a noite em que pagão ilumina o caminho dos devotos e em que a religião é um pretexto para exorcizar os demónios de todo o ano




Salvo o devido respeito...




...e um copo de cerveja na mão!

domingo, 18 de junho de 2017

Não me deixem dormir!


Shut up ýou jerk - Manuel Alves (Fundação Serralves - O olhar dos artistas)

Não quero dormir, vou abrir muito os olhos, não me vou deixar entorpecer pelas vozes que crescem no eco dos corredores, apertados mas frios, vozes profissionais mas também vozes sonâmbulas de quem acorda de uma anestesia agitada, de quem se agita por um diagnóstico reservado das entranhas, vozes que se diluem por detrás de cortinas que não nos protege das nossas vulnerabilidades e claro, vou pensar muito alto nas realidades terrenas
E se não adormecer, como irei acordar? – E foi o último pensamento terreno que conseguiu agarrar, deitado numa maca gasta de tanta logística e de alvura própria de locais de uma medicina preparada para as boas notícias, preso por fios, ligado a ecrãs que debitavam números.
Rastreio – classificam eles
Silêncio, como se tivesse medo dos sonhos e a última imagem que reteve antes da escuridão em que mergulhou, foi a do professor Hélio, o neurocientista que inventou a máquina de fotografar os sonhos, bebendo chá em casa da Moira, sob a copa florida de uma enorme laranjeira afirmando, entusiástico da sua descoberta, que sonhar é ensaiar a realidade no conforto da nossa cama (in A Sociedade dos sonhadores involuntários – José Eduardo Agualusa)
Ele procurou seguir o conselho do professor, “…devolver ao sonho a sua vocação prática”, mas apagou-se, sem sentir o esboroar das batas brancas ou a frase seguinte do homem do sono, agora vai dormir.
E o ecrã dos dois números mágicos apagou-se de imediato sem que se tivessem manifestado falhas de energia invocáveis ao sono profundo do paciente de rastreio.
E voltou a acender-se, cheio de imagens que a classe médica parecia incapaz de explicar, tão nítidas que se assemelhavam a uma revolta das entranhas.


Dias de escuro e de luz - Julião Sarmento (Fundação Serralves - O olhar dos artistas)

Shoreline - Bruno Pacheco ( Fundação Serralves - O olhar dos artistas) 

Sem Titulo - Helena Almeida (Fundação Serralves - O olhar dos artistas) 

O que eles lêem - Carla Filipe ( Fundação Serralves - O olhar do artista) 

Aprender a viver com o inimigo - Pedro Neves Marques (Museu Berardo) 

 Museu Berardo  ( A única imagem que ela recordaria mais tarde mas que, ainda hoje, se questiona se foi sonho ou se será realidade)

E o homem (ou seria uma mulher) que não queria dormir acordou das trevas num lapso de vazio (porque ele não queria dormir, não existe tempo de acordar) e, hoje, apenas se recorda de uma enfermaria a preto e branco, cercada de seres de bata branca – pareceu-lhe reconhecer o professor Hélio, mas já não tem a certeza – que se dividiam entre olhares curiosos e alguma inquietação nos sinais do ecrã mágico que insistiam em debitar dois números mágicos, 66 e 98, números brancos contra um fundo preto.


E em vez das cortinas brancas de uma realidade asséptica ela viu-se rodeada de uma tela quase transparente que lhe anunciava ter regressado ao mundo dos seres acordados.

Ser e Estar - Museu Berardo

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Palco sem fundo


Havia um palco no meio da feira.

Ouviam-se vozes que vinham de dentro do casulo, três faces cobertas de pano e uma descoberta, um palco afinal.
Aproximámo-nos vindos detrás e, portanto, só se ouviam vozes e as cadeiras da assistência, meias cheias e meias vazias, gente muito silenciosa, dividida entre uma grande concentração e uma posição de defesa suspensa, à espera do que o orador possa dizer ou à espera que o orador diga alguma coisa que a gente entenda.
Reconheço que a postura da audiência me deixou curioso e eu espreitei para lá do casulo, e havia três senhores sentados em três cadeiras, muito bem vestidos nesta lógica muito atual do chique casual,

(muito diferente aliás do tipo casual que vem de fato mas tira a gravata, aliás presenciei a um movimento de escárnio, acerca desta moda há uns dias atrás numa festa de gente que oscilava entre o casual e o chique, mais ou menos no princípio de que os casuais não são chiques e os chiques não são casuais)

E a voz tinha nome, um nome sonante que eu já não me recordo, mas tenho a certeza que foi embaixador ou ministro, ou até as duas coisas, e ele falava do nosso papel atlântico, daquela prosa renascentista, colonial ou até de Estado Novo, agora obviamente com uma dimensão mais humanista, de Portugal e do Brasil e, agora que tudo à volta da Europa estava a explodir, muitas vezes porque os europeus se tinham portado mal, sim, a culpa era da Europa e o papel de Portugal podia quase se sobrepor a de uma grande potência, unindo as pontas todas e transformando-se num dragão da europa perdida e amedrontada.
A audiência não tugia mas sentia-se um desconforto entre os que falavam e os que ouviam. Desconforto dos que falavam porque, do lado da assistência havia pessoas que queimavam o fim da tarde de verão com um “não havendo mais que fazer”, já agora papa-se um ex-ministro e, se der tempo, fazemos umas perguntas inteligentes – nunca se sabe se aparece a televisão – ou atira-se uns piropos para o ar.
Desconforto da assistência porque ainda não tinham percebido se era o momento de atirar piropos ou de fazer perguntas inteligentes.
Eu afastei-me, com receio de que me perguntassem a minha opinião e eu ser incapaz de elaborar uma resposta inteligente.
Afinal de contas, não era uma feira qualquer, estávamos na feira do livro e sempre achei que, subindo a alameda haveria de encontrar um livro que libertaria em mim a minha vocação atlântica.
Mas a malta de calções que circulava alameda acima, de pele rosada e sotaques diversos tinha opinião, bastava piscar os olhos e esperar pelos sorrisos de quem foi abençoado por férias ao Sol e ao vento.
Mas eu subi a alameda a pensar demais, tão concentrado que não me lembro de encontrar um livro que me acalmasse o âmago.
 O nosso fascínio, a nossa atração é sermos um país de costumes brandos, periférico quanto baste, com uma cultura europeia, mas tolerante aos tipos ricos, adeptos confessos da não-violência e moderadamente desenvolvidos para não pedirem mais subsídios mas para não atraírem os pobres do mundo à procura de emprego, uma culinária muito próxima da parisiense mas a um terço do preço e quanto menos falarmos de oceano, menos a malta se lembra que Marrocos é já ali ao lado
Nem mesmo quando já não se trata de uma previsão ou de uma visão estratégica, é apenas o destino.
Eles já andam por aí e eu, com aquelas previsões e com aquele vento, não fui capaz de comprar um único livro

Afinal de contas o palco não tinha fundo e as crianças tinham saltado para o mar.


domingo, 11 de junho de 2017

Timeless


Ele julgava-se capaz de intervir no passado, indiferente ao perigo de encontrar dimensões não conciliáveis, no seu regresso ao presente
Escrutinou cautelosamente todos os momentos determinantes do seu próprio passado e concluiu que jamais seria capaz de evitar revoluções ou deter as mudanças climáticas.
Mas deixou-se tentar pela ideia de que os espelhos podem ser janelas para o realismo fantástico, abrindo-as uma a uma, escolhendo os pedaços marcantes e reunindo-os sob um formato de presente melhorado.
Como se fosse possível isolar os momentos marcantes das consequências dos genes, da aprendizagem, e das próprias consequências de interferir com os momentos singulares do seu passado.
Quantos espelhos, teria ele de abrir, para construir um presente diferente?
E de fechar?
Lembrou-se então da capacidade limitada que a vida dispõe para interferir com um fio condutor, sem cair em dimensões impossíveis.
Pensando melhor, a visão de um espelho retrovisor de uma tarde de rotinas, é apenas uma réplica invertida de um quase presente.

Intrigantes as mentes humanas, quando submersas na indolência.














segunda-feira, 5 de junho de 2017

Diz olá ao amor da tua vida!


Estamos diferentes, a diáspora não é mais o único reconhecimento exterior.
Somos um lugar de novos encantos, uma centralidade periférica
É verdade que muita da nossa essência tende a perder-se na incessante procura de transformar as nossas tascas de hora de almoço em vizinhanças elegantes de uma nova baixa de hotéis de charme, com subida de preços incluída e a inevitável perda de mão e de sentido prático das velhas cozinheiras de província.
Ninguém explicou à pouco cordial nova gerente de loja trendy chi(o)que que o arroz de polvo ao almoço, pressupõe um polvo previamente cozinhado.
É indiscutível que já começamos a tropeçar nas nossas próprias pernas e somos frequentemente abalroados por óculos de sol em malas portáteis e ementas fotocopiadas em cores berrantes, vestidas de marinheiros de boinas à banda e um sotaque gorduroso.
Mas ele balbucia, diante de uma surpreendente resposta com sotaque lisboeta, como se fossemos irmãos e companheiros de calçada, desculpa lá incomodar, afinal de contas é pressuposto todos nós sermos solidários na arte de bem vender o país sem os danos colaterais que a excessiva exposição solar pode causar ao turista.
Longo vai o tempo do experimentalismo dos teóricos do MIT que, nos primórdios de oitenta, utilizaram o mundo como território de experimentação da recém-descoberta teoria das expetativas, assim uma espécie de bálsamo construído em espiral que garantia que, se continuássemos a acreditar muito, a felicidade transformar-se-ia num furacão de prosperidade.
Hoje o conceito é mais transversal, não tem conotações liberais e foi libertado das universidades para as ruas através de veículos anfíbios, trotinetes elétricas e autocarros descapotáveis.

É um belo princípio, penso eu, enquanto troco olhares cúmplices especialmente com dois casais de alemães que esperam pacientemente uma hora, e duas garrafas de vinho verde esvaziadas de dentro de um balde de gelo depois, por quatro pratos de sardinhas assadas com batatas fritas.
Nós os nacionais, abraçamos a cultura na feira do livro, pedimos autógrafos às dezenas de autores portugueses que publicam e escrevem sobre o mundo sentados em cadeiras de esplanada, comemos bolas de Berlim com creme e trazemos para casa uma dúzia de garrafas de uma espécie de refrigerante levemente alcoólico, aconchegados entre os sacos de livros e os carrinhos de bebé.
Conceptualmente, é o resultado da globalização em tons de bronze
"Oh Lisbon, you have a f...wonderful light"