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domingo, 14 de janeiro de 2018

Empty Spaces



Hoje desfilamos o Verão com um olhar de Inverno. Até somos capazes de ouvir os ruídos das crianças, a voz do vendedor de bolas de Berlim, o apito do banheiro 
Seríamos, mas não escutamos nada, a não ser os passos abafados dos corredores de fundo.
Os atletas da chuva, os agitadores das poças que competem com o mar por uma margem segura.
Nas memórias do Verão há uma espera impaciente, desconsolada, uma ansiedade que até emana um certo brilho, serão suores frios, lágrimas de ferrugem ou talvez  pingos de uma humidade que afugenta os adoradores de calor.



Em tarde de superfície frontal, as memórias da época balnear sofrem com o desgaste dos elementos.
Mais do que irão sofrer com a azáfama dos veraneantes, porque a vida das memórias é uma história circular.




Sofrem mais do que com os gritos estridentes da sofreguidão das horas de Sol, uma cor de pele e ampolas de iodo e vitaminas, porque também as memórias também têm sentimentos.
Abandonadas nos maus momentos pelos que se esquecem que as memórias também sofrem, têm os sentimentos dos átomos metálicos
Solidão em estado cru.



Em tarde de aguas furiosas que vêm do céu, as memórias parecem ter perdido o sal.

Empty spaces 
Empty memories...

domingo, 7 de janeiro de 2018

O fosso da memória



Há momentos em que as memórias longínquas submergem, adormecidas, com uma nitidez que já tínhamos esquecido.
Os figurantes de um passado trancado reaparecem-nos numa ocasião festiva, ou num qualquer cortejo fúnebre e, de repente, despejam-nos um turbilhão de imagens de uma outra vida que um dia vivemos.
E, nesse momento, apenas nesse momento, parece-nos impossível que aqueles seres de quem fantasiamos passados sejamos nós, e eles sejam eles.
E este passado longínquo submerge a coerência da nossa história, construída a partir desse passado, em ondas de euforia que nos leva a tratar as memórias por tu, em respeito às cumplicidades, como se o passado tivesse sido uma linha contínua, mas depois sobram peças, quebra-se a conexão entre estas duas vidas, como um castelo de cartas construído sem fundações, foram mais os anos que passaram do que aqueles em que vivemos um espaço onde só havia futuro.
Quando só havia futuro.
Estes momentos são raros, mas relativizam a nossa perceção de imortalidade.
Mas, na noite do ano novo, fiquei com a sensação que, cada uma das primeiras cinco passas, tinham mais de uma década.
E, quando nos tornamos mortais, temos uma certa tendência para romancear os excessos da nossa imortalidade juvenil
Também é verdade que, nessa noite, bebi muito pouco álcool.

E isso não ajuda


domingo, 24 de dezembro de 2017

Caleidoscópio



Curry é uma marca, uma produção cuidadosamente explorada de cores quentes e ambientes exóticos em que as imagens jorram com uma fúria de realizador de todas as causas.
Um circo que se reacende em cada cidade que o recebe, um palco que se monta e desmonta ao ritmo do grau de entusiasmo das audiências sedentas de lugares distantes e de atmosferas inacessíveis.
Por vezes é dificil romper com a encenação que representa a quase perfeição formal de um mundo inteiro que posa para a camera, desvendando o pudor das culturas distantes, dos dramas que se pressentem em cada negativo e em todas as expressões
Uma exposição de duzentas imagens sem ordem precisa nem cronologia lógica, é de uma quantidade tão profícua que desfaz o purismo da arte de exceção, das obras únicas, da reflexão em torno de um conceito e da intimidade dos espaços vazios.
Nas exposições de Curry, as multidões revêem os episódios de National Geography, uma versão realista dos mundos animados de Disney.
O caleidoscópio de cores quentes parece suspenso pelos ares e cada olhar é uma imersão numa nova história, a história do mundo.
Só é pena que nos mundos de Steve, nada permaneça escondido.
Por vezes o encanto está no que se esconde e menos no que se mostra.

Saímos com a retina inundada de cores e imagens extraordinárias, mas carente de mensagens subliminares