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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

5 Ensaios sobre a essência



quando se isolam as memórias...




quando se levanta voo...




quando se congela o tempo...




quando não se reconhece a distância...




quando se desafia os limites da órbita...

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A negação (da apologia) do Não


Era uma vez uma história de um menino rebelde e despreocupado que só conhecia a palavra não. 
Mas era um menino muito afirmativo, na forma eloquente como respondia sempre não às perguntas dos outros meninos.
Pronto, dos meninos mais velhos a quem nos habituámos de chamar de adultos.
E o entusiasmo de dizer não era tão grande que, por vezes, dizia que não ao próprio não.
Os meninos mais velhos, que associavam esta rebeldia a má educação e à vida fácil que habituaram os meninos mais novos, desesperavam e chegaram a ponderar medidas mais drásticas.
Sei lá...nem eles sabiam, porque o menino mais novo parecia uma avalanche de neve a deslizar pela montanha em direção àquela aldeia tão organizada e tão limpinha, cinco ruas na direção norte sul, três ruas na direção leste oeste, casas de madeira escura e janelas repletas de flores vermelhas, brancas e amarelas
Como se a Heidi estivesse a atacar o avôzinho com uma faca de cozinha


 Ah,esqueci-me de contar que, nos últimos tempos, as minhas noites têm sido povoadas por sonhos bizarros e, imaginem, têm sido tanto mais bizarros quanto familiares me parecem.
Ontem sonhei com um edifício em construção,numa nesga de terreno impróprio e escarpado, com um quintal para o supermercado e sem apelativos comerciais de maior, dei de caras com o pai Natal, um barbudo esgrouviado que vestia a lingerie do(a)s outro(a)s  e tinha uma fortíssimo sotaque italiano.
(o sotaque é a parte mais importante da história) 
E o prédio tosco, mas esforçado, ganhou uma vida nova.
Acho que acordei com suores frios e nos pobres e  nos inocentes dos lençóis, não sentia qualquer relevo que permitisse distinguir o momento em que o despertador tocara.
E, tal como nas outras manhãs, ontem guardei toda a sequência fresca e coerente na minha cabeça, tão coerente que coincidiu com a notícia de abertura do noticiário das oito da manhã.
Dei por mim a pensar se não seria melhor começar a fazer as perguntas ao contrário.
Talvez resulte
Os especialistas chamam-lhe psicologia invertida
Outros chamariam uma mudança de perspetiva


domingo, 27 de novembro de 2016

A linha de fora


Alerta amarelo, um mar revolto, um céu pesado.
E eu fazia riscos de água nas vidraças obstruídas por um inverno que chegou do mar.
( e enviava mensagens como qualquer juvenil)
Tão súbito que nos deixou de vistas embaciadas
O comboio movia-se na direção da tempestade, sem a convicção dos corredores de fundo que o enfrentam na linha de fora.
O comboio, esse animal gasto pelo tempo e pela orfandade, deixava-se conduzir pela manhã dos sonos profundos, pelo amanhecer tardio do dia das não pressas.
Domingo
E a chegar a Algés já não fazia riscos de água porque tinha as mãos frias e o nevoeiro tornava inútil a compreensão da paisagem.
O nevoeiro da linha de fora.
A linha confunde-se com a marginal, mas não é a mesma coisa.
Partilha com o mar a falta de um desígnio, mas esconde-se dele a espaços porque não lhe perdoa a imensidão, a liberdade e a ausência de uma direção precisa.
A linha vive de ordem, não lhe é permitida saltar dos carris.
E de ausências
A pobre linha que, em tempos, partia para frança e voltava e que, há menos tempo, se orgulhava da sua ordem, um minuto era um minuto, parece viver de ansiolíticos e de indiferença (diria mesmo, afronta) perante os cronómetros de números mecânicos que a confrontam em todas as estações com a sua súbita falta de rigor e orgulho.
Os tempos são duros para (uma certa fama de) a aristocracia decadente.
Indiferente aos símbolos do passado e invejosa das novas criações que a bordejam.
Porque se o mar é errático, também é grande e intemporal.
Porque se os novos símbolos do presente que a cercam invocam mesmo uma certa austeridade na forma e nos propósitos, são funcionais, arrojados e têm bons propósitos
Entre os símbolos do passado, alguns resistem, outros perpetuam-se e os últimos desfazem-se nas curvas do mar.
Só a linha envelhece mal, estava cada vez mais errática, menos funcional e resiliente.



De tanto andar de um lado para o outro sobre os carris de um sentido único, infiltrou as poeiras do que nasce, do que se perpetua e do que morre à sua volta.
A marginal e a linha não são a mesma coisa, mas delimitam o nosso território.
Fazem parte do nosso imaginário
O ruído metálico arrastado pelos ventos sul, que antecipam chuva.
O cheiro a madeira queimada, que pronunciam verões abafados.
É nossa.
A linha de fora e a linha de dentro.
E (mesmo que seja uma mentira conveniente) não me incomoda que nos tratem como aristocratas decadentes.
Quando – lá para o Verão – chegarmos à baia, vamos ter uma bela história para contar.
Esta á a primeira manhã do nosso novo projeto
Já lhe arranjei nome G. “os símbolos da linha de fora”.
Mas hoje não foi um grande dia. A linha de fora estava agreste
Vento e chuva.

Não passámos de Alcântara