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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Streets of New York ( 12 shots with no subtitles)

1. You´re my mirror


2. The King of the Square


3. Moving towards 34


4. A Horse with no name


5. Chelsea, my dear


6. Miss Liberty


7. Windows to Broadway


8. Singing for a Dollar


9. Street Station


10. Flying over time


11. Gone with the wind


12. Surrender


domingo, 24 de julho de 2016

Urban Squats


Alphabet City é um bairro dentro de um outro bairro, East Village.
O nome desperta lembranças das utopias dos heróis da banda desenhada, cidades sem passado nem futuro que se constroem em linhas direitas, medidas austeras e uma comunidade de residentes que se povoa de forma simplista e desenhada entre vilões e heróis.
Mas a realidade é tão apenas prosaica como a descrição híper realista de um conjunto de quarteirões que se localizam entre a avenida A e a D e as ruas um a catorze.
Provavelmente porque, naquele canto da ilha, a leste da primeira avenida, ninguém quis numerar as ruas com números negativos
Mas Alphabet City é exatamente o oposto das lembranças animadas que o nome desperta.
É um bairro de histórias e de habitantes locais.
A história do Chico, que cresceu na avenida C, frequentou as escola pública e transformou-se num muralista contemporâneo, pintor de spray e de mensagens de esperança para os residentes do Harlem hispânico, e homenagens a figuras inspiradoras, histórias de tragédias pessoais e celebrações da comunidade.
Na ausência de mecenas abastados, trabalhava por encomenda para os proprietários dos bares e das mercearias, como uma espécie de substituto para os inexistentes cartazes e neons.



Eu encontrei pelo menos um mural assinado pelo Chico, tendo garantido a todos os incrédulos que estava perante uma obra de arte, um artista em exposição em galerias da Europa e do Jjapão.
Mas este é definitivamente um bairro de histórias e habitantes locais e, por isso, ninguém o visita
Exceto as celebridades que espreitam nas paredes, em dimensões variáveis, na  devida proporção da sua admiração pelos seus atos de fé e coragem.
Exceto os seres que a tornaram famosa nas décadas de oitenta e noventa, os últimos anarquistas da cidade, antes da cruzada de pacificação e que hoje vagueiam entre os bancos de jardim da Tompkins Square, entorpecidos por anos de luta anarquista, muito fumo e alguns ácidos.


E uma negociação conveniente com o pragmático Xerife Giulliani, que atribuiu aos ocupas dos anos noventa, espaços para viver, jardins para cultivar a arte de rua e garantias de que nem todas as esquinas jardim seriam transformadas em prédios, mantendo-se preservadas como as hortas da comunidade artística e os locais de culto da partilha de experiências e do saber fazer.
Mas, e apesar do enorme esforço que a cidade tem feito para transportar todos os seus habitantes para os círculos, para as redes, para os comportamentos e para o modo de comunicar do mundo global, muitas vezes aproximando a cultura a movimentos de vanguarda anarquista quase antissocial, ou promovendo a arte marginal nos círculos das galerias, como uma moda elitista e social, sim, apesar deste lato senso que tende a extinguir os eremitas sociais, basta atravessar o Tompkins Park às onze horas da manhã de um dia de verão intenso, para entender que, por ali, vão sobrando os restos de uma envelhecida katmandu.
E os trinta e nove jardins comunitários que persistem no bairro não deixam de evocar, aqui e ali, tons que variam entre o moderado e o persistente psicadélico, e estão povoados de seres que alternam entre a meditação e a alucinação, ou outros apenas que perseguem com olhares persistentes, as mulheres que os atravessam.
Habituados a uma boémia intelectual e revolucionária, hoje socialmente aceite por uma West Village que transpira jazz, joga xadrez em Washington Square ou declama poesia nos cafés do bairro, sentimo-nos a trespassar uma zona quase interdita.
Sem um critério de pesquisa ordenado, deambulávamos por ruas que ainda penduravam lençóis manuscritos em prédios decadentes, por bandeiras de Cuba que clamavam por revolução, por jardins fechados com cadeados ferrugentos “esse jardim está sempre fechado, nunca ninguém o abre” – exclamava um velho sem dentes de cabelos brancos, compridos e desgrenhados mas com uma conversa fluente, que insistia “ deve haver aí tesouro escondido” e percebemos assim que, mesmo em ambientes comunitários, existem os donos das chaves, e ele, que vagueava entre a avenida A e a 1ª avenida, rondando uma lavandaria comunitária e uma feira de velharias, um centro paroquial e uma loja de take away.
E o velho combatente, um sobrevivente dos meses de ocupação de prédios desfeitos sem luz ou água, e das batalhas de jatos de água com a polícia de NY insistia que ali, também viviam histórias, concedendo-nos direitos de fotografia e reportagem, tal era a saudade dos tempos em que este era um bairro tão antissocial, que era notícia.
Nada que fosse demasiado importante para a menina do café com gelo que jurava que os seus amuletos de sorte eram as notas de dois dólares e as moedas de um dólar.
“São raras”
East Village é um bairro de histórias que não acabam e quando, na Houston Street nos cruzámos com a Kats Delicatsen, logo me recordei das minhas anotações no livrinho de recordações e daquela cena quase mítica em que Meg Ryan desafiava Billy Cristal “you are a kind of man that frightens women”, ou algo parecido, e lhe demonstrava que todas as mulheres sabiam fingir um orgasmo.
Perante a incredulidade de Billy e o espanto do restaurante cheio de figurantes, a menina do “When Harry met Sally” simulou um muito ruidoso e energético orgasmo que transformou este estabelecimento de fast food na maior celebridade do bairro de East Village.
Em mil novecentos e oitenta e nove caiu o muro de Berlim e estávamos no auge do movimento dos ocupas, alguns quarteirões acima, no bairro do alfabeto.
Porque é um bairro de histórias e de pessoas do bairro, só o visita quem tem curiosidade ou recordações.

Ou ambas




sábado, 23 de julho de 2016

7 (in the) border (of the) line


“Uptown or Downtown?” – Perguntou-me a miúda americana de ténis amarelos, enrolada em distração e headphones
Diante de nós, quatro linhas de metro, duas encostadas às plataformas e outras duas no meio do escuro, escondidas por colunas e com um óbvio significado para qualquer estrangeiro informado: expressway
Uma tem o sinal redondo, o outro retangular
A miúda, que abanava o rabo-de-cavalo ao ritmo de uns auscultadores com vida própria, não fazia a ideia do que eu estava a pensar ou do significado de expressway, sequer!
Atrás de nós a rua, apenas separada da plataforma por uma porta giratória metálica, que servia de entrada e saída e um átrio com o tamanho de uma casa de banho, onde predominavam os azulejos de tom amarelo e um rosto encardido de pouco lavado porque, afinal de contas, o metro de NY tem uma reputação cinematográfica a defender.
Se a ruiva que vestia calções neste final de manhã de asfalto incandescente, quisesse apanhar o 7, eu responderia East, East to Flushing Meadows, e acrescentaria com a minha voz do género cavernoso:
Queens!
Mas ela não queria apanhar o 7, pelo que eu lhe respondi sabiamente “uptown” e acrescentei, sem que ela me tivesse perguntado, com um riso assustador:
Bronx!
A miúda continuou a abanar a cabeça e terá pensado “louco estrangeiro” apesar de nós acharmos, por defeito, que miúdas americanas de ténis amarelos, cabelos ruivos, calções e rabo-de-cavalo com headphones na cabeça, tem alguma tendência para não pensar
Mas chegados a Times Square 42nd ela continuou no fresco da carruagem, destino “uptown, wherever it would take her” e nós embarcámos no 7.
Antes que construam os muros ao longo da fronteira.
E a Sarah, a minha amiga imaginária (esta não era a miúda ruiva, era adulta, morena e de porte atlético invejável, “do you see what I mean?”) acompanhava-me, sempre em passo de corrida, ao longo dos corredores intermináveis da Times Square 42nd, e explicava-me, num inglês pausado (não fosse eu não entender, afinal de contas um louco estrangeiro e a Sarah era de NY) que uma viagem no 7 requere o uso de todos os (masculinos) cinco sentidos, porque se trata de um monumento à diversidade de NY que precisa de ser tocado, saboreado, ouvido, visto e cheirado e procurava impressionar-me com números, grandes números, uma americana maneira de querer esmagar um qualquer pequeno europeu, “cento e dez línguas diferentes são faladas ao longo do 7”
Não sem antes me puxar levemente o braço e obrigar-me a olhar para o mural de Roy Liechestein, pintado na nível mezzanine da estação 42 “ 53- foot-long Times Square Mural”, não fosse ela de NY, sempre pronta a impressionar com uns belos (e para mim indecifráveis) números.
Mal descolámos a leste, para os céus de Queens, Sarah largou-me sem se despedir e discutia agora, de forma entusiástica, com a nova-iorquina Hillary, em missão de desimpedimento de fronteiras, que esta linha era, sem dúvida, a de maior diversidade étnica do mundo, tendo ambas decidido, em conjunto e sem perguntar nada aos interessados, designar o 7 como o “international express”, passando a fazer parte da rede “National Heritage Trail” que, entre muitos outros caminhos, inclui as rotas dos pioneiros colonizadores em direção ao oeste selvagem, capturando desta forma o verdadeiro espírito americano.
Hillary, acabada de entrar na nossa carruagem, na cidade fronteiriça de 21st Street (lógica e numeração de Queens)
Não cheguei a Flushing Meadows, faltou-me o tempo e, afinal de contas, já tinha perdido o jeito de comer com pauzinhos.
Não cheguei a Corona Park, faltou-me o tempo e o Mets também não jogava hoje.



Mas mergulhei no rio do leste e renasci das profundezas da cidade em linhas elevadas, tendo como cenário de fundo, bem à minha esquerda Manhattan skyline, envolvido pelos restos do industrial subúrbio de Queens, e pousei para a fotografia em Queensboro- Plaza
Eu, um monte de miúdos fardados de um vermelho berrante, escada do metro acima, todos em fila indiana e com um número na camisola, e uma imensidão de vozes, dialetos, e estruturas faciais, tão grande quanto o olhar de espanto de todos eles a perguntar-nos, com os olhos, “afinal de contas o que é que se festeja por aqui?”


O resto é o costume: até à 45, a reincarnação da arte moderna que transborda da grande maçã em museus, galerias, instalações e no local de “warm up” para as noites de Sábado na cidade, a casa de Louis Amstrong para norte, eslavos um pouco mais para leste, uma imensidão de comunidades hispânicas em Corona e, ao longo da linha italianos, filipinos, coreanos, indianos e  chineses.
E, segundo dizem, lá para os lados de La Guardia, também há portugueses.
Mas ainda não foi desta que lá chegámos
O regresso à rua foi menos entusiasmante.
As portas giratórias metálicas da estação elevada, estavam mais amachucadas que o costume, o ar encardido da estação parecia ter recuado aos anos oitenta do louco taxista de Niro, os mendigos começavam a acordar por volta da uma da tarde e havia mais transeuntes nas esquinas do que no resto da rua enquanto os camiões TIR atravessavam as avenidas desertas com um profundo desprezo pela cidade.
No único bar que servia hambúrgueres com espessura inferior à regulamentar, o empregado servia de calções, mas isso não beneficiava a tatuagem que preenchia a perna esquerda entre o joelho e o tornozelo, as pequenas eram todas para o forte (que saudades que eu já tinha da Sarah de Manhattan) cabelo com espessuras variáveis entre a testa e a nuca e uma bela tatuagem, sempre e em todas, ocupando as suas respetivas omoplatas direitas, a música que fazia jorrar a cerveja dos barris e as cartas de menu eram capas de álbuns do Cat Stevens.
Cá fora, o taxista parava na esquina deserta e não arrancava no stop, espiando o nosso fascínio pelos cartazes de parede, e não arrancava mesmo, de cabeça à banda e olhos vidrados nos loucos estrangeiros e, junto à entrada do metro da 21st, em Queensboro Bridge, tivemos uma breve visão das esquinas da balada de Hill Street.
Não sem antes respirar, uma última vez, o ar quente da fronteira do sul, e reparar que, dali até ao rio, está a nascer uma nova fúria de construção de torres de vidro, sinal precoce de que a fauna estará, brevemente, em debandada para leste.
Procurámos a linha F e a seta que apontava para Manhattan / Brooklyn West e mergulhámos outra vez no East River, behind the border line.
Mas mal a porta do F se abriu, logo a fauna reinante se levantou, e concedeu dois lugares de primeira às senhoras estrangeiras de pele branca e tez vagamente celta que, sem demonstrarem qualquer surpresa, se sentaram sem agradecimento sequer.

Afinal de contas éramos bem-vindos na fronteira oriental da Gotham City