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sábado, 9 de dezembro de 2017

Perspetivas impossíveis




Tal como o século XX, Escher explorou os limites do surrealismo pelas suas próprias mãos, utilizando as mais improváveis técnicas de arte para produzir universos não conciliáveis.
Gravador, matemático e inteletual, parece ter vivido distanciado dos colapsos da velha Europa, construindo, a partir da sua História, da arquitetura e das paisagens, um mundo de perspetivas impossíveis e imagens desconcertantes, uma proto realidade, apenas realizável nas lendas dos nossos passados, como se todas as suas criações tivessem uma origem comum nas fábulas de uma terra mágica, como se Escher fosse o Feiticeiro d’Oz e a sua inspiração tivesse renascido das lavas da erupção de Thera que, quem sabe, terá afundado as utopias da Atlântida e nos privado da memória dos mundos impossíveis.
Passou incólume pelo século XX, porque viveu uma realidade paralela que inspirou os novos movimentos de ressurreição criativa e de vanguardismo inteletual que terão salvo o Continente do pós-Guerra das trevas.
Talvez por ter escolhido viver longe, construiu uma realidade não corrompida , uma mágica essência de quem representa, vezes sem conta e de forma meticulosa, o espaço, por natureza tridimensional, em planos bidimensionais.
As obras de Escher reinventam a Antiguidade, as influências árabes e a Renascença numa sequência que salienta a coerência entre o seu ritmo de descoberta e de transformação dos dos momentos altos da genialidade artistica da nossa História em premonições de futuro de harmonias geométricas.
Mesmo podendo não ser verdade, é o imaginário a duas cores, mais colorido que eu consigo imaginar.
Entre utopias e uma visão.
“Deus não pode existir sem o mal, e desde que se aceite a ideia da existência de Deus, tem de se aceitar também a do mal. É uma questão de equilibrio. Esta dualidade é a minha vida”

É especialmente uma questão de equilíbrio.



sábado, 18 de novembro de 2017

7 / 7 - Viagens na minha Terra



Memórias de um morto precoce
Herb Ritts - Plena Luz
Cascais 01/Out.



Os homens cansaram-se de ser felizes
Bordéus de frente para o rio e de costas para o passado e para as memórias
Vestígios de um revivalismo em carne viva
Porto de Bordéus - Na sombra da base de U-Boats
20/Out.



Podia ser um casal abraçado no espelho de água, mas o importante está no que se esconde...o fotógrafo ambiciona a felicidade
Bordéus 22/Out.





Depois das vindimas e do Verão escaldante
Não há pontes impossíveis
Régua 28/Out.





Nas sombras da última ceia no Mosteiro de Tibães
O homem reflete (sobre) o seu presente
Braga 29/Out.





Flauta encantada
No abstrato, não há limites
Lisboa 01/Nov.



A última valsa
Ela atravessou a luz
Mafra 12/Nov.

domingo, 29 de outubro de 2017

Bobo




Boulangerie é a chave do bairro étnico de Saint Mitchel.
A rue D é um beco sujo e malcheiroso, impregnado no bairro de imigrantes, fachadas encardidas e interiores renovados, cem metros quadrados a quatrocentos mil euros “no mínimo”, assegurava a nosso cicerone, uma rua de caves suspeitas, uma escada de cheiros intensos e portas blindadas de duplo trinco e um interior de lacados pretos e vermelhos, tecnologia iMac e televisão de ecrã plano, uma arca de vinhos a uma temperatura milimétrica de dezassete graus, fotografias de crianças e mulheres felizes pelas escadas acima até às aguas furtadas, quartos de criança plantados de vestidos cor de rosa.
A arca estava cheia e uma garrafa vazia de uma colheita de 1971, ocupava uma esquina previligiada no countoir das recordações
Quarenta e seis anos portanto, um homem com estudos de direito, pelos livros que forravam as estantes do seu cantinho iMac, de preferências anglo saxónicas pelos canais predefinidos do satélite, pelos bilhetes de espetáculos musicais no West End, pendurados nas traseiras da porta da casa de banho simples, do andar inferior.
Um homem de família e de rendimentos, “plutôt diplomée” que aproveita as oportunidades culturais, que venera a cohabitação com as populações de imigrantes e que os venera como os seus pais veneravam o proletariado.
Entrega-nos o seu mundo ao fim-de-semana, muito mais como afirmação de despojamento material do pelos cento e cinquenta euros que lhe pagamos, através da muito demaocrática plataforma de partilha deste novo mundo sem fronteiras que venera, a internet ou as viagens aos confins da diversidade.
S. o amigo de infância do nosso cicerone, encolhe os ombros quando insistimos numa clarificação do estereotipo.
“É preciso saber comer ostras com as mãos e beber vinho branco de penalti no marché de Capucins, salpicados de limão e etnias, e também dançar com os candelabros nas feiras de antiguidades da rue de Notre Dame”
Insistem em partilhar a sua visão cosmopolita, não dispensam um fim de semana no Atelier, entre vanguardas do cinema europeu “hors grand circuit”, decoram-se de barbas bem cuidadas, abraçam causas ambientais mas não dispensam o centro histórico das cidades.
“ils sont tout à fait, des personnalités complexes”
E ele encolhe os ombros, outra vez.
Afinal de contas, os bobos amam o desconcertante e desdenham do seu próprio sucesso, que preferem exibir em cima das suas bicicletas vintage do que em automóveis de luxo.
O nosso senhorio de fim-de-semana era decididamente um bourgeois bohéme que, por impossibilidade de horários, nos deixou a sua chave de casa na boulangerie de la place M. devidamente acondicionada num saco de papel reciclado que certamente ainda iria transportar muito pão.
No Domingo à tarde, sentia-me muito feliz por ter descoberto uma nova espécie de Homo Sapiens gaulês.
E também um pouco embriagado de ostras, vinho branco, maigret de canard, beef tartar, buzios e outros patés, tudo emborcado de penalti, não fosse o avião regressar sem nós.