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sábado, 18 de novembro de 2017

7 / 7 - Viagens na minha Terra



Memórias de um morto precoce
Herb Ritts - Plena Luz
Cascais 01/Out.



Os homens cansaram-se de ser felizes
Bordéus de frente para o rio e de costas para o passado e para as memórias
Vestígios de um revivalismo em carne viva
Porto de Bordéus - Na sombra da base de U-Boats
20/Out.



Podia ser um casal abraçado no espelho de água, mas o importante está no que se esconde...o fotógrafo ambiciona a felicidade
Bordéus 22/Out.





Depois das vindimas e do Verão escaldante
Não há pontes impossíveis
Régua 28/Out.





Nas sombras da última ceia no Mosteiro de Tibães
O homem reflete (sobre) o seu presente
Braga 29/Out.





Flauta encantada
No abstrato, não há limites
Lisboa 01/Nov.



A última valsa
Ela atravessou a luz
Mafra 12/Nov.

domingo, 29 de outubro de 2017

Bobo




Boulangerie é a chave do bairro étnico de Saint Mitchel.
A rue D é um beco sujo e malcheiroso, impregnado no bairro de imigrantes, fachadas encardidas e interiores renovados, cem metros quadrados a quatrocentos mil euros “no mínimo”, assegurava a nosso cicerone, uma rua de caves suspeitas, uma escada de cheiros intensos e portas blindadas de duplo trinco e um interior de lacados pretos e vermelhos, tecnologia iMac e televisão de ecrã plano, uma arca de vinhos a uma temperatura milimétrica de dezassete graus, fotografias de crianças e mulheres felizes pelas escadas acima até às aguas furtadas, quartos de criança plantados de vestidos cor de rosa.
A arca estava cheia e uma garrafa vazia de uma colheita de 1971, ocupava uma esquina previligiada no countoir das recordações
Quarenta e seis anos portanto, um homem com estudos de direito, pelos livros que forravam as estantes do seu cantinho iMac, de preferências anglo saxónicas pelos canais predefinidos do satélite, pelos bilhetes de espetáculos musicais no West End, pendurados nas traseiras da porta da casa de banho simples, do andar inferior.
Um homem de família e de rendimentos, “plutôt diplomée” que aproveita as oportunidades culturais, que venera a cohabitação com as populações de imigrantes e que os venera como os seus pais veneravam o proletariado.
Entrega-nos o seu mundo ao fim-de-semana, muito mais como afirmação de despojamento material do pelos cento e cinquenta euros que lhe pagamos, através da muito demaocrática plataforma de partilha deste novo mundo sem fronteiras que venera, a internet ou as viagens aos confins da diversidade.
S. o amigo de infância do nosso cicerone, encolhe os ombros quando insistimos numa clarificação do estereotipo.
“É preciso saber comer ostras com as mãos e beber vinho branco de penalti no marché de Capucins, salpicados de limão e etnias, e também dançar com os candelabros nas feiras de antiguidades da rue de Notre Dame”
Insistem em partilhar a sua visão cosmopolita, não dispensam um fim de semana no Atelier, entre vanguardas do cinema europeu “hors grand circuit”, decoram-se de barbas bem cuidadas, abraçam causas ambientais mas não dispensam o centro histórico das cidades.
“ils sont tout à fait, des personnalités complexes”
E ele encolhe os ombros, outra vez.
Afinal de contas, os bobos amam o desconcertante e desdenham do seu próprio sucesso, que preferem exibir em cima das suas bicicletas vintage do que em automóveis de luxo.
O nosso senhorio de fim-de-semana era decididamente um bourgeois bohéme que, por impossibilidade de horários, nos deixou a sua chave de casa na boulangerie de la place M. devidamente acondicionada num saco de papel reciclado que certamente ainda iria transportar muito pão.
No Domingo à tarde, sentia-me muito feliz por ter descoberto uma nova espécie de Homo Sapiens gaulês.
E também um pouco embriagado de ostras, vinho branco, maigret de canard, beef tartar, buzios e outros patés, tudo emborcado de penalti, não fosse o avião regressar sem nós.



domingo, 15 de outubro de 2017

Turbulências



É o nome de uma exposição composta por obras do espólio de arte contemporrânea do (ainda) catalão La Caixa.
E esta informação é muito relevante quando afloramos o tema.
A coleção de arte contemporênea “La Caixa” é muito explícita na forma de olhar e compreender o mundo que nos rodeia.
Comprometida, como a inteligência costuma rotular.
E, aqui sem discussão, com uma linguagem polvilhada de olhares latino-americanos “escavando nas suas profundidades temporais, a fim de distinguir as suas luzes e sombras”.
A exposição é, por isso, um mar de instalações, video e fotografia que se desafiam mutuamente em uma critica social nada subliminar.
Carlos Garaicoa desafia-nos (confronta-nos) com as operações populistas do poder e usa apenas lupas e selos.
Lupas para nos lembrar que a política se faz de mediatismo, da meticulosa exploração de uma infinidade de lugares comuns e meias verdades perigosas que, devidamente compostos e ampliados, se tornam em razões de estado.
Selos para afirmar a sua paixão pela posteridade e pela lembrança, não do que fizeram, mas da forma como se apresentaram.
Afinal de contas, a tradicional subserviência do conteúdo sob a forma.
O primeiro exemplar desta passadeira de vaidades (e único original) é o selo comemorativo dos quarenta anos de Adolf Hitler, devidamente ampliado por uma lupa armada sobre um tripé.
Depois alinham-se as criações do artista, revelando as personalidades de uma atualidade que preenche a informação no século vinte e um.
Não há povo nos selos, apenas culto de personalidade.
Despidas da lupa, todas estas personagens se revelam insignificantes.
Até um pouco repugnantes.
Em nenhuma fase deste percurso pela política contemporânea, perscrutei quaisquer sinais de procura de felicidade humana
Muito visual e educativa.
E o título também.

Foi pena eu e a visita acompanhada, termos sido os únicos visitantes da tarde.