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segunda-feira, 22 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 2/5



Há três anos que Pedro vagueava de corpo e alma nesta cidade que se acomoda aos espíritos vadios, aos seres desalmados, acolhe todos com o mesmo desprezo, sem vontade mas com a condescendência de uma cultura superior e de uma monumentalidade boémia que, por definição, pertence ao mundo!
Chegara a Austerlitz como um intruso, numa noite de Verão tão chuvosa que o arrastou para uma violenta tristeza que pingava do oleado que o cobria e lhe vincava as feições assombradas de um ser que amedrontava os vagabundos de Paris, de tão errante, de tão desconcertante ele próprio se sentia!
À porta da Gare, desolado pela tempestade que o recebia, investira contra a cidade revolta na última das suas mirabolantes partidas, que se haviam tornado progressivamente compulsivas que apenas podia significar uma incontida vontade de estar só, longe e sempre a partir, sempre o novo, o desconfortável o não familiar!
Mas em nenhuma destas fugas havia causas nobres que justificassem este exílio, (curioso que fosse uma misteriosa e bizarra voz que lhe lembrasse este simples facto da vida) e ele tinha a certeza de que, mais uma vez, se iria embrulhar num jogo de retórica inconsequente, com a desvantagem de ser apenas com uma voz!     
Estendeu as pernas sobre a mesa (a única mesa do pequeno apartamento com vista para as costas da cidade, tão polivalente quanto os seus ideais de vida), procurou embalagem no balancear da improvisada poltrona e conformou-se sem convicção e com ondas de auto comiseração:
- Presumo que lhe sou de alguma forma (e acaso) familiar, ou estamos apenas destinados a nos encontrar na esquina, entre duas linhas trocadas? – Era o melhor que conseguia responder
- Eu perscruto vestígios de desencanto na voz, demasiada melancolia e descrença, tudo tão excessivo que fere, tantos números acima da idade que vestes, provavelmente não mais de vinte e dois…
-…vinte e três!
- Uma voz demasiado quente para tanto azedume! – A voz insistia
- É o nevoeiro que não nos permite vislumbrar o luar, a luz esmorecida de uma liberdade sem rosto….
- Sem raízes e sem conforto!
- Eu diria que lês as cartas como profissão – Pedro esboçou um sorriso que julgava imperceptível, sinal apenas de mais um período consumido por entre vielas e retratos de um bairro adormecido.
- Afinal o nosso herói também sorri, não apenas ironia…
- É de surpresa! O que fazes por aí, do teu lado da linha?
- Procuro almas gémeas, não leio cartas, pressinto que és um ser fascinante de incertezas, um sonhador que canta baladas de uma nostalgia linda e insensata e que te moves de uma forma encantadoramente perdida por esta cidade em roupas que te afogam, sempre escuras e tão coçadas que até dói!
- Ah, afinal conhecemo-nos…
- Eu conheço-te – corrigiu a voz – Julgo conhecer-te por dentro da tua silhueta tão opaca, mas com tanto potencial!
As referências da voz indiciavam que o encontro era planeado, e que a sua ocasional, mas persistente carreira de trovador à hora, no pequeno bar da Rua das Silhuetas, tinha pelo menos uma seguidora que não se identificava por detrás dos focos, na escuridão dos vultos envoltos no fumo e nos vapores do álcool noctívago.
Agora tinha a certeza de se tratar da versão feminina do anjo de rosto humano e asas brancas que sobrevoava a urbe…sim Paris fêmea, Berlim macho e sim os anjos têm definitivamente sexo!
E Pedro não pôde deixar de sorrir novamente, corando de desconforto perante uma evidência a que ele incapaz de fugir: vestir-se não era decididamente o seu forte e raramente acertava com o número de roupa adequada aos seus fugazes 60 quilos de peso!
E a conversa criou raízes, sem tema mas com destinatários precisos, a voz não identificada, tudo sentidos e descoberta, vaga como se querem as leves e inconsequentes seduções, rostos que se construíam sem pressa, com súbitos avanços e longos recuos, onde apenas as referências e as identificações eram omissas, por cautela ou sem razão.
E Pedro perguntou-lhe se conhecia as Asas do Desejo de Wim Wenders e ela não lhe respondeu.
Os anjos têm sexo, mas não argumentam.
E já Paris renascia da noite num amanhecer incerto, frio e nebuloso, quando ambos experimentaram a despedida, tão evidente se tornara que este era apenas o primeiro episódio de uma novela sem datas precisas, impulso e decisão dela, submissão, interrogação e fascínio dele, até Pedro começava a acreditar que poderiam existir almas gémeas, como se as almas pudessem ter corpo, “intangíveis como a poeira, sólidas como as pedras da calçada”, risos incólumes pela distância dos olhares incómodos, vozes que se alongam e se protegem por detrás da malícia e da timidez, também elas se partilham, se encontram e se tropeçam.
- Paira sobre as minhas dúvidas uma inquietante sensação de intimidade, destinos cruzados, ou seria apenas um turbilhão de cheiros, imaginação e solidão mal resolvida?
- (risos da voz, juraria com estridência) Verás que somos mesmo almas gémeas “ dust to dust, tears and love forever in a battle field called heaven”. Bons sonhos!