Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Algarve dos vales interiores



O termómetro batia 35º nas encostas do vale interior. Branco e azul são as cores das aldeias apelidadas de brancas pelo discurso turístico oficial, a face visível do remoto e montanhoso interior.
Alte, apresenta-se debruçada sobre o vale plantado de verde e de árvores de fruta, no prolongamento fértil do vale do Arade e, por estes lados, predomina o silêncio, a indiferença perante os estranhos e os poucos turistas que por aqui se aventuram, com este calor e neste fim de tarde de luzes fortes e sombras oblíquas
A deserta loja de artesanato, as vozes de uma indiscutível serrania algarvia que discutem, como putos, à volta de uma mesa de bilhar, o carrancudo empregado de bar, tasca, agente do euro milhões, a idosa que olha de soslaio no largo da igreja para quem se atreve a circundar o altar da matriz fechada, são evidências de que não há fiéis entre nós!
Na aldeia branca da serrania, há habitantes de verdade que estacionam os seus automóveis nos becos sem espaço, levam as crianças à piscina, nas traseiras da escola primária, transportam camionetas de fruta pela estrada sinuosa e levam os velhotes pela mão até suas casas, caiadas mas com cheiros e sabores de um quotidiano de aldeia rural.
Quando abandono a aldeia, sinto o último olhar do vendedor de peixe que limpa a banca do mercado ao ar livre, rápido e desinteressado, para quem aqui vem e nada deixa – talvez uma beata – e rouba as imagens desta pacatez civilizada, que são as portas do algarve serrano, fronteiriço e inacessível que começa ali, para lá das aldeias brancas.

domingo, 28 de julho de 2013

Há flamingos na lagoa dos Salgados


Na longa passadeira de madeira sobre as dunas, o vento de levante assobia de ocidente e, com a sorte a bafejar-nos pelas costas, afasta os mosquitos para a lagoa que, de longe, parece tão artificial quanto o campo de golf que a rodeia e a selva de blocos de apartamentos castanhos, que se confundem com a terra barrenta, é um facto – parecem construídos de barro vermelho - não fossem as milhares de palmeiras que infestam o local, porque não crescem nem nada, e se o areal fosse um deserto e os blocos de apartamentos, castelos árabes, então diríamos ter chegado a um oásis no Sahara; um pequeno erro de navegação e um mar apenas que os separa.
Mas eis senão que, aqueles pontos brancos ao longe, de pernas longas e patas na água lamacenta, se transformam em flamingos e, pelo seu aspeto, não foram ali plantados por aqueles que suicidaram as palmeiras, vindas de um qualquer oásis de viveiro (visionário ou louco? Visionário não certamente!)

Há mesmo flamingos de verdade na lagoa dos Salgados!

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sofisticação Árabe na Península e nos Algarves


 
Fomos sempre instigados a ver a História de Portugal de Norte para Sul, a nos identificarmos com os cristãos do Norte da Europa, Visigodos e outros bárbaros que, com armas na mão, se transformavam em bárbaros cruzados.
Foram os fundadores de Portugal, é um facto, mas este facto resulta de uma insurreição do filho contra a mãe, atitude de uma cristandade duvidosa, mas afirmação plena de como estes nobres medievais eram brutos.
Os árabes do Sul (e, vá lá, do leste) eram mais evoluídos na agricultura, nas formas de captação das águas, na medicina, navegação, matemática e astronomia, geografia.
E deram a conhecer o fabrico de papel e a pólvora!
E os barbudos proto cristãos nem entendiam esta sofisticação na sua rudeza tribal!
 A História longa revela-nos, aliás, que sempre aprendemos mais com os invasores – e uns séculos mais tarde com os invadidos - do que com a essência genética do lusitano
Primeiro refugiados nas montanhas em tribos, depois vestidos de armaduras vistosas encarregaram-se de conquistar território e enterrar os espojos da guerra entre igrejas e castelos.
Os outros eram mouros, apesar dos diversos períodos de convivência pacífica entre cristãos e mouros e as dificuldades crescentes em separá-los da sua terra ibérica.
Curiosidades históricas revelam que muitos dos mouriscos expulsos do Sul de Espanha foram engrossar as legiões de conquistadores espanhóis na América do Sul.
Depois de conhecer as maravilhas árabes do Sul da Península, começo a suspeitar que todos perderam com o recuo mouro para o além Mediterrâneo: eles e nós, lusitano-moçárabes de ascendência celta!
No cimo das mais modestas muralhas de Silves, capital árabe dos Algarves, contemplamos o longo vale do Arade, serpenteado por uma agricultura resistente e concluímos que a herança árabe não abandonou os arrabaldes da sua capital; e não deixo de pensar que foram as reminiscências árabes que nos transformaram em navegadores.
É uma visão romanesca da História de Portugal, construída de Sul para Norte ou (se quiserem tornear o latente, mas evidente, confronto com a versão europeísta e oficial do nosso passado) a História de um país construído com a influência dos invasores (derrotados, é um facto) vindos de leste. (e assim não esquecemos os engenheiros romanos)
No final de contas todos os invasores acabam, mais tarde ou mais cedo, derrotados.
No outro extremo da Europa, pela mesma altura em que os Árabes eram expulsos da Ibéria, os persas invadiam Constantinopla, capital remediada do evoluído Império Romano, e transformavam as fantásticas igrejas de um pagão império tardiamente convertido a Cristo, em mesquitas
E demoraram séculos a perceber que a cidade já tinha águas canalizadas há séculos!
É histórico o desprezo dos guerreiros pelos empreendedores!

quinta-feira, 25 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 5/5


A onda das memórias, instáveis mas profundas, arrastaram Pedro para as penumbras daquela sala mágica, para aquele concerto, Fausto de seu nome, as luzes que focavam o artista, vermelhas e quentes, o coro de vozes que pairavam por este rio acima, uma comunhão de corpos sentados no chão, junto ao palco, com um odor a paixão e a erva, olhares bem acima, mentes transportadas para a epopeia dos Descobrimentos, em tom de folclore, redenção e exaltação daquilo que julgavam ser o espírito revolucionário em fase de apagamento, mas que não passava de um tolo orgulho nacional, numa época de formidáveis aventuras e acima de tudo a música era linda, inspiradora...
- És tu?
A campainha da porta tocou.
- Sim, conheço as Asas do Desejo de Wim Wenders – A inacessível Cristina, aparecia do outro lado da ombreira de telefone na mão direita, dois bilhetes de um qualquer comboio sem destino impresso, igual ao deslumbramento inicial, sedutora de tão distante, igual aos sonhos destruídos de um poeta inseguro.
- Um anjo não argumenta!
Três anos depois! Acaso ou destino? Pedro não sabia e Cristina não lho explicou.
- Hoje os céus de Berlim estão cheios de asas.
-?
- Sabes que dia é hoje?
- 9! É pressuposto lembrar-me de algo?
- A partir de hoje sim! O muro está a cair!
E sem que Pedro pudesse ou soubesse argumentar que não devemos provocar o destino, que a verdadeira liberdade é partir, que a conversa do Wenders era apenas retórica existencialista, e que sem muro deixava de haver inacessível, e tudo era …., Cristina, pousou os bilhetes sob os seus olhos e sussurrou-lhe ao ouvido:
 - Carruagem 21! Amanhã de manhã. Partirmos é sinónimo de chegar, como dois sinais menos que se anulam…
- Berlim não é uma cidade de amor e encontros
- A revolução é o laboratório de amores épicos…
-…e impossíveis!
- Não, se o mundo hoje mudar para sempre, estaremos definitivamente ligados como siameses à centralidade…passada e futura!
Incapaz de fugir, de evocar a timidez genética, a solidão criativa, a indecisão perante os maus momentos que inevitavelmente se seguem aos bons, Pedro limitou-se a suspirar:
- As asas do desejo!
(continua) se nós quisermos.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 4/5


 
- Começas tu ou começo eu? – A descoberta assumia contornos mais íntimos, definitivamente mais interessantes, mas o receio aumentava com a inevitabilidade do próximo encontro, desapontamento ou paixão, qual deles o mais embaraçante?
E ela começou.
Nem sequer pestanejara! Não sentia qualquer arrepio, incerteza ou vontade de me perder na irracionalidade permitida por uma flácida ânsia sexual!
Chegava de comodidade, de não repudiar a idolatria patética e repugnante daquele forcado que me feria de morte, tédio e repetição, os copos e as bebedeiras, os amigos e as não conversas, enfim nada de novo, nem mesmo sexo!
- Não havia portanto pontos fortes para explorar a chantagem ou o temor!
E ele lambia-me as feridas sem eu lhe pedir, e eu confortava-me de que dali, não haveria nunca surpresas, era socialmente aceite…enfim a nossa filha, não sendo desinteressante era tão pouco social, tão interior e introvertida, uma intelectualidade que sobrevoava as pessoas, a gente e os interesses comuns, que talvez tivesse tido sorte com este jovem, nada de brilhante, mas muito apresentável.
- Estás mesmo a contar-me a história do teu exílio? Creio que uma das características dos introvertidos não é decididamente telefonar à noite para casa de desconhecidos a meter conversa.
– Pedro protestava e começava a considerar que, ao telefone, a aparência engana mesmo, e a sua preocupação tornava-se exponencial!
- Estás a precipitar-te! Ainda não cheguei á parte da história onde me emancipo!
No final daquele dia, apenas desejara que o comboio se apressasse, que o anúncio não tivesse sido retardado aqueles intermináveis minutos.
- No dia da emancipação…
- Sim!
Sentia-me loucamente longe destes trajectos, que sabia serem derradeiros, mas sempre repetidos como os silêncios que povoavam as nossas tardes de Sábado, nos pontões da linha de Cascais.
De manhã, havia-me esforçado por perder todos os comboios que me conduziam à verde certeza de uma recepção amarga.
Mas nem os acidentes na Linha, nem a chuva de pedra que entardecia a manhã, me impediram de partir!
A minha partida para Paris estava decidida, comunicada á família, preparada e o destino já esperava por mim…seria hoje no comboio das seis!
Só ao meu desapontamento amoroso, ainda hoje não encontrei a palavra certa para lhe chamar, nada tinha dito.
Ele representava tudo aquilo que decidira, um mês antes, repudiar e negar.
Por isso aceitei aquela Bolsa de Estudo. Queria adiar o retorno a professora de uma qualquer escola da província triste e desconsolada, destino mais que sagrado para quem se enfia em Letras.
Tinha a certeza que a centralidade (aquela que tu tanto gostas) seria o melhor remédio para a minha emancipação e provável solidão.
Não lhe dissera antes, não por vingança, sobretudo por irrelevância. Quantas feridas procuraria ele lamber? Durante quanto tempo? Não, preferi não lhe dizer!
Como lhe poderia explicar que a nossa relação não tinha futuro, porque nunca tinha tido passado?
Tinha-lhe mentido?
Cristina tinha desligado Pedro desta confissão e assumia, sem rodeios nem pudor, o discurso directo, na segunda (e abandonada) pessoa.
Não. Apenas abanara a cabeça, ignorara as interrupções, como eu sabia prolongar as tuas ausências sociais com uma infinidade de coincidências da minha vida cultural, estudos e exames, família e descanso!
Quis partir porque não há o direito de perpetuar a infelicidade!
- Quantos anos?
- Alguns…
Porque não telefonaste?
O teu apartamento de luxo recebeu-me com o receio de quem é acordado sem aviso, esta é a resposta possível de uma relação não assumida, e eu que ainda não me apercebera porquê tanta fascinação da tua parte, seria o intelecto?
Senti-me tão insensível quanto esperava, aos jarros de sangria que nos apresentaram, á primeira noite que simulámos fazer amor na tua carpete da sala, às defesas por mim erigidas…
E como em todas despedidas, as palavras e os retratos de um dia a dia intermitente, já na primeira pessoa, soavam a falso, como se fosse importante falar-te do meu novo projecto, enquanto insistias em chumbar, em protelar tudo o que vagamente te lembrasse as palavras crescer e mudar, ludicamente perdido nos teus vinte e quatro anos, deslocados num mundo de adolescentes fantasistas.
- Afinal tudo se resumiu a um desapontamento de amor!
- Não estou convencida disso!
- Despediste-te assim, sem mais nem menos, á porta do apartamento do tipo, adormecido e atordoado num pijama de cornudo, já de mala às costas?
- (risos) Mais ou menos!
- E…
- Não reagiu, não acreditou, convidou-me para almoçar e jurou que esperaria por mim… e esperou!
E eu parti de táxi, e apercebi-me na altura que, de forma tão veloz e decidida como sempre, quando o visitara e precipitadamente saltava dos lençóis mornos, fugia de uma vila e de um homem que me atrofiava a vontade.
- Não partirias se encontrasses paixão.
- Insistes…Será assim tão simples?
- Não. Acredito que não há amor que resista á procura do nosso espaço próprio, pelo menos no médio prazo…
- Não há amor que resista ao nosso egocentrismo…quando o ego nos submerge!
O que não é linear que aconteça sempre e a toda a gente!
- Mas terias tu percebido isso, se não fosse o enfado?
- E será assim tão complicado e absoluto?
- Não sei! E quando foi tudo isto?
- Há dois meses. Finalmente o comboio chegara. Depois da despedida recusada, saltei para a carruagem 21, libertei-me fisicamente daquele Sábado de Verão chuvoso e embrulhei-me no Sud Express, destino Paris!
- Carruagem 21?
- Coincidências?
- Tu juraste que éramos espelhos…
E ele não precisou de começar.
Primeiro esquecemos os cheiros, depois a voz e os apelidos…só nos resta os nomes próprios, a imaginação do que teria sido mas nunca foi e, subitamente, um rosto!
Era definitivamente A Cristina que a sua mente inquieta e emocionalmente tremida o tinha impedido, três anos antes, de seduzir no concerto da Aula Magna, mesmo quando ela lhe tinha sugerido que os espelhos nunca se quebram.

terça-feira, 23 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 3/5


 
- Boa noite, alma gémea!
A surpresa já se transformara em esperança, o toque de telefone que coincidia com o desdobrar da chave na fechadura, era um garantido prolongamento das noites de uma insónia latente.
Era assim, todas as noites fossem tardias, todas as tardes, sempre que o por do sol me assustava…
- Já não me imagino chegar a casa e não sentir a tua companhia do outro lado da linha.
- Eu imagino-te a chegar…
Era evidente para Pedro que as coincidências têm limites e a voz pressentia vizinhança, olhares envergonhados e fortuitos, Bom dia balbuciado nos corredores ou nos elevadores!
- Continuo sem adivinhar de onde me escutas e pressentes.
- A impaciência tolhe!
- O sofrimento aguça a curiosidade
- Ai sim?
Já pensaste se és ou não afinal uma mente exilada?
- Não tenho memória suficiente para me recordar. Parti porque queria envergonhar o destino…
- E chegaste a um mesmo destino! – Atreveu-se a voz sem grandes certezas
Mas Pedro parecia não a ouvir.
- Os primeiros meses dessa antiga nova vida, no recém-adquirido ensino superior, representaram um duro amanhecer de longos dias de incomportáveis descobertas, um sucessivo desvanecer dos sonhos da adolescência, uma inexplicável capacidade de absorção de sentidos, uma maquiavélica e paciente aprendizagem dos extremos, sistemática moldagem de comportamentos, dourada insistência na preparação de uma elite, uma geração obrigada a absorver décadas de vazio, de Estado Novo, de figuras paternais, de revoluções de cravos, da queima de soutiens, de inflação, de choques petrolíferos, do small is beautiful, dos modelos de crescimento sustentado, das expectativas redentoras de um novo mundo, tudo em passo acelerado, comprimido, estilizado, impresso como marcas de fogo nas nádegas de loucos carneiros de uma nova existência.
- Era assim tão tenebroso?
- O sucesso prometido era tão inebriante quanto os efeitos de uma dolorosa cirurgia plástica que nunca mais cicatriza, mas promete eliminação de gorduras desnecessárias, lábios defeituosos, cérebros incapazes, e as visões de uma nova vida de aventura, descoberta de seres, partilha de ideias loucas, derrube de barreiras, fronteiras, uma perturbante recompensa de estarmos vivos, sem sabermos o que desejamos, lendo em voz alta poemas de António Sérgio, reclamando a nossa juventude.
- Então a culpa foi do António!
- Foi dos genes. Quando parti pela primeira vez já não consegui mais parar de partir. É uma adrenalina impossível de conter
- Um curso superior a meio…
- Uma série de sonhos que só se alcançam na solidão e no desconforto do efémero.
- Já adivinhavas tudo isso?
- Vá lá, não me sobrevalorizes! Os sonhadores nunca antevêem o lado negro e obscuro do seu sonho.
- Mas voltaste a atracar…
- É diferente viver no centro da Europa
- Ah! A busca desesperada da centralidade
- Não. Em busca da partida fácil, perto de tudo, longe das explicações, das prisões e dos freios sociais
- Nada de prisões especialmente emocionais?
A primeira pausa da noite foi atravessada por uma gargalhada desproporcionada ao sentimento da pergunta, ao atrevimento da voz.
Absolutamente feminina, esta necessidade de se certificar de que não existem concorrentes, os tais empecilhos emocionais – Pedro adivinhava-lhe a intenção mas a resposta não saiu.
Porque ris? – Seria inquietude ou desilusão, a insistência da voz?
- Não faço a ideia do que isso representa! Sou um sentimental, mas pelas causas dos outros.
- Queres dizer que nada se atravessa entre ti e essa miragem tua de navegador de asfalto ou de carris!? A paixão compromete a descoberta? Nunca sentes que tanta descoberta é cansativa, não serve para nada, a recompensa não tem corpo, porque não há ninguém já á tua espera, quem sabe para te abraçar?
- É assim que te sentes? – Pedro teve um palpite e não conseguiu guardá-lo para si, este era o fascínio destas conversas nocturnas e sem rosto. Não havia freios. E, sem percebê-lo, mais uma vez se defendia dos sentimentos, não fossem eles fatais.
- Desde que te vi, que tenho a certeza de que somos espelhos…
- Como se chamava a tua última desilusão?
- Tomas! E a tua?
- Cristina!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

As asas do desejo - Parte 2/5



Há três anos que Pedro vagueava de corpo e alma nesta cidade que se acomoda aos espíritos vadios, aos seres desalmados, acolhe todos com o mesmo desprezo, sem vontade mas com a condescendência de uma cultura superior e de uma monumentalidade boémia que, por definição, pertence ao mundo!
Chegara a Austerlitz como um intruso, numa noite de Verão tão chuvosa que o arrastou para uma violenta tristeza que pingava do oleado que o cobria e lhe vincava as feições assombradas de um ser que amedrontava os vagabundos de Paris, de tão errante, de tão desconcertante ele próprio se sentia!
À porta da Gare, desolado pela tempestade que o recebia, investira contra a cidade revolta na última das suas mirabolantes partidas, que se haviam tornado progressivamente compulsivas que apenas podia significar uma incontida vontade de estar só, longe e sempre a partir, sempre o novo, o desconfortável o não familiar!
Mas em nenhuma destas fugas havia causas nobres que justificassem este exílio, (curioso que fosse uma misteriosa e bizarra voz que lhe lembrasse este simples facto da vida) e ele tinha a certeza de que, mais uma vez, se iria embrulhar num jogo de retórica inconsequente, com a desvantagem de ser apenas com uma voz!     
Estendeu as pernas sobre a mesa (a única mesa do pequeno apartamento com vista para as costas da cidade, tão polivalente quanto os seus ideais de vida), procurou embalagem no balancear da improvisada poltrona e conformou-se sem convicção e com ondas de auto comiseração:
- Presumo que lhe sou de alguma forma (e acaso) familiar, ou estamos apenas destinados a nos encontrar na esquina, entre duas linhas trocadas? – Era o melhor que conseguia responder
- Eu perscruto vestígios de desencanto na voz, demasiada melancolia e descrença, tudo tão excessivo que fere, tantos números acima da idade que vestes, provavelmente não mais de vinte e dois…
-…vinte e três!
- Uma voz demasiado quente para tanto azedume! – A voz insistia
- É o nevoeiro que não nos permite vislumbrar o luar, a luz esmorecida de uma liberdade sem rosto….
- Sem raízes e sem conforto!
- Eu diria que lês as cartas como profissão – Pedro esboçou um sorriso que julgava imperceptível, sinal apenas de mais um período consumido por entre vielas e retratos de um bairro adormecido.
- Afinal o nosso herói também sorri, não apenas ironia…
- É de surpresa! O que fazes por aí, do teu lado da linha?
- Procuro almas gémeas, não leio cartas, pressinto que és um ser fascinante de incertezas, um sonhador que canta baladas de uma nostalgia linda e insensata e que te moves de uma forma encantadoramente perdida por esta cidade em roupas que te afogam, sempre escuras e tão coçadas que até dói!
- Ah, afinal conhecemo-nos…
- Eu conheço-te – corrigiu a voz – Julgo conhecer-te por dentro da tua silhueta tão opaca, mas com tanto potencial!
As referências da voz indiciavam que o encontro era planeado, e que a sua ocasional, mas persistente carreira de trovador à hora, no pequeno bar da Rua das Silhuetas, tinha pelo menos uma seguidora que não se identificava por detrás dos focos, na escuridão dos vultos envoltos no fumo e nos vapores do álcool noctívago.
Agora tinha a certeza de se tratar da versão feminina do anjo de rosto humano e asas brancas que sobrevoava a urbe…sim Paris fêmea, Berlim macho e sim os anjos têm definitivamente sexo!
E Pedro não pôde deixar de sorrir novamente, corando de desconforto perante uma evidência a que ele incapaz de fugir: vestir-se não era decididamente o seu forte e raramente acertava com o número de roupa adequada aos seus fugazes 60 quilos de peso!
E a conversa criou raízes, sem tema mas com destinatários precisos, a voz não identificada, tudo sentidos e descoberta, vaga como se querem as leves e inconsequentes seduções, rostos que se construíam sem pressa, com súbitos avanços e longos recuos, onde apenas as referências e as identificações eram omissas, por cautela ou sem razão.
E Pedro perguntou-lhe se conhecia as Asas do Desejo de Wim Wenders e ela não lhe respondeu.
Os anjos têm sexo, mas não argumentam.
E já Paris renascia da noite num amanhecer incerto, frio e nebuloso, quando ambos experimentaram a despedida, tão evidente se tornara que este era apenas o primeiro episódio de uma novela sem datas precisas, impulso e decisão dela, submissão, interrogação e fascínio dele, até Pedro começava a acreditar que poderiam existir almas gémeas, como se as almas pudessem ter corpo, “intangíveis como a poeira, sólidas como as pedras da calçada”, risos incólumes pela distância dos olhares incómodos, vozes que se alongam e se protegem por detrás da malícia e da timidez, também elas se partilham, se encontram e se tropeçam.
- Paira sobre as minhas dúvidas uma inquietante sensação de intimidade, destinos cruzados, ou seria apenas um turbilhão de cheiros, imaginação e solidão mal resolvida?
- (risos da voz, juraria com estridência) Verás que somos mesmo almas gémeas “ dust to dust, tears and love forever in a battle field called heaven”. Bons sonhos!
 

 

As asas do desejo – Parte 1/5


 
Pedro atravessava agora a ombreira da porta na incerteza de se encontrar com a sua sombra, mais uma noite de ressaca de emoções mal curadas, mal amadas e desvanecidas no nevoeiro que imergia a cidade, todo o ano, todas as noites, sempre com alguma pena de si próprio!
O telefone, como que por instinto, tocou!
- Boa noite! – Quem seria a esta hora?
- Como estás? – Uma voz levemente trocista mas sem dúvida feminina – É mesmo contigo que quero falar. Mas dado que acabaste de chegar, é melhor sentares-te, eu espero!
Não, não podia ser o reflexo dos torpores do álcool barato, engolido entre duas baladas e uma competição quase obscena de olhares insinuantes, rostos envelhecidos de mulheres solitárias, transformadas em restos de uma revolução tardia, um jogo tão lúgubre quanto os trapos que as cobriam. Era assim a noite na cidade, no pequeno bar escondido entre ruelas e trepadeiras, pátios cercados de vedações e um portão que insistia em ranger, degraus esgotados pela erosão dos séculos, retorcidos como o corrimão de ferro que empurrava os sonhadores para as luzes e para o fumo, um balcão corrido até ao fundo, mesas cheias de gente e histórias que se contavam em voz de tambor, o acompanhamento sincopado das baladas do jogral, viola no colo e notas bem puxadas ao sentimento e à atmosfera que Pedro jurava em voz alta já ter visto num filme qualquer, com muitos anos, sempre num qualquer antes da guerra, Paris no seu auge, como uma premonição de euforia antes que o mundo se consuma numa carnificina qualquer!
A voz era uma assombração mesmo real pós meia-noite com timbre de Cristina, definitivamente não Maria, talvez Paula ou Isabel, mas bolas como é que se podia ter uma voz daquelas àquela hora, simultaneamente tão rouca e profundamente (profusamente?) límpida?
- Devo pressupor que é engano, ou foi um Anjo que regressou à terra? – Respondeu Pedro, arrependendo-se antes de acabar, com este som estridente que ele não tinha conseguido controlar (pluf, saiu!), tão pretensiosa e desastrada.
Mas a voz não se sentiu incomodada e riu sem pressas, longamente, deixando transparecer de uma forma clara de quem era a iniciativa e que ela já havia decidido os seus atuais e próximos passos e portanto tudo era permitido a esta jovem, não lhe competia a ele agradar!
- Como sabes que acabei de chegar?
- Sente-se o teu respirar ofegante de quem entrou a correr em casa!
Sem perceber qual o grau impreciso em que estava a ser gozado, Pedro decidiu enfim sentar-se (deixar-se cair) na cadeira de lona vermelha comprada num bazar de bairro, um estuário de quinquilharias no seu preferido refúgio magrebino de Sebastopol!
- Tem nome, a voz? – Atreveu-se, inquieto com esta intromissão na sua concha desconcertante, (e nos últimos tempos, também desinteressante) no seu exílio urbano, independente mas deprimente, apesar de já ter aprendido a viver os tristes, gelados e nublados fins-de-semana do Norte longínquo. E a intensidade do incómodo inicial era tão evidente que nem lhe ocorreu a ele que podia ser um interessante engate nem a ela lhe soou ao alarme da rejeição, uma espécie de sensação “ que tipo de gajo será este que nem curiosidade aparenta? Ou será que lhe cheira a mãe solteira de um filho problema assim só pelo som da voz…ou pelo cheiro! Bolas não há cheiros por telefone…julgo eu!”
- A voz tem obviamente nome…para quem merece! – O ataque frontal e impiedoso parecia-lhe a terapia de choque ideal para um empedernido e solitário macho, ainda sem história, sequer!
O aturdimento desconcertante em que Pedro tombara, deixara-o sem fôlego no preâmbulo de uma fábula intemporal, em que todos os animais se entendem numa espécie de esperanto da natureza, seja qual for a selva, o tempo ou a história!
- Como é possível uma voz cristalina e em português no centro deste mundo tão gaulês? – A sua súbita e idiota perceção do improvável não deixava de ser cómica, não fosse a hora absurdamente tardia e a falta de discernimento alcoólico que envolvia a sua mente – Pressuponho que não é o acaso…
- A teoria das probabilidades joga a meu e a teu favor. Somos muitos milhares de mentes exiladas…
- O exílio não é uma escolha, e vivemos numa década de escolhas múltiplas. Parece-me uma palavra levemente desajustada…ou demasiado sugestiva! Talvez seres emigrados seja mais real, porque já não existem causas assim tão nobres que justifiquem o exílio…
- …só quando não é um estado de desajustamento permanente, ou simplesmente um estado de espírito!
Pedro não entendia esta provocadora insolência, uma familiaridade tão óbvia que só podia ser um sonho, e por isso mesmo hesitou e remeteu-se a um silêncio defensivo e comprometedor.
- Acreditas mesmo que não existem causas suficientemente nobres, que justifiquem o exílio, mesmo que aparentemente voluntário? – A insistência da voz estimulou a imaginação de Pedro, que definitivamente não lhe apetecia expor o seu íntimo, tão tarde, tão noite, tão cedo e tão-somente a uma voz.
- Para mim tens voz de Cristina!
- Cristina seja!

sábado, 20 de julho de 2013

Noor – A luz no bairro árabe


 
Mouraria, o primeiro gueto árabe depois da reconquista cristã de Lisboa, abre-se à fauna urbana no passeio das luzes
“Tanta gente, novos e velhos” – Exclama um habitante do bairro, mestiço como a sua origem, guardião de uma exposição de fotografia improvisada, nas paredes caiadas de um logradouro.
Por ali paira um fantasma de um branco azulado que ordena aos passantes “sigam a vossa luz” e, no largo dos Trigueiros, é o pessoal do bairro que domina e os visitantes sentem-se intimidados pela crueza dos olhares e pelo à vontade desta gente rude e despretensiosa que chapinha nas fontes e monta uma guarda firme à árvore desfolhada de luzes muito brancas.
Famílias que se perfilam à porta da taberna, sombras que escorrem nas paredes em tons que saltam entre o amarelo e o azul, nos intervalos da luz dos candeeiros de iluminação pública, contornando os lençóis estendidos nas janelas do bairro mouro!
No largo do Caldas, espreitando a rua da Madalena, uma fileira de janelas abertas desvenda-nos a sociedade recreativa, sons de música de salão, e um casal que procura acertar o passo em lições de dança, sem repararem que estão a ser vigiados por forasteiros, mas não há estranhos neste local que justifiquem portadas fechadas e luzes apagadas.
Também a luz é precisa no grande salão de festas do bairro da Mouraria!
Nas traseiras do bairro, há cinema em tela de ar livre para uma praça cheia de gente da terra.
Sim, dentro do bairro, a cidade está emprestada e no ecrã ondulante pela brisa que assola a noite, desfilam memórias do bairro, treino de boxe numa arena ressequida, sessões de artes marciais, uma velha voz de fado que ecoa nas noites de uma taberna e uma nova multiculturalidade que invade o bairro, uma mestiçagem que desmente a sua origem de gueto.
As igrejas de ritos moçárabes – portanto anteriores à reconquista – abrem as portas do bairro (e do sacerdote ausente) à comunidade de turistas, intelectuais de nova dimensão, gente jovem e idosa, gente que se deslumbra (e outros não) pela criatividade desta exposição aberta de arte urbana e contemporânea
 
Frágil é a essência das figuras de luz e cera, que se espalham pelo chão da igreja, o Coleginho
Descendo no bairro em direção ao Martim Moniz, a multidão adensa-se e a fauna do bairro agora acotovela-se para ganhar espaço livre e manter a fadista Severa, dentro do seu espaço de artista.
Mas a rua clama pela face obscura da memória da artista e transforma as ruas e os largos do fado numa zona vermelha, numa evocação sem equívocos da outra face da vida do bairro.
As câmaras fotográficas enrolam-se nos tripés dos artistas de imagem, e as equipas de reportagem asseguram-nos que a ideia de abrir os bairros à cidade e ao mundo, através de manifestações de arte viva, urbana e conceptual será, no mínimo, viral
Noor, a homenagem sem complexos de um bairro árabe à luz de Lisboa!
Encontro de culturas e religiões, bem longe do espírito marcante das cruzadas ou da intifada
 
 

domingo, 14 de julho de 2013

10 Horas no bairro da manhã


Fora do centro, a cidade é uma aldeia a acordar.
Por detrás das alamedas pejadas de árvores, o nevoeiro desvanece-se gradualmente por entre os blocos de bairros encardidos e populares, a forma como a cidade formatou as populações rurais que a invadiram, décadas atrás de décadas
Às 10 horas no bairro da manhã, a aldeia cobre a cidade de um manto de roupas estendidas nas varandas enferrujadas da propriedade camarária, e a rua transforma-se numa oficina improvisada, na vespa de caixa fechada estacionada na erva que cresce nos espaços vazios, um velho de camisola interior de manga cavada que manipula ferramentas e vende serviços rápidos, as couves que crescem como cogumelos na berma das ruas e veredas e os muros de pedra que sobrevivem aos novos blocos de apartamento que circundam a aldeia, bem no centro da cidade.
Um junkie alienado ronda a montra do supermercado sem destino próprio, permanece apátrida na fronteira da aldeia como um deslocado permanente, uma mente aldeã que procurou descer à cidade, e caiu.
Às 10 horas no bairro da manhã, a aldeia expatriada vive em torno da igreja e do cerimonial aos mortos, numa agitação social apenas comparável ao mercado da fruta.
No cemitério do bairro não há ervas daninhas e os canteiros floridos cobrem a pedra numa palete de cores vivas, num cerimonial permanente de homenagem e lembrança.
Como na aldeia da sua origem comum!
 

 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 8/8


Agora sobrevoava o Atlântico Centro numa intermitência sonolenta, sentia o Sul pelas costas e procurava espreitar entre as nuvens, à procura de referências, tarefa impossível em pleno Oceano para um leigo em orientação marítima e profundo ignorante em estrelas.

E exatamente no prolongamento do Cabo Bojador – um olhar furtivo aos ecrãs de televisão da cabine, comprovavam-no – uma mancha de luzes, num formato retangular familiar, parecia flutuar sem direção precisa, seria um barco, um barco não era certamente porque não coincidia a dimensão com os dez mil metros de altitude anunciados no visor que lhe iluminava a face, a ele e aos duzentos e tal passageiros que dormiam.

E como dormiam, não se puderam aperceber que, naquela imagem de satélite azul, verde e castanha, comprovava-se, primeiro de forma pouco nítida, depois mais claro e, alguns segundos depois um contorno de luzes folclóricas qual arraial minhoto, a profecia de Saramago, Portugal flutuava no Atlântico, mas sem a companhia de Espanha,

Sem a companhia de Espanha e de luzes bem acesas como não houvesse um cabo elétrico que liga a nossa energia à Europa

Exatamente no prolongamento do Bojador.

A agitação apoderou-se de L. porque Portugal deveria ser o seu destino de regresso e, ao contrário do retângulo bem real, que se afastava agora por detrás da traseira do avião, sentia-se mais à deriva do que em qualquer um dos infindáveis dias em que estivera exilado, porque nas vinte e quatro horas de cada um deles ele sabia que a geografia se mantinha inalterável e que havia um lugar para regressar, mesmo que fossem remotas as possibilidades de readquirir a sua vida, o seu conforto e as suas raízes.

E, de repente, L. entendeu tudo: voltava a casa, mas o país não esperara por ele, procurava uma nova epopeia, renascia das cinzas numa inesperada e inusitada vocação marítima antes que os filhos da Nação abandonassem a Pátria de vez e, tal caravela, tinha agora um novo desígnio, recolher os portugueses pelo mundo, e L. não devia ter partido, ou regressado, conforme a perspetiva.

Será que o país também o viria buscar? Mas porque é que ninguém, naquele avião lotado, entendia que este absurdo, tão tridimensional quanto um quadro de Dali, estava mesmo a acontecer?

Adormeceu a congeminar como seria possível a ele, uma mente errante encerrada num corpo que ansiava pela criação de laços, voltar a tirar partido desta oportunidade que o seu surpreendente e caprichoso país lhe dava de novo, de ser viajante no conforto do seu próprio espaço, beneficiando da energia e das oportunidades de novas geografias promissoras

E L. sonhou o resto da noite com P. o P de Portugal.

Quando Luís acordou, não havia noite, antes um Sol que se escapava por debaixo das cortinas, nas minúsculas janelas duma aeronave de nacionalidade lusa, comandante e hospedeiras devidamente fardadas, e ele de mente absolutamente desperta de quem vira a sua vida desfilar em algumas horas de sono profundo, embalado pelo som dos motores…

Enquanto procurava discernir o que, da sua desperta memória, era realidade ou sonho, abriu a cortina e deparou-se com aquele extraordinário cenário, sempre renovado, a entrada no estuário do Tejo, com o Sol nascente a varrer o rio, a margem Norte, o bugio e a linha de Cascais.

Luís, quarenta e nove anos, regressava de mais uma entediante viagem de uma semana de trabalho em S. Paulo

Mas tudo o resto, que se recordava como tivesse acontecido, só podia ser um sonho, porque, nas histórias de verdade, os personagens têm nome e não uma maiúscula com ponto.

Mas parecia tudo tão real que lhe provocou um arrepio na espinha, tão frio quanto uma madrugada de sonos sobressaltados em altitude

Entre o alívio da reconfortante e avassaladora vista aérea de uma cidade no sítio certo, e o indisfarçável desconforto de um exílio sonhado, preferiu relegar para as profundezas do cérebro o que sabia da teoria dos sonhos, um enredo de premunições e memórias soltas de experiências e viagens passadas.

Sorriu sem disfarçar, quando se recordou do país iluminado a navegar no Atlântico Central e preparou-se para o regresso sonhado, no sentido literal, à pista da Portela.

“ O número tentou ligar-lhe 3 vezes….”

Era Ana, que ainda não se habituara aos atrasos do voo da noite!