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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Ano 2010 D.C - A mão visível da criação humana




JC acaba de festejar 2010 anos de uma história e continua a ser o Homem mais famoso do nosso mundo finito, apesar da concorrência do Pai Natal, uma versão mais colorida, mais respeitável - será da barba? certamente que não é do barrete - e actual do mistério da natalidade (natividade, Natal), da mão de Deus lançada à Terra para abençoar todas as criações do Homem, e orientá-lo na procura do bem comum. Esta é a versão original (pelo menos nas suas grandes linhas), que não inclui ainda o dito Pai Natal, cuja origem desconheço, mas desconfio tratar-se de uma obra pagã.


Quis a coincidência (quando a ignorância cientifica prevalece, a coincidência resolve os impasses e as imprecisões do autor) que associada à celebração do nascimento do menino, se extinga o ano velho, quatro estações de criações, descobertas e aberrações humanas, sob a influência esmagadora da Lua e do Sol.


São muitas conjugações de astros na mesma semana; empilhamos balanços mentais, esboçamos festejos, bocejamos prendas do Pai Natal a todos, apesar de apenas JC fazer anos,(ou será JC que incumbiu o SC - Santa Claus - de nos recordar que ele existiu e terá sempre um papel no nosso imaginário colectivo) e chega a pingar sobre nós uma calendarizada nostalgia pelo que representa um ano civil e lunar que ameaça despenhar-se num réveillon de luz e fogo, passas, desejos e promessas que se lavam de alívio com o amanhecer do dia seguinte.


É quase sempre assim, tão apressado, quanto o exige uma única semana, uma em cinquenta e duas, uma de balanço, de promessas e de desejos, intercalada pela celebração do aniversário de JC...


Lembrei-me por isso de evocar (em balanço e em vão), nos minutos que (se seguem) antecedem a comemoração, a mão da criação, a mão visível que embala a criação humana.


Em 2010, a mão visível (sem as conotações de incompetência politico burlesca que nos afligem, e que nos infligem insuportáveis e anunciadas dores de envelhecimento) do Homem, deixou-nos momentos de magia...


Em jeito de lembrança, a meio da semana, para não parecer balanço nem promessa !


Paris parece-me uma boa ideia de magia...sempre e apesar dos autóctones

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Eire - You will be back soon!

Relembro dois anos depois, as convicções de um povo! É fundamental entender que a capacidade de regeneração de um povo culto e instruído é directamente proporcional à sua capacidade de promover caos they will be back!


O doloroso frio do Norte desperta a arte reflectida nos muros da Revolução Industrial, uma mais do que certeza de que os sonhos existem para ser acorrentados...até que a vontade desperte!
Dublin, a gaélica tradição renasce no esplendor da expressão de vanguarda, expressa-se pela diferença, relembra a perseverança dos combatentes pela sua (recente) independência e inspira todo um Continente pela afirmação das suas origens, espírito empreendedor e sua vontade própria, nas fronteiras do mundo Celta!
Perante o frio gélido a arte, sob a forma de cartaz de parede, de rua, não tem frio.
A tenacidade do seu olhar assegura-nos que apenas as mãos estão presas, que a mente as libertará para o sonho!
Nem sempre foi assim.
Raramente é assim!
in Photobello Primavera tardia de 2008

sábado, 20 de novembro de 2010

A fronteira Ocidental do Império – um texto idiota e ABSOLUTamente inverosímil


Pinhão. 07 Agosto (sem ano definido)

39º (à) sombra. Um calor tórrido abate-se sobre o vale, uma irrespirável onda térmica, comprimia os seres, atrevidos ou sem abrigo (turistas?), entre a terra e a espessa nuvem de fumo (prenúncio de fogo invasor) que pairava sobre o rio, que apagava o Sol, e aprisionava a respiração colectiva e ofegante de quem emergia da gare, das sombras do rio e das margens, paradas no tempo, suadas por este Verão insuportável para os Continentais, e para todos!
Nem as águas paradas do rio, permitiam refrescar a imaginária brisa que ousara subir águas acima, mais de cem quilómetros em marcha invertida (lembrei-me logo daquela história dos três rios que combinam, na manhã seguinte partir para o mar – há muito, muito tempo bendita escola primária), o Douro é dorminhoco, acorda tarde e parte em louca corrida entre falésias, sempre acontece aos atrasados.
Nada, naquela tarde, fazia prever um rio assim, nem hoje, nem nunca. Estava plano, reflexo do amarelo das nuvens, do amarelo e verde das encostas, apenas esporadicamente sulcado por um jet ski em piloto automático, dançando, e provocando o rio, que se encolhia ondulando-se, de forma tão preguiçosa que o calor crescia numa intolerável assumpção de poder dominante.
Mas não é um vale qualquer, maravilha da Terra, vinho do Porto, uma bênção do Império!
Yung, (nome do qual se desconhece a origem e o significado) encolhe-se por detrás da portada da sua loja 33.456, região 10, país 49, entreposto 115/49, porque o raio do calor lhe entope a mente e lhe entorna as fontes.
Enquanto os locais se fechavam nas tabernas esquecidas pelo Império (únicos estabelecimentos absolutamente locais sobre os quais não havia instruções centrais nem conhecimento enciclopédico), Yung conformava-se com o seu destino de guerreiro de terracota, enterrado na fronteira do fim do mundo; controlava o comércio local neste pedaço de território, mas não pertencia à elite da pirâmide que controlava, recolhia e exportava o ouro tinto deste vale encantado, uma pérola desabitada mas apreciada além-mar, terra do Sol Nascente.
Vinha longe ainda a azáfama da vindima, único momento em que este desterro se povoava de populações indígenas e de outras regiões ainda mais periféricas, em que os barcos desciam o rio na direcção correcta, em que se sentia parte da grande marcha do progresso.
Entretanto o seu depósito de mercadoria diversa, destinada aos bizarros gostos da população local (mas também aos ilustres turistas à procura de símbolos que comprovassem a sua passagem pelo vale e pelo território), coloriam a rua deserta com bandeiras lusitanas, incrustadas de pagodes, violas de plástico enfeitadas com os emblemas dos clubes de futebol (estranha e imprudente paixão dos autóctones que os fazia ferver e soltar-se perigosamente de uma letargia dominante), galos de Barcelos e Nossas Senhoras de Fátima luminosas e incandescentes, para além de tudo aquilo que os locais poderiam querer e imaginar, e há muito tinham desistido de produzir e vender!
Cinco da tarde, e o imponente mas decrépito comboio a vapor semanal apitava na gare dos azulejos azul lusitano, lançava um rasto de fumo negro sem odor, combatia o calor com o fumo, uma espécie de contra fogo aos incêndios florestais que continuavam a proliferar neste desabitado pedaço de mundo, sem que Yung percebesse porquê nem como!
No varandim traseiro que vislumbrava da ombreira da sua porta, reconhecia a identidade dos novos turistas, silhuetas familiares de quem prosperava no centro do novo mundo e recolhia, em fotografias digitais, as maravilhas naturais e culturais do velho mundo, os troféus conquistados à Antiguidade Ocidental, valiosos no prestígio exibido em regresso a casa.
Bah! Não iriam parar hoje na sua loja, à procura das recordações locais – exasperava Yung
Alguém, a oriente da linha, iria tirar partido do atraso da composição.
Alguém aumentava a probabilidade de uma menção honrosa e de progressão na pirâmide territorial, responsável do entreposto 115/49, quiçá?
Bah! Maldito sejas Yang (nome do qual se desconhece igualmente a origem e o significado).
Na taberna da Gare, os poucos homens que por ali deambulavam em torno de minúsculos recipientes de vidro que exalavam álcool em ondas, vociferavam para um visitante ocasional, sem grande convicção, todavia!

- Nós não estamos no rabo do mundo! Quer uma caixa de alfinetes? Não temos! Segue ao longo da rua e quando vir um tipo feio como … Aí tem. É a loja do Yung!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Barça, Gaudi e uma Nação (I)


É mais que um clube, é mais que um mero símbolo.
Barcelona reclama modernismo como uma bandeira, um desafio, mesmo um desaforo a favor da Catalunha, Estado Nação não fosse o Rei!
(E se o Rei fosse outro? Homem ou Estatuto?)
Gaudi, o vagabundo, mendigo do fim da vida, é o herói improvável, de refúgio para quem precisa de um símbolo, o símbolo da vanguarda!
Se o Rei foi/é/será consensual, com o desfecho fatal da guerra civil, a nação catalã foi suspensa!
(Um tutor que não dissolve a monarquia, mas que uniformiza um espaço geográfico – Nação? – sobre as cruzes da guerra dividida)
(União – Uniformização) um outro lado de uma moeda diferente!
Os grafittis recordam, que nem enterrado no museu da História, a Catalunha concede perdão.

~

Qual o efeito? Homem ou Estatuto?
Gaudi, o símbolo ressuscitado do modernismo catalão!



Como Picasso!
Como Dali!
Modernismo, Extravagância e ousadia.

A mesma guerra civil (ou teriam sido os anarquistas?) destruiu os planos de construção da Sagrada Família, e transformou-o (O) num mito e criou a discórdia eterna / o da interpretação hipotética do Mestre.
Estranha a contradição: podiam os anarquistas ser mais anarquistas que Gaudi?
Olé para a expressão “génios incompreendidos que só a morte redentora os liberta e os eterniza”
Desafio enorme à grande Nação (a espanhola?)!
Falta o Barça: Última irreverência de talentos, que se opõem ao interesse comum, que gere em função do padrão médio (vulgar?)
7 em 11 jogadores do campeão do mundo, representa o quê?
O Rei apressou-se a falar da União, espírito de sacrifício, um exemplo para a Nação…
Qual?
E se tivesse sido 11/11? A Nação teria sido outra?
Não foi afinal o resto do pé da ponta do corpo do apaixonado guardião do regime feito clube (também falamos do guarda redes) que salvou a Espanha do adversário?
Minuto (45;90)
Afinal não há proporções para uma vitória integral. Certo?
Algumas semanas depois, um milhão de catalães, nas ruas de Barcelona, contestou uma decisão do Tribunal, ofuscando-lhes a autonomia.
Afinal, proporção é proporção, e os catalães terão perguntado pelos avançados andaluzes!
Desafio, eficiência, ousadia, cores e bandeira: Camp Nou
Por vezes a mesma sobranceria dos vizinhos Castelhanos, cheio de amor-próprio e vaidade latente.
Já se sente!
É uma delirante cidade, onde se tropeça constantemente numa incontornável raiva criativa!


Avé!

sábado, 24 de julho de 2010

Menorca - a via alternativa



Menorca tem a dimensão apropriada para quem não tem uma ansiedade excessiva; gente que não transborda nunca para o nosso espaço vital, praias que fecham quando o parqueamento se esgota, cidades de dimensão e rosto com perfil humano, um campo que cheira a estrume, catorze mil quilómetros de muros de pedra, centenas de aldeias pré-históricas, uma civilização que vivia murada à beira-mar, nos montes quebra pernas e um mar de olhos verdes tão profundos que desassossega a alma de qualquer náufrago de terra firme!


Calas é um código de honra, com vontade própria e uns areais que nos destroem a iniciativa, aqui tão perto mas tão longe, que nos transtornam os sonhos de urbanos em baías de refúgio do Bom Selvagem, desnudadas de impressões digitais, impregnadas de paraíso, águas cálidas e pinheiros do Império Romano…quem disse que os romanos são loucos?


Calas é Menorca, razão que sobra para que acreditemos…grandes para quê?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Os retiros dos Deuses efémeros





Não é pressuposto entender, racionalizar os ambientes inevitavelmente labirínticos destes santuários da contemporaneidade, que tanto nos prendem ao óbvio como a um fio eléctrico pendurado numa tela branca alvejada por três borrões de tinta, com uma raiva ou uma paixão desesperada.
Não se entende porque nem tudo o que é arte tem de parecer sério, empolgante ou erudito; falta a tradição histórica dos verdadeiros clássicos, das verdadeiras categorias da Arte, conceitos estéticos dissecados pelo pó dos especialistas museológicos, pela eternidade fatalística com que nos habituámos a identificar \ maltratar \ adorar, tudo o que remotamente rime com ar.
Instinto e desespero, elementos e tridimensional, ícones de uma história recente, tudo é contemporâneo, tudo é parte do nosso direito (dos humanos) à criação segundo referenciais tão pessoais que se podem transformar em unipessoais, unívocos, sem público, sem nexo, incompreensíveis…
O fascínio pelo não conforme nasce do derrube sistemático das fronteiras, não, não é possível ir para além deste absurdo…já foi!
É uma desobediência bem sucedida, significado académico de iniciativa, cheio de becos obscuros e avenidas de uma urbanidade cósmica…
Mas não sei porquê, não escapo a nenhum destes templos da experimentalidade; reduzo-me à minha insignificância sensorial, rio de mim próprio e da minha ignorância, ressuscito os ícones do século 20, compro postais de Erró, pins do Che Guevara, livros de fotocolagem dos artistas checos dos anos 30 e saio temporariamente renascido das cinzas.
Até que a racional e previsível rotina do quotidiano nos destrua as defesas mais uma vez…
Esta é a única desvantagem dos fabulosos museus de Arte Contemporânea; São templos de Deuses efémeros, carecem de uma constante alimentação de fé, até que um dia se perca a noção do tempo, do analítico e das fronteiras do bom senso.
Conversão total!


quinta-feira, 4 de março de 2010

Santiago – A cidade que ousa desafiar


Santiago não se deixa conhecer num dia.
Porque não ambiciona ser exuberante e persegue uma necessidade de afirmação.
Das fronteiras, da sua identidade!
Estreita e comprida, Santiago é a cidade que se afirma como a americana.
Um desafio permanente aos vizinhos, sem compaixão.
Quarta-feira de manhã de Verão e sente-se a leve brisa dos Andes a soprar pelas ruas movimentadas do bairro de escritórios.
Vitacura pretende ser um elogio ao sucesso, ao trabalho e às riquezas naturais de um país, e à elegância e requinte, as torres de vidro.
- Estamos a construir o maior edifício da América, maior que o Empire State!
Não há calor na manhã da cidade. Por isso ninguém se lembra da boémia.
E a nossa voz de fundo, o Chile que abençoa os Andes que os separam dos vizinhos, esclarece que o bairro universitário, hoje vazio de Verão é o viveiro do futuro…
Afinal há sinais de boémia na cidade…até irreverência!
Esporadicamente entrecortada por lembranças de um passado recente:
As camufladas casas de tortura do regime militar.
Em ruínas…de propósito, impossíveis de reparar por decreto. Reminiscências?
Lembra-me as ruínas na capital dividida de Berlim, no auge da guerra-fria; destroços que se afirmam como espelhos dos nossos (seus) próprios excessos, feridas que não se conseguem sarar, se não formos capazes de expiar os nossos pecados.
Exagero romântico!
Afinal de contas, Allende pode ter sido um governante sonhador, absolutamente destituído de sentido prático, mas é muito mais sedutor que o General.
Contudo, não se vislumbra na nossa superficial memória visual, algum substancial vestígio de trauma colectivo. Talvez uma paz negociada, por falta de consenso!
Casa de la Moneda: Outrora símbolo, actual residência da bem-aventurada Presidente.
95% de aprovação, dizem eles!
E mesmo assim é obrigada a abdicar…os tempos modernos têm um medo horrendo de perpetuar mitos, sobretudo na Latina América.
Palácio La Moneda…
É um palácio urbano, encurralado na cidade (como conseguiram bombardeá-lo, entre os prédios, a cidade e o povo?), em sintonia com o país, sem jardins que o rodeiem, e que turvem a visão aos governantes…
Allende, presidente eleito, tem aqui o seu espaço de memória, entre o palácio e o Ministério da Justiça.

E ninguém estranha que o bombardeemos de fotografias, habitantes desta cidade que se vestem de bancários e funcionários, e que não se abandonaram aos prazeres do Verão na costa, para os lados de Valparaíso.
Ao que consta, políticos e magistrados já foram.
Restam as referências católicas.
Uma freira solitária nas ruas de Santiago, caminha apressada para a Praça das Armas, uma verdadeira inspiração fotográfica. A praça!
Foi aqui que tudo começou; a cidade, o país, a encarniçada disputa com os índios pela posse de uma terra que não pára de tremer, que nunca parava de tremer.
Ontem à noite foram dois abalos, garantem!
A melhor memória ao passado sangrento é o povo mestiço que povoa a praça.
Quinhentos anos depois o presente testemunha que não houve vencedores; extintos ou imersos, os donos dos bosques e das armas, fundiram-se numa nova raça!
Pedro e Inês estão presentes na Praça, na Catedral erigida, mas não era possível ignorar os índios, os espíritos de um país que não chegou a ser: eles vigiam-nos de perto, na entrada Sul da Praça, estupefactos pela petrificação abstracta a foram sujeitos, mas conformados porque a pedra é o destino final de todos os heróis. Também de Pedro e Inês.
Em breves ângulos de exposição do Sol, rendemo-nos à evidência de ser uma Praça espanhola… mas nos profundos e demorados ângulos da sombra, perdemos a certeza e as referências europeias.
Fantasmas ou povo?
Não há gritos mapuche no ar, os cães não ladram mais e o único conquistador a cavalo, também ele petrificou, no extremo Norte da Praça!
Norte, Sul, parece evidente que ninguém abandona já, esta terra!
Praça de Armas, inspiração fotográfica e memória contundente.
Quando revejo as chapas (sim, fotografamos com chapas), os vendedores ambulantes de sonhos e bugigangas desapareceram e sentimos as inexplicáveis sombras…ou talvez seja a brisa que é inexplicável nesta manhã de Verão?
Fantasmas ou povo?
Na altura, povo diria!
Em flashback, fantasmas certamente!











Bellavista, finalmente a reconfortante boémia, sonolenta, preguiçosa e causticada pelo Sol, cores tropicais e latinas, casas térreas e arte popular, apelando ao Pisco Sour e à cerveja gelada.
Afinal sempre deve ter havido bosques frondosos!
Atravessando o rio Mapocho…Ah, terra de selvagens, para lá do forte!
Estivemos na casa de Neruda! Uma das três casas de Neruda, uma das três paixões do poeta:
Matilde, entre outras!
O poeta precisa de inspiração e liberdade, só podia ser Bellavista!
Por isso, morreu três semanas depois do golpe de estado.
Misteriosamente…afinal a pedra não é o destino final de todos os heróis. Nalguns, a mente e a pena (símbolo da escrita) gravam a nossa memória de recordações doces e sentidas.
Mas vista de cima, a cidade parece nunca ter sido bosque, o Sol está demasiado alto para alaranjar os Andes, e o fumo que não se vê mas se sente desvanece as cores e presenteia-nos uma cidade cinzenta aos nossos pés:
Sathanattan? Nãa!
A diva de quarenta, descansa o olhar delgado e as coxas can-can sobre a cidade.
A bicicleta vigia-a, e um olhar furtivo descortina cor na cidade entre os raios da roda da frente.
A Diva e a sua montada. Momento fotográfico…digital!
Concéption, dixit!



Descemos à terra no mercado central.
Entre o peixe do Pacífico e a Centolla universal, o mercado é um momento de cheiros e sabores fortes, uma babilónia onde não se distinguem os que compram e os que vendem, pratos com sabor a música chilena que ecoa na abóbada das esplanadas interiores…
Escapa-se por debaixo das cadeiras e dos menus, trepa nos pilares metálicos, surpreende-nos em todas as esquinas, todos iguais e um som inconfundivelmente diferente.
Na hora do almoço, os estridentes e gelados picos dos Andes, tinham descido à praça.
Não havia flautas, mas violas que competiam pelo reconhecimento e pelo espectáculo.
Almoçámos Santiago no mercado central!
Só o vinho branco do Chile, nos faria sentar junto à fonte – lavagem dos legumes? -reconhecendo, na música, a originalidade de uma cultura e na comida, o apelo do mar!
Mesmo que Santiago não se deixe conhecer num dia.





Nem em dois…
Dupla personalidade na baixa, é o sentimento de Sábado à tarde na mesma cidade. Deserto humano, primeiro e uma repentina enxurrada de gente que não pertence ao mesmo filme.
De onde vêm? Para onde vão?
É Sábado à tarde e os subúrbios desceram à rua, agitam-se num só sentido e despovoam as ruas em redor.
Uma súbita sensação de América Central: as hordas incas que desceram do Peru?
Era tempo de espreitar os conspiradores no Rincon dos canalhas!
Chile libré! Seria a verdadeira senha?
Nunca se soube. Debalde!
Uma velha de vassoura na mão, exclui-nos do bar, deste pequeno pedaço de clandestinidade.
Tínhamos chegado demasiado cedo e não tínhamos sido devidamente recomendados. Ninguém sério procura secretas conspirações pela Internet.
Mas juro que vi, por cima do cabelo palha-de-aço da velhinha antipática (e amedrontada?), Allende e o camarada Che a sorrirem sobre um fundo de bandeira do Chile livre.
Roubei-lhes, num vislumbre, o seu olhar e toda uma revolução!
Como água para chocolate. O não último jantar em Santiago na cama, com Laura Esquível!
Todos comeram na mesa, feita cama dela; no bairro da Bellavista, a dois quarteirões da casa de Neruda, o Pablo na casa da Matilde…ou a virgem mãe…Poetas!
O pisco sour, aguardente chilena, recorda-nos que todos somos livres: temos plata e passaporte e não tenho perro (cão) que ladre. Uma vez mais dixit!
Força Chile!


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

S. Pedro (Perro) de Atacama – o deserto das estrelas


S. Pedro, uma terra de mochileiros, tão diferentes entre eles, mas tão vivos e presentes.
Alguns são apenas revivalistas da mochila, sedentos absolutos do conforto e do bem-estar, no centro de uma verdadeira aventura, remotas latitudes, exóticas referências!
Como Calafate, Cahuita e Canoa Quebrada, icons (presentes, passados, futuros?) dos viajantes solidá(tá)rios, um regresso às origens ou a expiação colectiva das suas inquietações burguesas ou solidões profundas.
Na praça da igreja, um largo do coreto tão recôndito como familiar, a aldeia reinventada no sopé dos andes, passeia-se ao fim da tarde e prepara-se o cinema ao ar livre.
Cine Paradiso na noite fresca de S. Pedro.
Caracoles ao anoitecer é o centro da diversidade, onde se reúnem os contadores de histórias do mundo inteiro à volta de um braseiro, os viajantes são assim, mesclam experiências e são apenas pescadores de sensações com uma contextualização pouco precisa.
Chegam e partem dos cumes e dos vales; uma aventura em ambiente controlado!
Impossível de definir um padrão, uma origem, porque não há uma fronteira social entre os autóctones e os forasteiros.
Apenas na fisionomia andina…alguns!
Sente-se ainda no ar os cheiros e as sensações de uma última fronteira.
A Bolívia é já ali ao lado, por detrás do Licancabur, 45 quilómetros de encosta íngreme, uma estrada que se adivinha esburacada sem controlo de fronteira. Ninguém quer ir para lá! – Dizem eles
Argentina, um pouco mais a sul, Paraguai, em entreposto para chegar ao Brasil!
A música andina entope a rua, construída de sal e areia, intermitentemente iluminada por candeeiros amarelos, homenagem às cores do deserto, um suave contraste com o barro das cercas, das paredes e dos pátios, heranças de influências múltiplas:
Andes, deserto e colonização espanhola.
A noite é curta no deserto e a Via láctea é o lençol iluminado (a nuvem?) que nos fecha os olhos!
Géisers e fumarolas a 4,300 metros.
Acordados desde as quatro da manhã, tivemos saudades das furnas dos Açores.
A actividade geotérmica estava dormente, porque a temperatura do ar era demasiado alta…diziam eles!
3º Graus é muito calor – dizem eles
Uns fumitos e uma aguazita a espirrar.
Não ousamos troçar da natureza no seu estado puro, mas aquele banho matinal nas águas quentes (e sabe-se lá mais o quê) das termas de margens lamacentas sofre de tendências depressivas, multidão de cabeças espetadas no vapor e flutuando sobre as sombras da água, no limite da indecisão entre o riso e o choro.



Os fatos de banho ancien regime deviam ser proibidos, porque interferem com a vida selvagem!
Agora entendemos porque é que o pico que circunda o vale geotérmico se chama choro do avô!
Pobre avô!
A descida pelas encostas, montanhas abaixo, tão deserto, riachos cheios de verde, pontes que não existem.





Uma aldeia recôndita, sem nome que deixe recordação ou lembrança!
Uma fotografia do lama bebé órfão que bebia biberão custou 1000 pesos.
Afinal o lama não era órfão, mas a igreja era linda!
O intervalo da aventura do dia, chama-se sopa de beterraba fria, de frente para o Licancadur, sala de almoço no Tierra Atacama, arquitectura minimalista, sem traves mestras, só vidro, paisagem e vulcão.
O mais famoso dos vulcões.
O vale da Muerte (que devia ser Marte se não fosse um equívoco linguístico) é o princípio da última experiência de deserto.
A primeira verdadeira experiência do deserto no seu estado natural: absoluto inóspito.
Gargantas profundas esculpidas pelas águas, gelo, vento, lava e sedimentos, montanhas esculpidas de areia e sal, encostas arenosas que escorregam só de olhar, formas bizarras esculpidas no ar e na terra…
O Vale da Lua!

Dizem que é o lugar mais seco do mundo. Dizem!
Sublime a não cor, a forma da lua nas rochas, um arrepio na cordilheira dorsal …
Nossa ou do deserto?
Inesquecível a versão Atacamenha da Lua.
Começam a juntar-se os adoradores do Sol Poente, dançarinos da areia e do monte, adivinham-se os pés descalços e as plantas alucinogénicas, capazes de tatuar (sem possibilidade de remoção) as cores do Sol a despedir-se das montanhas, dos vales …
…oásis, vulcões, lagos salgados e…areia!
Pôr-do-Sol no deserto!
Andes pintado de tons laranja que mudam a cada momento, a cada ângulo.
Oásis de S.Pedro deita-se no planalto e o deserto capricha em formas e cores, amarelo, laranja e tons desconhecidos, porque não os há noutros lugares.
Deserto é vida!
Deserto é extremo!
Inenarrável a despedida do Imperador dos elementos!
Causará danos irreparáveis nas partes mais sensíveis do cérebro?


Atacama – o deserto das estrelas


O céu que cega os sentidos, é a primeira sensação do deserto.
Via Láctea, as Três-Marias…
Os camiões sulcam o deserto que se pressente na escuridão, e pressentem-se as maiores minas de cobre do mundo.
A chegada à cordilheira dos Andes é visível a quilómetros, pelos vultos luminosos que se confundem com as estrelas dos alucinantes monstros do asfalto…
E a distância entre os portos do Pacífico e as grandes metrópoles do interior Atlântico, torneando as cordilheiras, afrontando os cumes dos vulcões extintos
Bolívia, Paraguai, Peru e Argentina, refazendo as áridas rotas de Pedro de Valdívia.
São as novas fronteiras que se cruzam no Atacama!
O deserto em movimento, dominado pelos faróis da estrada e pelas estrelas do céu.
Depois, vem o silêncio; o deserto longe da estrada.
E no fecho da trilogia dos sentidos, o cheiro: a seco, perfumado e (particularidade deste deserto) a vento, 2,200 metros de altitude ventosa e resfriada.

De manhã, nasce um outro deserto.
Quente, vermelho, os vulcões que assomam do cimo das fronteiras, imensidão que se vê, as distâncias que não se entendem.
Tão perto (que parece), tão longe (que é).
Miragem indiscutível
Acordar com o vulcão Licancabur aos pés da cama!
Inactivo, mas com 6,000 metros de imponência, num absoluto contraste ente a terra de cor indecisa e o céu de um azul que não é cor de mortais!
O oásis dilui-se progressivamente no asfalto intermitente, nos muros altos que bordejam as árvores frondosas, os rios subterrâneos, primeiro, substituídos por arbustos, depois por umas penugens secas, tão inóspitas quanto o horizonte, por fim pedras e areia cinzenta.
Oásis, deserto, bosque inacabado, oásis Toconao.
Tudo o que se imagina num oásis: uma igreja – missionários que não se detinham na sua missão evangelizadora, pela ausência de crentes – pó que se entranha na vegetação que ousou nascer, um repositório de todo o lixo que o deserto rejeitou, uma luta que se vislumbra entre a civilização e as forças da natureza.
Um lama no curral e uma cabra que se passeia no banco de jardim, patas atadas por precaução de quem as conhece.





Mas tem gente; brinquedos esquecidos no quintal da senhora de idade, um tear que se prepara para trabalhar e a velhota da loja dos souvenirs, também dona do lama, da cabra e provavelmente das crianças que abandonaram o quintal, em defesa da sobrevivência do negócio.
É um cenário de purgatório geográfico e humano.
Antes do deserto que não tardou a afirmar-se como dono do planalto.


Salar de Atacama: uma imensidão de caprichos da natureza (ou o fascínio pela obra da criação e transformação do mundo), o terceiro maior lago salgado do mundo, o coração do deserto nas alturas, afinal o deserto tem vida
Flamingos, os donos dos pequenos lagos do Salar
A subida para as lagoas altiplanas, faz-se de medo das alturas e de transição de estado…o deserto que se perde nos cumes da cordilheira continental, simplesmente Andes!
4200 metros de altitude, lagoas de azul impossível, que competem com o céu e os vulcões.
Dizem que há alguns milhões de anos, a actividade de todos estes vulcões, correspondia a um terramoto de 40º…
Muita animação nos primórdios do mundo.
E ficaram duas lagoas…o vento assopra-nos os sentidos, um bando de vicunhas desce a encosta até ao lago, para matar a sede, um vulcão extinto de 5900 metros de altura vigia a vida animal do lago, do vale e das encostas sobranceiras.

Afinal, parece que o grande explorador dos interiores inóspitos, Pedro de Valdívia, passou apenas no vale e não conheceu este cenário do nosso mundo.
Pena para ele, e uma sede mortífera para os seus comandados que se perderam e reencontraram nos recantos mais secos deste planalto de Atacama.
Um problema de definição de fronteiras?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Punta Arenas - O outro lado do canal



Punta Arenas é o testemunho de que o Chile é o dono do Estreito da Magalhães.
Sem possibilidade de disputa.



Eles fizeram questão que esta fosse uma sinóptica lição de História.
Na fronteira do estreito e do país!
Os factos revelam a apetência pelo Sul, a vista do morro Norte desvenda uma ambição traçada em avenidas largas e desenhos geométricos.



Uma colonização precoce, famílias poderosas, casamentos de conveniência, fortunas colossais feitas com o ouro branco – a lã dos carneiros do Sul!
O português José Nogueira que não resistiu ao apelo do estreito, enriqueceu e casou com a Diva, Sara Braun
O regresso do espírito português ao estreito…o fascínio pelas terras frias, encontro de mares e de trajectos!
Sara Braun, a benfeitora, adoptou a dois terços da Terra do Fogo como se fosse riqueza de berço, construiu o seu palácio para a posteridade e ofereceu a si própria a porta para a eternidade.



O cemitério de Punta Arenas é a prova da riqueza vivida: alamedas sumptuosas, ultimas residências de pedra trabalhada.


Ironia que este seja o museu vivo do espírito de conquista do inóspito!
Irónico e um pouco desconfortável.
Mas também a diversidade cultural de um povo de imigrantes, que aqui descobriam o fim da linha.
Na cidade e no estreito!
La Luna é um momento zen na fronteira do estreito.


Mensagens de postais ilustrados, dos viajantes que gostam de deixar troféus e bilhetes em todos os confins, ou onde lhes seja permitido.
Uma eslava almoçava sozinha junto à janela
Almoçava, escrevia bilhetes, e complicava as referências geográficas.
Ela não era daqui.
- Todos nós temos amigos com apelidos croatas, croatas imigrantes que fugiam do conflito dos Balcãs, com data 1ª guerra mundial
Afinal era de cá
Pareceu-me que não falava dialecto local
Viajante à procura das origens?
A lua nascia sob a forma de candelabros, posters azuis e amarelos.
O restaurante enchia-se, perdia o silêncio mas conservava o teor multicultural.
A eslava esperava o par!
A língua espanhola traiu a nossa dúvida.
Croata – concluiria algumas horas mais tarde
O único povo imigrante com direito a monumento na cidade.
Sobreviveu a Tito – o Marechal – a uma guerra civil e a muitos anos de não afirmação da diferença entre expressões de nacionalismo balcânico.

Mas…
O ouro branco que se transformou simplesmente em lã
O canal do Panamá que destruiu as rotas épicas e a aventura
A vitória da engenharia sobre os pântanos
Os indígenas absolutamente extintos
Hoje…
A cidade vive da distância, da inevitabilidade de ser periférico,
Um destino que não é fado, é o outro lado do óbvio!
É uma reputação que perpetua o fascínio das rotas quase incólumes, o dom da natureza e do desafio à coragem humana…
Também é possível viver assim!




Quando partimos para Norte, recordo-me do símbolo do Sol Nascente, atracado no estreito, atrás do Via Australis.
E entendi porque a baleia solitária da madrugada anterior, se manteve tão à distância…não teve tempo de verificar as cores da bandeira!
Boa sorte, mamífero (quem tem coragem de lhe chamar selvagem?), porque os predadores andam por perto!
E a Patagónia desvanece-se a Sul, no horizonte azul e frio
Paragens do outro mundo!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ushuaia – O princípio do fim do mundo



Bem-vindos ao Aeroporto Internacional das ilhas Malvinas, em Ushuaia – estas simbologias não podem ser ignoradas!
São reveladores de um povo – Um dos aeroportos mais bonitos do mundo, segundo especialistas independentes!
Nas portas do fim do mundo, revela-se uma activa e agitada marcação de fronteiras (os chilenos não se esquecem de classificar um condutor desastrado como um tipo mais perigoso do que um argentino a desenhar fronteiras!) e pressente-se uma afirmação de princípio, que o fim do mundo a Sul lhes deve prestar vassalagem.
Ushuaia, a cidade mais ao Sul do mundo, debruçada sobre o canal de Beagle, fim do mundo, Terra do Fogo.
É um bilhete de identidade impressionante.
E o canal de Beagle, que entra pela cidade adentro, numa baía reconfortante, num porto que recebe, alimenta e incentiva os aventureiros da Antárctida, os cargueiros ferrugentos que sulcam os mares esquecidos do Sul, longe do tráfego e das grandes rotas mundiais.
Os cumes gelados enquadram a cidade nas suas costas, dando-lhe um ar mágico, majestoso, donos da última fronteira, na terra e no mar.
À medida que nos afastávamos da baía para o canal, à procura do farol mais fotogénico do mundo, sonhando com os leões-marinhos e outros seres flutuantes, tomámos consciência da força do mar, ausentes nos lagos, virtual na terra.
O apelo do marinheiro ou do adorador do mar.
Aventura ou contemplação?
É, desde logo, o cheiro a maresia e as marés, a ondulação ou a crispação, os cargueiros que povoam os portos…
Sim, os portos!
Visto ao longe que se afasta, Ushuaia revela-se aos leões-do-mar, um porto de abrigo sem mácula, encosta acima, cores vivas, os seus guardiães brancos.


É assim que se criam os mitos.
A cidade torna-se mais pequena, mesmo minúscula, mas o canal não a abandona.
Os aviões continuam a aterrar no aeroporto, a pista debruçada sobre o canal!
A vida marinha no canal é fascinante: tão perto e tão selvagem
Os leões-marinhos são os reis da ilha dos Lobos, lentos, preguiçosos, conscientes de quem manda e porque manda.
Umas aves tipo pinguim são os hóspedes dos lobos, mas ocupam os lugares menores.
A vida selvagem tem códigos próprios…
O mar agita-se e a vida descobre-se: albatrozes, gaivotas…
E o farol deixa-nos aproximar dele, contorná-lo, fotografá-lo.


Pudera; é o farol do fim do mundo!
Mas é lindo, cheio de significado, provavelmente com pouco uso!
Mas o estilo e a personalidade não se perdem com a falta de uso.
Está frio no fim do mundo!
E irá nevar nas encostas da cidade.
Mas em terra, Ushuaia torna-se menos personalizada, mais anárquica e mesmo, por vezes, miserável… quatro quadras acima do mar!
Falta de ordenamento e incapacidade de resposta dos organismos públicos – dizem eles
Terra franca, e a conquista desenfreada (e necessitada) do Sul, explicam as barracas que pululam na cidade, hoje aqui, amanhã no morro de cima.
São os fenómenos do Far (West) South!


Mas estão longe os tempos da colónia penal, uma moda de povoamento forçado que perdeu adeptos (e ganhou opinião pública) após a segunda guerra mundial.
Mas transformar o inóspito, longínquo e desesperado em terra de oportunidades não tem sido, certamente óbvio (pelo menos sempre)
O tunning ganhou adeptos nas ruas de Ushuaia…e há mais que um!
Moda de longínquo Sul? Ou um reflexo de baixa auto-estima esporádica?
Sonhamos com as expedições Antárcticas, debruçados sobre as luzes da cidade, o temporal e a neve nesta noite de Verão que começa tarde mas é gélida!


Circulamos em torno de nós próprios e aproveitamos a luz até ao último suspiro.
Do dia, da neve nos montes, dos barcos enferrujados na água…
Uma rua, uma fotografia ou simplesmente inspirar o ar gélido que provém do sul.
São 23:00 horas, e não é nada vulgar respirar um fim de tarde destes em lado algum.
Vista do alto, a noite invade o vale, as luzes despontam da terra, mas os montes, ao fundo, permanecem brancos.
Custa fechar os olhos, seja pelo que for, é um local mi (s) tico!
Por isso (ou provavelmente não) fomos expiar as culpas do fim do mundo…de manhã, neve e Sol, tudo muda na fronteira dos 400 metros de altitude.
O Tren de Fin do Mundo conta-nos a novela dos mau maus agrilhoados às barras do comboio.
Hoje, os maquinistas Avelino e Marcelo não nos chicotearam mas também não nos sorriram…nem os vimos!


Chegámos ao final da ruta 3, 3079 quilómetros da beleza impura que se chama Buenos Aires.
Menos místico, mais postal…e a certeza de que afinal não éramos presos do fim do mundo, mas com sabor a novela na boca.
O parque Nacional, provavelmente um paraíso para os naturalistas convictos, e coleccionadores de tesourinhos deprimentes!
A Centola na Tia Elvira - e um vinho branco argentino com muitos graus acima da latitude de Ushuaia - supremos consolos para a alma, a olhar o Via Australis….

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Os Glaciares do Lago Argentino – A vertigem azul



Visto do ar, o lago Argentino é azul, uma cor tão clara como os olhos azuis, mas tão baça como os cinzentos; não se revê em nenhuma outra referência da natureza!
Miragem ou pintura a óleo?
O princípio da descida do pássaro mecânico das Aerolíneas foi difícil, quase penosa, não fosse a visão fantasmagórica das lagoas, entre nuvens e a turbulência Patagónica, o susto do voo rasante sobre a meseta, porque o dia estava bonito, a temperatura fugia do Verão argentino, em direcção ao frio e a paisagem mudara sem avisar.
Depois das pampas, a grandiosa Patagónia, província de Santa Cruz, um território de tremenda dimensão, somente 225,000 habitantes…
Esta geografia declamada ajudou-nos na aculturação a esta terra normalmente monótona, árida e plana, mas surpreendente na água e no gelo.
El Calafate, o entreposto comercial, posto de mudança de carroças de transporte.
El Calafate a planta que era utilizada para calafetar os fundos dos barcos, dos enormes rebanhos à solta, vacas mas sobretudo carneiros e o personagem que já foi dominante:
Gaúchos?
O arame farpado e a queda do preço mundial da lã arruinaram-lhes o futuro.
Reconversão ou extinção!
O futuro tem chegado todos os anos, primeiro só no Verão, hoje todo o ano.
Cheira de facto a estância; a rua que se sobe e desce após o anoitecer tardio, vezes sem conta, antes da aventura do dia seguinte, depois do degelo de hoje…
Os amantes e os loucos da natureza, do trecking, das emoções fortes também se pavoneiam neste povoado que já se assume com 25,000 habitantes…mas que é uma rua à beira do lago Argentino, cordeiro assado à Patagónia, reminiscências a chalé suíço, com chuva todos os dias e montes com cumes gelados, os Andes ao longe, setenta quilómetros de referências índias:
A índia adormecida.
O monte dos elefantes.
A cidade parece querer recriar em todos os cantos a simbologia da recuperação da cultura e tradições indígenas.
Mas não consegue!
Nada naquele lugar nos faz lembrar sequer a sua existência de forma consistente.
Calafate é de facto, e sobretudo um entreposto para o gelo, uma fantástica maravilha da natureza.
Imagine, é a música escolhida para nos apresentarem Perito Moreno, a vertigem azul!


A adoração durou quase dois dias; de barco, longas esperas pelos blocos de gelo que deviam permanentemente lançar-se nas águas do lago, contemplação sem horário, pasmo pelo que se via, pelos estrondos que laceravam o silêncio gelado, caminhando nas margens verdes …
Apercebemo-nos que cada pedaço de gelo que caía no lago, poderia ter sido gelo durante 2,000 anos…
…E a pressão dos blocos originava ar comprimido,
O que mais impressiona não é a imensidão do branco, mas os filões de um azul tão intenso que até dói.
Com Sol, mas também com chuva, vento ou frio.
A vertigem do azul!
35 Quilómetros de comprimento, uma enorme parede branca de 70 metros de altura, uma massa de gelo viva que se move permanentemente.


Perito Moreno, Upsala e Spegazzini são santuários que resistem ao degelo da Terra,
Na época glaciar tudo era gelo neste confim do mundo!
Branco, azul, massas gigantes que parecem imóveis, mas que estão vivas, e narrá-las pressupõe que sejamos capazes de nos abstrair das estatísticas e dos recordes, da teoria do aquecimento global, e da maldade feita Homem.
Com espumante argentino, é a melhor forma de narrar Perito, uma despedida ao fim da tarde, ao longe, longe das entranhas que inspeccionámos cuidadosamente, uma a uma, minuto a minuto, durante um dia sereno de contemplação e desfrute!


Bom gosto argentino e uma veneração respeitosa às dádivas da natureza.
Ecologismo no seu estado mais puro: sem panfletarismo nem teorias conspiratórias.
O cordeiro patagónico, assado naquela brasa especial (três horas ao lume), o vinho tinto de 15º, que larga lágrimas pelos pedaços de gelo caídos hoje, lembra-nos (quando nos lambuzamos nele) que, apesar de não durarmos dois mil anos, como o gelo do glaciar, estamos mais quentes (aquecimento global?) e desfrutamos muito mais!
Uma forma alternativa de ecologismo!
Até o fogo que assava lentamente o cordeiro me fazia lembrar a vertigem azul!