Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 4 de março de 2010

Santiago – A cidade que ousa desafiar


Santiago não se deixa conhecer num dia.
Porque não ambiciona ser exuberante e persegue uma necessidade de afirmação.
Das fronteiras, da sua identidade!
Estreita e comprida, Santiago é a cidade que se afirma como a americana.
Um desafio permanente aos vizinhos, sem compaixão.
Quarta-feira de manhã de Verão e sente-se a leve brisa dos Andes a soprar pelas ruas movimentadas do bairro de escritórios.
Vitacura pretende ser um elogio ao sucesso, ao trabalho e às riquezas naturais de um país, e à elegância e requinte, as torres de vidro.
- Estamos a construir o maior edifício da América, maior que o Empire State!
Não há calor na manhã da cidade. Por isso ninguém se lembra da boémia.
E a nossa voz de fundo, o Chile que abençoa os Andes que os separam dos vizinhos, esclarece que o bairro universitário, hoje vazio de Verão é o viveiro do futuro…
Afinal há sinais de boémia na cidade…até irreverência!
Esporadicamente entrecortada por lembranças de um passado recente:
As camufladas casas de tortura do regime militar.
Em ruínas…de propósito, impossíveis de reparar por decreto. Reminiscências?
Lembra-me as ruínas na capital dividida de Berlim, no auge da guerra-fria; destroços que se afirmam como espelhos dos nossos (seus) próprios excessos, feridas que não se conseguem sarar, se não formos capazes de expiar os nossos pecados.
Exagero romântico!
Afinal de contas, Allende pode ter sido um governante sonhador, absolutamente destituído de sentido prático, mas é muito mais sedutor que o General.
Contudo, não se vislumbra na nossa superficial memória visual, algum substancial vestígio de trauma colectivo. Talvez uma paz negociada, por falta de consenso!
Casa de la Moneda: Outrora símbolo, actual residência da bem-aventurada Presidente.
95% de aprovação, dizem eles!
E mesmo assim é obrigada a abdicar…os tempos modernos têm um medo horrendo de perpetuar mitos, sobretudo na Latina América.
Palácio La Moneda…
É um palácio urbano, encurralado na cidade (como conseguiram bombardeá-lo, entre os prédios, a cidade e o povo?), em sintonia com o país, sem jardins que o rodeiem, e que turvem a visão aos governantes…
Allende, presidente eleito, tem aqui o seu espaço de memória, entre o palácio e o Ministério da Justiça.

E ninguém estranha que o bombardeemos de fotografias, habitantes desta cidade que se vestem de bancários e funcionários, e que não se abandonaram aos prazeres do Verão na costa, para os lados de Valparaíso.
Ao que consta, políticos e magistrados já foram.
Restam as referências católicas.
Uma freira solitária nas ruas de Santiago, caminha apressada para a Praça das Armas, uma verdadeira inspiração fotográfica. A praça!
Foi aqui que tudo começou; a cidade, o país, a encarniçada disputa com os índios pela posse de uma terra que não pára de tremer, que nunca parava de tremer.
Ontem à noite foram dois abalos, garantem!
A melhor memória ao passado sangrento é o povo mestiço que povoa a praça.
Quinhentos anos depois o presente testemunha que não houve vencedores; extintos ou imersos, os donos dos bosques e das armas, fundiram-se numa nova raça!
Pedro e Inês estão presentes na Praça, na Catedral erigida, mas não era possível ignorar os índios, os espíritos de um país que não chegou a ser: eles vigiam-nos de perto, na entrada Sul da Praça, estupefactos pela petrificação abstracta a foram sujeitos, mas conformados porque a pedra é o destino final de todos os heróis. Também de Pedro e Inês.
Em breves ângulos de exposição do Sol, rendemo-nos à evidência de ser uma Praça espanhola… mas nos profundos e demorados ângulos da sombra, perdemos a certeza e as referências europeias.
Fantasmas ou povo?
Não há gritos mapuche no ar, os cães não ladram mais e o único conquistador a cavalo, também ele petrificou, no extremo Norte da Praça!
Norte, Sul, parece evidente que ninguém abandona já, esta terra!
Praça de Armas, inspiração fotográfica e memória contundente.
Quando revejo as chapas (sim, fotografamos com chapas), os vendedores ambulantes de sonhos e bugigangas desapareceram e sentimos as inexplicáveis sombras…ou talvez seja a brisa que é inexplicável nesta manhã de Verão?
Fantasmas ou povo?
Na altura, povo diria!
Em flashback, fantasmas certamente!






Bellavista, finalmente a reconfortante boémia, sonolenta, preguiçosa e causticada pelo Sol, cores tropicais e latinas, casas térreas e arte popular, apelando ao Pisco Sour e à cerveja gelada.
Afinal sempre deve ter havido bosques frondosos!
Atravessando o rio Mapocho…Ah, terra de selvagens, para lá do forte!
Estivemos na casa de Neruda! Uma das três casas de Neruda, uma das três paixões do poeta:
Matilde, entre outras!
O poeta precisa de inspiração e liberdade, só podia ser Bellavista!
Por isso, morreu três semanas depois do golpe de estado.
Misteriosamente…afinal a pedra não é o destino final de todos os heróis. Nalguns, a mente e a pena (símbolo da escrita) gravam a nossa memória de recordações doces e sentidas.
Mas vista de cima, a cidade parece nunca ter sido bosque, o Sol está demasiado alto para alaranjar os Andes, e o fumo que não se vê mas se sente desvanece as cores e presenteia-nos uma cidade cinzenta aos nossos pés:
Sathanattan? Nãa!
A diva de quarenta, descansa o olhar delgado e as coxas can-can sobre a cidade.
A bicicleta vigia-a, e um olhar furtivo descortina cor na cidade entre os raios da roda da frente.
A Diva e a sua montada. Momento fotográfico…digital!
Concéption, dixit!

Descemos à terra no mercado central.
Entre o peixe do Pacífico e a Centolla universal, o mercado é um momento de cheiros e sabores fortes, uma babilónia onde não se distinguem os que compram e os que vendem, pratos com sabor a música chilena que ecoa na abóbada das esplanadas interiores…
Escapa-se por debaixo das cadeiras e dos menus, trepa nos pilares metálicos, surpreende-nos em todas as esquinas, todos iguais e um som inconfundivelmente diferente.
Na hora do almoço, os estridentes e gelados picos dos Andes, tinham descido à praça.
Não havia flautas, mas violas que competiam pelo reconhecimento e pelo espectáculo.
Almoçámos Santiago no mercado central!
Só o vinho branco do Chile, nos faria sentar junto à fonte – lavagem dos legumes? -reconhecendo, na música, a originalidade de uma cultura e na comida, o apelo do mar!
Mesmo que Santiago não se deixe conhecer num dia.



Nem em dois…
Dupla personalidade na baixa, é o sentimento de Sábado à tarde na mesma cidade. Deserto humano, primeiro e uma repentina enxurrada de gente que não pertence ao mesmo filme.
De onde vêm? Para onde vão?
É Sábado à tarde e os subúrbios desceram à rua, agitam-se num só sentido e despovoam as ruas em redor.
Uma súbita sensação de América Central: as hordas incas que desceram do Peru?
Era tempo de espreitar os conspiradores no Rincon dos canalhas!
Chile libré! Seria a verdadeira senha?
Nunca se soube. Debalde!
Uma velha de vassoura na mão, exclui-nos do bar, deste pequeno pedaço de clandestinidade.
Tínhamos chegado demasiado cedo e não tínhamos sido devidamente recomendados. Ninguém sério procura secretas conspirações pela Internet.
Mas juro que vi, por cima do cabelo palha-de-aço da velhinha antipática (e amedrontada?), Allende e o camarada Che a sorrirem sobre um fundo de bandeira do Chile livre.
Roubei-lhes, num vislumbre, o seu olhar e toda uma revolução!
Como água para chocolate. O não último jantar em Santiago na cama, com Laura Esquível!
Todos comeram na mesa, feita cama dela; no bairro da Bellavista, a dois quarteirões da casa de Neruda, o Pablo na casa da Matilde…ou a virgem mãe…Poetas!
O pisco sour, aguardente chilena, recorda-nos que todos somos livres: temos plata e passaporte e não tenho perro (cão) que ladre. Uma vez mais dixit!
Força Chile!