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segunda-feira, 19 de março de 2018

Os adoradores dos elementos




Eles nascem todos os Domingos de manhã em que os elementos se revoltam, transpõem as barreiras de proteção porque o horizonte parece sempre mais longe e correr riscos desnecessários é uma latina afirmação de virilidade.
Como se os elementos fossem a representação suprema da condescendência da natureza, eles correm nas margens, acalmam as ondas, contornam o vento e refletem as nuvens e o Sol.
A diversidade cultural, os nossos corredores de fundo e a afirmação dos bichos de estimação.
Os adoradores do mar e do céu.
Na foz do Douro.












domingo, 24 de dezembro de 2017

Caleidoscópio



Curry é uma marca, uma produção cuidadosamente explorada de cores quentes e ambientes exóticos em que as imagens jorram com uma fúria de realizador de todas as causas.
Um circo que se reacende em cada cidade que o recebe, um palco que se monta e desmonta ao ritmo do grau de entusiasmo das audiências sedentas de lugares distantes e de atmosferas inacessíveis.
Por vezes é dificil romper com a encenação que representa a quase perfeição formal de um mundo inteiro que posa para a camera, desvendando o pudor das culturas distantes, dos dramas que se pressentem em cada negativo e em todas as expressões
Uma exposição de duzentas imagens sem ordem precisa nem cronologia lógica, é de uma quantidade tão profícua que desfaz o purismo da arte de exceção, das obras únicas, da reflexão em torno de um conceito e da intimidade dos espaços vazios.
Nas exposições de Curry, as multidões revêem os episódios de National Geography, uma versão realista dos mundos animados de Disney.
O caleidoscópio de cores quentes parece suspenso pelos ares e cada olhar é uma imersão numa nova história, a história do mundo.
Só é pena que nos mundos de Steve, nada permaneça escondido.
Por vezes o encanto está no que se esconde e menos no que se mostra.

Saímos com a retina inundada de cores e imagens extraordinárias, mas carente de mensagens subliminares 






domingo, 2 de julho de 2017

Concertos de Verão


Há lugares assim, em que não é necessário entrar para descobrir a sua magia...



Empatia Jazz Duo - 15 de Julho




Manhattan Transfer - 22 de Julho




Buda Power Blues - 10 de Agosto




Jeff Davis Trio - 17 de Agosto



sexta-feira, 30 de junho de 2017

Churraria Nuno


A cidade virou carrocel.
Longe e perto da nova atmosfera cosmopolita e internacional que valoriza o espaço e dilui as tradições, irrompem os locais improvisados da cultura popular, as cores desconcertantes da aldeia que construiu a cidade.
Despertam os velhos mágicos do entretenimento popular.
Os saltimbancos nómadas que trilham os longos invernos pelas estradas do interior, e que, escondidos da civilização e dos costumes urbanos, esperam o ano todo pelo Verão para poderem assentar arraiais e descobrir as suas efémeras raízes sedentárias.
Lançam as estacas que suportam a sua endurecida forma de vida e constroem o arraial dos outros.
Veem não se sabe bem de onde, desaparecem depois para voltar a despontar noutros locais tão óbvios quanto estes.














Encontram nas ruas e nas praças os seus únicos momentos a que podem chamar de casa e a cidade confronta-se com as suas origens rufias e tolera-os, pelos carrocéis, pelos sacos de pipocas, pelas luzes de néon e pelas barracas de tiro aos coelhos (ou a outra coisa qualquer).
Por breves momentos, até parece que a cidade readquire as suas origens e os seus cheiros.
Mas esta é a cidade dos carrocéis e a nova urbe sabe (sempre soube) que não os vai adotar.
Eles são apenas o sabor da festa anual e quando as multidões decidem que a festa acabou, desaparecem da praça, dos jardins e da beira-rio lembrando-lhes que terminou o seu tempo e varrem-nos do espaço porque é necessário recuperar os espaços verdes para as crianças da cidade (as mesmas que uivam nas diversões dos santos) e as ciclovias para o bem-estar de uma população tão ativa quão sedentária.

E a churraria Nuno parte para o próximo arraial até que o fim da estação os disperse para mais um Inverno de cores escondidas e envergonhadas origens.



segunda-feira, 26 de junho de 2017

O Santo das multidões


Por aqui ninguém se importa qual é a verdadeira ordem do João, o santo das pessoas, desde que seja o maior, o mais pujante, o mais intrometido e que a malta não proteste com os martelos na cabeça e mais um empurrão rua acima.




É o primeiro e o último, é um santo protetor porque beatifica a loucura coletiva, purifica os vapores do álcool, perdoa a ousadia de um povo que a única coisa que se lembra é que hoje é dia de sair à rua




Todos os 23, uma noite em que a multidão acorda a santíssima trindade, a lança ao ar,a atira ao rio e ainda a transforma num bode expiatório para a força do martelo, da tradição e da imponência dos machos.




É a noite em que não há paisagem porque as gentes ocupam espaço e se intrometem no nosso (e no deles) espaço natural, porque é preciso é seguir em frente




Porque para a frente é que é destino, mesmo quando os sinais translúcidos se atravessam ao caminho




Junho é a noite em que pagão ilumina o caminho dos devotos e em que a religião é um pretexto para exorcizar os demónios de todo o ano




Salvo o devido respeito...




...e um copo de cerveja na mão!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Amanhã também é dia


Tomo I - Uma enorme vontade

Um vulto desce a rampa, cambaleante, e descobre-se para o mar sem proteção
Julga-se impune, por estar de costas, apesar dos esforços iniciáticos da municipalidade


Duas jovens parecem adivinhar a anomalia e comentam, sem aspas,
Há gajos que não têm mesmo a noção da cena.
E o rio corre para o mar em trote acelerado


Tomo II - Buraco negro

Embalados pelos espaços abertos, uma assembleia de blusões negros conferenciava sobre os limites de velocidade.


Desfasados da existência de uma força centrífuga que os empurra para o inevitável da mortalidade
Céu ou Inferno?


As sombras que pairam em espaços circulares receiam pelos homens à solta.
Ainda com alguma fé na raça humana.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Afinal, Há Pai Natal



Ontem à noite seguimos o Pai Natal e as nove renas na sua viagem à volta do Mundo, através de uma sofisticada aplicação alimentada pelos satélites da NASA e por uma IMENSA imaginação.
(Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão e uma nova, Rodolfo, a rena que tem o nariz vermelho, capaz de ver através do nevoeiro)
Tudo muito real, o número de presentes entregues, a sua localização precisa e uma velocidade quase furiosa com que se desloca entre os locais, as cidades e os países, nos minutos que antecedem a noite de Natal.
E não julguemos que o Santa se desloca, em órbitas precisas como se de um satélite se tratasse.
Em Santorini às 10:33, em Istambul às 11:01, em Colónia às 11:32, em Basileia às 11:35, em Marselha às 11;45 e, logo a seguir em Bilbao (ai que ele vai entrar pelo Norte) e, puro engano, Barcelona, Madrid, Tarifa (ai que ele vai entrar pelo Sul) e, puro engano, às 11:55h atravessou o estreito e deslocou-se para a Tunísia.
Desapontados pela redentora lógica ibérica do Pai Natal, convencemo-nos afinal que, com 3,9 biliões de prendas entregues e registadas, que este roteiro não passava de uma construção de cinematografia animada dos infantis americanos.
Às duas da manhã, lá voltámos a espreitar e, com a Empinadora na frente (e muito nos rimos da consoada), o cortejo do Santa atravessava o Oceano em direção à América prometida, sobrevoando com desdenho a cidade de Ponta Delgada.
A essa hora, já o Capitão Von Trapp, um bando de crianças geniais e a Julie Andrews atravessavam a fronteira da Suíça a pé, pelos Alpes verdejantes de Verão fugindo dos abomináveis nazis e seus bonecos de neve.
Sem rasto da Heidi e do seu avozinho, afinal produção japonesa de um após guerra longínquo.
Na rua da noite da véspera de Natal uma velhota resmungava à porta do café contra um saco de plástico abandonado ao vento, “lá dentro pagam dez cêntimos e cá fora deitam-nos para o lixo, deve ser gente rica” e amorfanhava o saco para dentro da carteira, um mecânico de rabo-de-cavalo, grandes pretensões e uma enorme falta de jeito (apenas ultrapassada pela humildade inexistente) forçava um pequeno farol fundido, com um braço enfiado na roda da frente e um bando de cegonhas a rir da sua imbecilidade, que se resolveria com um macaco e com uma chave de fendas.
Mais gratuito que o saco de plástico, mas tão sucateiro quanto um toque de midas não podia ser.
E o Sol desapareceu entre o fumo das chaminés (prova superlativa de que não há Pai Natal) cheiros a comida intensa e um vento cortante de Leste que nos fez lembrar um enorme suspiro de alívio da grande mãe natureza por finalmente o Natal estar a chegar.

E a partir.


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

As sombras de Agosto


As cidades vivem das suas sombras
Especialmente em Agosto.
Ou sempre.
As sombras de Verão não são sombrias.
São protetoras
Dos DJ que vivem na praça, das multidões que varrem os passeios, rua abaixo, dos mercados de rua, das lojas de gelados e dos cafés que convidam a uma lânguida inação.
Das raças, dos sexos, da igualdade dos géneros e da nossa obrigatória opinião sobre a liberdade religiosa e os conflitos de civilizações
Diluem as identidades, mesclam os autóctones e os forasteiros.
Nas sombras ninguém os distingue apenas pelo sotaque e tornam as cidades mais iguais.
As penumbras libertam, os que nelas vagabundeiam, e tornam as cidades mais igualitárias.
Sem que nós nos sintamos constrangidos por não ter opinião, por esperar que alguns problemas se resolvam por si.
Isso mesmo, um refúgio para a ausência de opinião
Por isso nos afastamos dos reflexos da luz quente de Agosto.
Preferimos a irreverência e a inconveniência.
A descrição ou a tontice compulsiva.
E as duas ao mesmo tempo.

Que o Sol, quando se levanta, nasça só para iluminar o que nos rodeia.











terça-feira, 23 de agosto de 2016

Only you...


"Talvez nunca tenhamos sido dois, mas somente um..."
Uma exposição em que a nudez é o meio e que a sua expressão mais ousada está mesmo no desnudar da noção de interioridade, numa exposição que se questiona se existe uma relação intima e privada, incólume às influências mediáticas da sociedade envolvente.
"As nossas singularidades como casal talvez venham a ser muito mais plurais e exteriormente partilhadas do que estamos preparados para admitir."
Mas nós voyeurs desta relação tão insistentemente a dois, sentimo-nos sempre, ao longo das quatro salas de exposição demasiado vestidos como se eles dois adivinhassem o nosso desconforto e retirassem dele o erotismo que a relação privada não emana.
Bom...interpretações.
Nas quatro salas do Centro de Português de Fotografia, e sem alardes mediáticos, uma absoluta inspiração de criatividade, pluralidade de meios e bom gosto, por Leonardo Kossoy
Visto assim, somos pequenos!


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os figurinos do Aniki Bobó


- Descíamos a viela sempre a abrir, e os únicos travões que tinhas era o pé na roda. Sempre a abrir, lá para os lados das antas. Conheces, conheces?
E o personagem debruçava-se sobre a viela de pedra de calçada, e balançava como se fosse necessário dar enfase à ideia.
Ou talvez empurrar os ciclistas tão equipados de travões e de medo de descer que até o enervavam
“De todos os terrenos” – bramia o primeiro figurino, um reformado jovem das Fontainhas, olhos encovados e um cabelo grisalho que contava histórias, apesar de encharcado por um banho tardio, quem sabe se apenas um prolongamento de noites sombrias, de um bairro que tem várias vidas, tantas quantas as posições do sol e da lua.


Nas sombras da alameda que espreitava o rio, homens de sotaque e vozeirão muito másculo compravam e vendiam passarinhos, uns mais à vista em gaiolas vistosas, outros mais encobertos, espreitando de dentro de sacos de serapilheira, enquanto discutiam promessas de carreira auspiciosas, todos eles desfilando passados e desafiando futuros, ligados aos meandros da fama, do futebol, da noite e do trade
Talvez apenas uma impressão
E há os personagens famosos do café la Fontaine, tasca, bar, casa de fados e outros cantos.
Aqui não moram passarinhos, só os barmens que não contam histórias, deixam-nos para os outros, os mentirosos que são famosos mas que nunca puseram os pés no La Fontaine.
Mentirosos, sussurra o empregado, por detrás do balcão de pedra, entre dentes encardidos e um bigode sem escova nem presença.
Aqui até o fado é incógnito, vadio, e não é a malta da casa que o diz, são os azulejos da parede que o cantam.
Porque a malta da casa apenas dispensa frases curtas, normalmente entrecortadas com sorrisos desconfiados, sem final.
“Não, nós não cobramos o gelo mas você, que costuma beber (o café com gelo) sabe bem que noutros sítios lhe cobram o gelo”
Sabe bem…e o resto fica por dizer, enquanto me estende uma colher de galão para mexer o café, o açúcar e o gelo, alguns minutos depois de fingir que não entendia porque, afinal de contas, quem é o tipo de gente que pede um café quente para depois lhe despejar gelo em cima?
Há sempre a dúvida se o forasteiro vem espiolhar, vem aprender, se se vem perder ou apenas gozar com a malta, com a minha estatura de baixote, muito provavelmente camuflado por debaixo de um capachinho oleoso, uma cara levemente tipo bolacha, uma testa demasiado grande para o bigode e uma fisionomia, encoberta pelo balcão de pedra, que teria presumivelmente uns quilos a mais.
Eu até jurava que ele coxeava, mas tinha um olhar (eram de certeza os olhos) que se podia transformar, em qualquer momento num lançador de punhais (há sempre um personagem submisso em todos os filmes, mas que se transforma quando uma qualquer campainha toca, num ser letal, segundos depois dos olhos começarem a faiscar) certeiro como nos filmes em que forrava as tardes de Domingo, nas cadeiras da última fila, enquanto controlava as sopeiras e afastava os bandidos de S. Roque.
Afinal de contas, um homem tem de sobreviver, e as sopeiras não têm bairro.
“Não, esse mentiroso nunca cá veio cantar”
“Você sabe, que já bebeu essa coisa noutros lados, está habituado”.


Mas no bairro da passarada, até as lavadeiras têm Domingo, porque na encosta do Douro as mulheres vão à missa e porque, entre turistas atrevidas, só os homens de barba por fazer traçam o fino com uma garrafa de Martini, que nunca se recolhe do balcão de pedra entornada.
“Você sabe”
“Pois é, está na altura de sair”
Enquanto as gaiolas se levantam com a hora do almoço e as carrinhas brancas sem janelas (não vão os pássaros voar) levantam ferros, no fundo do terraço, sobrevoando as novas pinturas murais do bairro antigo, ouve-se uma voz suada que desentope os altifalantes roufenhos com um punhado de canções populares de arraial de Agosto.
“Peguei na minha gaita e fui cantar”
E os megafones parecem sobreviver, muito para além do fim de festa e da ponte do Infante que, algures na época do cimento para cima do rio, um dia esventrou o bairro, diretamente para a outra margem.
Ao virar da curva, o comboio apita debaixo dos nossos pés e enfia-se nas entranhas da terra, por baixo do casario, fintando o rio que o acompanha às escuras.

E a velha do megafone canta “e apita o comboio…”


domingo, 13 de março de 2016

Low Tide




Silêncio, é a primeira das associações que me prendem à maré baixa, que se sobrepõem à inquietação das gaivotas e de outros pássaros do rio e dos esgotos.
A segunda é a ansiedade, uma forma de antecipar que a seguir à bonança vem a tempestade, as ondas, o rio que galga as margens, o tempo que urge para voltar a terra, antes que as águas nos cerquem.
A última, que numa lógica popular deveria ser a primeira, é a de que a água já semeou a desolação e que agora se refugiou no mar em correntes de culpa, por ter descoberto os destroços que provocou.
O silêncio, esse, é o interlúdio repetido do ciclo das marés e é esse que me prende os olhos e os pés aos fundos lodosos.
E fico à espera que a orientação do Sol decida o que vem a seguir...

...numa manhã de fim-de-semana à beira do Douro