Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 4 de julho de 2013

O voo da noite - Parte 3/8




Há três anos que os nativos irónicos comparavam abusivamente L. a um novo “barbudo malcheiroso” qual Pizarro, voando de mercados em mercados, vendendo consumo ao crescimento económico, pelo menos isso ele sabia fazer, porque havia vendido consumo durante anos a fio a um povo que comprava sem crescer.
Para além do incómodo gerado pela generalizada perceção da grande Ibéria, havia esta diferença não subtil e muito profunda, que marca a diferença dos povos: comerciante mas não conquistador, sem necessidade de converter os nativos à fé católica ou roubar a prata das minas.
L. estava longe de imaginar, tantos anos depois da opressora escola primária da professora Helena e do Hino Nacional cantado sem convicção nem especial amor à pátria, que se voltaria a confrontar com as contingências do Tratado de Tordesilhas.
“ A principal razão pela qual o Brasil é um país uno e esta unicidade não existe nos restantes países de língua espanhola, é porque todos os membros da elite brasileira estudaram e graduaram-se na mesma universidade “ – referia entusiasticamente o reitor da Universidade de Coimbra em todas as cerimónias públicas.
As razões da História iam-se alinhando cronologicamente, à medida que L. crescia e se transformava num Homem de calças coçadas e espírito libertário.
Por esta fase, o mundo já não chegava pelo correio, através de panfletos turísticos zelosamente pedidos por carta, numa letra irregular de adolescência avançada, sempre acompanhados de elogios bajuladores a todas as repúblicas ou monarquias, algumas tão obscuras, quanto o seu relevo no mapa-mundo, religiosamente colado nas paredes do quarto, mas que evoluíam no seu ranking de admiração em função do tamanho do envelope de resposta.
Avançáramos sem hesitação pela década da televisão a cores e L. tinha tudo para ser errante como o vento que assola a costa ocidental atlântica no inverno do norte, incapaz de se prender a uma existência vulgar e convencional.
Tão longe deste Pacífico, obscurecido por um anoitecer precoce a caminho do aeroporto, num mar que se deixa atravessar por um canal sem vento, construído no meio da sufocante humidade tropical, dos mosquitos e sacrifícios humanos, uma tentativa sobre outra, até resultar.
A natureza é obstinada em defender o que é sagrado e ligar dois mares com diferentes altitudes e histórias, que só se haviam ligado no extremo sul, entre tempestades e fiordes, não obedece de todo às leis da mãe natureza.
Daí o enorme sacrifício humano!