Pesquisar neste blogue

domingo, 27 de dezembro de 2009

Galle, Dezembro 2004
Navegando para lá da Taprobana…

Este fim de tarde no Forte de Galle, é um regresso ao passado, tão redondo quanto este mundo pode ser!
Os vestígios do mar, batalhas, conquistas e prisões emanam destas pedras escurecidas, um promontório de engenho lusitano, envolvido num longo abraço colonial britânico (maldita aliança), o campo de cricket como uma herança de quem reinou – apenas 150 anos.
Mas o Forte resistiu – holandês de nome, português de origem da aldeia global e das grandes ideias! Mas o campo de cricket afundou-se nas ondas do tsunami!
Ao fim da tarde no forte, as crianças jogam cricket junto à muralha, as mulheres vendem colares e vestidos de seda, as civilizações confundem-se, budistas com vinte e três séculos de convicções, cultura e história, os árabes de vestes brancas, que aqui atracaram para negociar com os portugueses…e ficaram como habitantes naturais do forte!
É um mar de vestes e de gente, de diferenças que se fundem nos tons pesados da paisagem, verde e castanho-escuro.
Este marco civilizacional não podia ser mais o espelho do passado, reflectido no presente das quinquilharias, facas portuguesas do século XV, telefonias do século XX, sem qualquer ordem nem rigor, porque o único critério que persiste é o de pertencerem ao promontório…
…E a gorjeta de 200 rupias rapidamente deglutida pelo pretenso guia, escondidas das vistas da Autoridade diluída no enxame de culturas…
Sem critério e sem nomes, tal como a História se arrisca a ser, se tão condensada for a forma de a julgarmos.
Mas a emoção de acariciar as pedras que restam do forte português, engolido pelos flamengos, faz soltar as lágrimas interiores, um orgulho contido, mas reconhecido pelos indígenas – português? Vasco da Gama e Luís Figo, my last name is Perera – por termos sido os primeiros dos últimos a abraçar este pedaço de terra…
Daqui partem os pescadores em barcos de flutuadores, absolutamente indiferentes ao passado, em barcos tão primários como as nossas caravelas…Um primeiro plano técnico, tendo como fundo o templo budista, além baía; como foi possível termos chegado tão longe?
O espírito colonial sem mácula, obviamente que não existe: Novo zoom dos seres e dos detalhes e a certeza de que as especiarias se sobrepõem sempre, as galerias de cimento esburacado emergem ininterruptamente entre uma infinidade de bugigangas, indecifráveis no banco de trás das motoretas fumarentas e ensurdecedoras…sempre aquela sensação de que o que é antigo está abandonado e de que o que é novo nunca foi, nem será, acabado!
E quem disse que as igrejas holandesas, o farol do forte, a igreja anglicana, a mesquita e o forte português deverão ser o modelo do tal mundo redondo?
Também os árabes vieram à procura das especiarias e de uma qualquer razão para o comércio e ficaram quase donos do forte, só por fascínio talvez!


E o forte resistiu sem estragos, sequer, à fúria do Tsunami, quinze dias depois. Será um sinal?

domingo, 6 de dezembro de 2009

Chove em Copacabana



Copiosa entranha-se nos vultos que alisam o areal em desportos inconfundíveis na cidade Praia, nos corpos sobreviventes das nuvens densas, uma humidade tropical que os invade, eles desportistas, nós mirones!
A cidade submerge-nos em ondas sem pátria com a leveza de uma alma aguadeira…
O ruído incessante da urbe desvanece-se com a chuva que escorre do céu lamacento, das encostas dos morros que embrulham os vestígios de postal ilustrado.
Mas o dilúvio também afunda a magia; sim, a magia não desperta com a chuva dos Deuses.
Nem no Posto 6 de Ipanema, nem no boteco do Calçadão, não há vudu resistente, nem princesas de tanga, essas esperam o Sol para lhes realçar o culto do corpo.
A Metrópole perde a razão com a água que não vem do mar, esse ente que interage com a urbanidade letárgica.
A água do céu é um chuveiro que entope as avenidas de uma cidade carente, não há sombrinhas que te segurem, Cidade Maravilha que os teus poetas cantavam como sua, tolhidos pelo Sol que não vem esta semana!
Por isso os poetas e trovadores refugiam-se nas caves, no inacessível…
O táxi amarelo submerge-nos nas águas revoltas do bairro boémio, quisemos abrir a escotilha do submarino, mas o marinheiro chaffeur atracou-nos no Rio Scenarium, não fomos na enxurrada porque não havia morro, ali tão perto!
E afinal existem poetas no Rio, enclausurados no armazém da Lapa, segurem-se nas velharias embutidas de memórias, os sete anões e as pernas que apenas vestem ligas de renda, um elevador sem garçon, telefones e telefonias, uma vespa que jurava ter levitado a garota de Ipanema.
Pura magia!
A chuva todos os fins de noite dizia basta…a cidade era um deserto sem semáforos vermelhos, um downtown irreal com vultos imersos nas fachadas das torres de escritórios, federais à vista armada, mas jogava-se na baixa do Flamengo, sem Luar, banhados de luz artificial, garçons que vingavam noites de trabalho com madrugadas de bola até de manhã.
Em Copacabana não parava o jogging no Calçadão, não há horas no Rio para abarcar tanta diversidade.
Às quatro da manhã pensava se o submarino amarelo teria submergido, lá para os lados da Lapa.
Não há respostas. A urbe esquece!
Será assim com Sol?
O novo táxi amarelo enxuga os rolos de água da calçada, mas não resmunga: é neto de Cinfães do Douro, sonha com o paraíso que é Portugal, diz que há-de vir!
Tudo é indecifrável, sobretudo os sonhos!
As grandes urbes são fontes inesgotáveis de glamour e movimento…mas não resistem às imagens em câmara lenta de um interior bucólico!
Hoje, foi mais um dia de chuva em Copacabana!
Dezembro 2006