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domingo, 21 de abril de 2013

Os quatro mitos do Serpentine



Os parques da cidade são um interlúdio silencioso e colorido pela estação dominante, entre a agitação sem orientação precisa da multidão indomável de seres multi culturais e os vitorianos bairros residenciais da adormecida Albion!
Mas nesta manhã de Domingo, o frio intenso assolava o Hyde Park dos esquilos atrevidos, das árvores de uma Primavera despida, em tons de Outono e de um green já plantado em rolos (e o primeiro mito da cidade e do país verde natural e espontâneo é destroçado no parque mais famoso da cidade dinossauro)
Um pouco abaixo, provocando a fleuma do velho serpentine, desprende-se uma breve algazarra das árvores despidas que tombam sobre o lago, uma sinfonia breve e efémera de vozes e risos de um feminino qualquer.
A imagem é antípoda do som: três vultos cobertos de vestes pretas sem exceções posavam para uma fotografia roubada a um transeunte que, estupefacto pelo pedido e confuso pelo modo de focagem, procurava fazer o seu melhor; a pedido delas, fotografava um monte negro mas ondulante, na margem do sereno e impávido serpentine.
Eu que julgava que o rosto era a principal essência de uma fotografia de pose. Ou o corpo!
Tardio estão os calores da estação alta Verão e longe o serpentine, como a estância de banhos de Sol de vestes reduzidas, em tardes de tórridos Verões!
Derrubado o segundo mito do parque!
 
 
As cores dominantes de um pálido Domingo no Green, não são o verde e o azul, mas antes o castanho e o cinzento, palete que não combina nesta roupa despida que é o centro anatómico da aristocrática Londres
Terceiro mito desfeito!
No canto dos oradores, o silêncio das árvores que pululam à volta dos esquilos desfaz-se!
Entre a comédia e o drama, três figurantes convenientemente e etimologicamente distantes – a branca condessa, o negro polícia e o Imã muçulmano – transformam a representação da democracia (autêntica liberdade de expressão, sem imprensa nem parlamento) numa democracia da representação e, apesar dos incessantes avisos da protagonista, só pode mesmo ser uma comédia encenada, sem guião nem inspiração de maior.
Speakers Corner, o último mito afundado no pobre e pouco encapelado Serpentine!
 
 

terça-feira, 16 de abril de 2013

Road to Concert


 
A bolachuda cara de inglesa que, na sua expressão de adolescente, penteia umas sobrancelhas de britânica de meia-idade, segura um ramo de flores e esfrega o anel entre os dedos de esfinge (de esfinge?), como um pãozinho sem sal que se recusa a entrar para o forno.
É uma cena de metro em dia de feriado, sentada nos bancos corridos da carruagem, flanqueada por um namorado sardento (ou seriam borbulhas?), que destoava da fauna multirracial mutante e se inebriava com as flores e a namorada, como se fosse o último dos moicanos indígenas numa cidade capital do mundo!
Mas nesta travessia subterrânea, as antigas docas revelam-se ao céu azul mas gélido, à superfície de um subúrbio deslavado mas de unhas sujas, mais britânico em ressaca tardia de uma imaginada e longínqua revolução industrial.
 

 
E a bolachuda e o sardento perderam-se nos corredores escuros do underground londrino, enquanto nós nos atrevíamos a subir aos céus com a Emirates e as deslumbrantes cabines teleférico que nos transportaram sobre as grotescas e desmesuradas docas que abrangem toda uma ambição mercantilista de séculos, atraiçoadas pela tecnologia e pelos navios de águas profundas.
Tão imenso que parecia ligar-se ao mar, conscientemente muito para lá do horizonte.
E aterrámos, devidamente patrocinados pela bandeira do novo poder, em North Greenwich, no O2Arena, com uma adolescente pela mão e os pés no ar.
Fui ao O2 Arena ver os One Direction e, absolutamente bizarro, gostei
Estranha reação face a uma banda de putos cercada de miúdas histéricas.
Pois é, mas numa sala com mais de dez mil fãs, a cor, o som e os rapazes animaram a noite e roubaram-me o jantar especial que tinha prometido a mim mesmo!
Cachorros e multidão em transe ordeiro, não fosse esta uma civilização habituada aos holofotes da fama e do sucesso comercial!
À meia-noite e na cidade já vazia de som e vultos – e de lixo espalhado pelas bermas das ruas – uma raposa atordoada atravessa sub-repticiamente a Crownwell Street, farejando o ar sem cheiro em direção a sul, provavelmente enfadada pelo maçador e bucólico Hyde Park em noite de presas curtas.
É nisto que dá uma excessiva diversidade cultural!
 
 

segunda-feira, 15 de abril de 2013

London Backyards


 
Spitafields, Brick Lane e Shoreditch, são uma alegria vintage em cenário de transformação pós industrial.
Nem de propósito, Londres vive o vintage revivalista (survival) no seu auge e por aqui, vintage tem um significado muito evolutivo, dinâmico e abrangente; no século passado significou anos 60 em plenos anos 80,e hoje (abrangente e pouco preciso século XXI) tudo o que tenha mais de trinta anos!
Apesar de ser cíclico e se parecer com arte e criatividade em círculo fechado, o cheiro a naftalina até pode ser estimulante, e é adoravelmente hilariante!
Os mercados de Domingo alegram o leste da cidade, a meio caminho entre a moderna e cosmopolita City e a futurista cidade olímpica, que aguarda abertura ao público, em espaços que não terminam e se sucedem, entre armazéns recuperados, fachadas decrépitas, muros em ruínas e becos sem saída, próprio de lugares em transição avançada entre o sórdido e o trendy.
 
 
Já não se parecem zonas de combate, porque dentro das fachadas enegrecidas pelo tempo e pelo abandono, renascem galerias de arte, lojas vintage, restaurantes e vida noturna.
Aqui, a arte não tem convenções e estende-se pelas paredes exteriores, pelos muros quebrados e pelos túneis de tijolo, que se escondem das intrincadas linhas férreas que pululam nos subúrbios, os pátios das traseiras da fleumática, tradicional e palaciana Londres.
A diferença da cidade de hoje é que os quintais da cidade passaram a ter porta principal e são mais do que uma passagem, são um destino absoluto.
“Aqueles óculos vintage fazem-te brilhar o rosto”
E cheira a caril no Bangladistão, uma versão (vingança) pitoresca dos povos colonizados, bem longe das alamedas cor de tijolo que conduzem ao arco de Wellington, triunfal e de intensas aspirações coloniais

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Made in Portugal I



A lusitânica invasão de seres emigrantes chegou aos mercados da grande metrópole.
Arquiteto durante a semana, montou banca de pastéis de nata e café delta numa scooter de caixa fechada e, ali mesmo, contribui estoicamente para o crescimento das exportações da nossa mãe pátria.
Sem preconceitos e com um orgulho que lhe faz brilhar os olhos.
Chova ou faça neve!
É preciso arejar dos balofos instalados para entender a verdadeira natureza de um povo.
Como o leão chamado Rei num soberbo musical, que explicava ao filho que a principal obrigação de um rei não era fazer o que lhe apetecia, mas zelar pelo bem-estar da selva.
Afinal, todos têm o seu lugar no círculo da vida, mesmo aqueles que se encontram na base da pirâmide alimentar
Sabedoria animal!

quarta-feira, 10 de abril de 2013

London Eye & Other Stories


 
South Bank, junto do olho de Londres é um terraço com vista para a cidade histórica.
South Bank foi a primeira revolução na conservadora capital do império com data de nascimento nos anos sessenta, firme constituição física de betão e formas retas, sem adornos vitorianos nem reluzentes brasões de uma orgulhosa e extravagante monarquia.
Convenientemente localizado na margem sul, com o rio a proteger a verdadeira cidade destas modernistas fantasias arquitetónicas, agora gloriosamente apelidadas, entre muitas outras coisas de revivalismo vintage (curioso que hoje, vintage representa tudo o que tem mais de trinta anos)
Só o pato permanece imóvel para uma foto triunfal com o Big Ben ao fundo porque tudo o resto é um palco multicultural que desfila entre salas de espetáculos e exposições temporárias; mais do que temporárias toda a arte de rua (e muitas das construções contemporâneas) é (são) efémera (s)
O olho de Londres revira as órbitas continuamente à procura da posição ideal, entre a programada efemeridade e a prometida glória eterna!
E depois, na milha absolutamente experimental da margem sul em vésperas de Páscoa, tudo se passeia e se mistura, barracas de comes com um cheiro a fritos tão feirante como outra feira qualquer, putos de skate em riste por entre obstáculos de um cinzento arredondado, esplanadas de tecnologia sem fios, crianças de balão ao alto em carrosséis de madeira, bolas de sabão que envolvem as pontes e as barcaças do rio castanho, a momentos verde carregado, todos â espera do concerto, após uma digestão de arte contemporânea, ou a correr a verdadeira milha de Londres debaixo dos seus pés, do Parlamento à Torre de Londres, sempre inatingíveis (porque os rio nos separa da cidade que viveu a faceta gloriosa da História) mas tão perto que toca a nossa vista
Vidro, betão e os armazéns que alimentavam a velha metrópole, de mercados fervilhantes e energia elétrica, agora a grande turbina da arte de vanguarda que se perfilha, com o Millennium pelo meio, na simetria da catedral de Paulo, das princesas e dos reis de encantar.
 
 
À medida que a margem se embrenha no leste, os túneis tornam-se mais sombrios, e as cavernas de fantasmas e estripadores pululam nos becos, como verdadeiros parques de diversão negra e as margens enchem-se de relíquias trágico-marítimas que atravessam os séculos até aos sinais vivos da nova fúria construtora dos britânicos, em busca da torre de vidro perfeita.
È esta mistura fina que transforma a margem sul na milha mais excitante cidade, tão perto mas tão longe, invulgar e moderna, com vista desafogada e sem cumplicidades com as glórias da História do Reino.
Na sombra da Shard!
 
 

domingo, 7 de abril de 2013

Art Land - Um mundo à janela



Saatchi Gallery, primeira preciosidade não convencional no bairro snobe de Chelsea.
Não podia haver entrada mais triunfante: retratos e arte pictórica do apogeu à (vertiginosa) queda do império soviético. Tão inquietante e vernáculo cru que fere, nudez e decadência humana, resultado da implosão do império. Ucrânia, 1998, e a falta de referências deixa uma civilização à beira da insana loucura.
Mas uma das obrigações das Babilónias civilizacionais é espelhar o mundo nos seus palácios, nas suas galerias, nas ruas (que circulam em sentido contrário) com sotaque e pedigree que se misturam com o verde dos jardins e as correntes de ar que se enrolam como tornados nos pátios vitorianos.


E visitar Londres somente para inspirar dos vapores elitistas, típica e insularmente britânicos, é redutor.
Visita-se Londres como quem abre uma janela para o mundo, com a vantagem de que, normalmente, as cenas de horror não deixam de ser virtuais e convenientemente dispostos em salas de arte contemporânea ou experimental
Depois deste cenário dantesco e fantástico de expressão de arte contemporânea, só uma visita ao Buckingham Palace pelo gelado anoitecer londrino, poderia ser mais disruptivo e insano.

Nada de pessoal, Sua Majestade!