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terça-feira, 11 de março de 2025

Flashback #7 - O clube dos atletas vivos

 


Depois do anoitecer, nos imensos parques de Recoleta e Palermo, as estátuas dos heróis iluminam-se e os heróis da maratona acendem-se com a iluminação pública e correm para a glória e, neste clube do suor e do sprint, a única referência que une a mescla de atletas incógnitos é o fato de licra que liga as gerações, os sexos e uma alucinante vontade de correr.
Sempre ao anoitecer, pelos parques iluminados de Palermo e Recoleta, com a guarda de honra de Bartolomé Mitre, o primeiro presidente de uma Argentina unificada quando os escritores ainda se atreviam a ser políticos, Aristóbulo de Valle, advogado, colecionador de arte e político, Raoul Wallemberg e Mahatma Ghandi, os heróis da paz no mundo, Marcelo Turcuato de Alvear, presidente da Argentina numa altura em que os políticos já eram advogados, Maria Duarte Eva Peron, a diva dos descamisados, todos ao longo da mesma pista 
O culto das estátuas é o espelho passado do culto do corpo, portanto tudo encaixa
E no centro da Praça República oriental do Uruguai, bem junto a José Gervásio Artigas, ladeando a embaixada do Chile, de frente para parque Calistenia, a embaixada do Peru e ao monumento ao canto argentino, desvenda-se um oásis de meditação e silêncio recortado nos movimentos lentos e sincopados da uma aula de Tai-Chi, insensíveis ao rodopio da heterogenia dos corredores de fundo, as silenciosas divas espalham karma pela irmandade sul americana

domingo, 2 de março de 2025

Flashback #6 - A missa das sete e meia

 


Ao fim da tarde, invadida por uma noite de Outono precoce, desmontam-se as bancas da feira do bairro de Belgrano, porque afinal hoje é Domingo e a cidade despeja nas ruas tudo o que tem para vender.
A igreja da praça enche-se para a missa das sete e os santos carregam a fé nas escadarias exteriores, e os crentes rezam, indiferentes ao mercantilismo dos homens.
Às sete e meia nas Barrancas de Belgrano, os locais mudam se sapatos e saltam para o coreto entregando-se às milongas da nostalgia portenha, um ritual de fim de tarde dançante onde se troca de par para completar a experiência, profissionais e aprendizes numa mesma pista, sem excessos nem movimentos demasiado ousados porque, afinal de contas, respira-se uma alma de alta burguesia nesta praça de arvores frondosas e apartamentos de largas varandas, porteiros na entrada e muitos cães que passeiam os donos depois do jantar.
Do outro lado da praça e da linha de comboio, a cidade muda outra vez de país, de cultura e de povo (literalmente do outro lado da rua) e nasce a Chinatown, um bairro chinês muito sério – como seria de esperar de um povo tão sério – tão inacreditável quanto real, o arco dos dragões que incendiam a entrada da rua, os cheiros e os bazares, as multidões asiáticas que circulam pelas ruas sem automóveis, enquanto no jardim em frente a burguesia portenha dança o tango no coreto, como se não houvesse Argentina para lá da linha de comboio.
Na casa Saenz, respira-se o charme burguês da cozinha de autor, frango do campo ao forno no prato, um Malbec no copo e a lista dos fornecedores de origem certificada, afixada no corredor junto das casas de banho.
Às dez da noite no coreto de Belgrano já não havia música e apenas um casal de fantasmas treinava novos passos, às escuras
Às dez da noite já não havia dançarinos no Coreto, porque era Domingo e em Buenos Aires a alta burguesia também trabalha. 



domingo, 2 de fevereiro de 2025

Flashback #5 - Domingo

 


O Museu Moderno de San Telmo é uma viagem até “ao limite” um teste à existência de vida no bairro, para além da feira.
E, na modernidade minimalista do museu, que espreita, pelas grades das suas janelas, para a realidade mundana de uma manhã de feira no bairro, o interior refugia-se nas profundidades da mente, na expressão artística das vulnerabilidades do mundo exterior. 
Também na modernidade artística dos museus da cidade vive um predomínio dos criadores argentinos do século vinte e um que, tal como nos conturbados anos do século vinte latino americano, os artistas plásticos procuram, na tela e na pedra, contrariar a herança para além do passado, da nostalgia e de alguma sobranceria intelectual das elites letradas do século passado.
Para o século vinte e um dos artistas plásticos, o realismo desprendeu-se do mágico para se instalar em alternância no hiperbólico, no surrealista e na crueza teatral e performativa das suas vivências traumáticas.
Onde pululam os nossos abismos? – questiona-se o artista 
Ao longo da Calle Defensa, não se questiona a sustentabilidade dos recursos naturais entre bancas de rua, souvenirs, artesanato e roupa vintage, negoceia-se os preços com um fervor que compete com ritmo de desvalorização da moeda, porque na Argentina atual, tempo representa literalmente dinheiro.
Nem para todos.
A Mafalda, sentada no seu banco de jardim, tão sorridente e estranhamente quieta, não reclama com os avanços da populaça, que se pendura nela, para a fotografia ou para a posteridade e, se ela fosse um boneco animado não deixaria de ter opinião sobre este tempo.
Para o Che Guevara, restaurado e de cores garridas, agora na versão superstar na parede da Calle Lorenzo, emparedado atrás de um camião de mudanças, o empedrado da rua é apenas uma ténue recordação dos dias de solidão, que lhe gastava as cores mas que lhe mantinha a áurea de combatente, o único mural do planeta em que a reputação de Che coabitava em perfeita harmonia com um casal dançando Tango no empedrado decadente da cidade.
“Um duende não é um adorno, é como um amigo, portanto tens de dar um nome, falar com ele e dar-lhe de comer. É o teu primeiro?”
Sem ter a certeza de ter ultrapassado uma barreira linguística qualquer, vimo-nos rodeados de seres sem linguagem que trepavam os fios ao ritmo de uma concertina e uma mãe sorridente que emitia cartões de identidade com toda a seriedade.
Afinal, e apesar da sua aparente superficialidade mundana, o bairro ainda mantém vestígios de misticismo, poesia e concertina
E na Plaza de Mayo, nos confortes do bairro, um casal desafia o preconceito. Assim se reconstrói o Tango como um instrumento de inclusão.



domingo, 26 de janeiro de 2025

Flashback #4 - O regresso à troca direta

 

 

O parque centenário, onde a cidade acolhe os descamisados, onde as bancas trocam tudo o que o peso já não pode comprar e, no Sol obliquo da tarde portenha, não sobram os filtros nem a áurea aristocrática dos bairros privilegiados pela herança ou pelos costumes.
Troca-se tudo “Monigotes de miga de pan, caballitos de lata” e não há expetativas altas nem artistas de rua porque na feira semanal do parque centenário remendam-se vidas insuficientes / curtas e subverte-se a inflação com os princípios da troca direta.
Panelas por aros de óculos, ferramentas por brinquedos, roupa por calçado, trocam-se ciclos de vida em que, nada do que já não serve, fica esquecido nos sótãos das recordações e das aranhas, é uma economia de reciclagem total em que não se espera que os herdeiros limpem arrecadações, uma revolução de quem já não aspira à posse e se contenta com o usufruto temporário.
Para alguns, o Parque Centenário ao Sábado à tarde é a Meca portenha do pós capitalismo, sem inflação, moeda fraca ou incompetência de quem governa.
No parque Centenário sentem-se os subúrbios a palpitar, as gentes acotovelam-se no mercado sem lei, nos relvados pejados, nos lagos de repuxos e não há espaço livre para atletas que se espraiam nos verdes de Recoleta e Palermo. Aqui só há espaço para as famílias se espraiarem ao Sol, exibirem com orgulho a sua prole e as camisetas do campeão mundial abraçarem o lago que com todos partilham e os putos jogarem à bola, seja nos recintos oficiais seja nos remendos de relva que se esgueiram entre o Sol e as sombras.
Os pobres da Argentina, também eles se recusam a ceder à depressão 



quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Flashback #3 - Secando as roupas da velha Europa

 


Na avenida de Mayo, uma multidão assiste à festa da Calábria, com um palco cheio de crianças vestidas de trajes regionais que dançavam sons longínquos de distância, mas próximos de cultura, e a juventude no palco, mais pelo movimento e pela cor, do que através da música, procurava manter acesa a chama da nostalgia e o velhote sorria, como se nos quisesse explicar a razão da sua alegria, “A última geração de migrantes está a morrer. A nostalgia poderá então deixar de fazer parte da memória coletiva do povo” e hoje, como no passado, o sol da Argentina estava secando as roupas da velha Europa.
Uns quarteirões a ocidente, ainda na Avenida de Mayo, para lá da 9 de Julho, a avenida mais larga do mundo, tão larga que torna, por vezes, difícil a perceção da sua própria origem, a independência do país, instalou-se o Palácio Barolo, o primeiro arranha céus da américa latina, um sonho de um maçon italiano que acreditava que Buenos Aires era o último refúgio da cultura Ocidental, diante a barbárie da guerra na Europa que, segundo ele, conduziria ao extermínio da civilização humanista.
E por isso construiu uma homenagem de betão e vidro à Divina Comédia, investiu uma fortuna para a construir em tempo recorde, porque acreditava que a Europa iria soçobrar em breve, guardou três andares para ele viver, mas morreu antes do edifício estar pronto e antes da Europa sucumbir às trevas.
Na rua Hipolito Yrigoyen, não tão longe assim da Avenida de Mayo, escondido nas traseiras do Congresso da Nação Argentina vive o teatro Empire, uma alternativa teatral que, na segunda-feira à noite apresenta ao público sentado em mesas à volta de um palco que não se vê, um espetáculo de cabaret, que estende os braços à Europa, sobretudo no infortúnio e nos períodos de desorientação do velho continente.
Demencial (ligeiramente) segundo a apresentação, tendo como pano de fundo a ascensão do nazismo na Europa e a década infame na Argentina
Político, interativo com Brecht
Psicológico, a cobardia frente à ditadura do ódio, da opressão e do medo
Segundo o protagonista, mais vale um cobarde vivo que um herói morto, recordando os lugares tenentes, tão cruéis para os subordinados como submissos para os seus líderes.
Mas o protagonista vilão não é, afinal, um vilão é apenas um produto das circunstâncias e, no final, enfrenta o lugar tenente e torna-se num herói vivo.
Neste espaço sem geografia precisa, desfilam as músicas de Gardel e os poemas de Brecht como se o Oceano fosse apenas uma ponte entre os desenganos da alma argentina e as desgraças da velha Europa “Mais tarde, o sol estava secando as roupas da velha Europa” 
No final da peça o bem e a liberdade triunfa sobre o terror, o lugar tenente é morto no cabaret por uma horda de oprimidos e a moral explicita dos autores pretende simbolizar a esperança de que, no fim, e apesar dos momentos de insana loucura que assolam a Humanidade, de tempos a tempos, num qualquer final (ou apenas mais um intervalo) o bem sempre triunfa.
A peça só tem um Ato e portanto, neste palco inclusivo, a eternidade é apenas uma metáfora.
Não foi ainda esta noite que a última geração de imigrantes morreu.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Ushuaia – O princípio do fim do mundo



Bem-vindos ao Aeroporto Internacional das ilhas Malvinas, em Ushuaia – estas simbologias não podem ser ignoradas!
São reveladores de um povo – Um dos aeroportos mais bonitos do mundo, segundo especialistas independentes!
Nas portas do fim do mundo, revela-se uma activa e agitada marcação de fronteiras (os chilenos não se esquecem de classificar um condutor desastrado como um tipo mais perigoso do que um argentino a desenhar fronteiras!) e pressente-se uma afirmação de princípio, que o fim do mundo a Sul lhes deve prestar vassalagem.
Ushuaia, a cidade mais ao Sul do mundo, debruçada sobre o canal de Beagle, fim do mundo, Terra do Fogo.
É um bilhete de identidade impressionante.
E o canal de Beagle, que entra pela cidade adentro, numa baía reconfortante, num porto que recebe, alimenta e incentiva os aventureiros da Antárctida, os cargueiros ferrugentos que sulcam os mares esquecidos do Sul, longe do tráfego e das grandes rotas mundiais.
Os cumes gelados enquadram a cidade nas suas costas, dando-lhe um ar mágico, majestoso, donos da última fronteira, na terra e no mar.
À medida que nos afastávamos da baía para o canal, à procura do farol mais fotogénico do mundo, sonhando com os leões-marinhos e outros seres flutuantes, tomámos consciência da força do mar, ausentes nos lagos, virtual na terra.
O apelo do marinheiro ou do adorador do mar.
Aventura ou contemplação?
É, desde logo, o cheiro a maresia e as marés, a ondulação ou a crispação, os cargueiros que povoam os portos…
Sim, os portos!
Visto ao longe que se afasta, Ushuaia revela-se aos leões-do-mar, um porto de abrigo sem mácula, encosta acima, cores vivas, os seus guardiães brancos.


É assim que se criam os mitos.
A cidade torna-se mais pequena, mesmo minúscula, mas o canal não a abandona.
Os aviões continuam a aterrar no aeroporto, a pista debruçada sobre o canal!
A vida marinha no canal é fascinante: tão perto e tão selvagem
Os leões-marinhos são os reis da ilha dos Lobos, lentos, preguiçosos, conscientes de quem manda e porque manda.
Umas aves tipo pinguim são os hóspedes dos lobos, mas ocupam os lugares menores.
A vida selvagem tem códigos próprios…
O mar agita-se e a vida descobre-se: albatrozes, gaivotas…
E o farol deixa-nos aproximar dele, contorná-lo, fotografá-lo.


Pudera; é o farol do fim do mundo!
Mas é lindo, cheio de significado, provavelmente com pouco uso!
Mas o estilo e a personalidade não se perdem com a falta de uso.
Está frio no fim do mundo!
E irá nevar nas encostas da cidade.
Mas em terra, Ushuaia torna-se menos personalizada, mais anárquica e mesmo, por vezes, miserável… quatro quadras acima do mar!
Falta de ordenamento e incapacidade de resposta dos organismos públicos – dizem eles
Terra franca, e a conquista desenfreada (e necessitada) do Sul, explicam as barracas que pululam na cidade, hoje aqui, amanhã no morro de cima.
São os fenómenos do Far (West) South!


Mas estão longe os tempos da colónia penal, uma moda de povoamento forçado que perdeu adeptos (e ganhou opinião pública) após a segunda guerra mundial.
Mas transformar o inóspito, longínquo e desesperado em terra de oportunidades não tem sido, certamente óbvio (pelo menos sempre)
O tunning ganhou adeptos nas ruas de Ushuaia…e há mais que um!
Moda de longínquo Sul? Ou um reflexo de baixa auto-estima esporádica?
Sonhamos com as expedições Antárcticas, debruçados sobre as luzes da cidade, o temporal e a neve nesta noite de Verão que começa tarde mas é gélida!


Circulamos em torno de nós próprios e aproveitamos a luz até ao último suspiro.
Do dia, da neve nos montes, dos barcos enferrujados na água…
Uma rua, uma fotografia ou simplesmente inspirar o ar gélido que provém do sul.
São 23:00 horas, e não é nada vulgar respirar um fim de tarde destes em lado algum.
Vista do alto, a noite invade o vale, as luzes despontam da terra, mas os montes, ao fundo, permanecem brancos.
Custa fechar os olhos, seja pelo que for, é um local mi (s) tico!
Por isso (ou provavelmente não) fomos expiar as culpas do fim do mundo…de manhã, neve e Sol, tudo muda na fronteira dos 400 metros de altitude.
O Tren de Fin do Mundo conta-nos a novela dos mau maus agrilhoados às barras do comboio.
Hoje, os maquinistas Avelino e Marcelo não nos chicotearam mas também não nos sorriram…nem os vimos!


Chegámos ao final da ruta 3, 3079 quilómetros da beleza impura que se chama Buenos Aires.
Menos místico, mais postal…e a certeza de que afinal não éramos presos do fim do mundo, mas com sabor a novela na boca.
O parque Nacional, provavelmente um paraíso para os naturalistas convictos, e coleccionadores de tesourinhos deprimentes!
A Centola na Tia Elvira - e um vinho branco argentino com muitos graus acima da latitude de Ushuaia - supremos consolos para a alma, a olhar o Via Australis….

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Os Glaciares do Lago Argentino – A vertigem azul



Visto do ar, o lago Argentino é azul, uma cor tão clara como os olhos azuis, mas tão baça como os cinzentos; não se revê em nenhuma outra referência da natureza!
Miragem ou pintura a óleo?
O princípio da descida do pássaro mecânico das Aerolíneas foi difícil, quase penosa, não fosse a visão fantasmagórica das lagoas, entre nuvens e a turbulência Patagónica, o susto do voo rasante sobre a meseta, porque o dia estava bonito, a temperatura fugia do Verão argentino, em direcção ao frio e a paisagem mudara sem avisar.
Depois das pampas, a grandiosa Patagónia, província de Santa Cruz, um território de tremenda dimensão, somente 225,000 habitantes…
Esta geografia declamada ajudou-nos na aculturação a esta terra normalmente monótona, árida e plana, mas surpreendente na água e no gelo.
El Calafate, o entreposto comercial, posto de mudança de carroças de transporte.
El Calafate a planta que era utilizada para calafetar os fundos dos barcos, dos enormes rebanhos à solta, vacas mas sobretudo carneiros e o personagem que já foi dominante:
Gaúchos?
O arame farpado e a queda do preço mundial da lã arruinaram-lhes o futuro.
Reconversão ou extinção!
O futuro tem chegado todos os anos, primeiro só no Verão, hoje todo o ano.
Cheira de facto a estância; a rua que se sobe e desce após o anoitecer tardio, vezes sem conta, antes da aventura do dia seguinte, depois do degelo de hoje…
Os amantes e os loucos da natureza, do trecking, das emoções fortes também se pavoneiam neste povoado que já se assume com 25,000 habitantes…mas que é uma rua à beira do lago Argentino, cordeiro assado à Patagónia, reminiscências a chalé suíço, com chuva todos os dias e montes com cumes gelados, os Andes ao longe, setenta quilómetros de referências índias:
A índia adormecida.
O monte dos elefantes.
A cidade parece querer recriar em todos os cantos a simbologia da recuperação da cultura e tradições indígenas.
Mas não consegue!
Nada naquele lugar nos faz lembrar sequer a sua existência de forma consistente.
Calafate é de facto, e sobretudo um entreposto para o gelo, uma fantástica maravilha da natureza.
Imagine, é a música escolhida para nos apresentarem Perito Moreno, a vertigem azul!


A adoração durou quase dois dias; de barco, longas esperas pelos blocos de gelo que deviam permanentemente lançar-se nas águas do lago, contemplação sem horário, pasmo pelo que se via, pelos estrondos que laceravam o silêncio gelado, caminhando nas margens verdes …
Apercebemo-nos que cada pedaço de gelo que caía no lago, poderia ter sido gelo durante 2,000 anos…
…E a pressão dos blocos originava ar comprimido,
O que mais impressiona não é a imensidão do branco, mas os filões de um azul tão intenso que até dói.
Com Sol, mas também com chuva, vento ou frio.
A vertigem do azul!
35 Quilómetros de comprimento, uma enorme parede branca de 70 metros de altura, uma massa de gelo viva que se move permanentemente.


Perito Moreno, Upsala e Spegazzini são santuários que resistem ao degelo da Terra,
Na época glaciar tudo era gelo neste confim do mundo!
Branco, azul, massas gigantes que parecem imóveis, mas que estão vivas, e narrá-las pressupõe que sejamos capazes de nos abstrair das estatísticas e dos recordes, da teoria do aquecimento global, e da maldade feita Homem.
Com espumante argentino, é a melhor forma de narrar Perito, uma despedida ao fim da tarde, ao longe, longe das entranhas que inspeccionámos cuidadosamente, uma a uma, minuto a minuto, durante um dia sereno de contemplação e desfrute!


Bom gosto argentino e uma veneração respeitosa às dádivas da natureza.
Ecologismo no seu estado mais puro: sem panfletarismo nem teorias conspiratórias.
O cordeiro patagónico, assado naquela brasa especial (três horas ao lume), o vinho tinto de 15º, que larga lágrimas pelos pedaços de gelo caídos hoje, lembra-nos (quando nos lambuzamos nele) que, apesar de não durarmos dois mil anos, como o gelo do glaciar, estamos mais quentes (aquecimento global?) e desfrutamos muito mais!
Uma forma alternativa de ecologismo!
Até o fogo que assava lentamente o cordeiro me fazia lembrar a vertigem azul!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Boca – El Caminito de uma grande afiction




Boca, um bairro muito pobre!
Provavelmente o único bairro mesmo pobre da cidade.
Um gueto, certamente a origem de todos os descamisados da cidade
A partir da Praça Lezana, mudam as coordenadas do mundo porteño; as ruas transformam-se num cenário quase igual às pobres cidades centro-americanas: casas pobres, sujas e feias, estradas com um asfalto gasto e quebrado, ruas sem saída nenhuma, baldios que penetram e envolvem o bairro, gente que não olha de cabeça erguida, pouca gente nas labirínticas vielas, um perigo eminente para turistas que não se aperceberam da fronteira que atravessaram, impossível de adivinhar nos mapas da cidade!
Aparentemente nos afirmam, droga, criminalidade e alguma violência ocasional…excepto quando submergem as grandes paixões.
Aí, tende a piorar.
Uma grande paixão: Boca Juniors
Um herói quase mítico: Maradona



Um estádio que nos deixa com sentimentos contraditórios: básico e antigo, assustador (quase selvático) de arames farpados que cobrem o peão em pé; pujante na afirmação com o bairro e com o povo, emoção que se respira em torno do estádio e dos aficionados que não o abandonam…nunca, como uma pala (será uma asa?) protectora, as marcas dos pés das vedetas no passeio de cimento que circunda o estádio – o verdadeiro passeio das estrelas popular, porque não há ouro, nem assinaturas fancy, só cimento e a marca do verdadeiro sustento deste bairros: os pés dos ídolos!


Tal como os heróis, o bairro não é seguro. Demasiado popular, para todos os restantes habitantes da cidade
À medida que tombamos para o porto, cada vez mais um dinossáurio cemitério de navios enferrujados, a solidão das ruas, a ausência de passeantes (tínhamos subitamente mudado de cidade, de planeta) deixa antever um mal-estar, um desconforto na espinha, para quem se perder neste labirinto de pobreza e, sobretudo, descamisados, ausência de referências e de alternativas.
Linhas de comboio abandonadas, baldios dentro do bairro, confundidos no bairro...
Bairro ou baldio?
Subitamente…



El Caminito, a versão popular visitável: 60 metros de barracões de lata, encavalitados numa imaginária montanha de cor e um espectáculo de rua que respira Buenos Aires: alegre, insinuante e provocante, criativa, artista, plena de diversidade e sem vergonha de si mesmo, dos seus traumas e alegrias, tango de rua sem complexos…
Tínhamos retornado à cidade!


O tipo de boca desdentada e perfil distintivo Boca, vestido de colete amarelo berrante, TAXI nas costas, e ele assobiava e os táxis apareciam, apreciava a camisola 10 do Boca, versão 1981.
- É a primeira camisola de Maradona! Tenho uma igual, que está cheia de sangue!
Alguém terá querido saber de quem era o sangue?

Plaza de Mayo – Símbolos de uma pátria sofrida


Plaza de Mayo. A fronteira entre a boémia S.Telmo e as avenidas imperiais, a 9 de Julho – a mais larga avenida do mundo – o obelisco que se impõem como uma bandeira de pedra entre o palácio do Presidente e a praça do Congresso, símbolos do poder e (quiçá) do nacionalismo aceso.
Plaza de Mayo, símbolo das encruzilhadas históricas de um povo jovem.


Aqui desapareceu o fascínio revolucionário (ou fotogénico consoante a intensidade da boémia) pelo argentino, multinacional ibero-americano Che!
A Casa Rosada, ao fundo representa o farol do (fascínio pelo) poder, da força messiânica dos líderes do povo (descamisados, pobres e infelizes), dos militares absolutistas e opressores com sonhos imperiais que repõem uma ordem instalada (?), uma sucessão alucinante de extremos, que se intercalam periodicamente com os reinados de famílias com mística popular e o fascínio pelas mulheres de personalidade forte que se tornam poderosas e idolatradas
O clã Peron, os militares e as mulheres são os protagonistas da História da casa rosada, do farol da Plaza de Mayo e de um país.
Sangue, suor e lágrimas.
Eva discursando ao povo na janela da casa rosada.
Mas a Plaza de Mayo é também o palco dos equívocos, os absurdos, os contra-sensos e as encruzilhadas do nacionalismo excessivo (exacerbado?).
A mistificação das mães de Maio no auge da ditadura militar, que exibiam os sinais dos filhos desaparecidos (feitos desaparecer), opositores de um regime, que não tolerava protagonismos populares.
Cento e cinquenta mil pessoas que aplaudiram a invasão das Malvinas, em pleno período de declínio da ditadura militar de Vilela e …
Sem opinião nem preferência, apenas uma terra de fim de mundo e dois egos (nações) não negligenciáveis nem conciliáveis!
Manipulação, revolta, nacionalismo, mistificação e a voz do povo: tudo numa só Plaza e num só século.
A Plaza de Mayo parece, no entanto, querer continuar a alimentar-se (do sangue) da sua História.
A casa continua rosada, o obelisco (no alinhamento do da 9 de Julho) as grades que se confundem o trânsito de passeantes na praça (protegem as flores, o obelisco, ou os presentes e futuros manifestantes de vontade?), a circulação labiríntica do centro, os cartazes espalhados, presos nas grades, abandonados à presença de ninguém, como que a marcar lugar para a prioridade das causas a defender, ou apenas a publicitar.


A bandeira azul celeste, que inunda a praça procura apaziguar as mentes, e a catedral Metropolitana, que abre as portas sem distinções, eleva as almas dos chorados na Praça e relembra com deferência os Heróis da República.
Rua de Mayo, 875
O café Tortoni, referência de intelectuais e artistas, posiciona-se no eixo do poder, como a barricada da irreverência incontida e permanente á ousadia imperial dos governantes.
Rua de Mayo, entre a Plaza de Mayo e a dos Congressos.
Vigia para a casa rosada e para o intimidatório obelisco da avenida 9 de Julho.
Romance e o Tango.
Borges e Gardel: duas extremidades do quadrado estético de referência do passado recente de um povo jovem.
Tortoni, antiga tertúlia, hoje espaço de culto.


Os mundos diferentes de poesia e do poder; também é possível!
Grande café gelado com sabor a Rum; o mundo visto com outro sabor (cheiro, tacto ou sabor)
No Atheneo (a segunda livraria mais fascinante do mundo) voltamos a sentir a riqueza cultural de povo de intelectuais e artistas, abertura de espírito e alegria de viver!
Um teatro transformado em livraria.
Camarotes cheios de estantes, livros e diversidade!


A Praça de St. Martin, veste-se de árvores e de uma homenagem generosa ao herói nacional, no grande centro de comércio da cidade!
Um país de artistas e militares!
A Torre Britânica – uma anunciada bela vista da cidade e uma oferta do governo britânico em tempo de paz longínqua.
Em frente, do outro lado da avenida, na encosta sobranceira ao monumento ao herói nacional, foi erigido o memorial aos mortos argentinos na guerra das Malvinas.
Render da guarda do exército argentino, uma gigantesca bandeira azul celeste, um confronto permanente de olhares com o símbolo do inimigo britânico.
Momento simbólico intenso neste fim de tarde de calor em Buenos Aires!
Equívoco histórico, posicionamento estratégico ou combate de orgulhos?
Não sei, mas uma brisa de frio intenso cortou o Verão abrasador da cidade.
Real ou imaginária?

sábado, 30 de janeiro de 2010

S.Telmo – O paraíso dos estereótipos



No Domingo, a Calle Defensa e a Plaza Dorrego esbanjam música, arte e tango.
Arte que evoca os símbolos da latina América, explora-os como seus, mas não se condiciona!
Gardel, Evita e Che Guevara, (e a espaços Borges) sem carga ideológica, apenas uma expressão de tolerância, de espírito mundano, cidadãos de uma intelectualidade refinada.


Provavelmente um quadrado estético de referência que, no seu interior, abarca toda a imaginação de um povo
E as ruas caiadas de murais, pintura em estado caótico…proliferam sem o temor dos grafittis.
Mural, não graffittis…essa é a afirmação da identidade argentina.


Argentina saudosista?
Nos ícones, símbolos (ideologia? Folclore?) de Buenos Aires, não há uma fronteira evidente entre o passado (tudo provém de…) e o presente (uma consequência preservada de…); daí a ausência de um saudosismo doentio, afogado de oportunidades perdidas e de heróis petrificados.
Esta é a diferença Argentina!
A ideia de beleza impura que conjuga com…. Tango de rua! É a síntese musical entre o amor e a paixão, por definição.
No presente cultivam uma decadência controlada - não demasiada para não parecer nostalgia e passado, a suficiente para não defraudar as memórias e afirmar o ADN das gerações presentes –
É preciso não esquecer que na origem, impresso no certificado de autenticidade, eram reuniões bárbaras e grosseiras…onde se executam movimentos indecentes e obscenos.
Beleza impura!
Sensualidade e paixão latina!
Será a ténue fronteira?
Aqui, a boémia é uma marca registada que se preserva, se alimenta e se exibe e não há preocupações absurdas com o purismo, porque todos preferem a diversidade.
Os seres habitantes desta gigante feira de tudo, mas sobretudo arte no sentido mais lato, -expressão plástica de múltiplos estilos, referências culturais, mestres e tutores – expõem aos forasteiros, mas também a eles próprios, os despojos da teoria de evolução de Darwin, as peças da história quotidiana dos seres comuns e extraordinários, que sobreviveram ao tempo…
Feira da ladra?
A diversidade também exibe design, bom gosto, pátios dos tempos da fundação da cidade, recuperados das cinzas – trazendo a história para o presente – cafés evocando os sentidos mais preciosos da espécie humana –.
Souvenirs, uma autenticidade da era presente, postais antigos, e muita arte.
Nunca esquecendo o quadrado estético de referência!
Na praça Dorrego, dança-se tango em cima da mesa e canta-se milongas sob o Sol abrasador!





Tão passado, tão naturalmente presente!
S.Telmo, no seu esplendor, numa cidade que não se deixa facilmente imitar.
Continuamos à procura de referências, outros lugares, outros povos…e ao fim do dia, ainda não tínhamos encontrado porque, mesmo numa visão minimalista, o povo fazia, sempre, toda a diferença!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Plaza Lezana – As Boca (s) do Inferno


O papagaio sussurra palavras de amor genuíno, pendurado numa árvore de vistas amplas, rodeado de família que se enrola no tronco inatingível da árvore referencial da Lezana.


As cúpulas da ortodoxa (i) a igreja complicam uma vez mais os referenciais latinos, na fronteira entre o berço italiano e espanhol, jardim de terra vermelha, os canhões deitados por terra em palácio vulgarizado em museu, uma placa outrora eventualmente monumental, reclama a fundação da cidade e dezenas de nomes vagamente conquistadores, mar del plata, tantos quilómetros rio acima, mar fora.


Mas o marco está lá, jardim decrépito quão baste (será das raízes, dos vasos rachados?), as poucas barracas de uma feira anunciada, gente que não reclama das origens, mas refresca o ar com uma leveza, digna de ser.
O velhote das barbas brancas vende umas chinelas de pele!
O jardim permanece silencioso, solene e obviamente decrépito, abandonado com um certo desdém aristocrático, de quem afinal reclama ser a origem da cidade.
O jardim sim, reclama!
As gentes não, nem pensam nisso!
O velhote destila (gosto à brava da palavra destilar, por isso repito) paciência!
Os cães de raça que se passeiam como os verdadeiros donos do parque (e não os donos!) delimitam o seu espaço e a sua origem. Afinal há quem reclame as origens; sim, os cães de raça que rechaçam os rafeiros para o bairro de Boca, para lá da fronteira, do popular sem grandes limites.
Domingo de manhã, Verão abafador do Sul, na origem de Buenos Aires – seria um take promissor
Mas a entrada na Defensa, empurra-nos para um presente mais frenético e afasta-nos de Boca.
Um velho e triste olhar descobre a nossa curiosidade do outro lado da rua.
Ele espreita na mesa encostada à janela escancarada do velhinho bar Britânico!
Será que é a hora dele perscrutar?


Não ouso perguntar!
Roubo-lhe uma foto (ele sabia que lha ia roubar e prendeu-me o olhar…sem pestanejar) e escapo-me entre as calçadas de pedra de lastro (dos navios) e as sombras do envergonhado, culpa não…mas preparado para o pestanejar mais rápido do Oeste, até levemente bélico.
As referências continuam fluidas, é afinal a essência das culturas que são origem e destino!
Afirmativo!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Jardim de Mariposas - Sensibilidade e sustentabilidade



É definitivamente uma manhã com aurora de sustentabilidade.
La Recoletta lava-se da noite, sem urgência que um Domingo quase madrugador não exige.
A carne já destila no assador do Lola, uma fogueira de paciência, um braseiro cercado de pele, pata e lombo!
O tempo não urge, e a carne não se queixa …
A Biela, qual mítico paradeiro de ilustres donos da metáfora e da dúvida existencial à sombra de uma borracheira centenária, ancora-se nos rituais do café argentino, não há lentidão, quem fala em ritual é porque não entende que é mesmo uma profissão: perscrutar os passantes, adivinhar-lhe as vidas e as personalidades, os sentimentos e a genealogia, pelo menos directa.
E a adivinhação exige o requinte do chocolate, um copo de água milimetricamente gelado, um sorriso…e tempo
E com Borges a espreitar da parede interior do café, acenando com aprovação por entre um exército de sincronizadas ventoinhas de tecto, nós perscrutamos.

Uma burguesia idosa que não lamenta a crise (a velhota por detrás do vidro, cheira e mostra uma minuciosa almofada de bebé, havia croché no seu olhar, uma avó no sentir, gesticular na sua juventude que brilhava nos olhos).
Havia harmonia no bairro…
No interior, a meia-idade grisalha parecia resumir a semana em três jornais e alguma desinteressada (havia desdém no olhar? Triunfalismo na expressão facial, ou apenas rugas peronistas?) discussão.
Presidente Cristina pressiona o Banco Central, cheira a emissão de moeda selvagem!
A casa rosada desperta autoritarismo…pintem a casa de branco!
Juraria que a meia-idade grisalha prestava vassalagem ao poder das ideias e procurava ser merecedor de Jorge…a sua foto parecia adquirir cor, expressão e novo aceno de aprovação!
As ventoinhas aceleravam a sincronização – por momentos o cenário era tropicalista, sim olhar para o tecto do Biela, o famoso café de La Recolletta, transportava-nos para outro lugar, não podia ser burguesia da elite europeia, porque será que me lembrei de Casablanca?
Estamos na zona Norte ou na zona Sul?
Elite ou descamisados?
Europa ou trópicos?
Jamais o iremos entender…absolutamente.


Nuestra Señora do Pilar a caminho da Plaza de Francia; uma missão católica, definitivamente sensações oriundas de América Central.Jardim de Mariposas, paciência e sensibilidade de cientistas que libertam centenas de borboletas de viveiro num espaço aberto, cercado de redes…e as recolhem…e as libertam, algumas morrem de velhice no processo de transladação!

Consciência Europeia no estado puro.
Eva descansa em paz do outro lado do muro…porque não reconhece os descamisados na multidão de fãs (curiosos, conquistadores de troféus?) que se acotovelam, nos corredores estreitos de campas mortais…alguns…Eva Duarte parece inesgotável, embalsamada e santificada, ninguém duvida que com 33 anos, encarna Jesus, força, revolução e espírito messiânico.


Latinidade em carne viva!
A feira de Domingo na Praça de França, centrifuga-nos as dúvidas, a latitude e o estado mental de um povo, porque o comércio e o consumo é o (único?) unificador (de diluição, confronto ou abraço?)
Tanta praça numa única referência cultural.
Segundo os guias do bom comportamento turístico, o bairro trendy da cidade.
Depois de tombar praça abaixo para Alvear – e as borracheiras continuam centenárias cruzamos a evidência do luxo das grandes avenidas. Miranda (Mira & Anda) Time. Convencidos?


Talvez!