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domingo, 28 de outubro de 2012

Titicaca – Existem oceanos bem acima do nível do mar!


O lago Titicaca é a origem de todos os povos andinos – dizem-nos!
Um enorme depósito de água doce (eu era capaz de jurar que tal extensão teria algo de salgado) a 3,800 metros de altitude, rodeado de picos gelados, desertos secos e tórridos, é motivo que explica (per si) o seu papel civilizacional.
Hoje sobram comunidades que vêm o lago como se fosse o oceano pacífico, tamanha a sua distância do mundo costeiro e cosmopolita. Comunidades que se banqueteiam de turistas que procuram os últimos mundos perdidos…
Mas, para além do folclore dispendioso, os Uros vivem mesmo em casas flutuantes e, mesmo que o artesanato não seja deles, viver dentro de um lago é … estranho!



E nas margens e nas ilhas do lago, é a terra que os alimenta – e não nós.
Mas quem manda no lago, nas margens e nos montes bolivianos, lá longe a oriente, são os Aimaras: dois milhões à volta do lago, quatro milhões no altiplano.
Derrotados pelos incas, hoje falam num país novo e até já têm um presidente, o boliviano (de acaso) Morales.
Hoje de manhã, quando saímos no bote de 13 nós, lago adentro – jumento capaz de transformar um lago num mar, também para nós, marinheiros – vimos sobretudo um azul profundo do céu e da água, tão profundo que dói.
Não sei se é da altitude, ou da forma como a altitude nos enlouquece com as histórias de lendas sobre as origens e os povos desta mãe andina, mas as cores são tão profundas quanto duais: azul-escuro da água e branco do céu e dos montes bolivianos da cordilheira oriental, azul claro de céu e cor de terra árida do altiplano.
A manhã dócil e a tarde ventosa e ondulada…
Lenda ou História não escrita – e portanto eventualmente real – estas são as cores do mistério.
Mistério!
Esta é a sensação repetida desde que subimos acima dos três mil metros.
Mistério e civilizações que adoravam a natureza.
Visitada a esta distância, não vejo como eles não poderiam deixar de ter razão!


El Condor passa (por aqui)



O silêncio da madrugada feita manhã no vale do Colca, recorda-nos que acordámos nas entranhas dos Andes, nas entranhas do mundo!
É um vale que se transforma em Canyon à medida que o rio resvala para o Pacífico e que nos conduz dos ondulados e férteis vales para as paredes abruptas de rocha em vinte quilómetros.
1,300 metros debruçados para baixo, numa visão alucinante, à espera que o condor passe.
E o(s) condor(es) passa(m), tarde para a hora marcada, mas plana ao ar sobre as nossas cabeças e eleva-se ao sabor da temperatura que sobe!




Três metros de imponência entre duas asas abertas, revelam-nos o seu estatuto sagrado, entre os deuses da natureza e a religiosa dicotomia do sagrado inca.
É uma singular combinação de elementos: céu, sol, montanha, rio e o condor.
Nas entranhas do mundo, é garantia suficiente de termos conquistado a eternidade, a vida do nível superior nas asas do condor.
Chichinito, tanto quanto é possível entender a camponesa que nos pede boleia, à beira da estrada, de regresso a Maca, uma das dezasseis aldeias do vale, perfiladas a par, frente a frente dos dois lados do rio, em que os espanhóis acantonaram os indígenas do vale, após a conquista, cada uma com a sua muy católica, branca e singela igreja, cujo único inimigo são os terramotos que as abatem como cavalos (apenas um trocadilho básico e rafeiro com os cavalos também se abatem, despropositado porque aqui há poucos cavalos e tanto quanto nos apercebemos, não se abatem).



Mas a camponesa tinha medo do Chichinito, um duende (mau, apressou-se a acrescentar) que por ali vagueava, especialmente dentro daquele túnel, toscamente escavado na rocha, que servia de passagem a todos os veículos (e camponeses), por entre uma nuvem de pó e escuridão (atravessar aquele lugar dantesco a pé, no meio do pó, da escuridão e dos muitos veículos, seria para mim razão mais do que suficiente para acreditar em duendes maus).
Nunca o tinha visto (ela) mas o marido, esse sim senhor já se tinha cruzado com ele, onde, no túnel, claro, pudera, digo eu!
Aborda os aldeões e propõe-lhes trocar o seu corpo por plata.
Muy malo!
E sempre que um turista tomba fulminado pelo mal de altitude, sob a forma de ataque cardíaco, então o povoado sabe que o Chichinito anda por perto e enganou mais uma alma desatenta (ou gananciosa, digo eu)
De regresso a Chivay, percebemos que não é apenas a alpaca que se come, em forma de guisado…
Rebobinámos a altitude, os vulcões, os lamas e os pastos, as zonas húmidas da reserva natural e subimos, subimos até ao altiplano que nos levaria, ao longo de horas sem fio, até ao outro lado da fronteira, por entre lagoas e flamingos, aproveitando a luz amarela do fim do dia, para mentalmente fotografar a paisagem dourada,da cordilheira oriental dos vulcões até ao lago Titicaca, derramado aos pés da cordilheira ocidental deste pedaço impressionante de mundo, chamados Andes.
Absolutamente rebentados pela altitude e pelas milhas voadas hoje, aterrámos, aterrados pela música andina que berrava lá fora, cá dentro, nas margens do lago Titicaca, pés secos e cérebro encharcado de mal de altitude.
Preferimos pensar que eram arrepios de excessivas sensações fortes para um homem só
O meu último suspiro foi para o condor, para os flamingos, para os patos do altiplano e todas as almas voadoras que fustigavam os céus desta terra de fronteira natural: o altiplano ter-me-á respondido com um trovão, que incendiou o lago e me desligou os fusíveis!
Terei sonhado?
A meio da noite, chamada madrugada, dei por mim acordado e combalido a olhar para a janela, e tive a certeza que nada disto era um sonho!

sábado, 27 de outubro de 2012

Altiplano – A natureza em estado sólido



 Entre cordilheiras só sobrevivem a altitude e imensidão dos elementos.
Imagens de um dia bem acima dos 4,000 metros que foi esgotando a nossa energia, quilometro após quilometro (em altura e em distância) em visões que alternavam entre o lunar surreal e os nevados vulcões sagrados das civilizações pré-incas
As imagens confundem-se com os sons andinos que, no silêncio de uma estepe de montanha sagrada, irrompem na nossa memória em flautas e violas, porque o criador deste filme panorâmico imaginou-o com banda sonora
Os picos gelados têm som, cheiro e paladar…
Pura magia dos (todos) sentidos!
A 4,900 metros, atingimos o cume da nossa existência breve, Patapampa reserva-nos esse troféu numa varanda de oxigénio debruçada sobre os vulcões, oito magníficos espécimes que nos rodeiam, a nós e aos milhares de oferendas à deusa da montanha, feitas de pedra
Pedra sobre pedra, perdemos o fôlego, mas preferimos pensar que a magia é mais forte que o mal de altitude…
Hualka Hualka, Ampato, Sabancaya, Chachani, Misti, Picchu Picchu e Mismi
Tudo isso!
Arrepio, mas preferimos pensar que a comoção (comunhão com a natureza e a presença aos pés – melhor, joelhos – da energia sagrada dos montes brancos) é mais forte que o frio andino que nos varre
Visões de uma natureza sagrada.
Aterrámos no fértil vale do colca dos terrenos cultivados em socalcos, varandas de pedra com uma diversidade de culturas, própria de quem aprendeu a sobreviver, muitos anos antes de os espanhóis terem chegado.
O império do milho e do têxtil do seu próprio gado: os lamas as alpacas, as vicunhas e os guanacos e alternado entre os domésticos e os selvagens.
Em Chivay – depois do altiplano, o vale – entendemos que a alpaca também se come, e que o guisado é, afinal de contas, apenas um guisado!
Aconchego carnal de um estômago colado à desoladora beleza do altiplano.
(num lapso de segundo, fiquei com a mesma sensação da criança que se apercebe que o fofinho coelho também se come, apenas um lapso de segundo)
Na capital da província, aterra também o vale, o mercado lembra-nos que para lá do altiplano mora gente, e uma diversidade surpreendente de gente e de agricultura.



E sempre a trilogia Deus (agora o católico plantado na praça de armas – sim, outra vez), natureza (elementos) e sobrevivência (o mercado, a terra e os animais)
O banho de águas quentes e termais, noite dentro e no vale (agora mais) profundo, consagrou a comunhão entre nós, humanos, e os deuses da montanha.
Mas àquela hora não havia virgens para sacrificar, nem sacerdotes que nos encomendassem aos deuses dos cumes gelados
Que os deuses da natureza nos perdoem e não nos lancem a sua ira!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Santiago – A cidade que ousa desafiar


Santiago não se deixa conhecer num dia.
Porque não ambiciona ser exuberante e persegue uma necessidade de afirmação.
Das fronteiras, da sua identidade!
Estreita e comprida, Santiago é a cidade que se afirma como a americana.
Um desafio permanente aos vizinhos, sem compaixão.
Quarta-feira de manhã de Verão e sente-se a leve brisa dos Andes a soprar pelas ruas movimentadas do bairro de escritórios.
Vitacura pretende ser um elogio ao sucesso, ao trabalho e às riquezas naturais de um país, e à elegância e requinte, as torres de vidro.
- Estamos a construir o maior edifício da América, maior que o Empire State!
Não há calor na manhã da cidade. Por isso ninguém se lembra da boémia.
E a nossa voz de fundo, o Chile que abençoa os Andes que os separam dos vizinhos, esclarece que o bairro universitário, hoje vazio de Verão é o viveiro do futuro…
Afinal há sinais de boémia na cidade…até irreverência!
Esporadicamente entrecortada por lembranças de um passado recente:
As camufladas casas de tortura do regime militar.
Em ruínas…de propósito, impossíveis de reparar por decreto. Reminiscências?
Lembra-me as ruínas na capital dividida de Berlim, no auge da guerra-fria; destroços que se afirmam como espelhos dos nossos (seus) próprios excessos, feridas que não se conseguem sarar, se não formos capazes de expiar os nossos pecados.
Exagero romântico!
Afinal de contas, Allende pode ter sido um governante sonhador, absolutamente destituído de sentido prático, mas é muito mais sedutor que o General.
Contudo, não se vislumbra na nossa superficial memória visual, algum substancial vestígio de trauma colectivo. Talvez uma paz negociada, por falta de consenso!
Casa de la Moneda: Outrora símbolo, actual residência da bem-aventurada Presidente.
95% de aprovação, dizem eles!
E mesmo assim é obrigada a abdicar…os tempos modernos têm um medo horrendo de perpetuar mitos, sobretudo na Latina América.
Palácio La Moneda…
É um palácio urbano, encurralado na cidade (como conseguiram bombardeá-lo, entre os prédios, a cidade e o povo?), em sintonia com o país, sem jardins que o rodeiem, e que turvem a visão aos governantes…
Allende, presidente eleito, tem aqui o seu espaço de memória, entre o palácio e o Ministério da Justiça.

E ninguém estranha que o bombardeemos de fotografias, habitantes desta cidade que se vestem de bancários e funcionários, e que não se abandonaram aos prazeres do Verão na costa, para os lados de Valparaíso.
Ao que consta, políticos e magistrados já foram.
Restam as referências católicas.
Uma freira solitária nas ruas de Santiago, caminha apressada para a Praça das Armas, uma verdadeira inspiração fotográfica. A praça!
Foi aqui que tudo começou; a cidade, o país, a encarniçada disputa com os índios pela posse de uma terra que não pára de tremer, que nunca parava de tremer.
Ontem à noite foram dois abalos, garantem!
A melhor memória ao passado sangrento é o povo mestiço que povoa a praça.
Quinhentos anos depois o presente testemunha que não houve vencedores; extintos ou imersos, os donos dos bosques e das armas, fundiram-se numa nova raça!
Pedro e Inês estão presentes na Praça, na Catedral erigida, mas não era possível ignorar os índios, os espíritos de um país que não chegou a ser: eles vigiam-nos de perto, na entrada Sul da Praça, estupefactos pela petrificação abstracta a foram sujeitos, mas conformados porque a pedra é o destino final de todos os heróis. Também de Pedro e Inês.
Em breves ângulos de exposição do Sol, rendemo-nos à evidência de ser uma Praça espanhola… mas nos profundos e demorados ângulos da sombra, perdemos a certeza e as referências europeias.
Fantasmas ou povo?
Não há gritos mapuche no ar, os cães não ladram mais e o único conquistador a cavalo, também ele petrificou, no extremo Norte da Praça!
Norte, Sul, parece evidente que ninguém abandona já, esta terra!
Praça de Armas, inspiração fotográfica e memória contundente.
Quando revejo as chapas (sim, fotografamos com chapas), os vendedores ambulantes de sonhos e bugigangas desapareceram e sentimos as inexplicáveis sombras…ou talvez seja a brisa que é inexplicável nesta manhã de Verão?
Fantasmas ou povo?
Na altura, povo diria!
Em flashback, fantasmas certamente!











Bellavista, finalmente a reconfortante boémia, sonolenta, preguiçosa e causticada pelo Sol, cores tropicais e latinas, casas térreas e arte popular, apelando ao Pisco Sour e à cerveja gelada.
Afinal sempre deve ter havido bosques frondosos!
Atravessando o rio Mapocho…Ah, terra de selvagens, para lá do forte!
Estivemos na casa de Neruda! Uma das três casas de Neruda, uma das três paixões do poeta:
Matilde, entre outras!
O poeta precisa de inspiração e liberdade, só podia ser Bellavista!
Por isso, morreu três semanas depois do golpe de estado.
Misteriosamente…afinal a pedra não é o destino final de todos os heróis. Nalguns, a mente e a pena (símbolo da escrita) gravam a nossa memória de recordações doces e sentidas.
Mas vista de cima, a cidade parece nunca ter sido bosque, o Sol está demasiado alto para alaranjar os Andes, e o fumo que não se vê mas se sente desvanece as cores e presenteia-nos uma cidade cinzenta aos nossos pés:
Sathanattan? Nãa!
A diva de quarenta, descansa o olhar delgado e as coxas can-can sobre a cidade.
A bicicleta vigia-a, e um olhar furtivo descortina cor na cidade entre os raios da roda da frente.
A Diva e a sua montada. Momento fotográfico…digital!
Concéption, dixit!



Descemos à terra no mercado central.
Entre o peixe do Pacífico e a Centolla universal, o mercado é um momento de cheiros e sabores fortes, uma babilónia onde não se distinguem os que compram e os que vendem, pratos com sabor a música chilena que ecoa na abóbada das esplanadas interiores…
Escapa-se por debaixo das cadeiras e dos menus, trepa nos pilares metálicos, surpreende-nos em todas as esquinas, todos iguais e um som inconfundivelmente diferente.
Na hora do almoço, os estridentes e gelados picos dos Andes, tinham descido à praça.
Não havia flautas, mas violas que competiam pelo reconhecimento e pelo espectáculo.
Almoçámos Santiago no mercado central!
Só o vinho branco do Chile, nos faria sentar junto à fonte – lavagem dos legumes? -reconhecendo, na música, a originalidade de uma cultura e na comida, o apelo do mar!
Mesmo que Santiago não se deixe conhecer num dia.





Nem em dois…
Dupla personalidade na baixa, é o sentimento de Sábado à tarde na mesma cidade. Deserto humano, primeiro e uma repentina enxurrada de gente que não pertence ao mesmo filme.
De onde vêm? Para onde vão?
É Sábado à tarde e os subúrbios desceram à rua, agitam-se num só sentido e despovoam as ruas em redor.
Uma súbita sensação de América Central: as hordas incas que desceram do Peru?
Era tempo de espreitar os conspiradores no Rincon dos canalhas!
Chile libré! Seria a verdadeira senha?
Nunca se soube. Debalde!
Uma velha de vassoura na mão, exclui-nos do bar, deste pequeno pedaço de clandestinidade.
Tínhamos chegado demasiado cedo e não tínhamos sido devidamente recomendados. Ninguém sério procura secretas conspirações pela Internet.
Mas juro que vi, por cima do cabelo palha-de-aço da velhinha antipática (e amedrontada?), Allende e o camarada Che a sorrirem sobre um fundo de bandeira do Chile livre.
Roubei-lhes, num vislumbre, o seu olhar e toda uma revolução!
Como água para chocolate. O não último jantar em Santiago na cama, com Laura Esquível!
Todos comeram na mesa, feita cama dela; no bairro da Bellavista, a dois quarteirões da casa de Neruda, o Pablo na casa da Matilde…ou a virgem mãe…Poetas!
O pisco sour, aguardente chilena, recorda-nos que todos somos livres: temos plata e passaporte e não tenho perro (cão) que ladre. Uma vez mais dixit!
Força Chile!


quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

S. Pedro (Perro) de Atacama – o deserto das estrelas


S. Pedro, uma terra de mochileiros, tão diferentes entre eles, mas tão vivos e presentes.
Alguns são apenas revivalistas da mochila, sedentos absolutos do conforto e do bem-estar, no centro de uma verdadeira aventura, remotas latitudes, exóticas referências!
Como Calafate, Cahuita e Canoa Quebrada, icons (presentes, passados, futuros?) dos viajantes solidá(tá)rios, um regresso às origens ou a expiação colectiva das suas inquietações burguesas ou solidões profundas.
Na praça da igreja, um largo do coreto tão recôndito como familiar, a aldeia reinventada no sopé dos andes, passeia-se ao fim da tarde e prepara-se o cinema ao ar livre.
Cine Paradiso na noite fresca de S. Pedro.
Caracoles ao anoitecer é o centro da diversidade, onde se reúnem os contadores de histórias do mundo inteiro à volta de um braseiro, os viajantes são assim, mesclam experiências e são apenas pescadores de sensações com uma contextualização pouco precisa.
Chegam e partem dos cumes e dos vales; uma aventura em ambiente controlado!
Impossível de definir um padrão, uma origem, porque não há uma fronteira social entre os autóctones e os forasteiros.
Apenas na fisionomia andina…alguns!
Sente-se ainda no ar os cheiros e as sensações de uma última fronteira.
A Bolívia é já ali ao lado, por detrás do Licancabur, 45 quilómetros de encosta íngreme, uma estrada que se adivinha esburacada sem controlo de fronteira. Ninguém quer ir para lá! – Dizem eles
Argentina, um pouco mais a sul, Paraguai, em entreposto para chegar ao Brasil!
A música andina entope a rua, construída de sal e areia, intermitentemente iluminada por candeeiros amarelos, homenagem às cores do deserto, um suave contraste com o barro das cercas, das paredes e dos pátios, heranças de influências múltiplas:
Andes, deserto e colonização espanhola.
A noite é curta no deserto e a Via láctea é o lençol iluminado (a nuvem?) que nos fecha os olhos!
Géisers e fumarolas a 4,300 metros.
Acordados desde as quatro da manhã, tivemos saudades das furnas dos Açores.
A actividade geotérmica estava dormente, porque a temperatura do ar era demasiado alta…diziam eles!
3º Graus é muito calor – dizem eles
Uns fumitos e uma aguazita a espirrar.
Não ousamos troçar da natureza no seu estado puro, mas aquele banho matinal nas águas quentes (e sabe-se lá mais o quê) das termas de margens lamacentas sofre de tendências depressivas, multidão de cabeças espetadas no vapor e flutuando sobre as sombras da água, no limite da indecisão entre o riso e o choro.



Os fatos de banho ancien regime deviam ser proibidos, porque interferem com a vida selvagem!
Agora entendemos porque é que o pico que circunda o vale geotérmico se chama choro do avô!
Pobre avô!
A descida pelas encostas, montanhas abaixo, tão deserto, riachos cheios de verde, pontes que não existem.





Uma aldeia recôndita, sem nome que deixe recordação ou lembrança!
Uma fotografia do lama bebé órfão que bebia biberão custou 1000 pesos.
Afinal o lama não era órfão, mas a igreja era linda!
O intervalo da aventura do dia, chama-se sopa de beterraba fria, de frente para o Licancadur, sala de almoço no Tierra Atacama, arquitectura minimalista, sem traves mestras, só vidro, paisagem e vulcão.
O mais famoso dos vulcões.
O vale da Muerte (que devia ser Marte se não fosse um equívoco linguístico) é o princípio da última experiência de deserto.
A primeira verdadeira experiência do deserto no seu estado natural: absoluto inóspito.
Gargantas profundas esculpidas pelas águas, gelo, vento, lava e sedimentos, montanhas esculpidas de areia e sal, encostas arenosas que escorregam só de olhar, formas bizarras esculpidas no ar e na terra…
O Vale da Lua!

Dizem que é o lugar mais seco do mundo. Dizem!
Sublime a não cor, a forma da lua nas rochas, um arrepio na cordilheira dorsal …
Nossa ou do deserto?
Inesquecível a versão Atacamenha da Lua.
Começam a juntar-se os adoradores do Sol Poente, dançarinos da areia e do monte, adivinham-se os pés descalços e as plantas alucinogénicas, capazes de tatuar (sem possibilidade de remoção) as cores do Sol a despedir-se das montanhas, dos vales …
…oásis, vulcões, lagos salgados e…areia!
Pôr-do-Sol no deserto!
Andes pintado de tons laranja que mudam a cada momento, a cada ângulo.
Oásis de S.Pedro deita-se no planalto e o deserto capricha em formas e cores, amarelo, laranja e tons desconhecidos, porque não os há noutros lugares.
Deserto é vida!
Deserto é extremo!
Inenarrável a despedida do Imperador dos elementos!
Causará danos irreparáveis nas partes mais sensíveis do cérebro?


Atacama – o deserto das estrelas


O céu que cega os sentidos, é a primeira sensação do deserto.
Via Láctea, as Três-Marias…
Os camiões sulcam o deserto que se pressente na escuridão, e pressentem-se as maiores minas de cobre do mundo.
A chegada à cordilheira dos Andes é visível a quilómetros, pelos vultos luminosos que se confundem com as estrelas dos alucinantes monstros do asfalto…
E a distância entre os portos do Pacífico e as grandes metrópoles do interior Atlântico, torneando as cordilheiras, afrontando os cumes dos vulcões extintos
Bolívia, Paraguai, Peru e Argentina, refazendo as áridas rotas de Pedro de Valdívia.
São as novas fronteiras que se cruzam no Atacama!
O deserto em movimento, dominado pelos faróis da estrada e pelas estrelas do céu.
Depois, vem o silêncio; o deserto longe da estrada.
E no fecho da trilogia dos sentidos, o cheiro: a seco, perfumado e (particularidade deste deserto) a vento, 2,200 metros de altitude ventosa e resfriada.

De manhã, nasce um outro deserto.
Quente, vermelho, os vulcões que assomam do cimo das fronteiras, imensidão que se vê, as distâncias que não se entendem.
Tão perto (que parece), tão longe (que é).
Miragem indiscutível
Acordar com o vulcão Licancabur aos pés da cama!
Inactivo, mas com 6,000 metros de imponência, num absoluto contraste ente a terra de cor indecisa e o céu de um azul que não é cor de mortais!
O oásis dilui-se progressivamente no asfalto intermitente, nos muros altos que bordejam as árvores frondosas, os rios subterrâneos, primeiro, substituídos por arbustos, depois por umas penugens secas, tão inóspitas quanto o horizonte, por fim pedras e areia cinzenta.
Oásis, deserto, bosque inacabado, oásis Toconao.
Tudo o que se imagina num oásis: uma igreja – missionários que não se detinham na sua missão evangelizadora, pela ausência de crentes – pó que se entranha na vegetação que ousou nascer, um repositório de todo o lixo que o deserto rejeitou, uma luta que se vislumbra entre a civilização e as forças da natureza.
Um lama no curral e uma cabra que se passeia no banco de jardim, patas atadas por precaução de quem as conhece.





Mas tem gente; brinquedos esquecidos no quintal da senhora de idade, um tear que se prepara para trabalhar e a velhota da loja dos souvenirs, também dona do lama, da cabra e provavelmente das crianças que abandonaram o quintal, em defesa da sobrevivência do negócio.
É um cenário de purgatório geográfico e humano.
Antes do deserto que não tardou a afirmar-se como dono do planalto.


Salar de Atacama: uma imensidão de caprichos da natureza (ou o fascínio pela obra da criação e transformação do mundo), o terceiro maior lago salgado do mundo, o coração do deserto nas alturas, afinal o deserto tem vida
Flamingos, os donos dos pequenos lagos do Salar
A subida para as lagoas altiplanas, faz-se de medo das alturas e de transição de estado…o deserto que se perde nos cumes da cordilheira continental, simplesmente Andes!
4200 metros de altitude, lagoas de azul impossível, que competem com o céu e os vulcões.
Dizem que há alguns milhões de anos, a actividade de todos estes vulcões, correspondia a um terramoto de 40º…
Muita animação nos primórdios do mundo.
E ficaram duas lagoas…o vento assopra-nos os sentidos, um bando de vicunhas desce a encosta até ao lago, para matar a sede, um vulcão extinto de 5900 metros de altura vigia a vida animal do lago, do vale e das encostas sobranceiras.

Afinal, parece que o grande explorador dos interiores inóspitos, Pedro de Valdívia, passou apenas no vale e não conheceu este cenário do nosso mundo.
Pena para ele, e uma sede mortífera para os seus comandados que se perderam e reencontraram nos recantos mais secos deste planalto de Atacama.
Um problema de definição de fronteiras?