Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Troia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Troia. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de agosto de 2014

O último ferrie do Sul


Não é conveniente, é caro, tão imprevisível como o tempo de Verão, nestes dias e nestes anos.
Duas horas e meia de Melides a Setúbal, um alto preço que a inovação via verde não permite conhecer, uma hora e tal de espera a imaginar a capacidade do barco e a contar os carros que estão à frente na fila.
Razões mais do que suficientes para escolher não atravessar o rio, nem mesmo quando não temos pressa, quando não corremos atrás da praia
Mas o último ferrie do Sul é um clássico, faz parte do programa de festas, como a descoberta, ao longo de um enorme estradão que se agiganta à nossa frente em nuvens de pó, da praia da Aberta Nova, para os lados de Melides, a salada de polvo na tasca de praia com uns pedações mal cortados de um pão alentejano que se ensopa no molho do tomate, o chapéu-de-sol que o dono do bar nos emprestou, radiante, mas desolado de já não ter mais toldos para alugar.
A passagem pela prisão de Pinheiro da Cruz, o trepidar das estradas que continuam a não esconder completamente as raízes dos pinheiros, dezenas de anos de obras mais tarde.
A chegada à curva da Comporta por entre arrozais verdes e berrantes, a curva de entrada na Península, a descoberta dos areais à nossa esquerda, e aquela estrada que todos nós sabemos que tem fim, doze quilómetros mais à frente, e que serpenteia que nem um ébrio, encostando-se à berma do rio, uma imprudência que denúncia o ADN industrial do estuário, encaminhando-se velozmente para o mar, sabendo nós sempre, que ela irá encalhar sem fugas nas dunas de areia, derrapar e estender-se ao comprido reta abaixo na direção de Troia.
Na direção de Troia, não fosse a rotunda do ferrie, o último clássico do dia.
Por isso, mal se estacionam as viaturas no barco que não tem fundo, nem proa nem ré, todos amigavelmente encostados, porque o espaço é precioso, já o povo afogueado desata a correr escadas acima, corredores de corrente de ar – afinal, o barco não tem fundo – um terraço feliz que rodeia o comandante e a sala de controlo, também ela bidirecional, e a malta tira fotografias, respira fundo, salta de janela em janela, banco de madeira em banco de madeira, sobe e desce escadas, tantas vezes quanto andamento do barco permitir.
Enfim, também eles acham que o último ferrie do Sul é o verdadeiro final de festa de um dia de praia
Bom, nem todos. Alguns - poucos é certo -trancam-se nas viaturas indefesas, enchem-se de ares de tédio e fazem figas para que a ponte se abra do outro lado.
Mas esses são poucos, muito poucos e são assim porque não têm História, ou são do Norte.
Tudo mudou, mas nada verdadeiramente mudou neste ícone do Sul.
Tem via verde, a viagem dura mais uns minutos – o que só aumenta a intensidade da experiência – mas sem o regresso no ferrie, nunca teríamos estado em Troia, nunca regressaríamos a casa pela única porta que faz sentido, Setúbal do cheiro a assados e do festim de peixe, espalhado pela Avenida Luísa Todi.
É verdade que há outros clássicos mais clássicos que este.

Mas, puxando pela cabeça, não me consigo recordar de nenhum, que não esteja morto ou moribundo 


domingo, 1 de setembro de 2013

Os cavalos de TROIA são verdes


Subitamente, mal a serra invade o mar, o nevoeiro antecipa a noite e ninguém se parece importar com isso; os putos jogam à bola, os surfistas lançam-se nas ondas e a piscina, um oásis de azul que se realça no cinzento da paisagem, permanece intocável, nas águas serenas e transparentes daquele enclave, que reflecte as sombras coloridas dos chapéu-de-sol.
Hoje, desprovidos de qualquer utilidade, abandonados nas margens das pistas olímpicas, jazem fechados, contemplativos desta obra do regime, que se mantém de pé, com uma dignidade épica, resistente às ondas do mar, aos persistentes nevoeiros que protegem a paisagem dos caprichos imobiliários e das fantasias de um turismo embalado, às revoluções e aos exílios dos refugiados da guerra pós-colonial, à moda de peles morenas num sol raro que por aqui se instala, na vertente norte do cabo mais ocidental da Europa.



Praia Grande, 1966 é, na essência, a mesma de hoje, não fosse a loja / bar e restaurante que alberga os surfistas, janelas abertas como se não houvesse inverno neste verão da costa, com uma música que se ouve e que se dança, os brincos pendurados nas orelhas dos transeuntes, os ecrãs LED que debitam ondas ruidosas dos ecrãs gigantes.
O anoitecer realça ainda mais esta inconfundível afirmação da predominância dos elementos na paisagem.
Tão raro, quanto a chuva que começa a cair, protegida do vento avassalador que varre o lado de lá do Cabo da Roca.
Ainda há lugares assim, para quem precisa de que a natureza agreste nos acorde das depressões terrenas!



segunda-feira, 26 de março de 2012

Travessia


É um passatempo ver para além das silhuetas e dos rostos destes seres errantes que atravessam o rio para a península, deserto, margem sul, da cosmopolita cidade para o areal infinito que, depois de lá chegarmos, se revela insolitamente vazio, qual parque de diversões antes da abertura das portas.

A multidão ausente só se agrupa no cais e logo desaparece no branco do areal, no branco dos blocos de apartamentos e agora, versão estilizada, por detrás do enorme espelho (hotel, casino, design e conceitos) que reflete a marina, o canal, o céu, o rio e o mar, tudo em azul indistinto quase impossível de fotografar com contraste sem truques de pós produção.

Para onde vão? Porque vão?

Troia é o fim ao contrário porque devia ser o fim da península mas é o princípio…e o fim, apenas como uma ponte inexistente com a outra margem.

A Península existe pela ligação umbilical à outra margem, ao continente, à cidade, mas sem ponte ficou sempre a meio do rio, costas viradas para a sede do concelho (Grândola, vila morena), para a província que a adotou (Além Tejo e Sado).

Mas respirado o ar de Primavera inundada de Sol, mas com rasgos de ríspidos ventos do Norte – afinal existem ventos do Norte nos prelúdios do Sul – entendemos que Troia não se liga por ponte, de propósito, revelando um ADN ilhéu, entre o rio, o mar e a areia.

Tem tudo para ser uma ilha magnética!

As areias movediças parecem sugar a pressa, os rostos fechados de gente que parece vir trabalhar – para onde? – e outros que afinal procuram atravessar o rio em busca das terras do Sul – mas afinal quem é quem?

Não há verdadeiramente autóctones na ilha peninsular!

Azul


Atravessar o Sado num dia de Sol, numa manhã de semana sem pressas e de multidões ausentes é uma experiência azul, salpicada de rostos que se destacam da paisagem.

Este encadeamento de azul é um prelúdio das terras do Sul, uma luz que apenas o Sul tem!

E os tempos, os muitos anos não mudaram este lugar, esta mesma sensação dominante. Os barcos mudaram, a paisagem urbana das duas margens mudou e evoluiu (ou se construiu, equívoco após equívoco), mas o essencial permanece intacto desde que me lembro, com um bando de colegiais a estrear a época balnear no último dia de aulas, quando miúdos olhávamos o barco pneumático, símbolo da modernidade, que voava alucinante por cima das águas do Sado, e nós nos verdes jardins da margem, abençoados pela Santa que nos observava na redoma de vidro, par a par com a simplória arquitetura do Estado Novo.

Família, Pátria e Autoridade

A absolutamente idêntica sensação, décadas de criança, adolescente e adulto.

Na adolescência experimental de campismo quase selvagem, devorados por nuvens de mosquitos que enevoavam o azul em fins de tarde épicos e sem surpresas nas dunas que eram a fronteira das fronteiras, um pasto de esfomeados e microscópicos animais, hoje ilha entre condomínios privados.

Como adulto nostálgico, refugiava-me sempre que podia, mesmo de fato e gravata, pelos caminhos de Santiago do Cacém, mais próximo mas mais longo, numa pressa profissional que se desvanecia nas lombas da estrada, nas raízes dos pinheiros que se infiltravam no alcatrão da estrada

A serenidade peninsular – a verdadeira razão da mesma sensação, década após década – aumenta o brilho das cores, e assopra suavemente a neblina ondulante da manhã tardia.

E sempre que olho para a fronteira do mar, lembro-me…e a sensação sempre igual.

Vertigem azul!

Skipper, o meu golfinho imaginário do rio Sado que tantas vezes se riu para mim, sem me gozar, apesar de eu não saber saltar como ele, eu debruçado sobre a amurada do ferry, ele perto e longe, sempre mais rápido que o meu olhar, sim o Skipper hoje não apareceu.

Também o Skipper não se deixa domesticar, tal como a península sem pontes para o continente!