Pesquisar neste blogue

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Goa - A insustentável leveza do ser


Não há mal nenhum no passado.
Nem sequer em viver apenas das memórias do passado
Mas R (um nome absolutamente português) não aceita o presente e esse facto transforma-o num homem azedo.
Estranho, especialmente quando o passado se sente nos pormenores do presente, uma espécie de vivência lânguida que subsiste bem para além da velha Goa.
Especialmente quando o passado, como o mar e o clima, temperou um povo com mais sal e menos pimenta os autóctones continentais.
E o mais bizarro deste pequeno homem é ele acreditar que nos encanta com as réplicas inexistentes de um Portugal que, também ele, já não existe.
O que encanta na velha Goa e na nova Pangim é a forma como as culturas se fundiram de uma forma tão sanguínea que ninguém perde tempo em lembrar o passado, porque este foi absorvido no novo quotidiano de uma forma singular.
E só R reclama ruidosamente com os indianos, provavelmente goeses de apelido português, católicos de religião confessa e de um absoluto desconhecimento da nossa língua, por não tirarem os chapéus à entrada das igrejas, por substituírem os ramos de flores por coroas na adoração aos santos, por não conhecerem os símbolos da história de Portugal, por se mostrarem indolentes em lugar de subservientes.
Como afirmava o gestor indiano de uma empresa farmacêutica, à saída do avião de Bombaim, o pessoal aqui em Goa não gosta muito de trabalhar.
Suave indolência latina, impregnada na pele escura dos habitantes de Goa.
Uma indolência que atenua uma sociedade indiana muito estratificada que, frequentemente se suporta em relações de subserviência entre classes.
Quando mostrámos o cartão do gestor de Bombaim, um homem que só falava de futuro, o Ex farmacêutico R, ultrapassado pela origem e pela capacidade de assimilação, esboçou um esgar de desprezo “é um indiano de Bombaim”, como se não fosse relevante conhecê-lo, sequer.
E tudo aconteceu entre um caldo verde – muito aceitável aliás – e um peixe frito, num restaurante que servia comida vagamente portuguesa, numa sala decorada com mobiliário indo-português, povoada de estátuas de elefantes, bebendo cerveja indiana no coração do bairro das Fontainhas.
O motorista Gomes, que esboçou um sorriso complacente quando se apresentou, um goês de ascendência indiana e absoluto desconhecimento de Camões e da sua língua, aceitava os gritos de R, as esperas pelos nossos intermináveis almoços e jantares, as nossas incríveis horas de acordar, os locais ardilosos para onde os levávamos, com a mesma paciência dos seus colegas hindus do continente, mas usava um relógio de marca e dele desprendia-se uma ligeira soberba, uma altivez apenas reconhecida por latinos a latinos.
E descontada a leveza própria de um território com metade da população de Varanasi, é a herança de Albuquerque e das famílias Bhrahmin convertidas a um catolicismo que não renega os templos hindus de família, que transparece da paisagem.
E por isso mesmo, as catedrais despovoadas da Velha Goa convivem sem mágoa com o desgoverno autorizado do mercado de Anjuna, e os extensos arrozais da Goa do sul com as festas ao pôr-do-sol dos areais da Goa do Norte, pejados de multiculturalismo, sons cool, hindi e metal e de olhares em levitação acelerada.
Nada que incomodasse o velho reformado goês que passeava tranquilidade entre as igrejas e as portas da Velha Goa, recordando aos netos portugueses os momentos exuberantes de fé do Santo Francisco, e se intrometia – num português perfeito - na nossa curiosidade, aceitando sem pudor a sua condição de magistrado de um território indiano.
Ou o português da Amora, que festejava os oitenta e cinco anos da sua avó goesa, rodeado de uma vintena de familiares de origens distantes e indeterminadas, cujo único múltiplo comum era a avó e a língua inglesa.
Nem o mercado de Pangim, construído numa arquitetura de Estado Novo e bancas da fruta, que transborda para fora dos seus limites em barracas de rua e panos garridos, como uma afirmação hindu da necessidade de manter o caos, para continuar a viver.
E o motorista Gomes, que já conhece todos os santuários, igrejas e seminários católicos, vai abanando a cabeça, da forma que um ocidental percebe, entrega-nos na paz interior do seminário de Rachol, perde-se no caminho para a casa Figueiredo, basicamente porque não consegue soletrar a reta final da palavra, entrega-nos o autocarro nas mãos para orientar o trânsito caótico à saída do pôr-do-sol de Anjuna, conduz-nos ao forte dos Reis Magos e aventa a possibilidade de haver transporte de cá de baixo lá para cima, encolhendo os ombros e comunicando-nos que ali já não vai há mais de seis meses, como que estranhando porque, raio, é que estes portugueses queriam tanto visitar um local que, há cinquenta anos, os mesmos portugueses tinham abandonado em estado de profunda ruína.
Algo aliás profusamente lembrado pelo impecável restauro, iniciado pelo governo da república indiana em 1961, em prol da preservação da História.
Embrulha!
E a imponência restaurada é tão notória, que deixou de ter importância a dúvida histórica – e a confusão de R – se, afinal Vasco da Gama esteve ou não no território.
E, com os pés na areia, não conseguia entender porque é que, ao ritmo de cada pequena ondinha de metro e meio se ouvia um eco gritado que ressoava, na horizontal, ao longo de toda a praia de Baga.
Mergulhado na água tépida do Indico, os gritos eram acompanhados de braços ao alto e de risos estridentes, temperados por um inglês com sotaque e de tez morena,  “ I can’t swim, you will save me”
Sentados na esplanada, as estrelas de cinema de Bombaim despejavam barris de cerveja, as mulheres continentais fumavam sem pudor e desfrutavam de fatos de banho decotados.
Afinal de contas, o mar, o calor e as heranças devem ser desfrutados por todos.
Como a manhã em que me perdi de propósito nas ruas de Pangim, e dei por mim a fotografar riquexós como se fossem táxis, e anúncios de filmes indianos pendurados sobre arquitetura colonial, tão familiar me pareciam as bordas dos passeios pintados de vermelho e branco.
Como o jantar no hotel Mandovil.
Oito e meia da noite, pontualidade para o jantar no hotel Mandovi.
Segundo R, um clássico de bem comer goesa e portuguesa (é também interessante a associação entre estes dois símbolos)
A sala chamava-se alcova, as escadarias tinham um leve trago art Deco retardado e, ao entrarmos na sala, deparávamos com uma decoração estilo restaurante chinês, um empregado com acentuado odor a suor, de bigode farfalhudo, farda rosa e gravata transbordante, que nos lembrava os empregados do café central, por volta dos anos cinquenta e, ao fundo, por detrás de um balcão de bar, forrado de papel de parede, um jovem indiano aparentado com o Speddy Gonzalez e uma viola maior que o seu tronco, esbracejava entusiasmado todos os êxitos dos anos cinquenta e sessenta, acenando muito quando lhe batíamos palmas, e cantando sempre do fundo da sua alma, especialmente o Let it be.
Nesse momento lembrei-me da história do R quando afirmou convictamente que, após a segunda reconquista de Goa pelos portugueses, estes lançaram uns quantos crocodilos para o rio Mandovil, para protegerem a cidade de Goa de potenciais invasores.
E ainda hoje existem, não aqui, mas lá mais para cima.

Ai Speddy, que sorte a tua!