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domingo, 24 de julho de 2016

Urban Squats


Alphabet City é um bairro dentro de um outro bairro, East Village.
O nome desperta lembranças das utopias dos heróis da banda desenhada, cidades sem passado nem futuro que se constroem em linhas direitas, medidas austeras e uma comunidade de residentes que se povoa de forma simplista e desenhada entre vilões e heróis.
Mas a realidade é tão apenas prosaica como a descrição híper realista de um conjunto de quarteirões que se localizam entre a avenida A e a D e as ruas um a catorze.
Provavelmente porque, naquele canto da ilha, a leste da primeira avenida, ninguém quis numerar as ruas com números negativos
Mas Alphabet City é exatamente o oposto das lembranças animadas que o nome desperta.
É um bairro de histórias e de habitantes locais.
A história do Chico, que cresceu na avenida C, frequentou as escola pública e transformou-se num muralista contemporâneo, pintor de spray e de mensagens de esperança para os residentes do Harlem hispânico, e homenagens a figuras inspiradoras, histórias de tragédias pessoais e celebrações da comunidade.
Na ausência de mecenas abastados, trabalhava por encomenda para os proprietários dos bares e das mercearias, como uma espécie de substituto para os inexistentes cartazes e neons.



Eu encontrei pelo menos um mural assinado pelo Chico, tendo garantido a todos os incrédulos que estava perante uma obra de arte, um artista em exposição em galerias da Europa e do Jjapão.
Mas este é definitivamente um bairro de histórias e habitantes locais e, por isso, ninguém o visita
Exceto as celebridades que espreitam nas paredes, em dimensões variáveis, na  devida proporção da sua admiração pelos seus atos de fé e coragem.
Exceto os seres que a tornaram famosa nas décadas de oitenta e noventa, os últimos anarquistas da cidade, antes da cruzada de pacificação e que hoje vagueiam entre os bancos de jardim da Tompkins Square, entorpecidos por anos de luta anarquista, muito fumo e alguns ácidos.


E uma negociação conveniente com o pragmático Xerife Giulliani, que atribuiu aos ocupas dos anos noventa, espaços para viver, jardins para cultivar a arte de rua e garantias de que nem todas as esquinas jardim seriam transformadas em prédios, mantendo-se preservadas como as hortas da comunidade artística e os locais de culto da partilha de experiências e do saber fazer.
Mas, e apesar do enorme esforço que a cidade tem feito para transportar todos os seus habitantes para os círculos, para as redes, para os comportamentos e para o modo de comunicar do mundo global, muitas vezes aproximando a cultura a movimentos de vanguarda anarquista quase antissocial, ou promovendo a arte marginal nos círculos das galerias, como uma moda elitista e social, sim, apesar deste lato senso que tende a extinguir os eremitas sociais, basta atravessar o Tompkins Park às onze horas da manhã de um dia de verão intenso, para entender que, por ali, vão sobrando os restos de uma envelhecida katmandu.
E os trinta e nove jardins comunitários que persistem no bairro não deixam de evocar, aqui e ali, tons que variam entre o moderado e o persistente psicadélico, e estão povoados de seres que alternam entre a meditação e a alucinação, ou outros apenas que perseguem com olhares persistentes, as mulheres que os atravessam.
Habituados a uma boémia intelectual e revolucionária, hoje socialmente aceite por uma West Village que transpira jazz, joga xadrez em Washington Square ou declama poesia nos cafés do bairro, sentimo-nos a trespassar uma zona quase interdita.
Sem um critério de pesquisa ordenado, deambulávamos por ruas que ainda penduravam lençóis manuscritos em prédios decadentes, por bandeiras de Cuba que clamavam por revolução, por jardins fechados com cadeados ferrugentos “esse jardim está sempre fechado, nunca ninguém o abre” – exclamava um velho sem dentes de cabelos brancos, compridos e desgrenhados mas com uma conversa fluente, que insistia “ deve haver aí tesouro escondido” e percebemos assim que, mesmo em ambientes comunitários, existem os donos das chaves, e ele, que vagueava entre a avenida A e a 1ª avenida, rondando uma lavandaria comunitária e uma feira de velharias, um centro paroquial e uma loja de take away.
E o velho combatente, um sobrevivente dos meses de ocupação de prédios desfeitos sem luz ou água, e das batalhas de jatos de água com a polícia de NY insistia que ali, também viviam histórias, concedendo-nos direitos de fotografia e reportagem, tal era a saudade dos tempos em que este era um bairro tão antissocial, que era notícia.
Nada que fosse demasiado importante para a menina do café com gelo que jurava que os seus amuletos de sorte eram as notas de dois dólares e as moedas de um dólar.
“São raras”
East Village é um bairro de histórias que não acabam e quando, na Houston Street nos cruzámos com a Kats Delicatsen, logo me recordei das minhas anotações no livrinho de recordações e daquela cena quase mítica em que Meg Ryan desafiava Billy Cristal “you are a kind of man that frightens women”, ou algo parecido, e lhe demonstrava que todas as mulheres sabiam fingir um orgasmo.
Perante a incredulidade de Billy e o espanto do restaurante cheio de figurantes, a menina do “When Harry met Sally” simulou um muito ruidoso e energético orgasmo que transformou este estabelecimento de fast food na maior celebridade do bairro de East Village.
Em mil novecentos e oitenta e nove caiu o muro de Berlim e estávamos no auge do movimento dos ocupas, alguns quarteirões acima, no bairro do alfabeto.
Porque é um bairro de histórias e de pessoas do bairro, só o visita quem tem curiosidade ou recordações.

Ou ambas