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domingo, 17 de julho de 2016

Paralelo 40



- Dá-me um cigarro!
Os olhos dele assemelhavam-se a um cristal prestes a estilhaçar-se, tão profundos eram os veios avermelhados que lhe arranhavam a retina, tão cristalizado era o seu olhar
Ácido, foi a primeira ideia que me assaltou para caraterizar a sua negritude indolente, os seus fios de barba eriçada, uma tentativa, desfasada do tempo, de ser ameaçador, de se afirmar como o ultimo cavaleiro da anarquia e do asfalto, o último dos reis da selva extinta pelo xerife Giuliani, duas décadas atrás.
Mas nas ruas que cercam a grande praça do tempo, os despojos de um submundo florescente, vomitam-se pelos cantos dos passeios, vagueiam sem orientação precisa pelas esquinas, que já não lhes garantem proteção da babilónia que devorou os traficantes, os chulos e as prostitutas, tudo espécies devidamente extintas do centro da luz, das notícias e do consumo do mundo ocidental.
Só ficaram os que não tinham forças para fugir e, que agora, vagueiam em círculo pelas esquinas que funcionam como um zoológico, um laboratório experimental de seres do outro mundo, um centro de interpretação do passado
Mendigos ou passadores
Mortos vivos que parecem ter ganho uma vida artificial a partir das personagens expostas no museu de cera da quarenta e dois, aquele em que uma jovem sem memória dos fascinantes e perigosos anos noventa, antecipa as cenas à porta, agita os braços e abana o corpo, em táticas de marketing agressivo de renascimento dos passados.
Mortos vivos que deambulam na imaginária Elm Street, entre a trinta e nove e a quarenta e um, entre a oitava e nona, de forma significativa chamada de corredor oeste, à procura de agente ou cineasta que os ouse adotar e que se assustam com a invasão de seres normais, segundo a nova ordem, juventude, línguas indecifráveis e gente que corre de um lado para o outro e que nem sequer se recorda dos tempos em que eles eram os donos da rua.
Quem aborda a grande ilha pelo túnel de Lincoln e por ali se fica, convence-se momentaneamente que o glamour da grande maçã é apenas cinematográfica e que a cidade se veste apenas de feios, porcos e maus.
Mas a sensação não dura mais do que breves minutos e apenas um quarteirão.
Para lá da oitava, vive a metrópole, como um jogo de fortuna ou azar, onde todos parecem conquistar algo.
Para lá da oitava, não existem tempos mortos nem figuras de retórica.
- Para que é queres a máquina? O que fotografas?
- Coisas
Olhei-o de cima a baixo. Ele esforçava-se por manter o semblante rufia de outras eras, mas era apenas um mendigo em fase de espera.
- Coisas – repetiu, baixando os olhos, segurando com as duas mãos o isqueiro laranja que lhe passei para as mãos, acendendo o cigarro, antes que eu me arrependesse de ter parado.
Ele e mais uns vinte que se encostavam nas entradas do metro, cercados por milhares de transeuntes, centenas de nacionalidades, dezenas de polícias e, pelo menos, meia dúzia de tons de pele.
Lembrei-me de Tabucchi, “o que fazemos neste corpo”, sem interrogação.
E adivinhei que todos têm um lugar sagrado, de onde não escapam as suas memórias

Vens aqui para morrer