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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Road to India



Consegui adormecer nas estradas da India.
Quase mil quilómetros depois, incapaz de processar, compreender, explicar e racionalizar os milhares de imagens por minuto que me invadiam os olhos em tropel.
E refugiei-me nos sonhos, um estado de letargia que é capaz de conciliar realidades sem preocupações de coerência social, que habitualmente não deixam rasto, senão no nosso próprio subconsciente.
O puto à boleia de pé em cima da bicicleta, de farda da escola e mochila às costas foi a minha última recordação, antes ou depois de adormecer.
Longe dos contos de fadas encrostados na poeira e nos buracos, infiltradas nos vestígios dos múltiplos impérios, espalham-se as artérias de um país imenso.
Segundo consta, mais de seiscentos dialetos, uma religião que aceita mais de três milhões de deuses, mas que se diz ser construída a partir do indivíduo.
Posto isto, é nas bermas das estradas desta península que nasce, vive (e se preserva) e morre a grande economia informal, o que os indianos eruditos apelidam de “uncorpored economy”.
Isto foi antes de adormecer, quando procurava desesperadamente enquadrar a anarquia num sentido lógico.
Às nove da manhã, nas bermas da estrada de Jaipur para Agra, idosas de saris coloridos e vassouras de ramos de árvores varrem a terra batida à beira da via rápida, outros menos idosos dispõem expositores de bambu forrados de coloridos plásticos que podem ser doces e pastilhas, renovam-se as barracas de madeira, que se irão transformar em salas de refeição ao ar livre, limpam-se as fileiras esporádicas de lojas emparedadas por corredores de cimento escurecido, enfiadas em minúsculos metros quadrados de indecifráveis profissões e setores de atividade, as panelas começam a fumegar e o cheiro a caril impregna-se no alcatrão.
E preparam-se para o gigantesco mercado interno que circula em múltiplas rodas pelas artérias envoltas em nevoeiro do país.
Muitas vezes em não mais que quatro patas ou três rodas.
Um olhar repentino vislumbra um barbeiro de navalha afiada, uma cara cheia de espuma e uma cadeira de ferro fundido.
E lembro-me da relação privilegiada do barbeiro de Humayun, o segundo Imperador da dinastia Mughal. Tão especial que lhe concedeu o direito a um lugar no Além junto da restante família real.
Nada nestas bermas de estrada escuras e lamacentas nos recorda o luxo dos palácios do imperador, mas prevalece o poder da navalha e a barba feita como precedente de todas as cerimónias religiosas importantes.
Penso que foi aqui, algures entre o quilómetro quinhentos e quinhentos e cinquenta, que me rendi ao facto de estar entranhado.
Sonhei com o velho que parecia petrificado na encosta da linha do comboio mas que, afinal, tomava conta das cabras, junto à via (relativamente) rápida, e com as mulheres que traziam lenha à cabeça e caminhavam, decididas, para um lugar qualquer.
Acordei na noite de Jaipur e, mais além, às portas de Agra.
Voltávamos a caminhar para Norte, voltávamos a pressentir o nevoeiro de fim de dia que se confundia com os fumos que abafavam a estrada.
Regressavam os cânticos, a música, as buzinas e os motores, aproximávamo-nos novamente da diversidade religiosa, os cânticos para a oração voltavam a sobrepor-se à anarquia hindu.
Tento acompanhar, mas entre o desistir e o entranhar, escolho a segunda.
Agricultura milenar, mercados frenéticos, por vezes na mesma estrada no mesmo quinhão, na mesma berma, gente que dorme nas traseiras e vive à beira de um mar de movimento, entre os poços, as noras, o cimento e o asfalto, ou apenas um jovem que, do terraço de um casebre, espreita a paisagem e acena muito para todos os circulam na estrada.
E as pessoas insistem em avançar, podem não saber o que o futuro lhes reserva, mas sabem o que o presente as obriga.

Mesmo que a força da palavra destino seja inexorável.