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terça-feira, 27 de agosto de 2013

O bando dos quatro - Parte 4/4


E na manhã seguinte, o sapo gramofone descobriu um mundo novo, novos sons que se adivinhavam atrás dos muros brancos, que ele não podia ver, mas ouvia e, pelos sons, sentia-se longe: o amolador de facas pedalava no beco assoprando numa tão aguda gaita que assombrava o sossego das redondezas, as bilhas de lata que chocalhavam na quintinha da Dona Ana, sinónimo de vaca ordenhada, a única que a velha ainda guardava entre os exíguos pastos que se acercavam dos prédios e a barraca indómita de onde ela, e a vaca, pareciam renascer todos os santos dias.
Depois, apenas escuridão e silêncio – na ótica batráquia, bem entendido – afinal de contas, as bases científicas do Einstein eram consistentes e a inalação do composto anestesiante transformou o gramofone (o sapo) numa bela adormecida, tão real o efeito quanto qualquer filme de animação, produzido pelo cinema americano (mais tarde viriam os desenhos animados checoslovacos, esses menos realistas e mais alternativos) que durou até que as gotas de suor do enrascado Einstein o acordaram da (seca) letargia de anfíbio fora de água.
Mas aquelas faenas no pátio da escola primária não passaram despercebidas aos rivais da rua de cima. Na noite seguinte, em que os diplomados Einstein, Juiz, Passarola e Moshe já se interrogavam (cada um para si e todos com ninguém) o que fazer com o sapo que já dava trabalho que chegue para humedecer permanentemente aquela fria pele de réptil, e era preciso arranjar uma solução que não lhes estragasse a reputação, e os pais que não os largavam com as sábias advertências de que aqueles esbugalhados bichos tem venenos tóxicos (vejam lá bem a cena), a solução veio dos fanáticos rivais da rua de cima.
Bem pela noite dentro (os básicos bárbaros da rua de cima viviam sob um controlo parental bem mais frouxo, uns verdadeiros selvagens) saltaram os muros de metro e meio, vandalizaram a improvisada gaiola do sapo, espezinharam as plantas que, por ali cresciam selvagens, e raptaram o atónito gramofone que, desta vez, pouco se queixou porque o instalaram numa caixa de plástico (fechada é certo) repleta de água e mosquitos e a única dissonância na rescue box era aquela palmeira de plástico, espetada no meio do lago, que desvendava a sua origem como um remoto lar de uma qualquer tartaruga centenária, fugitiva dos maus tratos impostos por algum dono menos zeloso.
Suspeita-se que a ação de resgate no quintal dos caracóis tenha sido uma afirmação de força da turma concorrente e com um objetivo preciso de obrigar o bando dos quatro a engolir os sapos do seu atrevimento.
Provavelmente o gramofone foi despejado novamente na cova dos sapos – há testemunhas oculares pouco fiáveis que garantiram este destino – mas nenhum dos membros do bando se mostrou particularmente entusiasmado em procura-lo; as férias estavam a chegar e as novas ideias brotavam-lhes da mente com uma velocidade tão alucinante que já só pensavam nas expedições à terra do Sal, nos mergulhos na lodosa praia fluvial, na operação especial de vigia aos aviões da base aérea…
Numa madrugada da Primavera seguinte, vieram os tanques e os soldados a sério e invadiram o solitário e isolado reino de batráquios, transpuseram os montes e enxugaram o pântano, prenderam o rei sapo e exilaram os seus súbditos para um lago longínquo.
Começava a revolução dos cravos!