Ao fim da tarde, invadida por uma noite de Outono precoce, desmontam-se as bancas da feira do bairro de Belgrano, porque afinal hoje é Domingo e a cidade despeja nas ruas tudo o que tem para vender.
A igreja da praça enche-se para a missa das sete e os santos carregam a fé nas escadarias exteriores, e os crentes rezam, indiferentes ao mercantilismo dos homens.
Às sete e meia nas Barrancas de Belgrano, os locais mudam se sapatos e saltam para o coreto entregando-se às milongas da nostalgia portenha, um ritual de fim de tarde dançante onde se troca de par para completar a experiência, profissionais e aprendizes numa mesma pista, sem excessos nem movimentos demasiado ousados porque, afinal de contas, respira-se uma alma de alta burguesia nesta praça de arvores frondosas e apartamentos de largas varandas, porteiros na entrada e muitos cães que passeiam os donos depois do jantar.
Do outro lado da praça e da linha de comboio, a cidade muda outra vez de país, de cultura e de povo (literalmente do outro lado da rua) e nasce a Chinatown, um bairro chinês muito sério – como seria de esperar de um povo tão sério – tão inacreditável quanto real, o arco dos dragões que incendiam a entrada da rua, os cheiros e os bazares, as multidões asiáticas que circulam pelas ruas sem automóveis, enquanto no jardim em frente a burguesia portenha dança o tango no coreto, como se não houvesse Argentina para lá da linha de comboio.
Na casa Saenz, respira-se o charme burguês da cozinha de autor, frango do campo ao forno no prato, um Malbec no copo e a lista dos fornecedores de origem certificada, afixada no corredor junto das casas de banho.
Às dez da noite no coreto de Belgrano já não havia música e apenas um casal de fantasmas treinava novos passos, às escuras
Às dez da noite já não havia dançarinos no Coreto, porque era Domingo e em Buenos Aires a alta burguesia também trabalha.
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