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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Os Glaciares do Lago Argentino – A vertigem azul



Visto do ar, o lago Argentino é azul, uma cor tão clara como os olhos azuis, mas tão baça como os cinzentos; não se revê em nenhuma outra referência da natureza!
Miragem ou pintura a óleo?
O princípio da descida do pássaro mecânico das Aerolíneas foi difícil, quase penosa, não fosse a visão fantasmagórica das lagoas, entre nuvens e a turbulência Patagónica, o susto do voo rasante sobre a meseta, porque o dia estava bonito, a temperatura fugia do Verão argentino, em direcção ao frio e a paisagem mudara sem avisar.
Depois das pampas, a grandiosa Patagónia, província de Santa Cruz, um território de tremenda dimensão, somente 225,000 habitantes…
Esta geografia declamada ajudou-nos na aculturação a esta terra normalmente monótona, árida e plana, mas surpreendente na água e no gelo.
El Calafate, o entreposto comercial, posto de mudança de carroças de transporte.
El Calafate a planta que era utilizada para calafetar os fundos dos barcos, dos enormes rebanhos à solta, vacas mas sobretudo carneiros e o personagem que já foi dominante:
Gaúchos?
O arame farpado e a queda do preço mundial da lã arruinaram-lhes o futuro.
Reconversão ou extinção!
O futuro tem chegado todos os anos, primeiro só no Verão, hoje todo o ano.
Cheira de facto a estância; a rua que se sobe e desce após o anoitecer tardio, vezes sem conta, antes da aventura do dia seguinte, depois do degelo de hoje…
Os amantes e os loucos da natureza, do trecking, das emoções fortes também se pavoneiam neste povoado que já se assume com 25,000 habitantes…mas que é uma rua à beira do lago Argentino, cordeiro assado à Patagónia, reminiscências a chalé suíço, com chuva todos os dias e montes com cumes gelados, os Andes ao longe, setenta quilómetros de referências índias:
A índia adormecida.
O monte dos elefantes.
A cidade parece querer recriar em todos os cantos a simbologia da recuperação da cultura e tradições indígenas.
Mas não consegue!
Nada naquele lugar nos faz lembrar sequer a sua existência de forma consistente.
Calafate é de facto, e sobretudo um entreposto para o gelo, uma fantástica maravilha da natureza.
Imagine, é a música escolhida para nos apresentarem Perito Moreno, a vertigem azul!


A adoração durou quase dois dias; de barco, longas esperas pelos blocos de gelo que deviam permanentemente lançar-se nas águas do lago, contemplação sem horário, pasmo pelo que se via, pelos estrondos que laceravam o silêncio gelado, caminhando nas margens verdes …
Apercebemo-nos que cada pedaço de gelo que caía no lago, poderia ter sido gelo durante 2,000 anos…
…E a pressão dos blocos originava ar comprimido,
O que mais impressiona não é a imensidão do branco, mas os filões de um azul tão intenso que até dói.
Com Sol, mas também com chuva, vento ou frio.
A vertigem do azul!
35 Quilómetros de comprimento, uma enorme parede branca de 70 metros de altura, uma massa de gelo viva que se move permanentemente.


Perito Moreno, Upsala e Spegazzini são santuários que resistem ao degelo da Terra,
Na época glaciar tudo era gelo neste confim do mundo!
Branco, azul, massas gigantes que parecem imóveis, mas que estão vivas, e narrá-las pressupõe que sejamos capazes de nos abstrair das estatísticas e dos recordes, da teoria do aquecimento global, e da maldade feita Homem.
Com espumante argentino, é a melhor forma de narrar Perito, uma despedida ao fim da tarde, ao longe, longe das entranhas que inspeccionámos cuidadosamente, uma a uma, minuto a minuto, durante um dia sereno de contemplação e desfrute!


Bom gosto argentino e uma veneração respeitosa às dádivas da natureza.
Ecologismo no seu estado mais puro: sem panfletarismo nem teorias conspiratórias.
O cordeiro patagónico, assado naquela brasa especial (três horas ao lume), o vinho tinto de 15º, que larga lágrimas pelos pedaços de gelo caídos hoje, lembra-nos (quando nos lambuzamos nele) que, apesar de não durarmos dois mil anos, como o gelo do glaciar, estamos mais quentes (aquecimento global?) e desfrutamos muito mais!
Uma forma alternativa de ecologismo!
Até o fogo que assava lentamente o cordeiro me fazia lembrar a vertigem azul!