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domingo, 18 de janeiro de 2026

Em Coimbra mandam eles

 

A Ana é espanhola mas é de Coimbra, não apenas do património material mas especialmente o imaterial reconhecido pela Unesco, os rituais e as superstições que fizeram de Coimbra' o reino dos estudantes.
A Ana é doutorada e mais uma orgulhosa fantasma da biblioteca joanina, porque aguardar anos para poder consultar um dos sessenta mil livros deste local mágico onde os morcegos limpam as estantes de traças todas as noites e o retrato de D João V parece sempre iluminado por deferência do pintor ao seu Mecenas, sim, esta é para ela uma forma de perpetuar a memoria imaterial de Coimbra.
Ana é professora e conhece todas as dinastias e conforma-se com o facto da dinastia dos Filipes estar de castigo e não ter lugar nas paredes do salão nobre do palácio real ou da reitoria da universidade ( tudo por culpa do terceiro, segundo ela).
E explica tudo, quem foram os reis bons e os maus e porque é que os reis aqui em Coimbra são os estudantes, uns reis muitas vezes déspotas e absolutistas , temperadas  pela natureza incontrolável de uma juventude que destila soberba pelos poros do privilégio.
E a Ana conclui mesmo que nem o cruel marquês do extremismo e do fora da caixa pombal os domou no absoluto apesar de ter inaugurado a prisão académica e um extenso role de regras, cuja primeira era, afinal, a básica obrigação de assistir as aulas.
E ela gracejou seriamente com a oportunidade do retorno da dita prisão num implícito reconhecimento da derrota, o poder em Coimbra não é decididamente da universidade , mas dos jovens insurgentes das escolas gerais.
 Naquela manhã de sábado, que foi ontem, respirava-se uma solenidade quase revolucionaria ao longo da via latina, através da porta férrea, porque as capas que nunca se lavam esvoaçavam no Paço das escolas enquanto um grupo de  professores decanos, em trajos nobres e posturas irrepreensíveis, saia de uma missa privada na capela do arcanjo São Miguel.
Também fora do pátio das escolas, coabitam os edifícios e a estatuaria do estado novo, com os vestígios das ultimas lutas estudantis, todos à espera que o próximo rasganço devolva a irreverencia dos estudante à sociedade civil dos jovens empregados.
Se fosse em Aveiro numa tarde de domingo, que foi hoje, choveriam  cavacas do terraço da igreja de são gonçalinho, nas festas do santo, mas em Coimbra as manifestações de poder são mais do género imaterial.



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