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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Stranger in the city


Amadeo terá vivido muito em pouco. 
(1887 - 1918)
Afinal de contas terminou como a guerra.
Morreu demasiado novo para se deixar influenciar por tendências.
Um figurinista de expressões marcadas, um experimentalista, um aventureiro.
No fundo, tudo aquilo que não se deixa tocar.




E a sala do MNAC estava tão cheia que as formas geométricas, os números, as figuras e as mensagens subliminares se acotovelavam na ansiedade de uns e no absoluto desconhecimento de outros.
O nosso desconhecimento enleva-se com o reconhecimento dos outros.
Afinal de contas é um homem de Paris de França e da pré guerra, que só a guerra o devolveu à nossa província triste.
Mas o Grande Palácio da cidade luz concedeu-lhe as honras de um boémio habitante da entrada de século.
( sem sinais de honras póstumas, de tão contemporânea a cidade se revê nele)
E o MNAC deambulava entre as minúsculas salas do antigo registo civil, vasculhando as suas publicações no ORPHEU, e as atribulações das suas exposições, que se atreveu comissariar em território Luso, esperando que a guerra terminasse.
Puro escândalo, nunca a irreverência foi o nosso forte.
Mas hoje, nós mais adultos e devidamente certificados pelo fascínio que os franceses nutrem pelos seus e por aqueles que prolongam a auréola da capital boémia, prestamos uma solene homenagem ao homem novo.
Ao estrangeiro da nossa cidade.
Eu pressinto que Amadeo teria preferido um belo e atormentado escândalo.
Esperou que a guerra terminasse, mas a vida não esperou e, ironia do destino, matou-o com uma epidemia de após guerra.
Não ficou para desconstruir o novo regime.
Concedeu essa honra ao Almada e entregou-se, pela morte prematura, ao prolongamento de um mito e numa afirmação de soberba de que a arte não é privilégio de velhos.
Ao anoitecer de luz obliqua e tempestade adiada, decidi prolongar-lhe a história do século XX nas ruas do bairro do Chiado.
Todos merecem, afinal, uma segunda oportunidade.