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sábado, 4 de fevereiro de 2017

198? - trinta anos já é História? (1/3)



Pedro,
Genéve tornou-se fria! Esta semana nevou, e o Inverno começou esta semana.
Hoje Reagan chegou, tudo está bloqueado, vigiado, a cidade submerge em militares, em metralhadoras.
A cidade manifesta-se, uma marcha pela paz, uma manifestação pelos judeus, pelos afegãos, pelos refugiados.
Na semana passada tivemos medo em Genéve. A maioria votou “Vigilante”, um grupo de extrema-direita e, numa única semana, centenas de refugiados Zairenses e Turcos foram reenviados para os seus países. Et onc!!! Este fim-de-semana, na segunda ronda, os lugares foram distribuídos entre liberais, socialistas e um Vigilante.
Genéve, a Suíça, não está tão calma como aparente.
Eu regozijo, porque em breve terei uma semana de férias.
Mas sempre o teu silêncio. Recebeste as minhas cartas?
Penso em ti muito forte e espero que estejas bem. Escreve.

E Michelle cruzara-se com os seus olhos, por entre uma onda de loiras colegiais num bar de estação em Munique, cervejas que rodavam na mesa, elas eram quatro e ele sempre só, não diria abandonado porque Pedro achava-se longe desse estado terminal que significa abandono.
- Chamo-me Pedro!
- Michelle – o sorriso era verdadeiramente transparente, ou talvez cor de Alpes – e as outras são Stephanie, Marie e Petra, e vimos de Genéve.
- Vamos no Orient-Express até Paris!
O Orient-Express era uma griffe e, mesmo para um veterano dos comboios noturnos, havia alguns diferentes dos outros, provocavam arrepios de ansiedade e dependência, delírios de imaginação. E quando mais tarde, bem mais tarde, relia a longínqua e desencantada carta de Michelle, entre duas aulas, teoria e prática de uma prolongada vida universitária, lembrou-se como tudo (ou nada) tinha sido um produto do Expresso do Oriente de regresso a Paris, que apenas no nome resistia ao pedigree de outrora, mas que detinha um estranho poder, era o mistério sobre carris que reinava nos seres que se atreviam a desafiá-lo, entrando!
- Paris? É uma excelente altura para regressar a casa!
O fresco da noite despertou-os e a música atraiu-os para um pequeno bar escondido entre ruelas e trepadeiras, um pátio cercado de vedações e um portão que insistia em ranger, degraus esgotados pela erosão dos séculos, retorcidos como o corrimão de ferro que os empurrava para as luzes e para o fumo, um balcão corrido até ao fundo, mesas cheias de gente e histórias que se contavam em voz de tambor, o acompanhamento das baladas do jogral, viola no colo e notas bem puxadas ao sentimento e à atmosfera que Pedro jurava em voz alta já ter visto num filme qualquer, com muitos anos, sempre num qualquer antes da guerra, Paris no seu auge, como uma premonição de euforia antes que o mundo se consuma numa carnificina qualquer!
E quando a festa finalmente terminou, a pedido do barman, o grupo tinha crescido; um novo parisiense, o Che magrebino, Pedro e as Suíças e um Giovanni aparentemente mais maduro.
Este novo microcosmos de seres calcorreava as calçadas de Monmartre à procura de horizontes, e encontrou-o nas escadarias de Sacré Coeur, mas as largas vistas da colina e da cidade recusavam as certezas que eles procuravam, a música tem este efeito, anestesia o conformismo, o individualismo e gera vontades.
Mas, apesar do esforço nem mesmo o Che argelino, o mais recente espécimen europeu desta colónia em ebulição intelectual, adivinhava até onde podia ser aquela paz pardacenta que sobrevoava os anos 80, porque este envelhecido Continente não se compadece com tantas décadas de estabilidade emocional.
- Os franceses precisam de nós, mas não fazem mais do que nos tolerar – esforçava-se Ahmed por explicar os seus dilemas e sofrimentos a Stephanie, que genuinamente o desejava compreender, tal era a sua atenção – eles sentem que a nossa vinda é um fardo que tiveram de suportar, por nos colonizar, assim como um filho indesejado numa relação fortuita.

(continua)