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sábado, 4 de fevereiro de 2017

198? - trinta anos já é História? (3/3)




A lua inclinava-se no horizonte da lassidão, deitados na relva proibida, estrelas sim, todos na busca do seu Criador, cada estrela a razão da existência de cada um?
E uma sombra debruçada, aproximava-se veloz, a sua velhice tingia o luar de negro, todos a sentiram na pressa arrastada num vestido comprido, escuro de bruxa, velho de assustada, era uma expressão que eles pressentiram, mas juraram ignorar.
Mas não conseguiram!
A sua aflição exprimia-se numa língua que jurávamos inglês, um sotaque que ignoravam, uma distância que não deixava dúvidas, uma língua natal que a interrompia na sofreguidão e na ausência de fôlego, para correr mais, longe era certamente o seu desejo. Seria?
- Ajudem-me! Estou a ser perseguida…política….Polaca! Roubaram-me tudo e vão-me matar!
A identidade já se tinha esvaído na ausência de documentos, no indecifrável de um nome…
Seria louca, perseguida, doente ou alucinada, polaca ou esperanto?
Não havia mais sombras na imensidão do parque!
A Guerra-fria teria tropeçado neste grupo? Sinais ou imaginação?
Só o Leste seria capaz de os emudecer de fascínio. Até o Che passava a ser Europeu sem restrições perante tal distância…
Ela tinha um olhar que eles não conheciam. Assustado mas altivo.
O medo vinha do frio e eles não iriam perder este contacto imediato com a História, apesar de ninguém acreditar mais em espionagem, em chapéus-de-chuva assassinos.
Pelo seguro, porque mesmo não acreditando, eles podiam ter sobrevivido à Perestroika anunciada – esse era o nome, o rosto era apenas uma mancha na testa – o grupo abraçou-a no seu e no destino dela!
As luzes de Pigalle atraíram-nos, madrugada de rapina, a fauna espelhava na hora a crueza da maquilhagem que desbota, são cinco da manhã, e nem mesmo as mulheres da noite (travestis – corrigiu o parisiense, que jogava em casa e tinha a certeza) resistem na sua altivez, donas da selva, da extravagância e do néon, o baixo fundo já se arrasta pelos cafés, sem vontade de vaguear mais pelos peep show que se desventram para a solidão, e para ninguém, não há turistas, ninguém troca cartas, os pés cansados molham-se nas ruas que se inundam de jactos de água, vassouras, homens de outras fardas que procuram afundar definitivamente a noite, e quase conseguiam provocar a alvorada!
Sem sustos, Petra liderava a militância! Era preciso salvar a velha, mesmo que fosse apenas dela própria e dos seus fantasmas!
- Sempre existem os centros da Segurança Social. Ela precisa de alvura, uns lençóis, sonos tranquilos e uma eventual reconquista com a sua própria identidade, psicólogos e tradutores, alguma medicina convencional – Era bom habitar o centro do mundo, ter Joseph por perto enfim, ser guiado para longe das ameaças, ter soluções práticas para os enigmas da noite e da geopolítica, para além da capacidade de evocar um espírito militante e anarquista!
- Alvura seja! Viajará connosco na transição da noite para o dia – Giovanni procurava reduzir as distâncias, uma insuficiência que se sabia crónica, um solitário nunca deixará de o transparecer…
Pedro e Michélle não descolavam, já não havia distâncias nem solidão entre eles.
E atravessaram Pigalle sem se sentirem perdidos, a velha embalava-se no grupo, sabia-se a salvo, nunca o inimigo poderia ser tão multinacional, só podia ser uma força de paz, sentia-se no olhar que ela sabia.
Por isso caminhava sem soluços, entre eles, partilhava as conversas deles no silêncio, adivinhava-se, e embrenhou-se nos túneis do metropolitano, ela e todos, despediam-se do dia, e ele acabado de nascer, o destino era a alvura.
Ninguém se abandonava, nem no metropolitano, porque era Domingo e não podia haver nada de tão interessante a revisitar nos sonhos, eles que esperassem!
Esperavam que o momento não se diluísse na claridade (há momentos que sobrevivem à noite, àquelas noites em que nos sentimos capazes de levitar o mundo e troçar da relatividade, absurdos físicos) e ofereceram-se café com leite à avozinha, uma esplanada de boulevard que lhes acrescentava minutos á existência, que prolongava o feitiço da Lua, uma atracção que não precisava de longas e sinuosas seduções, tão pouco temáticas comuns, apenas presença, imaginação e divagação experimental sobre o mundo deles, temperado pelo bizarro e pelo mistério que sempre adensa a cumplicidade.
SOS era o slogan de uma marcha que inundava o boulevard, a avozinha entregue aos cuidados e á alvura, uma mole de gente, todas as raças de França, despediam-se em protesto dos recambiados pelo governo chauvinista.
Ahmed enchia-se de razão e os seus braços ao alto afirmavam que afinal havia temática.
Paris protestava “mais uma sinuosa curva á direita” – afirmaria Joseph!
O feitiço desistia finalmente da Lua e a comunidade de seres tornava-se irreconhecível.
As despedidas diluíram-se na fúria dos outros, e dele Ahmed!
Ahmed SOS, somos todos irmãos, a onda humana também é dele, trocaram moradas e telefones, isso sim, sabiam que sou artista e pintor?
O tempo tinha sido curto. Até á próxima! Afasta-se com a multidão.
Giovanni e a solidão viraram as costas à multidão. Despedidas sem telefones nem moradas. Talvez uma minúscula lágrima, um fungo social que corroeu um mar de individualidade. Petra pôs-se a adivinhar e juraria mais tarde que era uma individualidade tão desajeitada que só poderia ser…de escritor!
- Vemo-nos por aí! – Era como Joseph se deveria identificar com tudo. Paris aldeia, o encontro não é destino mas inevitabilidade estatística. E daí porquê moradas, era altura de retornar aos sonhos, uma sesta de Domingo!
Petra, Sthepanie, Maria e Michélle foi um abraço diferente, mais longo e nocturno, mais uma noite de Inverno sob a Gare do Nord, são sempre assim as despedidas, moradas, telefones e promessas, e já nem Maria parecia tão desemparelhada, nem a cumplicidade delas tão impenetrável.
Um beijo muito longo. Pedro e Michélle. Amar-nos-emos em Genéve!