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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

O médico Garcia: português, judeu, médico e homem do mundo

Do cimo do Castelo, quase que acreditamos que esta paisagem manchada de nuvens é tão inóspita que é incapaz de albergar seres humanos com História.
Do cimo do Castelo, entre janelas de paisagem, somos quase levados a acreditar que, quem aqui nasceu, jamais seria capaz de partir, por falta de grandes espaços, pela intensidade das fronteiras naturais, pela distância do mar, pelo silêncio das planícies.
Jurava que aqui só havia êxtase e paisagem.
Juraria...
Mas na sinagoga de Castelo de Vide, vivem-se histórias de refugiados e de homens do mundo.
Tão homem do mundo que a inquisição só teve coragem de o perseguir, depois de morto.
Nascido em Castelo de Vide...( que nem a Wikipedia consegue desmentir), e talvez ajude a explicar porque é que, apesar de tudo, nós duramos há mais de oitocentos anos.
Em Castelo de Vide em dia de feira medieval a revelação foi mesmo a Sinagoga.


Nasceu em Castelo de Vide em data desconhecida, provavelmente em 1501, filho do mercador Fernando (Isaac) de Orta, originário de Valência de Alcântara, e de Leonor Gomes originária de Alburquerque, ambos eram judeus convertidos ao cristianismo (cristãos-novos) espanhóis e instalaram-se em Castelo de Vide,[1] possivelmente na sequência do Decreto de Alhambra dos Reis Católicos, que expulsou os judeus de Espanha em 1492. Frequentou as universidades de Salamanca e Alcalá, onde estudou gramática, artese filosofia natural, provavelmente a partir de 1515, tendo-se licenciado em medicina em 1523.[1]
Regressou a Castelo de Vide em 1523, dois anos após a morte do pai, onde praticou clínica. Em 1526 obteve licença para praticar medicina e no mesmo ano mudou-se para Lisboa. Aí tornou-se médico de D. João III e conheceu o grande matemático Pedro Nunes. Foi escolhido para dar conferências de filosofia natural na Universidade de Lisboa, e em 1533 foi eleito pelo conselho para professor da cadeira.[1]
Embarcou para a Índia a 12 de Março de 1534 como médico pessoal de Martim Afonso de Sousa, que foi para o Oriente como capitão-mor do mar da Índia entre 1534 e 1538 e governador de 1542 a 1545. Depois de acompanhar o seu patrono durante os quatro anos em que este granjeou grande prestígio em várias campanhas militares na costa ocidental da Índia, Orta estabeleceu-se como médico em Goa, onde adquiriu grande reputação. Aí ganhou a amizade de Luís de Camões. Em 1541 casou com uma rica herdeira, Brianda de Solis, com quem teve duas filhas.[1]
Qaundo Martim Afonso de Sousa regressou temporariamente a Portugal em 1938, Orta permaneceu na Índia como médico. Foi um médico conceituado em Goa,[1] praticando medicina no hospital e na prisão de Goa. Foi médico de figuras relevantes do meio político e social como o sultão de Ahmadnagar, exercendo igualmente o comércio e outras actividades lucrativas. Apesar de nunca ter visitado a região do Golfo Pérsico ou de ter viajado para oriente de Ceilão, Orta contactou em Goa com comerciantes e viajantes de todas as nacionalidades e religiões.
Graças ao seu serviço e amizade com o vice-rei Pedro Mascarenhas, cerca de 1554 foi-lhe dado o foro da ilha de Bombaim, então sob domínio português. Em Bombaim mandou construir uma quinta ou solar no local onde depois os britânicos erigiram o Forte de Bombaim (atualmente também chamado castelo [castle] e Casa de Orta).[2]
Garcia de Orta faleceu em Goa em 1568 sem nunca ter tido directamente problemas com a Inquisição, apesar desta ter estabelecido um tribunal na Índia em 1565. Contudo, logo após a morte de Orta, a Inquisição iniciou uma feroz perseguição à sua família. A sua irmã, Catarina, foi condenada por judaísmo e queimada viva num auto-de-fé em Goa, em 1569. Esta perseguição culminou em 1580 com a exumação da Sé de Goa dos restos mortais do médico e a sua condenação à fogueira por judaísmo.