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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Burt – O crítico indómito


Aquele podia ser o Burt


A expressão dele era inflamada.
Cirandava nervoso em círculos, avanços e recuos, exprimia-se em gestos quase indomáveis e insurgia-se contra os preços absurdos.
Olhava fixamente para os quadradinhos brancos e grunhia.
E saltava para outro quadradinho branco e repetia a cena. E saltava de sala em sala, era um espelho do grotesco num só homem.
Por isso Burt, o homem que não via nada, que era incapaz de se deter uns minutos que fossem numa qualquer das “melhores obras do ano”, apelidava-se a si próprio de crítico de arte.
Bom, apelidar não apelidava, mas ostentava a pose.“Obsceno, Non Sense, Overpriced”.

Burt (não me ocorreu outro nome, nunca) era contudo a única peça dissonante da arte, tão pouco extravagante que feria o olhar e se destacava pelo absurdo. 



Por isso me recordo dele. Tão absurdo quanto (porque) a extravagância da arte o permite.
Por isso, me esforcei por esquecê-lo. E a exuberância engoliu-o
Na exposição de Verão na Royal Academy of Arts tudo era exagero: A densidade de peças nas paredes, a multidão de seres com livros de cheques nos olhos, filantropos, críticos e curadores, artistas e fascinados, gente que se dividia entre a cor da arte e o branco do dinheiro, entre a arte e o seu preço.
Por isso a Babel London é uma imagem cheia de significados, o espelho da contradição humana.
Longos minutos a olhar para ela, o tempo suficiente para acreditar que bem podia ser uma interpretação de um sonho do homem contemporâneo.
Ou outra coisa qualquer
(£ 10,200 numa edição de 20 exemplares)
  


Longe do ruido das salas fechadas, atravessei um parque, sobrevoei um lago, desci do bairro à cidade e voltei, mas encontrei a ousadia espanhola ao largo do Serpentine.
Talvez no dia seguinte, mas foi num dia qualquer
E voltei ao bairro, sim de vistas cheias e cheio de imagens.
E eu também acredito que a arte, a extravagância e o inconformismo nos podem transformar em melhores pessoas.
Apesar do preço
Apesar do indomável Burt!