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terça-feira, 7 de abril de 2015

Walking Distance IV - Mislead

As cidades também são um território de mensagens dúbias, imagens que não são o que parecem, contrastes de diversidade no contraditório, o inesperado debaixo da nossa vista, as personagens desfeitas pelos efeitos da luz e pelo arrastamento de quem quer parar o tempo.
Enganos ou ilusões, portanto!




90 anos luz


A Praça do Império é a mais bem conseguida contradição da cidade.
Arquitecturas e principalmente História, regimes e uma projecção optimista do nosso futuro.
Num equilíbrio apenas possível pelo desfasamento temporal dos seus criadores.
À saída do CCB, Jerónimos à esquerda, fonte luminosa pela e padrão dos Descobrimentos à direita sobre o rio
( e ainda o museu dos coches, o palácio de Belém e a fábrica dos pastéis de nata dentro do espaço sensorial), percebemos que o tempo e a distância dos acontecimentos, tendem a criar harmonias a partir dos contrastes. 
E que todo o passado é bom para se construir um futuro.
A imagem da formatura dos alunos da Casa Pia, em 1924, ocupa apenas um pouco mais de metade da imagem, não porque o passado valha mais que o presente, mas porque é preciso mostrar a geometria completa de uma parada do recente Estado Novo, para que se entenda o contraste entre a rigidez de um certo passado e a informalidade do presente, três jovens desalinhados que olham a fonte apenas pela cor.
Ou, noutro prisma, nos apercebermos que a perfeita geometria da calçada (arte, esforço e vontade) portuguesa realça o espírito livre dos jovens do presente, como contraponto ao  alinhamento bélico de uma outra época.
E naquele fim de tarde de um Janeiro luminoso, a Praça do Império, voltava a ser o centro do mundo, composto por uma multidão multinacional de cidadãos.
90 anos luz separam as duas meias imagens

(Janeiro 2015 - Lisboa, Praça do Império)


Sombras chinesas


Na praça vazia, iluminada nos lados e escura ao centro, a infância que vive em mim despertou as memórias das formas que construíamos com as mãos contra as paredes brancas e iluminadas pelos candeeiros de mesa de cabeceira.
E as formas resultantes nunca eram consensuais.
Criatividade na disputa.
Mas nesta realidade construída. os seres não têm pernas ( as pobres arrastadas pela minha falta de velocidade) os candeeiros que deviam servir de foco, são parte integrante da composição, (os faróis do saber, ou uma barreira de luz que reforça a escuridão do centro)

(Maio 2014 - Cascais)


No Smoking


Pretendia captar a liberdade do espaço aberto, uma passadeira que atravessa o mar, mas deixei lá o reflexo para que ele me traísse porque nós humanos não somos capazes de sobrevoar espaços imensos sem a força da máquinas e a segurança dos elementos
Afinal de contas não somos pássaros e precisamos sempre de uma margem à qual nos agarrar!
Há o querer e há o poder!

(Junho 2014 - Lisboa, Parque das Nações)


Gangsters


Pura miragem. Os cinco jovens até podiam ser gangsters (tinham uns blusões destoados do tempo e do contexto e um sotaque bandido). A jovem, sentada no anfiteatro virado para o mar, tão só e tão vulnerável até podia ser uma vítima. Pura miragem, de facto, porque os jovens entretinham-se a atirar pedras para o mar e a jovem, tão embrenhada na leitura nem levantou os olhos. Soberba indiferença.
Cá em cima, éramos mais que muitos
Se ela abrisse os olhos, todo aquele anfiteatro em forma de olho se abriria e arrastaria os jovens dos blusões de cabedal para o mar.
Como lágrimas
Como ramelas

(Fevereiro 2015 - S.Pedro Estoril)


Labirinto


Os únicos seres que deambulam pelo labirinto, escolhem caminhos diferentes, procuram uma saída que seja diferente da entrada. E não parecem querer encontrar-se, ou então apenas não se viram, porque estão demasiado perto para perceberem que estão sozinhos.
E eu demasiado alto para lhes ler os pensamentos, suficientemente acima para perceber tudo.
Por exemplo, que aquela praça não era um labirinto!

(Dezembro 2014 - Porto)


O fantasma de sapatos brancos


Não é um fantasma. É uma metáfora
Quando não somos suficientemente rápidos, o tempo passa a correr e, depois, só nos lembramos dos detalhes sem importância.
Dos sapatos brancos!
E eles voam na nossa frente, e quanto mais rápidos eles são, mais nos treme a mão.
Na cidade mundo, esqueci-me de lhe perguntar de onde vinha e para onde ia.

( Setembro 2014 - Londres, Trafalgar Square)

PS: Voltei a sentir a mesma impotência, no último Domingo à tarde, Páscoa por ironia. O destino era Londres, só os sapatos não eram brancos e sabia donde ele vinha!


O Português


Tão inesperado como óbvio. Na cidade do mercantilismo, só o flamengo condiz com os prazeres do Porto. 
Na cidade, outrora capital da Flandres, só fica bem uma marca de Portugal.
Por toda a cidade, em todas as ruas, o símbolo da nossa afirmação no mundo, mostrava-se orgulhosamente em campanha.
Apesar da indiferença dos transeuntes.
Também o que percebem eles de vinho? - Nós não admitimos, por definição, que nos ignorem, a não ser por ignorância (deles)
É ( o ser) português, pelo mundo fora

(Abril 2014 - Antuérpia)