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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Heritage - u(e)ber alles ou mais do que qualquer outra coisa



Restauradores, Fevereiro 2013

Queridos filhos,

Esta carta é para vocês!
Eu sei que ainda sou novo demais para vos falar de heranças.
Eu sei que não tenho muito jeito para vos falar de coisas tão sérias.
Mas, filha, não consegui ainda esquecer que ontem à noite passámos umas horas para nos pormos de acordo sobre a matéria de História para o teste, e de como foi difícil explicar as diferenças entre o livre cambismo professado por Adam Smith e o protecionismo de Marx.
Lembras-te?
Só ao fim da noite entendeste que um e o outro falavam do mesmo fenómeno, e tinham, os dois, visões diferentes do capitalismo
Um acreditava que cada indivíduo se deve dedicar ao que melhor sabe fazer e deixar os outros fazerem o que eles melhor sabem fazer, e que o mercado resolve o resto.
O outro acreditava que este princípio só é válido se todos tiverem as mesmas oportunidades (capacidades, dinheiro e tudo o que possas imaginar) e se assim não for (e ele considerava que não era) então os mais ricos tornar-se-ão cada vez mais ricos e os mais pobres cada vez mais pobres.
O difícil nesta história é perceber onde está a razão e em que circunstâncias cada um pode ter mais razão que o outro.
Agora, o que não te ensinam na História (talvez porque seja presente) é que existem outras teorias e que são nessas (teorias) que se vive o nosso presente.
U(e)ber alles (ou mais do que qualquer outra coisa) é uma das herança, meus filhos, que o pai (e os outros como o pai) vos vai deixar.
E nos livros de História vão passar por ela sem perceberem.
Por isso o pai vos escreve para falar de corporativismo.
Corporativismo é uma cena meio complicada, porque não é livre cambismo, mas também não é protecionismo, no sentido de proteger os mais fracos.
Não protege os mais fracos, os que são demasiado novos para pertencerem a uma corporação, os que ainda procuram o primeiro emprego, os inventores, os inovadores e aqueles que são tão revolucionários, que nasceram antes do tempo.
Mas também não é livre iniciativa Darwiniana onde os mais fortes e os mais dotados arrasam a concorrência, porque basicamente protege quem chega primeiro o que, numa lógica geracional, protege os mais antigos mesmo para além do seu prazo de validade.
Por isso, meus filhos, eu vos escrevo, porque isto é convosco e o pai (e os outros pais), desde os primórdios da nacionalidade que constrói esta herança para vos deixar.
E esperemos que algum dinheiro, para a destruir.
Basicamente, um Estado corporativo defende os interesses instalados, mas de uma forma muito democrática e até social, porque tanto protege magistrados como taxistas, desde que tenham um cartão de sócio e um sindicato ou associação profissional.
É assim uma espécie de jogo das cadeiras, mas em o que número de jogadores é igual ao número de cadeiras e os jogadores são sempre os mesmos.
E o que é perverso nisto, é que aqueles que estão de fora – por exemplo vocês, meus filhos – são incentivados por nós geração dominante, desde miúdos, não a jogar outro jogo, mas a descobrir a fórmula de conseguir, um dia, fazer parte de um qualquer interesse corporativo.
Era desta herança, filhos, que eu vos queria falar!
E não se deixem enganar, porque isto não nem nada a ver com ideologia.
Terão a possibilidade de conhecer, na História, conceituadas e ideologicamente distintas personalidades corporativistas como o António Oliveira (Salazar) e alguns dos grandes e revolucionários sindicalistas das últimas gerações.
Tinham um cartão de sócio, pertenciam a um clube e, filha, era como o Benfica, do clube até morrer.
Portanto, a ambição de vida é pertencer a um clube, receber um alvará de herança, e conduzir um táxi com um milhão de quilômetros até que ele se desfaça (mas em segurança porque o condutor tem carta do grupo 2) e não permitir modernices de internet, marcação antecipada, carros novos, motoristas cuidadosos e bem vestidos, pagamento com contactless, e inquérito de satisfação do cliente no fim da corrida
Ser sócio do Benfica, não tem nada de errado e eu, meus filhos, e eu não tenho muito jeito nem feitio para vos escrever cartas lamechas, mas hoje fiquei verdadeiramente irritado por ler no jornal que afinal eu sou um sério risco para o público em geral, porque não tenho carta do grupo 2 e não tenho custos fixos com o alvará e o nosso carro tem menos de um milhão de quilômetros.
Fiquei tão desorientado que fiquei sem saber se vos vou poder continuar a levar à escola no nosso automóvel, limpo uma vez por semana, e naquela condução suave e paciente de pai.
E depois há outra coisa. Vocês que vão ser uns tesos, vão correr sérios riscos de serem presos pelos agentes do Estado Corporativo, quando decidirem partilhar automóveis e despesas, sempre que quiserem viajar porque, na altura de fazerem as contas, ninguém vai ter um recibo para passar.
E eu não quero que vocês sejam presos pelos agentes do Estado Corporativo.
É que são os fortes e os medíocres que, mais tarde ou mais cedo, tomam conta dos interesses corporativos, porque basicamente são estes que mais ganharam com o cartão de sócio e que mais perdem, se o perderem
E esses, meus filhos, esses são maus, e podem prender as pessoas sem motivo!
Isto, não aprenderam vocês na História, nem em casa. Porque o pai sempre vos diz que não basta ter sorte ou ser bom uma vez, é preciso combater sempre para ser melhor e diferente, estar aberto à inovação e à mudança…
Mas isso não impede que esta é uma herança que eu vos vou deixar, mas acredito que, como vocês são péssimos com ideologia e política em geral, mas são ótimos a piratear tudo o que representa direitos de autor, o corporativismo não passará do século XXI
Gastem o dinheiro que eu vos deixar para aniquilá-lo!
Isto não tem nada a ver com ideologia, mas sim com o vosso futuro
Beijos
D

P.S. Filho, aquele teu colega belga que contratou por 20 libras na Internet um lugar num automóvel que saía de Londres na quinta feira para Bruxelas e combinou encontrar-se com o condutor ( e esperemos que dono do carro) na estação ferroviária, chegou bem ao destino?






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