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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Punta Arenas - O outro lado do canal


Punta Arenas é o testemunho de que o Chile é o dono do Estreito da Magalhães.
Sem possibilidade de disputa.

Eles fizeram questão que esta fosse uma sinóptica lição de História.
Na fronteira do estreito e do país!
Os factos revelam a apetência pelo Sul, a vista do morro Norte desvenda uma ambição traçada em avenidas largas e desenhos geométricos.

Uma colonização precoce, famílias poderosas, casamentos de conveniência, fortunas colossais feitas com o ouro branco – a lã dos carneiros do Sul!
O português José Nogueira que não resistiu ao apelo do estreito, enriqueceu e casou com a Diva, Sara Braun
O regresso do espírito português ao estreito…o fascínio pelas terras frias, encontro de mares e de trajectos!
Sara Braun, a benfeitora, adoptou a dois terços da Terra do Fogo como se fosse riqueza de berço, construiu o seu palácio para a posteridade e ofereceu a si própria a porta para a eternidade.

O cemitério de Punta Arenas é a prova da riqueza vivida: alamedas sumptuosas, ultimas residências de pedra trabalhada.

Ironia que este seja o museu vivo do espírito de conquista do inóspito!
Irónico e um pouco desconfortável.
Mas também a diversidade cultural de um povo de imigrantes, que aqui descobriam o fim da linha.
Na cidade e no estreito!
La Luna é um momento zen na fronteira do estreito.

Mensagens de postais ilustrados, dos viajantes que gostam de deixar troféus e bilhetes em todos os confins, ou onde lhes seja permitido.
Uma eslava almoçava sozinha junto à janela
Almoçava, escrevia bilhetes, e complicava as referências geográficas.
Ela não era daqui.
- Todos nós temos amigos com apelidos croatas, croatas imigrantes que fugiam do conflito dos Balcãs, com data 1ª guerra mundial
Afinal era de cá
Pareceu-me que não falava dialecto local
Viajante à procura das origens?
A lua nascia sob a forma de candelabros, posters azuis e amarelos.
O restaurante enchia-se, perdia o silêncio mas conservava o teor multicultural.
A eslava esperava o par!
A língua espanhola traiu a nossa dúvida.
Croata – concluiria algumas horas mais tarde
O único povo imigrante com direito a monumento na cidade.
Sobreviveu a Tito – o Marechal – a uma guerra civil e a muitos anos de não afirmação da diferença entre expressões de nacionalismo balcânico.

Mas…
O ouro branco que se transformou simplesmente em lã
O canal do Panamá que destruiu as rotas épicas e a aventura
A vitória da engenharia sobre os pântanos
Os indígenas absolutamente extintos
Hoje…
A cidade vive da distância, da inevitabilidade de ser periférico,
Um destino que não é fado, é o outro lado do óbvio!
É uma reputação que perpetua o fascínio das rotas quase incólumes, o dom da natureza e do desafio à coragem humana…
Também é possível viver assim!

Quando partimos para Norte, recordo-me do símbolo do Sol Nascente, atracado no estreito, atrás do Via Australis.
E entendi porque a baleia solitária da madrugada anterior, se manteve tão à distância…não teve tempo de verificar as cores da bandeira!
Boa sorte, mamífero (quem tem coragem de lhe chamar selvagem?), porque os predadores andam por perto!
E a Patagónia desvanece-se a Sul, no horizonte azul e frio
Paragens do outro mundo!