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domingo, 6 de agosto de 2017

El Badi



O velho permanecia imóvel, num primeiro olhar teria jurado que era um imóvel do tipo felino que guardava os tesouros mais preciosos da dinastia dos Saadian.
Árabes e terra de berberes.
Num segundo olhar, o imóvel era de indolência, afinal de contas quem se atreveria percorrer as centenas de metros de um Sol que cuspia fogo na vertical, de enfado quando alguém se atrevia, afinal de contas eram apenas destroços impossíveis de contextualizar.
Acima de tudo era um imóvel de desconforto provocado pelo seu volume desproporcional ao despojo deste lugar, da sua cadeira de funcionário da inutilidade do seu cargo que se resumia a repetir o óbvio para todos os escassos visitantes que se aventuravam neste lugar, no photo, tão inútil o aviso quanto o esboço de preocupação que, na maioria dos casos, se resumia a um trejeito.
El Badi foi o momento supremo do mais inspirador desta dinastia árabe em terras berberes.
Al Mansour, um monarca que quase pareceu capaz de fazer renascer os impérios berberes.
Construído com o sangue e os despojos de Alcácer-Quibir este palácio transformou as mil e uma noites numa lenda terrena.
Impossível de imaginar o luxo dos mármores, os jardins luxuriantes, a água que corria do Atlas, a não ser através de uma reconstituição tridimensional, que a falta de escuridão da sala de projeção não deixava brilhar.
Desmontado como um automóvel usado, à procura das melhores peças sobresselentes pelas duas gerações seguintes que redistribuíram os luxos por inúmeros palácios e santuários, longe de Marraquexe, nas novas capitais imperiais do Norte.
Em apenas duas gerações e mais quatrocentos anos de esquecimento da grande cidade berbere.
O velho continuava a respirar sincopadamente, incomodado pela minha presença prolongada no seu raio de visão, albergava-me do Sol e esperava pelas pequenas, não te imaginava descendente desta ruína em avançado estado de decomposição.
Pensava apenas no que teria levado, uma civilização tão antiga e preponderante, a desventrar de forma tão metódica as suas ricas heranças.
Pensei em perguntar ao velho, mas ele já não estava em condições de me ouvir, agora envolto num imenso e silencioso espasmo quando uma jovem de tez árabe fez uma entrada triunfal neste desolado núcleo museológico, vestida com uma enormes floridas e transparentes calças de Ali-baba que não escondiam uma ousada lingerie de fio dental e duas nádegas salientes e bamboleantes.
Pensei em voz alta que as dinastias árabes do Noroeste de África conformaram-se com a expansão para Sul e lançaram, do ancoradouro Sul do mar mediterrânico, a corda ao mar, o laço histórico que, num dado momento da História, parecia destinado a unir as civilizações em torno da Antiguidade Clássica e de um Deus comum.
Mas o velho não me ouviu, abanava a cabeça, vidrado de uma impotência quase raivosa, até porque ele era velho e estava gordo, e ela não.
À saída do El Badi, de volta ao presente trepidante, levantei os olhos com um ar interrogativo para uma loja de esquina, forrada de especiarias e o jovem bem vestido que a guardava (a loja ou a esquina, fiquei por saber) estende o braço esquerdo para as especiarias e o direito para as ruínas, El Badi c’est par la, sim, eu não sei é porque está tão decrépito (pensei apenas), mas o jovem adivinhou,
 “Je ne suis pas un guide, j’ai mon propre magasin”