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segunda-feira, 5 de setembro de 2016

As vozes do destino


“É o destino que transformou a vida dela, é o destino”
As vozes delas ecoavam, para lá da entrada da igreja matriz.
Coberta por um manto, cor de vinho tinto decantado, marcado por uma cruz de um dourado tão intenso que parecia refletir o Sol tórrido das tardes do Alentejo.
E por detrás do manto, as vozes.
Cansadas, encardidas por uma idade que se adivinhava avançada, soavam a vozes cobertas de negro, protegidas do calor intenso pela escuridão do templo, e que afugentam os espíritos maus do passado com o exorcismo das vidas dos outros, daquelas a quem as velhas carpideiras apelidavam de destino.
Contemplando, desolado, a cruz que pendia sobre a aldeia caiada de branco e de portadas escuras, fechadas e desertas, recolhi-me debaixo da ombreira gótica, refugiando-me na única sombra que pintava a paisagem.
Amarela e castanha, coberta por horizontes circulares que se assemelhavam a fundos de garrafa que nos faziam tremer a perspetiva.
E as vozes não despegavam a ironia do destino.
E a cruz castanha, que lutava para contrastar na paisagem, não tinha o efeito pretendido, o de libertar a paisagem e de absorver os sacrifícios dos Homens.
A minha sombra na ombreira da porta era a única ponte entre as vozes por detrás do manto escuro, e a cruz que ardia sobre a aldeia de uma vivalma recolhida.
O deserto da Galileia e o silêncio da morte de Cristo.
“Para lá de onde Jesus bateu as botas”
E preferi morrer de sede e de Sol, do que me transformar em destino.
E não entrei.
Na adega velha, a voz dos homens confundia-se com os lamentos do canto alentejano, no fresco das adegas de pedra, sentados ao longo de um banco comprido, de uma madeira gasta e salpicada de manchas, cor de vinho tinto.
Como o manto da porta da igreja
“Lá em Serpa, os atos de bravura eram recompensados com medalhas, medalhas de vinho tinto”.
Como ali.
O velho de testa larga e de pelos que cresciam para além da barba, cantava sem intervalos
A cruz, essa pesava sobre as costas curvadas dos homens que entravam e saíam entre cantos à desgarrada e copos de tinto que se entornavam do barril, para eles, e para todos os que por ali passavam.
Uma aldeia inteira que cambaleava entre as pipas de carvalho, o balcão da adega e o chão de cimento.
Afinal havia intervalos, marcados pelo fumo expirado sem círculos, do charuto do velho corsário, que trocava a pala no olho, por dois olhos pequeninos e intermitentes e o chapéu em bico por uma careca reluzente, cercada de irregulares pelos brancos.
O patrão, tão indiscutível quanto a semelhança entre ele e o quadro pintado, pendurado na parede branca e frontal, orgulhosamente do lado direito de cabeça de touro e cercada de pequenas gravuras, pratos de cerâmica antiga e tantos outros objetos de uma memória muito antiga.
Lá atrás, nas salas de jantar, resguardavam-se os forasteiros que não sabiam se deviam rir, aplaudir, chorar ou cambalear como os locais
O canto despertava as lembranças, as lembranças despertavam as saudades, as saudades despertavam os lamentos.
“E hoje à tarde é o funeral do Ti Manel, oitenta e um anos”
“Menina, é melhor não entrar, está lá dentro um funeral”

Sim, o que diriam elas, se tu lá entrasses.